NADA FICA SEM RESPOSTA



Elisa Masselli

Sinopse:

"Conta a histria de Mrcia, uma alta executiva que sempre conseguiu tudo o
que quis, no se importando com os meios usados nem com as pessoas que 
foram deixadas pelo caminho, entre elas sua me, pela qual sentia vergonha 
e averso indescritvel. 

Mrcia usou de toda artimanha para ter o que julgava ser seu por direito, at 
se envolver com foras desconhecidas. 

Essas foras podem nos ensinar que existe uma Lei Maior que nos 
comanda. 

E, apesar de todas as dvidas, saberemos que Nada fica sem resposta." 

#
PREFCIO 

"Queridos leitores. 
Vrias pessoas me escrevem, com vrias dvidas acerca de muitos 
assuntos. Embora procure responder a todas, julguei que o melhor meio de 
no deixar ningum sem resposta seria responder atravs do prprio livro. 
Dentre as questes enviadas, duas destacam-se: "Voc tem provas de que 
suas histrias so verdadeiras?" e "Quando voc escreve, concentra-se e 
fica inconsciente? Pois bem, vou tentar explicar. 
Primeiro no sei se as histrias so verdadeiras. Somente sei que elas me 
chegam de uma maneira interessante. Na maioria das vezes, quando 
acordo, pela manh, tenho um pedao delas, por isso sei o que you escrever 
naquele dia. Isso acontece por vrios dias. s vezes, fico dias, semanas e 
at meses sem escrever. At que, novamente, em uma manh, o resto da 
histria volta. Isso vai acontecendo at o fim dela. No primeiro livro, a falta de 
continuao da histria me preocupava, mas, com o passar do tempo, fui me 
acostumando e agora entendo e no fico mais ansiosa. 
Depois de escrever nove livros e com eles aprender muito, compreendi que 
todas as religies so boas. Cada um permanece naquela em que se sente 
melhor, pois, na verdade, estejamos em que religio estivermos, estaremos 
sempre sujeitos  Lei maior, entre elas a do livre-arbtrio e a de ao e 
reao. Eu escolhi o Kardecismo por encontrar nele as minhas respostas. O 
espiritismo e os mdiuns, hoje, no precisam mais apresentar fatos 
espetaculares para serem respeitados. A prpria Doutrina j  um 
"espetculo". 
Nela aprendi que somos responsveis por todos os nossos atos, que nunca 
estamos ss, que teremos sempre a oportunidade de resgatarmos erros 
cometidos e cumprirmos a nossa misso, mas, que para isso, estaremos 
sujeitos a Lei de ao e reao. Aprendi que o esprito  livre e, por isso, no 
pode e nem deve se sujeitar a nada que o agrida. " 
"No fico inconsciente. Sobre isso j comentei no livro A vida  feita de 
escolhas". Seria mais fcil, para mim, fazer uma espcie de mistrio e dizer 

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que fico inconsciente, mas no seria a verdade. Simplesmente sento e 
escrevo. 
Algumas pessoas sabem que no tenho educao acadmica, cursei 
somente at o quarto ano primrio, portanto sou consciente de que jamais 
poderia escrever histrias como estas que escrevo. No sei se quem me 
intui essas histrias  um mentor, dois ou mais, no sei, mas agradeo a ele 
ou a eles do fundo do meu corao pelos ensinamentos que me tm 
passado e por fazerem de mim um instrumento divulgador dessa sabedoria. 
Muitas pessoas me escreveram para me parabenizar e dizer o quanto as 
minhas histrias as ajudaram. Isso me causa uma felicidade imensa e s 
posso dizer que essas narrativas tambm me ajudaram muito. Com as 
histrias mudei meu comportamento. Estou mais preocupada com a Lei do 
Livre-arbtrio e a da ao e reao. Embora, como todas as pessoas, ainda 
com meus erros e acertos, estou procurando fazer o melhor possvel. 
Espero ter esclarecido algumas dvidas. 
S me resta agradecer a Deus, por esta fase da minha vida, e aos meus 
leitores, por gostarem das histrias." 

Um abrao, 

Elisa Masselli. 

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Sumrio 

Relembrando o passado 
Carter suspeito 
Foras desconhecidas 
Direito  justia 
A fora do amor 
Orgulho ferido 
Uma famlia feliz 
Oportunidade de repensar 
Tristeza e aceitao 
Resultado do trabalho 
Desculpa para o suicdio 
Conhecendo a espiritualidade 
O encontro do amor 
A ajuda sempre vem 
A festa 
Oportunidade de perdo 
A caminho do fim 
O filme 
A verdade sempre aparece 
A justia da lei 
A reao de Farias 
Perdidos no vale 
A sentena de Farias 
Eplogo 

#
Relembrando o passado 

"Mrcia entrou na sala de escritrio com o corao batendo descompassado. 
Estava feliz: havia sido promovida mais uma vez. Olhou  sua volta e, 
sorrindo, pensou: 
Quantas vezes sonhei com este dia... 
Sentou-se confortavelmente em uma enorme cadeira em frente a uma 
grande mesa e continuou pensando: 
Sempre soube que este dia chegaria, mas, mesmo assim, no sei explicar a 
emoo que estou sentindo. S de pensar que agora, do primeiro escalo da 
empresa, estou ocupando o terceiro, fico muito feliz, mas ainda no 
totalmente. S ficarei mesmo muito feliz quando estiver ocupando o primeiro. 
Desde muito nova sonhei com uma vida profissional triunfante. Lutei e 
estudei muito para isso. Domino quatro idiomas perfeitamente. Sei que 
algumas vezes no tive escrpulos para afastar quem estivesse em meu 
caminho. Sempre fiz e farei qualquer coisa para alcanar meu objetivo. 
Diante daquela mesa, sentindo-se vitoriosa, comeou a relembrar seu 
passado. 
Meu pai era operrio em uma tecelagem. Ganhava o suficiente para comprar 
alimentos e pagar o aluguel. Meu irmo, seis anos mais novo, vivia como eu, 
sem brinquedos ou passeios, muito menos, roupas novas. As roupas que 
usvamos eram doadas  minha me por patroas para as quais, todos os 
dias da semana, fazia faxina. 
Levantou-se e caminhou at uma janela de onde tinha uma bela vista da 
cidade. Abriu as cortinas, olhou para fora e a luz do sol entrou, iluminando o 
ambiente. Voltou-se e tornou a contemplar aquela sala que por muito tempo 
fora sua meta. 
Finalmente, estou nesta sala e esta mesa agora  minha. No foi difcil 
chegar at aqui. Alis, como tudo em minha vida, bastou apenas eu desejar 
algo para que acontecesse. 
Tornou a ver-se novamente criana e imediatamente se lembrou de como 
era sua vida: 

#
Minha me levantava muito cedo, preparava o almoo que eu deveria 
aquecer. Eu e meu irmo comamos e voltvamos a brincar. " 
"Todos os dias, ela saa s seis da manh e voltava l pelas sete da noite. 
Mesmo assim, o que ela e meu pai ganhavam no era suficiente para dar 
luxo  famlia. Enquanto criana, no entendia bem o que significava dinheiro 
ou posio, brincava com outras crianas que tinham a mesma vida de 
pobreza. Tudo era normal em minha vida, mas,  medida que fui crescendo, 
e j na escola, percebi que havia diferenas. Algumas das crianas vinham 
trazidas por seus pais, em carros bonitos. Suas roupas eram perfeitas; as 
minhas, por serem doadas, eram grandes ou apertadas. Quantas vezes 
chorei para no ir  escola por no ter roupas novas e bonitas. Nessas horas 
minha me sempre dizia: 

 Minha filha, no se preocupe com isso. So apenas roupas. Voc no 
vale pelo que veste, mas por quem . Estude o mais que puder e, assim, 
poder um dia ter tudo que deseja. Procure sempre ser boa, que Deus lhe 
dar tudo de que precisar para ser feliz. 
Eu no entendia aquilo e perguntava: 
 Como  senhora pode dizer que, se eu for boa, Deus me dar tudo, 
mame? Ser que existe mesmo um Deus? Que Ele d tudo que a gente 
precisa? A senhora  uma pessoa que vive ajudando todo mundo, mas mora 
aqui neste lugar e tem de trabalhar muito. Se Deus realmente existe, no lhe 
deu tudo que precisava para ser feliz. 
 Como no? Tenho tudo de que preciso para ser feliz. Ele me deu um 
companheiro a quem amo e por quem sou amada; deu-me voc e seu irmo, 
que completam minha felicidade e so as coisas mais preciosas que algum 
poderia querer. Ele me deu sade e tambm trabalho, para dele tirar nosso 
sustento. De que mais preciso? O que voc deve fazer  estudar e ter uma 
boa profisso." 
"Eu no entendia muito bem o que ela dizia, mas gostava muito de estudar. 
Estudava muito e aprendia com facilidade, por isso, era sempre a primeira da 
classe. Recebia muitos elogios e medalhas. Aquilo me tornava superior aos 
outros alunos. Sentia-me feliz, porque, mesmo no tendo dinheiro nem 
roupas novas, eu era notada por minha inteligncia. Sempre que chegava a 
casa trazendo no peito uma medalha, minha me, orgulhosa, me abraava e 
dizia: 
#
 Estou feliz por voc. Sei que, se continuar assim, ter da vida tudo o que 
sonhar e desejar. 
Sempre que me dizia essas coisas ou me abraava, eu ficava preocupada e 
pensava: no sei por que no consigo acreditar em suas palavras. No sei 
por que, quando ouo minhas amigas dizerem que gostam muito de suas 
mes, eu no consigo sentir esse amor. S sei de uma coisa: detesto esta 
pobreza, esta casa. Principalmente, esta me! Quando crescer, vou fugir 
para bem longe dela e de tudo aqui. 
Quando completei doze anos, j era uma mocinha. A foi que, realmente, 
percebi a diferena entre mim e algumas de minhas amigas: elas no me 
convidavam para sair ou ao menos ir at suas casas. Sabiam que eu no 
tinha boas roupas para acompanh-las. Aos poucos, fui me isolando e 
odiando todas elas. Pensava: 
Um dia serei muito rica. Terei todas as roupas que quiser e irei morar em um 
lindo lugar. 
Uma noite, estvamos em casa esperando meu pai chegar do trabalho para 
o jantar. Ele chegava todos os dias pontualmente s oito horas. Minha me 
chegava antes. Enquanto ela preparava o jantar, eu e meu irmo tomvamos 
banho e fazamos  lio de casa. Naquela noite, j eram nove horas e ele 
no havia chegado. Notei que minha me comeara a ficar nervosa: 
 Deve ter acontecido algo com ele... no costuma chegar fora de seu 
horrio. 
Eu e meu irmo tambm comeamos a ficar preocupados. Ela nos fez jantar 
e nos colocou na cama. " 
"Por sermos crianas e aps termos passado o dia inteiro brincando, logo 
adormecemos. No sei a que horas acordei ouvindo minha me falar com 
algum e, em seguida, comear a chorar. Levantei-me e fui ver o que estava 
acontecendo. Cheguei ao momento em que um policial dizia: 
 Sinto muito, mas ele no resistiu. O motorista fugiu sem prestar socorro, 
mas ns o encontraremos. 
Minha me, chorando, desesperada, perguntou: 
 Onde ele est? Preciso v-lo! 
 Est no Instituto Mdico Legal. Posso lev-la at l. A senhora precisar 
reconhecer o corpo. 
 Obrigada, quero sim. S vou ver minhas crianas, pedir para minha 
#
vizinha ficar com elas e irei em seguida. 
Ela estava indo para nosso quarto quando me viu ali parada. Ajoelhou-se e 
abraou-me, dizendo: 


 Mrcia, tenho de sair. Papai sofreu um acidente. Vou pedir para Cida ficar 
com vocs. Volte a dormir. 
Sem entender o que estava acontecendo, perguntei: 
 Por que a senhora est chorando? 
 S estou assustada, no se preocupe. Volte a dormir. Amanh, explicarei 
tudo. 
Eu estava com sono. Achei melhor seguir seu conselho e voltar para a cama. 
Pela manh, acordei com vozes que vinham da cozinha. Levantei para ver o 
que estava acontecendo. Muitas pessoas estavam com minha me, que 
chorava sem parar e dizia: 
 Meu Deus! Sei que tenho de me conformar, s no sei como farei para 
viver sem ele. Que ser de todos ns? Minhas crianas so to pequenas... 
O que vou fazer? 
Fiquei assustada ao ouvir aquilo e com todo aquele movimento de pessoas, 
algumas chorando tambm. Queria ir at minha me, mas no conseguia. 
No sabia o que havia acontecido, mas sentia ser algo muito grave. Nunca 
tinha ouvido falar em morte, muito menos dentro de minha famlia. Comecei 
a chorar. Quando minha me percebeu minha presena, imediatamente 
enxugou as lgrimas e abraou-me, dizendo: 
 Sei que est assustada com tudo isso, Mrcia. Precisa saber que papai 
partiu e nunca mais vai voltar. Estamos os trs sozinhos. 
Chorando por v-la chorar, perguntei: 
 Para onde ele foi mame?" 
" Foi para o cu, para junto de Deus. 
 Deus? Que Deus? Aquele que levou meu pai? No acredito em Deus, 
nem na senhora. Quero ver meu pai. 
 No fale assim, minha filha. Deus sempre sabe o que faz. Seu pai vir 
logo mais aqui para casa e poder lhe dar o ltimo adeus. 
Sa dali e voltei para o meu quarto. Deitei-me na cama e parei de chorar. 
Sentia muito dio de tudo e de todos. Meu pai nunca fora de falar muito. 
Fazia horas extras todos os dias para complementar o salrio, vivia sempre 
cansado e preocupado. Embora no o conhecesse muito bem e tambm no 
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gostasse dele, sentia que o preferia  minha me. Ela, sim, eu detestava. 
Algumas horas depois, ele chegou. Ao v-lo naquele caixo, cercado por 
flores, meu corao se apertou. S a percebi que havia perdido algum que 
fora um protetor, algum que realmente se preocupava com meu bem-estar. 
Diante do caixo, meu dio por Deus aumentou. Falei baixinho: 

 Deus, est me ouvindo? No sei se existe, mas se existir deve saber que 
o odeio e que nunca, nunca em minha vida vou lhe fazer um pedido, 
qualquer que seja. 
Muitas pessoas vieram. Minha me, embora no tivesse muito dinheiro, 
sempre ajudava as pessoas que tinham menos. Passava os fins de semana 
costurando e reformando roupas para dar aos pobres. Eu a odiava mais 
ainda por isso. Acreditava que, em vez de ficar ali fazendo aquilo, deveria 
preocupar-se em comprar roupas novas para seus filhos e levar-nos para 
passear. Fiquei alguns minutos diante do caixo, depois fui para o quarto e 
no sa mais, nem mesmo para ir at o cemitrio. Mais tarde, minha me 
voltou acompanhada por vrias amigas. Ficaram um bom tempo 
conversando. Aps sarem, ela bateu  porta do quarto. No respondi. Ela 
abriu a porta e entrou. Eu estava deitada, com o rosto embaixo das cobertas. 
Ela descobriu meu rosto e passou a mo por meus cabelos, dizendo: 
 Mrcia, minha filha, posso imaginar como est se sentindo. Agora, est 
tudo terminado, pode sair." 
" No quero sair. Vou ficar aqui trancada para sempre. No sabe o que 
sinto. No quero falar nunca mais com a senhora ou com qualquer outra 
pessoa. 
Ela no insistiu. Beijou minha testa e voltou para a cozinha. Estava triste, 
mas era uma mulher muito forte. Embora eu no gostasse dela, nunca deixei 
de reconhecer essa virtude. 
Dois dias depois, ela voltou a trabalhar. A partir de ento, viveramos 
somente de seu salrio; portanto, as coisas se tornariam muito mais difceis. 
Aos poucos fui ficando cansada do quarto e comecei a sair. Ela no dizia 
nada, apenas me olhava com os olhos tristes. Quando a vi aps muitos dias, 
percebi que estava muito abatida e que seus olhos estavam vermelhos de 
chorar, mas nem assim consegui acreditar que estivesse sofrendo. Eu 
mesma no entendia por qu. Ela sempre fora uma me boa e dedicada, 
mas eu no a suportava, achava que ela mentia constantemente. At seus 
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carinhos me pareciam mentirosos e fingidos. 
Mrcia, naquele momento, sabendo que estava conseguindo tudo com o que 
sonhara, sorriu ao lembrar-se de seu passado. 
O interfone tocou. 
Ela voltou  realidade. Balanou a cabea, como querendo afastar aqueles 
pensamentos. Atendeu: 


 Dona Mrcia, o doutor Fernando pede sua presena. 
 Est bem. Irei em seguida. Desligou o aparelho e continuou pensando: 
No h motivo para pensar em tudo que se passou em minha vida. Hoje, sou 
uma mulher realizada profissionalmente. Tenho um timo salrio, com o qual 
posso comprar tudo com o que sempre sonhei e muito mais. Nunca sofri 
para conseguir nada. Tudo foi sempre muito fcil em minha vida. As coisas 
foram acontecendo. Quando assim no foi, corri atrs e fiz acontecer. No 
importa o que tive de fazer, ou quantas pessoas tive de afastar para chegar 
at aqui. O importante  que cheguei onde estou e irei mais longe ainda." 
"Levantou-se, passou a mo pelos cabelos, arrumou a saia. Aprendeu com 
dona Leonor a vestir-se muito bem. Sabia como uma executiva devia vestir-
se e comportar-se. Encaminhou-se  sala do doutor Fernando, seu superior, 
pensando: 
No tenho motivos para no gostar dele, mas est em meu caminho. Ser o 
prximo que terei de afastar. Embora me trate muito bem, no posso confiar. 
Preciso estar sempre alerta para no ser enganada. 
Entrou na sala. Ele estava sentado em uma cadeira atrs da mesa. 
Ela, sorrindo, falou: 
 Bom-dia, doutor Fernando, est precisando de meus servios? 
 No, s queria cumpriment-la por sua promoo. Quero dizer-lhe que 
estou feliz, pois sei que juntos faremos um bom trabalho. Confio em voc 
inteiramente. 
 Obrigada, senhor. Pode ter certeza de que farei sempre o melhor para a 
empresa. E estarei a seu dispor para tudo de que precisar. Sei que, com 
essa promoo, minhas obrigaes aumentaro, mas no me preocupo. O 
senhor me conhece e sabe muito bem que no tenho medo do trabalho. 
Estarei aqui sempre que for necessrio. 
 Tem mostrado, durante todos estes anos, que  competente e 
responsvel, por isso no me preocupo.  tarde, teremos uma reunio com a 
#
diretoria. Precisamos mostrar a eles os avanos de nosso departamento. 
Poderia providenciar os documentos necessrios? 

 Pode ficar tranqilo. Na hora estar tudo pronto. 
Mrcia saiu da sala com um sorriso irnico no rosto e pensando: Terei de 
imaginar um meio de afast-lo. Ainda no sei o que farei, nem de que 
maneira. Mas, com certeza, como das outras vezes, pensarei em algo. 
Voltou para sua sala, sentou-se e comeou a olhar alguns papis. Sabia ser 
importante ter tudo sob seu controle. No confiando em ningum, no 
delegava poderes e por isso trabalhava muito. Era importante ter todos os 
documentos prontos na hora da reunio. 
O interfone tocou. Ela atendeu: 
 Dona Mrcia,  o senhor Osvaldo." 
" Est bem, pode passar a ligao. Al. 
 Mrcia. Como est? 
 Com muito trabalho, mas estou bem. Vamos nos encontrar para o 
almoo? 
 No, por isso estou ligando. Tenho um compromisso. Conversaremos  
noite em sua casa. 
 No sei a que horas vou sair daqui, mas volte a ligar  tarde para 
combinarmos. 
 Est bem. Tenho algo importante para lhe falar. 
 O que ? Parece preocupado. 
 Falaremos  noite. Tomei uma deciso e precisamos ter uma conversa 
sria. 
 Deciso? Que deciso? 
 Falaremos  noite. O assunto  muito srio mesmo. No pode ser 
discutido por telefone. Teremos de conversar pessoalmente. 
 Est bem, vou esperar at a noite -conformou-se Mrcia, desligando o 
telefone em seguida. 
Ela sentiu que algo de grave estava se passando. Preocupada, pensou: 
A voz dele estava estranha e no me tratou como de costume. Senti at 
certa frieza. Que ter acontecido? Mas agora no posso desviar minha 
ateno, tenho de preparar os documentos para a reunio. 
Voltou a seus afazeres. Como sempre, o trabalho era mais importante que 
tudo em sua vida. Ele lhe proporcionou tudo o que possua. Alm do mais, 
#
ela sabia que s por meio dele poderia continuar levando a mesma vida de 
agora. O simples pensamento de que pudesse ficar sem emprego, o que 
resultaria em voltar a passar por toda a misria que j vivenciara, trazia-lhe 
momentos de desespero. 
Preparou os documentos e na hora certa estava na sala do doutor Fernando. 
Antevira todas as perguntas que poderiam ser feitas e para cada uma teve 
uma resposta. 
Eram quase seis horas quando voltou para sua sala. 
A reunio, como sempre, foi muito boa. Consegui, mais uma vez, 
impressionar a todos. Foi assim que cresci dentro da empresa, mostrando 
meu trabalho e minha capacidade. 
Sentada novamente  sua mesa, tornou a sentir aquele bem estar de quem 
havia triunfado. Voltou a lembrar-se de sua infncia." 
"Mais ou menos dois meses aps a morte de me pai, minha me chegou 
muito alegre e falando: 


 Voc conhece dona Leonor? Ela est precisando de algum para auxilila. 
O apartamento  pequeno, ser mais para lhe fazer companhia. Falei com 
ela a seu respeito. Pediu que eu a levasse at l. 
Ao ouvir aquilo, senti medo. Embora no gostasse de viver naquela casa e 
com minha me, era o nico lugar que conhecia e, apesar de tudo, ela era 
minha me. Respondi: 
 Mame... no quero ir... tenho medo... 
 No precisa ter medo, Mrcia. Ser muito bom ir morar com ela. Voc 
sabe da dificuldade que tenho para aliment-la e vesti-la bem. Ela me disse 
que, se gostar de voc, poder ajud-la com os estudos, e isso no momento 
 o mais importante. Sabe que me ser muito difcil ficar longe de voc, mas 
preciso pensar em seu futuro. Morando comigo, no conseguir nada. Alm 
do mais, voc poder nos visitar sempre que quiser. 
Aquelas palavras me acalmaram, embora eu no estivesse entendendo 
muito bem tudo o que ela dizia. 
 Est bem, mame, eu vou. S no quero que minhas amigas saibam que 
sou uma domstica. 
 No deveria se preocupar com isso. As verdadeiras amizades no se 
importam com as roupas ou com o trabalho que se tm. Alm do mais, ser 
domstica no  vergonha.  um trabalho como outro qualquer. Se elas 
#
realmente gostam de voc, continuaro gostando. Mas, se preferir se vai 
sentir-se melhor, elas no precisam saber. Quando perguntarem, posso dizer 
que foi morar com uma tia. 
Ao ouvi-la, fiquei pensando: 
No posso dizer a ela que na verdade no tenho amigas. So diferentes, no 
querem minha companhia. Mas no faz mal... um dia terei muito mais que 
elas. 
Embora assustada, sabia que, indo embora, poderia comer bem e, 
principalmente, ficar longe de minha me. Era o que mais queria, no a 
suportava. 


 Eu vou. S que, se no gostar, posso voltar?" 
" Claro que pode. Esta  sua casa, e eu sou sua me. Estarei sempre aqui 
e pronta para acolh-la a qualquer momento. S estou permitindo que v 
porque sei que ser melhor para seu futuro, mas sou e continuarei sendo 
para sempre sua me. Eu a amo muito e continuarei amando. 
Eu ouvia minha me dizer aquelas coisas, mas em meu corao nada sentia. 
Ela nada representava para mim. Era como se fosse uma completa estranha. 
Pensando na boa vida que poderia ter, resolvi ir. 
 Est bem, mame, eu vou, mas estou com muito medo. 
 No precisa ter medo, Mrcia. Vai ver como ali ser muito feliz. 
No dia seguinte, ela me acordou bem cedo: 
 Hoje  o dia em que trabalho na casa de dona Leonor. Combinei com ela 
que levaria voc para que pudesse te conhecer. Arrumei suas roupas, esto 
a nessa sacola. Sinto que hoje ser o incio de uma nova vida para voc. 
Olhei para o lado em que ela apontava. Em uma sacola de feira, estavam 
todas as minhas roupas. Alm de serem poucas, haviam sido usadas por 
outras pessoas. Naquele momento, senti vontade de conhecer dona Leonor, 
porque nada poderia ser pior que aquela vida que eu levava. Troquei de 
roupa e arrumei-me da melhor maneira possvel. Ao chegar ao apartamento 
de dona Leonor, fiquei encantada com o tamanho dele e com os mveis. 
Minha me dissera que no era grande, mas eu nunca tinha visto uma casa 
ou apartamento com aquelas dimenses. Seguindo minha me, chegamos a 
uma sala, ampla. Sentada em uma poltrona, estava uma mulher que parecia 
ser muito alta, com os cabelos brancos e grandes culos. Ela ficou me 
olhando por alguns minutos sem dizer nada. Eu estava com muito medo. Ela 
#
parecia ser muito brava. Abaixei minha cabea. Ela levantou meu queixo 
para poder olhar bem dentro de meus olhos." 
" Menina, voc  muito bonita, s tem de aprender uma coisa: nunca deve 
abaixar sua cabea e, principalmente, seus olhos, quando estiver com medo. 
Ao contrrio: deve olhar tudo e todos de frente. Gostei de seu modo. Vai ficar 
aqui morando comigo. Sinto que tenho muito para lhe ensinar, vai depender 
s de sua vontade de querer aprender. 
Olhei para minha me, que sorria. Voltei meu olhar para dona Leonor, que 
esperava uma resposta. 

 Quero muito aprender a ser uma moa educada. Se me ensinar, vai ver 
como sou inteligente e que aprendo logo. 
No notei expresso alguma em seu rosto. Ela apenas disse: 
 Veremos... volto a repetir que s depender de voc. 
Dona Leonor tinha perto de setenta anos. Morava sozinha. Seus filhos 
vinham visit-la muito raramente. Possuidora de incalculvel riqueza se 
recusava a ir morar com qualquer um deles. O apartamento era pequeno, 
por isso o trabalho no era pesado. Eu seria para ela uma companhia. O 
trabalho pesado, como a faxina e a lavagem de roupas, sempre foi e 
continuaria sendo feito por minha me, duas vezes por semana. A princpio, 
senti um pouco de medo da velha senhora, mas com o passar dos dias 
percebi, que apesar de suas manias, era uma pessoa muito culta, com quem 
poderia aprender muito. Fazia o possvel para que ela no tivesse motivo 
para reclamar. Fui conhecendo e atendendo a todos os seus desejos. Ela, 
por sua vez, tambm aprendeu a gostar de mim. Conversvamos muito. Ela 
falava sobre seu tempo de juventude, das festas e at dos namorados. Eu 
me encantava com tudo que ela contava e com as fotografias que mostrava. 
Por meio delas conheci belos sales de festas e pessoas muito bem 
vestidas. Conheci tambm pases de todo o mundo, por onde ela viajara. Vi 
pela primeira vez a neve em uma foto tirada em Paris, junto  torre Eiffel.  
noite, em meu quarto, sonhava com aqueles lugares e jurava que algum dia 
iria conhec-los. 
Eu havia estudado somente o primrio, dona Leonor, uma manh, me disse:" 
" Mrcia, voc j est comigo h algum tempo. Percebi que realmente  
muito inteligente e que se for ajudada poder ter um futuro brilhante. Estive 
pensando e, se quiser voc poder continuar seus estudos. 
#
Aquelas palavras me soaram como msica. Era o que eu mais queria. 
Emocionada, respondi: 

 Gosto muito de estudar. Fiquei muito triste quando no pude continuar 
meus estudos. Mas como poderei estudar? Agora estou trabalhando. 
 No se preocupe com isso. Sabe muito bem que gosto de dormir todas as 
tardes. Vamos encontrar uma escola na qual voc possa estudar exatamente 
nesse horrio. Assim, eu estarei dormindo e no precisarei de sua 
companhia. 
Fiquei muito feliz. Sabia que para ter dinheiro teria de trabalhar e ganhar 
bem, mas sabia tambm que para isso teria de estudar. Dona Leonor era a 
nica que poderia fazer com que aquele sonho se concretizasse. Ela foi  
nica pessoa, das que eu havia conhecido at ento, que me inspirara 
confiana, em quem eu sabia poder confiar. Ensinou-me tudo: boas maneiras 
 mesa, como andar, como me vestir, me deu bons livros para ler e me 
instruir. Dizia sempre: 
 Uma pessoa com educao e cultura pode se apresentar em qualquer 
lugar, que ser sempre muito bem recebida. 
Mrcia estava assim presa em suas recordaes quando o telefone tocou. 
Era Osvaldo novamente: 
 Mrcia, que bom que a encontrei. No poderei ir a seu apartamento  
noite, como combinamos. Estou tendo alguns problemas, mas assim que 
puder volto a te telefonar. 
 Que est acontecendo, Osvaldo? Voc est estranho. Durante todos 
estes anos que estamos juntos, nunca deixou de ir  minha casa em uma 
quarta-feira. No quer me dizer o que est havendo? 
 No, ainda no, mas logo mais lhe direi. Tenha uma boa noite. 
Desligou em seguida, sem dar tempo para que ela dissesse qualquer coisa. 
No estou entendendo o que est acontecendo. Pareceu que ele estava com 
muita pressa em desligar. Estou preocupada, mas preciso voltar ao meu 
trabalho. Mrcia pensou, assim que ele desligou o telefone." 
"Trabalhou o resto do dia e, quando percebeu, j eram oito horas. Guardou 
todo o material de trabalho em seu lugar, arrumou-se e saiu. Dirigiu seu carro 
sem prestar muita ateno s coisas ao seu redor. Entrou no suntuoso 
prdio em que morava. Estacionou o carro na garagem, tomou o elevador e 
foi para a cobertura. 
#
Abriu a porta. O apartamento era luxuoso. Percorreu uma imensa sala de 
visitas, que era separada da sala de jantar por uma parede cercada de 
folhagens e orqudeas, tendo ao centro incrustado nela um aqurio com 
peixes ornamentais. Sentou-se em um sof e, como fazia todos os dias, ficou 
olhando para tudo. Sorriu, pensando: 
Adoro tudo que h neste apartamento. Os mveis, a tapearia e os quadros 
foram comprados com a orientao de um decorador. Tudo  realmente de 
muito bom gosto. Daqui onde estou sentada, posso ver a porta de vidro, em 
duas folhas, que d para a piscina. L tambm mandei fazer um belo jardim, 
e a piscina  toda ladeada por plantas ornamentais. 
Levantou-se, abriu a porta de vidro e foi para fora. A noite estava clara. Dali 
podia ver quase toda a cidade. Continuou pensando: 
Sinto orgulho de tudo que consegui. Este apartamento  realmente um 
sonho. Sinto muito mais orgulho quando me lembro de onde vim. Aquela 
menina pobre de outrora hoje  rica e poderosa. 
Sentou-se em uma cadeira junto a uma pequena mesa, onde tomava 
refrigerantes quando fazia calor. Ficou l por um bom tempo, admirando tudo 

o que havia conseguido. 
Levantou-se, foi at seu quarto, que ficava no andar superior, onde havia 
mais dois dormitrios. No quarto, olhou para uma enorme cama de madeira 
macia com detalhes de ouro. A parede, pintada de um amarelo bem 
clarinho, contrastava com o preto dos mveis. Um espelho enorme, 
estrategicamente colocado, dava a impresso de que o quarto parecia maior 
do que na realidade. Entrou no banheiro e abriu a torneira para que a 
banheira enchesse. L, pensou: 
J que Osvaldo no vir, vou aproveitar para tomar um banho de imerso. 
Sempre me faz muito bem." 
"Enquanto a banheira enchia, foi at a cozinha. Antes, passou pela sala de 
jantar. A mesa estava colocada com todo o requinte. No forno, sua comida 
estava preparada, bastando apenas que ela a aquecesse. Sua empregada, 
Marluce, vinha todos os dias, mas no dormia ali. Mrcia no gostava de ter 
algum dividindo com ela aquele espao que era s seu. Olhou tudo com 
ateno para ver se nada estava fora do lugar. Sorriu, pensando: 
Como sempre, est tudo certo. Marluce sabe que sou exigente. Est comigo 
h muitos anos. No comeo, tive de ter muita pacincia para ensin-la, mas 
#
valeu a pena. Hoje ela  excelente. No consigo imaginar-me sem ela para 
cuidar da casa e de tudo aqui. 
Voltou para o banheiro. A banheira estava cheia. Colocou sais, apertou um 
boto, a gua comeou a se movimentar, formando uma espuma perfumada. 
Tirou as roupas, entrou na banheira e mergulhou na espuma. Ajeitou a 
cabea, fechou os olhos e por alguns minutos no pensou em nada, a no 
ser no bem-estar que estava sentindo. Ficou assim por um bom tempo. De 
repente, lembrou-se de Osvaldo: O que estar acontecendo com ele? Faz 
seis anos que estamos juntos e no consigo lembrar-me de uma quarta-feira 
em que ele no me tenha visitado em que no samos ou apenas ficamos 
aqui em casa nos amando. 
Esticou as pernas e levantou os braos. Em seguida ajeitou novamente a 
cabea, fechou os olhos e lembrou-se de sua promoo e do tempo em que 
morou com dona Leonor. 
Um ms aps minha mudana para sua casa, dona Leonor me pediu que 
pegasse todas as minhas roupas e as colocasse na mesma sacola em que 
eu as trouxera. Quando minha me chegou, ela disse: 

 Estava esperando sua chegada. Estou saindo com Mrcia para comprar 
algumas roupas para ela. Pode pegar esta sacola e levar com voc; sei que 
encontrar algum que poder us-las. 
Minha me me olhou sorrindo e disse:" 
" Muito obrigada por tudo que est fazendo por minha filha. Encontrarei, 
sim, quem precise destas roupas. 
Samos, e ela comprou tudo de que eu precisava. Chegamos a casa 
carregando muitos pacotes. Assim que cheguei, corri para o meu quarto  
sim, agora eu tinha um quarto s meu. Ao abrir os pacotes, no acreditava 
que tudo aquilo era meu. Finalmente tinha roupas novas! E eram todas 
minhas! 
Comecei a experimentar todas. Ia tirando e colocando uma a uma. Estava 
assim, distrada, quando minha me entrou no quarto. 
 Mrcia, estou indo embora. Vejo que est feliz: finalmente tem roupas s 
suas. Sempre te disse que, se fosse boa, Deus lhe daria tudo de que 
precisasse. 
 Que Deus? Aquele que levou meu pai embora? Aquele que permite que a 
senhora continue vivendo naquele lugar horrvel? No foi Deus quem me 
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deu. Foi dona Leonor. Ela  meu Deus. - Respondi irritada. 
Ela ficou calada, apenas me mandou um beijo com a ponta dos dedos. Eu a 
vi ir embora. Nada senti apenas um grande alvio por no a ter mais em 
minha presena. Coloquei um dos vestidos de que mais gostei e entrei na 
sala, sorrindo. Dona Leonor arregalou os olhos, fazendo de conta que 
algum muito importante estava entrando. 

 Voc est muito bonita. Tem o porte de uma princesa. Vai muito longe 
nesta vida. 
Estudei muito, fui sempre  primeira da classe, o que fez com que ela se 
orgulhasse de mim e sentisse prazer em pagar meus estudos. Formei-me no 
segundo grau com louvor e na faculdade do mesmo modo. Quando faltavam 
alguns dias para minha formatura, dona Leonor me disse: 
 O dia de sua formatura est chegando. Estou muito feliz, porque voc foi 
uma excelente aluna, alm de ter aprendido tudo que lhe ensinei. Hoje  
uma moa educada, culta e com boas maneiras. Est se formando com 
louvor. Estou muito orgulhosa. Sabe que a considero uma filha que, durante 
todos estes anos que est morando comigo, s me trouxe felicidade. 
Agradeo a Deus a oportunidade de t-la conhecido." 
"Eu no sabia o porqu, mas amava aquela velha senhora. Durante todo o 
tempo que estive a seu lado, senti nela uma segurana como nunca havia 
encontrado. Percebia que ela realmente me amava e que no me trairia 
nunca. Instintivamente me ajoelhei e beijei suas mos. 
 Ter encontrado a senhora  que foi a suprema felicidade de minha vida. 
Eu, sim, sou quem tem de lhe agradecer por toda a felicidade que me 
proporcionou. Tudo que sou hoje devo  sua bondade e ao seu amor. Estou 
feliz por estar lhe dando toda essa alegria. Obrigada por tudo. 
Nos primeiros anos de nossa convivncia, ela se mostrara severa, mas 
agora, aps tanto tempo, eu reconhecia nela uma pessoa sentimental. Ela 
levantou minha cabea, que estava em seu colo, olhou bem no fundo de 
meus olhos e disse: 
 Ns duas ganhamos com nosso encontro. Voc se tomou uma moa 
preparada para a vida; eu encontrei um motivo para continuar vivendo. Mas 
deixemos para l toda essa conversa. O que quero, mesmo,  que no dia da 
festa voc esteja bem bonita. Vamos sair e comprar um belo vestido. Estive 
pensando que sua me tambm deve estar muito orgulhosa, por isso a 
#
levaremos conosco e compraremos roupas para ela e para seu irmo. 
Aquelas palavras me atingiram como flechas. Embora minha me, durante 
todo o tempo em que estive ao lado de dona Leonor, tivesse acompanhado 
todos os meus estudos, pois continuava cuidando do servio da casa, eu no 
queria que ela fosse  minha formatura. Naquele dia, mais do que nunca, eu 
sabia que ela no tinha uma boa educao. Que era pobre e sem classe. Fiz 
com que todos os meus colegas pensassem que eu era sobrinha de dona 
Leonor e, portanto, pertencia a uma famlia muito rica. Se minha me fosse 
ao baile, eu teria de apresent-la a meus amigos, e isso eu no suportaria. 
Tive de pensar rpido e disse:" 
" J falei com ela a esse respeito. Ela disse que est muito feliz, mas no 
quer comparecer. Disse que no se sentiria bem no meio de todas aquelas 
pessoas. Disse ainda que lhe pedisse para no tocar no assunto com ela, 
porque, se assim o fizer, ela ser obrigada a ir, o que a deixaria muito infeliz. 

 Estou estranhando essa atitude dela. Se voc fosse minha filha, eu 
gostaria muito que todos soubessem disso. Mas, se acha que ela se sentir 
melhor, no tocarei no assunto. No quero constrang-la. Gosto muito dela, 
por todo o tempo de trabalho e por todo o esforo que sempre fez para 
cuidar dos filhos. 
Estou agora me vendo receber o diploma de administrao de empresas. 
Sentia que com ele todas as portas se abririam. Dona Leonor ficou muito 
feliz. Quando isso aconteceu, ela j estava com quase oitenta anos, mas 
gozava de perfeita sade. Foi  minha formatura, e, atendendo a meu 
pedido, no comentou nada com minha me. Tambm no contei, porque 
no queria que ela ou meu irmo fossem at l; no saberiam comportar-se, 
e todos que os vissem imaginariam logo que se tratava de pessoas humildes 
e sem educao. Eu decidi que, daquele dia em diante, seria outra pessoa. 
Resolvi esquecer o passado, esquecer, tambm, que um dia pertencera 
quela famlia e fora uma menina pobre. Sabia que com aquele diploma 
poderia conquistar tudo o que quisesse. Poderia ser outra pessoa e o seria. 
Alis... seria no. Sou! Minha me e meu irmo? Onde e como ser que 
esto? Nunca mais os vi ou soube deles. A ltima vez, que os encontrei foi 
no dia em que dona Leonor morreu. Relembrar isso me traz muita tristeza. 
Certa noite, algumas semanas aps minha formatura, eu estava na sala 
lendo um livro. Dona Leonor aproximou-se. Passou a mo em meus cabelos, 
#
como sempre fazia. Levantei os olhos, e ela beijou minha testa. Sentou-se a 
meu lado e disse: 

 Agora j est formada. Est na hora de comear a trabalhar para 
aprender a exercer sua profisso. Pedirei a um amigo meu que a aceite em 
sua empresa. Que acha disso?" 
" Adoraria. Na faculdade, aprendi muita teoria, mas sei que  preciso 
adquirir prtica. 
 Sendo assim, amanh mesmo ligarei para ele e falarei a seu respeito. 
 Obrigada. A senhora  realmente uma me, e a melhor que poderia existir. 
 No sou sua me, mas quero-a como se fosse. Voc tem uma me 
maravilhosa, nunca se esquea disso. -fez uma pausa e levantou-se, 
dizendo: 
 Estou um pouco cansada. Vou me deitar. Boa-noite. Deu-me outro beijo, 
desta vez em meu rosto. 
 Gosto muito de voc. Desde que a conheci s me trouxe alegria. 
 Tambm gosto muito da senhora. Boa-noite. 
Fiquei mais um pouco na sala, depois fui para o quarto. Estava dormindo 
quando ouvi um barulho que vinha do quarto dela. Levantei-me e fui 
correndo at l. Entrei e encontrei-a cada perto da cama. Desesperada, 
tentei fazer com que falasse comigo, mas foi intil: no reagiu a meus 
apelos. Peguei o telefone e chamei um de seus filhos. Ele, de sua casa, 
telefonou para um hospital. Antes que ele chegasse, uma ambulncia j viera 
e a levara. Acompanhei-a, mas de nada adiantou: antes de chegarmos ao 
hospital, ela faleceu. 
Na banheira, Mrcia abriu os olhos; pelo canto deles, duas lgrimas corriam. 
Pegou uma toalha que estava ao alcance de suas mos e enxugou as 
lgrimas. Sempre que pensava em dona Leonor, sentia uma dor muito 
grande e uma saudade imensa. 
Minha me foi uma das primeiras pessoas a chegar ao velrio. Ela tambm 
tinha por dona Leonor uma amizade profunda. Percebeu que eu estava 
muito triste. Aproximou-se de mim e abraou-me. 
 Mrcia, sei que est muito triste, mas ela foi uma mulher feliz, cumpriu 
direito suas obrigaes e volta para junto de Deus vitoriosa. Isso no  fcil. 
Olhei para aquela mulher que nada representava em minha vida, por quem 
#
eu no tinha nenhum sentimento, mas eu estava triste demais para dizer 
alguma coisa. " 
"Apenas fiquei ali, chorando em seus braos. Assisti ao enterro, presenciado 
por muitas pessoas. Minha me quis levar-me para sua casa, mas recusei. 
No sabia mais onde morava, pois nunca fui visit-la, mas imaginava que 
deveria ser em um lugar horrvel como aquele do qual sa um dia. 
Voltei para a casa de dona Leonor. Aquela era minha casa, ali estava tudo 
que era meu, alm das boas lembranas. Minha me me acompanhou. L 
chegando, disse: 

 Sei que gostava muito dela e que at a julgava ser mais sua me do que 
eu, mas agora ela foi embora. Voc no poder mais ficar nesta casa. Sei 
que est formada, e tem agora uma profisso, podendo continuar sua vida 
sozinha, mas, se quiser ou precisar, nunca esquea que sou sua me e que 
estarei sempre esperando por voc. 
 Ficarei aqui at que os filhos dela venham conversar comigo. Enquanto 
isso vou procurar um emprego, no sei ainda o que vai acontecer com minha 
vida. Se precisar da senhora, entrarei em contato. 
 Estarei sempre de braos abertos, Mrcia. 
Ela foi embora e vi-me ali sozinha naquela casa, que agora se tornara ainda 
maior. Percorri todos os cmodos, fui at o quarto de dona Leonor. Sentei-
me e fiquei pensando nela ensinando-me e, s vezes, brigando por eu no 
fazer direito aquilo que me ensinava. Relembrei as noites que dormi com ela 
ali naquela cama. Eu estava sentindo um vazio profundo. Sentia como se 
tudo tivesse acabado. 
Aps a missa de stimo dia, o filho mais velho de dona Leonor chegou junto 
a mim e disse: 
 Mrcia, sei o quanto gostava de minha me. Quero que v conosco at 
minha casa; eu e meus irmos temos de conversar com voc. 
 Imagino o que querem falar comigo, mas no se preocupem: estarei me 
mudando amanh. 
 Por favor, venha conosco." 
" Est bem. Se julgar ser necessrio, irei. Acompanhei-os, imaginando que 
teria de deixar aquele apartamento em que fora to feliz. Meu corao 
estava apertado, mas sabia que no haveria outra soluo. Assim que 
chegamos, ele me mostrou uma cadeira que havia em uma sala.  mesa, 
#
todos nos sentamos. Os outros filhos de dona Leonor me olhavam de uma 
maneira que eu no conseguia entender. O filho mais velho foi quem iniciou 
a conversa: 

 Bem Mrcia pedi que viesse at aqui porque temos algo para lhe 
comunicar. 
Procurei antecipar-me: 
 Como lhe disse, no precisam preocupar-se. Gostava muito de sua me, 
mas sei que ela foi embora, e por isso no vou poder permanecer mais no 
apartamento que agora pertence a vocs. 
  justamente sobre o apartamento que queremos conversar com voc. 
Sabemos que gostava muito de mame. Sabemos que foi para ela uma 
companhia e, mais ainda, um motivo de orgulho. Ela sabia que estava velha 
e que a qualquer momento morreria. Por isso, j faz algum tempo, falou 
conosco, dizendo que no queria deix-la sem nada. Sabia que, alm de 
termos muitos bens, todos estamos financeiramente tranqilos. Ela pediu 
que assinssemos uma escritura, passando um de nossos apartamentos 
para seu nome. E que aquelas jias que esto no quarto, dentro da caixa 
forrada com veludo preto, fossem dadas a voc, alm de uma quantia em 
dinheiro. 
Fiquei abismada ao ouvir aquilo. Com toda a sinceridade, disse: 
 No acredito no que est me dizendo. Ela nunca falou nada a esse 
respeito... Eu nunca pensei... Apenas a amava como se fosse minha me... 
Apenas isso, no sei se posso aceitar. 
 Sabemos que nunca pensou s que voc no s pode como deve aceitar. 
Nossa me foi uma grande mulher. Se acreditar em voc, temos certeza de 
que sabia o que estava fazendo. No se preocupe: temos muito, isso no 
nos far falta. O apartamento, as jias e o dinheiro so seus. Aqui esto os 
documentos." 
"Ao pegar aqueles papis em minhas mos, fiquei sem saber o que fazer, 
mas ele falou de uma maneira que no me deixou alternativa. Apenas 
agradeci. Fomos, todos juntos, almoar. 
Mrcia sentiu frio. Estava ali por muito tempo e a gua comeou a esfriar. 
Levantou-se, ligou o chuveiro bem quente e ficou ali por mais algum tempo, 
apenas deixando a gua cair por seu corpo. Aquela gua quente lhe fez um 
bem enorme. Saiu do banheiro enrolada em uma toalha e foi para a cozinha. 
#
Ligou o forno e enquanto a comida estava sendo aquecida, foi para seu 
quarto, vestiu um pijama, ligou o televisor e se deitou. Estava cansada, havia 
trabalhado muito naquele dia, mas o banho fora reconfortador. Deitada, 
tentou prestar ateno ao filme que estava comeando, mas no conseguia: 
seu passado voltava com muita fora a seu pensamento. 
Por que isso agora? Por que esse sentimento de culpa? Por que esse 
sentimento de tristeza, quando deveria estar feliz por ter conseguido tanto 
em to pouco tempo? Pouco tempo? No... No foi to pouco tempo assim. 
Estou com trinta e quatro anos... A comida j deve estar quente. No estou 
com fome, mas preciso comer algo. 
Voltou para a cozinha, abriu o forno e retirou um pedao de carne assada. 
Levou para a sala de jantar. Na mesa havia uma travessa com salada de 
folhas e legumes, ela s precisava temperar. Sentou-se, comeu um pouco, 
mas realmente no estava com fome. Levantou-se e foi para seu quarto. 
Tentou dormir, mas no conseguiu. Alguma coisa a atormentava, no sabia o 
que era. Levantou-se e foi para a sala. Sentou-se em uma poltrona, ligou o 
outro televisor que ali havia. No conseguiu acompanhar o filme. Mudou os 
canais, e nada. Sem sono, foi para a cozinha. Faria um ch e tomaria um 
comprimido, talvez assim conseguisse dormir. Pegou o ch e alguns 
biscoitos. Ao voltar para o quarto, sentiu um arrepio percorrendo todo o seu 
corpo. Lembrou-se de sua me, pois, quando isso acontecia, dizia: 

 A morte passou por aqui." 
"Continuou andando, mas algo a estava incomodando, mas o qu? Por qu? 
Mudou o canal do televisor. O mesmo filme que havia comeado continuava. 
Entrou a msica caracterstica de edio extraordinria. Ela parou para ver o 
que havia acontecido. Um reprter anunciou um incndio em uma favela. 
Havia muita correria, o fogo estava alto. Pessoas sendo entrevistadas 
choravam por haverem perdido tudo. Ela ficou olhando. Uma senhora, com 
os cabelos brancos, estava agora falando: 
 Quando voltei do trabalho, encontrei tudo em chamas! No consigo 
encontrar minha netinha! No sei onde ela est! Por favor, me ajudem! 
Ao ver aquela senhora, Mrcia estremeceu, falando em voz alta: 
 Minha me? Que est fazendo ali? Nunca poderia imaginar que morasse 
em uma favela. Est mais velha, com os cabelos brancos, mas  minha me. 
Quando fui morar com dona Leonor, eles viviam em uma casa pequena, um 
#
quarto-e-sala. O que ser que aconteceu? Quem ser essa neta? De quem 
est falando? Preciso ir at l. 
Foi at o armrio abarrotado de roupas, escolheu uma, vestiu-se 
rapidamente. Procurou as chaves do carro. Ia saindo, quando parou, 
pensando: 
No posso ir. Talvez algum amigo ou conhecido me veja e descubra que um 
dia pertenci quele lugar. Ou pior: ir me condenar por ter abandonado 
minha famlia. No, no posso. Ningum pode saber de minha origem. Isso 
certamente seria usado por meus inimigos. 
Voltou para seu quarto, tirou as roupas e voltou a se deitar. Em seu corao, 
sentia vontade de ir at l, mas sua ambio e seu medo de ser reconhecida 
eram maiores que tudo. O passado voltou, com mais fora: 
Aps aquele almoo, voltei para o apartamento. Assim que entrei, comecei a 
percorrer tudo novamente, mas agora com um sentimento de felicidade 
indescritvel. Aps alguns dias, percebi que aquele apartamento era muito 
grande, o que fazia com que minha solido fosse maior. Resolvi que o 
alugaria e com o dinheiro poderia alugar um menor, onde no sentisse tanto 
a solido e a falta de dona Leonor." 
"Assim fiz. No dei meu novo endereo para minha me. Eu era, agora, 
adulta e, com o dinheiro que recebi como herana, sabia que poderia 
continuar vivendo sem ela e meu irmo. Nunca procurei saber como e de 
que modo viviam. Durante esse tempo todo, fiz questo de esquec-los. 
Quando pensava neles, rapidamente espantava os pensamentos, desviando 
minha ateno para o trabalho. Nunca imaginei que ela estivesse em uma 
situao como essa. Que vou fazer? 
No conseguia esquecer nem dormir. Virou-se de um lado para o outro na 
cama. Sentiu sede, levantou-se novamente, foi at a cozinha. Ligou o 
televisor para ver se havia mais alguma notcia. 
No esto, mais, falando sobre o incndio. Como ser que ela est? Por que 
essa preocupao agora? No tenho nada a ver com sua vida. Sempre foi e 
continua sendo uma estranha. Nunca acreditei naquele amor que dizia 
dedicar-me. Estranho... que h comigo, que me faz ter tanta dificuldade em 
acreditar ou confiar em algum? Por que sou assim? 
Em seu pensamento surgiu uma imagem: uma moa magra, plida, que lhe 
sorria timidamente. Ficou sorrindo ao lembrar de quando a conheceu. 

#
Mesmo morando com dona Leonor e tendo uma vida farta, nunca tive 
amigas. Na escola, e depois na faculdade, eu conversava com todas as 
pessoas, mas, assim que saa da aula, voltava para casa sozinha; nunca tive 
amigas ou confidentes. S Luciana... com ela foi diferente... estou me 
lembrando daquele dia em que estava na biblioteca procurando um livro de 
portugus. Sempre tive facilidade para aprender, mas com o portugus tinha 
um pouco de dificuldade. Estava sentada consultando um livro quando 
percebi que algum me observava. Desviei meu olhar e vi uma mocinha que 
me olhava insistentemente. Quando percebeu que a notei, ela, meio sem 
saber o que fazer, desviou o olhar. Apenas sorri e voltei minha ateno para 

o livro que estava lendo. Mesmo distrada com a leitura, sentia que ela 
continuava me olhando. Aquilo foi me deixando muito nervosa. Levantei os 
olhos em direo a ela e disse:" 
" Est querendo me dizer alguma coisa? 
Ela, um pouco assustada, sorriu. Levantou-se e veio at a mesa onde eu 
estava. 
 Desculpe, mas preciso falar com voc, sim. Sei que  a primeira aluna da 
classe. Cheguei h pouco  escola, no conheo ningum e gostaria que me 
passasse as aulas que tiveram at agora e que me ajudasse nos estudos... 
E, se possvel, que fosse minha amiga. 
Olhei com mais ateno para ela. At que era bonitinha, porm muito sem 
graa. Seus cabelos eram compridos, mas sem corte. Suas roupas, 
estranhas. Olhei em seus olhos e percebi que era uma menina muito triste. 
Respondi: 
 Como disse, sou a primeira da classe. Mas, para manter essa posio, 
tenho de estudar muito, por isso no tenho tempo para ensinar, ou para 
amizades. 
 Por favor! Perdi minha me quando tinha sete anos. Meu pai ficou muito 
triste com a morte dela e me mandou para um colgio de freiras. Estive l o 
tempo todo, s sa agora. No conheo ningum e tenho dificuldade para 
fazer amizade. 
 Dificuldade? Chegou com muita facilidade at aqui. Ela sorriu e continuou: 
 Voc  to bonita e se veste to bem. Gostaria que me ajudasse. Dinheiro 
no  problema: meu pai  um empresrio, tem muito dinheiro. 
Ao ouvir aquilo, no mesmo instante comecei a ver a situao de maneira 
#
diferente. Tendo uma amiga com um pai empresrio, talvez fosse um bom 
comeo para meu futuro profissional. Pensei rpido e falei: 

 Olhando bem para voc, vejo que  muito bonita. Vou falar com minha tia, 
ela poder ajud-la. Mas agora preciso continuar estudando, estou tendo 
algumas dificuldades. Amanh volto a falar com voc. 
Ela foi embora sorrindo e continuei com minha leitura.  noite, conversei com 
dona Leonor a respeito dela. Como sempre, ela me ouviu. Sorrindo, falou: 
 Pela primeira vez estou vendo-a interessada em outra moa, querendo 
uma amizade. Isso me deixa muito feliz. Traga essa menina at aqui, vamos 
ver o que posso fazer por ela. 
 Sei que pode e far muito." 
"No dia seguinte, voltei a falar com ela: 
 Conversei ontem com minha tia e ela quer conhec-la. Pode ter certeza 
de que vai transform-la. Mas como  seu nome? 
 Meu nome  Luciana. Obrigada por tudo. 
Aps o trmino da aula, levei-a para minha casa. Dona Leonor, ao v-la, 
disse: 
 Voc  muito bonita, mas, realmente, precisa de uma reforma geral. Neste 
fim de semana, se quiser, poderemos ir a um cabeleireiro e a algumas lojas. 
Na prxima segunda-feira, ser uma nova aluna que chegar  escola. 
 A senhora acredita nisso? 
 Acredito e vou lhe mostrar. 
Realmente, foi isso o que aconteceu. No sbado, ela chegou  casa 
acompanhada por um motorista. Fomos juntas fazer tudo que dona Leonor 
planejara: primeiro a um cabeleireiro; depois, a vrias lojas. Luciana, a cada 
movimento, ficava mais feliz. No fim da tarde, ela j era outra pessoa. 
Olhava-se no espelho e, sorrindo, dizia: 
 Estou mesmo muito bonita. Meu pai no vai me reconhecer. 
No sei por que, mas eu tambm estava feliz por v-la daquela maneira. 
Olhando bem para ela, disse: 
 Realmente est muito bonita. Estou at com inveja. Rimos muito. Daquele 
dia em diante, vagarosamente foi nascendo entre ns uma grande amizade. 
Comeamos a sair juntas para o teatro, cinema e festas. Dona Leonor ficou 
feliz por finalmente eu ter uma amiga de minha idade e por Luciana ser uma 
menina muito amvel, por quem ela se apaixonou. Comecei a freqentar sua 
#
casa. Sempre fui muito bem recebida por seu pai e sua madrasta. Seu pai, 
desde que perdera a esposa quando Luciana nasceu nunca mais se 
interessou por outra pessoa, muito menos quis se casar." 
"Quando Luciana fez sete anos, mandou que fosse estudar em um timo 
colgio de freiras. Conheceu Vilma, por quem se apaixonou. Ela aceitou 
casar-se com ele, desde que mandasse buscar Luciana no colgio e a 
trouxesse para viver com eles. Ela era uma pessoa especial. Luciana e ela 
se davam muito bem. Em uma das festas que freqentamos, Luciana 
conheceu Valter. Ele pertencia a uma famlia da alta sociedade. Comearam 
a namorar e dois anos depois estavam casados. Sempre pensei que, com o 
casamento, nossa amizade mudaria, mas no mudou. Embora no nos 
vejamos mais com a mesma freqncia, continuamos amigas. Ela est muito 
feliz no casamento, tem dois filhos maravilhosos, que adoro. Sempre nos 
telefonamos e quando possvel nos visitamos. Durante toda a minha vida, 
depois de dona Leonor, Luciana foi  nica pessoa em quem confiei. 
Este novo apartamento, embora fosse menor que o anterior, ainda era muito 
grande. Eu sentia muita falta de dona Leonor, de nossas conversas, das 
noites que dormia em sua cama. Fiquei muito triste, sem vontade de sair ou 
conversar. Sempre que Luciana ligava para saber como eu estava, arrumava 
uma desculpa. Certa tarde, a campainha tocou. Atendi, pensando ser o 
sndico do prdio, o nico com quem conversava. Enganei-me: era Luciana, 
que entrou sem pedir licena. 

 Desculpe se no liguei avisando que viria, mas, se assim tivesse feito, 
voc arrumaria uma desculpa e desligaria como fez vrias vezes. Que voc 
tem? Est com uma aparncia horrvel! 
 Estou bem, s um pouco triste, mas logo ficarei bem." 
" No est bem coisa nenhuma. Est pssima. Acredito que esteja 
precisando fazer algo. Se continuar assim, em breve vai ficar louca. Vou falar 
com papai e pedir a ele que a empregue na empresa. Ele gosta muito de 
voc e sabe que  competente. Que acha? 
Fiquei sem saber o que dizer. Aquilo tinha sido o que sempre desejei desde 
que a conheci. Mas, aps ter me tornado realmente sua amiga, nunca tive 
coragem de tocar no assunto. E, agora, mais uma vez a sorte agia a meu 
favor. Luciana estava me oferecendo  oportunidade. Por intermdio dela 
comecei a trabalhar como recepcionista na empresa de seu pai. Embora 
#
tivesse um diploma, eu no possua experincia, por isso tive de me 
conformar com esse posto, mas sabia que seria por pouco tempo. Estava 
determinada a vencer e venceria, custasse o que custasse. Venci!" 

#
Carter suspeito 

"Embora estivesse relembrando seu passado, Mrcia no conseguia 
esquecer o presente, a imagem de sua me morando naquela favela. Sabia 
que precisava e podia ajud-la, mas no conseguia. Era mais forte que ela. 
Novamente, afastou seus pensamentos e voltou a lembrar-se de como havia 
conseguido vencer: 
Trabalhava no departamento de vendas. Comecei a perceber que os 
vendedores ganhavam muito. Fiz o possvel e o impossvel para me tomar 
uma vendedora. Sendo muito eficiente em meu trabalho, sempre fiz questo 
de que os outros o notassem. Havia um vendedor; seu nome: Farias. Percebi 
que ele era o melhor vendedor da empresa. Um dia, na hora do almoo, 
aproximei-me: 

 Senhor Farias, posso almoar em sua companhia? 
 Claro que pode. Almoar com uma bela moa como voc s pode trazer-
me muito prazer. Mas tenho uma condio: nada de "senhor". Somos 
companheiros de trabalho. Esse senhor me torna muito velho. 
 Tem razo. Somos companheiros, e voc nem  to velho. 
Fomos ao restaurante da empresa. Sentamos e comeamos a comer e 
conversar. Fiz tudo para me mostrar o mais agradvel possvel. 
Conversamos sobre muitas coisas, nada relacionado com o trabalho. 
Daquele dia em diante, comeamos a almoar todos os dias. Eu ia 
mostrando a ele que era verstil e que tinha muita vontade de aprender. Ele, 
aos poucos, foi confiando em minha amizade. Contava coisas sobre a 
esposa e os filhos: 
 Eu os adoro, so tudo em minha vida. Tenho uma famlia perfeita. Eles 
tambm me adoram e respeitam. Jamais faria algo que os pudesse magoar 
ou que fizesse com que seu respeito terminasse. 
 Pode se considerar uma pessoa feliz por ter uma famlia. Eu, ao contrrio, 
s tinha minha tia, e ela faleceu. Hoje, sou sozinha no mundo. 
 Entendo... deve ser muito triste ser sozinho. No sei o que faria sem 
minha famlia... 
Em um desses almoos, tomei coragem e, olhando bem dentro de seus 
olhos, como dona Leonor me havia ensinado, disse:" 
#
" Farias, tenho algo para lhe pedir. No sei qual ser sua reao. Preciso 
de sua ajuda, mas, se no puder, no se preocupe: continuaremos amigos 
como sempre, nada mudar. 
Ele arregalou os olhos e, sorrindo, disse: 


 Meu Deus do cu! O que ser que essa moa bonita est querendo? 
Fale, e se puder ajudarei com prazer. 
Falei rpido, quase sem parar: 
 Sabe que trabalho na recepo. Meu salrio  pequeno. Sabe tambm 
que vivo sozinha. Por isso, gostaria de me tornar uma vendedora. Sei que 
tenho capacidade, s preciso aprender. Voc, se quiser, pode me levar junto 
para visitar seus clientes. Tenho certeza de que aprenderei tudo 
rapidamente. 
Em pouco tempo, consegui sair com Farias para aprender a fazer vendas. 
Ele me ensinou tudo a respeito. Eu estava sempre alegre, sorridente e 
prestativa, o tipo de pessoa que, por sua atitude solcita, se torna em pouco 
tempo amiga e confidente. Logo mostrei minha capacidade como vendedora. 
Ele foi cada vez mais confiando em minha amizade. Fez confidencias que 
nunca havia feito para ningum. Eu apenas ouvia, sem dar opinio. Aps 
alguns meses, ele percebeu que eu poderia ter minha prpria clientela. Veio 
at minha mesa e, sorrindo, disse:  J est pronta. Pode comear com sua 
prpria clientela. Vou lhe dar uma rea que no tenho tempo para atender, 
um pouco distante do centro. Sei que tem capacidade para atend-la toda e 
com perfeio. 
Fiquei muito feliz. Sabia que aquele seria s o comeo. Apesar de ter pegado 
uma rea distante e difcil, consegui vrios clientes novos. Farias falou com 
meus superiores, elogiando meu trabalho e meu modo de ser. Eles 
comearam a prestar ateno em meu trabalho e me admiravam. Trabalhei 
durante dois anos como vendedora daquela clientela que ficava longe. Meu 
salrio aumentou, mas eu ainda no estava contente, queria a rea que era 
de Farias. Sabia que ele, por sua eficincia durante tantos anos, havia 
conquistado o respeito e a valorizao de seu trabalho. " 
"Todos os vendedores se espelhavam nele. Ele me ensinou tudo o que 
sabia, mas eu precisava pensar em uma maneira de tir-lo de meu caminho 
sem que as pessoas desconfiassem que fora eu. 
Enquanto pensava, sem perceber, adormeceu. Sonhou com um lugar escuro 
#
e vazio, sentiu muito medo. Acordou suando e com o corao disparando. 
Voltou a dormir, mas sua noite foi quase toda de pesadelos. Pela manh, 
acordou com olheiras profundas, seu corpo todo doa apesar de seu colcho 
e travesseiro serem confortveis. Escolheu a roupa que vestiria, foi para o 
banheiro, tomou banho, vestiu-se. Enquanto fazia sua maquiagem, tornou a 
lembrar-se de sua me, mas logo a tirou do pensamento. Estava atrasada e 
nunca, desde o primeiro dia que comeou a trabalhar, chegara atrasada. 
Saiu. No rdio do carro ouviu uma reprter que estava na favela. Dizia que o 
fogo havia destrudo tudo. Duas pessoas haviam morrido, uma delas era 
uma criana. Os demais moradores estavam desabrigados, sem ter para 
onde ir. Ao ouvir aquilo, sentiu um aperto no corao. 
Como minha me pode estar em uma situao como aquela em que a vi? E 
meu irmo, onde estar? Quem ser a neta de quem ela falou? Preciso 
ajud-los, porm minha vida de hoje no permite que faam parte dela. No 
posso ter meu nome misturado ao deles, mas, embora no os queira por 
perto, no posso negar que so de meu sangue, que ela, de uma maneira ou 
de outra,  minha me. 
Mudou de estao, aquele assunto a incomodava. Comeou a ouvir msica. 
Cantarolava junto para tentar esquecer a figura de sua me envelhecida e 
maltratada. Quando chegou ao escritrio, a recepcionista lhe disse: 

 Dona Mrcia, a senhora j soube?" 
" Soube o qu? 
 O doutor Fernando passou mal durante a noite. Est no hospital e parece 
que seu estado  grave. 
Assustada, perguntou: 
 Tem certeza do que est dizendo? No est brincando? 
 Claro que no! Acha que eu brincaria com um assunto como esse? 
 Vou verificar. 
Entrou em sua sala e ligou para a residncia do doutor Fernando. A 
empregada confirmou: 
 Aconteceu mesmo, ontem  noite ele teve um princpio de enfarte. Parece 
que no est nada bem. 
Ela desligou o telefone. Ainda com o aparelho na mo, pensou: Com ele fora 
de meu caminho, poderei mostrar, mais ainda, minhas qualidades, mas 
preciso disfarar. Ningum pode perceber o que estou sentindo realmente. 
#
Quando consegui afastar Farias, recebi toda a sua clientela. Aps trs anos, 
recebi uma promoo, depois outra, e hoje estou neste cargo privilegiado. 
Um dia, jurei que seria a presidente. Hoje, est faltando pouco. Com 
Fernando fora do caminho, est cada vez mais perto o dia de realizar meu 
sonho. Sempre soube que tinha muita sorte, mas isto  demais. 
Foi para sua sala, sabia que logo o vice-presidente a chamaria. Aconteceu 
meia hora depois: 


 Mrcia, como voc sabe, Fernando vai ficar alguns dias ausente. Estamos 
todos tristes, mas a empresa no pode parar. Tenho certeza de que poder 
ficar  frente de tudo at que ele retome suas funes. 
 Como o senhor, estou tambm condoda. Tenho certeza de que logo ele 
voltar. Mas at l no se preocupe: terei tudo sob controle. 
 Sei disso. Fernando sempre elogiou sua competncia. 
 Obrigada, senhor. No se preocupe. 
Com um sorriso, saiu. Entrou em sua sala, estalando os dedos de felicidade. 
Tudo sempre deu certo em minha vida. Tenho muita sorte mesmo. Quando 
ela no vem, dou um jeito e fao acontecer. 
Sentou-se, pegou alguns papis e comeou a ler. Lembrou-se de Osvaldo, 
que at agora no havia telefonado, e j estava quase na hora do almoo. 
Telefonou para seu escritrio. A secretria, depois de algum tempo, disse: 
 Ele no pode atender, est em uma reunio." 
"Mrcia j conhecia aquela artimanha. Ela mesma, quando no queria falar 
com algum, dizia estar em reunio. Preocupada, pensou: 
Por que ele faria isso? No, no... deve estar mesmo em uma reunio. 
Ficou no escritrio o resto do dia, sem pensar em nada alm do trabalho. 
Quase seis horas da tarde, voltou a lembrar-se de Osvaldo: 
Osvaldo no me ligou o dia inteiro... algo muito grave deve estar 
acontecendo. 
Voltou a telefonar, mas a secretria mais uma vez no passou a ligao, 
dizendo que ele j havia ido embora. 
No estou gostando disso. Talvez seja melhor acreditar que ele esteja 
mesmo com algum problema e logo me contar tudo. Na realidade, eu no o 
amo, estou com ele apenas para ter com quem sair e algum que me realize 
sexualmente. Em minha vida no h lugar para o amor, minha carreira 
sempre esteve e estar em primeiro lugar. Conheci outros antes dele, 
#
apenas passaram por minha vida, sem deixar saudade. Passei muitas noites 
ao lado de algum de cujo nome no lembrava no dia seguinte e que no via 
nunca mais. Nunca quis me prender a ningum, precisava estar com a vida 
tranqila para fazer um bom trabalho e, com certeza, um homem s 
atrapalharia. Ouvi histrias de amigas que sofriam muito com esse negcio 
de amor. Eu nunca quis me arriscar, por isso sempre me contentei com 
algumas aventuras e nada mais. Com Osvaldo, foi diferente. Conhecemonos 
em um restaurante... 
O interfone tocou. Ela atendeu: 

 Est aqui um fornecedor. Disse a ele que, enquanto o doutor Fernando 
estiver ausente, a senhora estar respondendo por ele. Posso mand-lo 
entrar? 
 Espere cinco minutos, em seguida mande-o entrar. 
 Sim, farei isso. 
Mrcia levantou-se da cadeira em que estava sentada, foi at o banheiro, 
lavou as mos, arrumou o cabelo. Estava pronta. Sabia que o trabalho teria 
de ser bem feito. Precisava receber muito bem o fornecedor e conseguir 
bons preos." 
"Recebeu o rapaz com um sorriso. Meia hora depois, ele saa da sala 
sorrindo, com um pedido muito grande e elogiando Mrcia para a secretria. 
Mrcia, por sua vez, estava tambm esfuziante em sua sala. Quase gritou. 
Consegui! Consegui um grande desconto no oramento aprovado por 
Fernando. Isto, com certeza, ser mais um ponto a meu favor. 
Esqueceu completamente sua me e seu irmo. Agora, s queria que seus 
superiores a comparassem com Fernando. 
Quando ele voltar, se voltar ter de explicar esse desconto que consegui. 
Logo estarei ocupando seu lugar. 
Percebeu que j era tarde. Lembrou-se novamente de Osvaldo. 
O dia j est terminando, e ele no me telefonou. No vou me preocupar; 
com certeza ele ter uma boa explicao. Estou lembrando, agora, aquele 
dia em que almoava em um restaurante aqui perto. O garom, ao levar uma 
bandeja, tropeou e derramou um prato de espaguete em cima de Osvaldo, 
que estava sentado em uma mesa prxima  minha. Suas costas ficaram 
sujas de molho vermelho. Ele se levantou muito irritado e, nervoso, 
perguntou ao garom: 
#
 Que  isso? No v por onde anda? 
 Desculpe senhor, no entendo como isso aconteceu. 
 No entende? No entende? Eu  que no sei como vou trabalhar o resto 
do dia. 
O gerente aproximou-se, dizendo: 
 Desculpe senhor, mas isso no voltar a acontecer. No precisa pagar a 
conta. Mandarei o garom embora agora mesmo. 
Ele olhou para o lado em que eu estava. 
Sem conseguir me conter, comecei a rir. Ele, embora nervoso, comeou a rir 
tambm da situao em que se encontrava. O gerente, muito nervoso, disse 
para o garom: 
 Pode sair daqui imediatamente. Est despedido. 
Osvaldo, tirando alguns fios de macarro que continuavam em sua camisa, 
ainda rindo muito, falou:" 
" No precisa fazer isso. S tenho de arrumar outra camisa para poder 
trabalhar. 
Eu, ainda rindo muito, disse: 
 E outro palet, pois esse que est nas costas da cadeira est todo sujo 
tambm. 
Ele olhou para o palet. No suportou e comeou a gargalhar. Todos os 
freqentadores seguiram seu exemplo. O gerente, assustado com toda 
aquela reao, ficou sem saber o que fazer. 
 Se o senhor quiser, poderemos lhe arrumar uma camisa e um palet. 
Aps rir muito, ele olhou para mim, dizendo: 
 Que devo fazer? 
Fui tomada de surpresa, mas mesmo assim, respondi: 
 Acredito que deva ir a uma loja e providenciar roupas novas. 
 E quanto ao garom? 
 Tenho certeza de que no fez por querer. Alm do mais, a comida aqui 
neste restaurante  muito boa. No vale a pena brigar e procurar outro. 
Ele olhou para o gerente. 
 Tudo bem, vamos esquecer tudo isso. A senhorita tem razo. A comida 
daqui  muito boa. S preciso de uma camisa. Pode mesmo arranjar? 
 Se no se incomodar, posso lhe dar uma camisa de garom. 
 Se no h outra escolha, que seja. 
#
Osvaldo acompanhou o gerente. 
Fiquei ali e continuei comendo. Ele voltou pouco depois, vestido com uma 
camisa branca. Pediu licena e sentou-se a meu lado. O gerente prontificouse 
em trazer o que ele quisesse comer. Almoamos juntos. Desde aquele 
dia, passamos a nos encontrar sempre na hora do almoo, comeando 
assim uma amizade. Essa amizade foi crescendo e em uma tarde ele me 
acompanhou at minha casa e ali naquele ambiente acolhedor comeamos a 
nos beijar e acabamos na cama. Desse dia em diante, nasceu algo entre ns 
e at agora estamos juntos, cada um respeitando o espao do outro. Nunca 
tivemos problemas. Sempre soube que ele era casado, mas, como eu no 
queria um marido, aquilo no me incomodava. Almovamos juntos todos os 
dias. Algumas vezes na semana, aps o trabalho, ele ia at minha casa, 
ficava algumas horas e ia embora. " 
"Mas s quartas-feiras era sagrado: saamos, jantvamos fora e ele ficava 
at a madrugada. Assim j se passaram quase sete anos. Por todo esse 
tempo que estamos juntos, sempre sendo amigos e confidentes,  que estou 
estranhando sua atitude. 
Afastou os pensamentos e resolveu que no iria para casa. No dia anterior, 
no se sentiu muito bem ali. Ver sua me no televisor fez com que se 
lembrasse de seu passado e no gostava de faz-lo. Jantaria fora, s depois 
iria embora. Precisava pensar em tudo o que estava acontecendo. Por mais 
que quisesse, no conseguia esquecer a figura de sua me em toda aquela 
misria. 
Preciso descobrir uma maneira de ajud-la sem que para isso seja preciso 
aparecer e compartilhar de sua companhia. No entendo por que sinto essa 
rejeio por ela. No  normal. Se contasse a algum, com certeza me 
recriminariam, porm esse sentimento  mais forte que eu. Nunca senti nada 
por ela. Convivi o tempo que fui obrigada, mas agora no! Ela que fique bem 
longe da minha vida! 
Parou o carro em frente a um restaurante famoso por sua boa comida. O 
manobrista aproximou-se, ela lhe entregou o carro e entrou. O gerente veio 
receb-la na porta e mostrou-lhe vrios lugares que estavam vagos. Ela 
escolheu uma mesa que ficava em um canto um pouco isolado. Sempre que 
estava sozinha, preferia um lugar mais discreto, assim evitava olhares de 
homens tambm desacompanhados. Sentou-se, folheou o menu e fez seu 

#
pedido. Ficou esperando enquanto bebericava um refrigerante. Olhou  sua 
volta e pela primeira vez no se sentiu bem por estar sozinha. Vrios casais 
com crianas tambm freqentavam o local. Olhando um jovem casal 
sentado  sua frente, notou o esforo que a moa fazia para alimentar um 
beb sentado em uma cadeira alta. O marido, a seu lado, carinhosamente a 
ajudava. Os dois riam de cada gracinha que a criana fazia. Olhando aquela 
cena, pensou:" 
"Tenho hoje tudo que desejei e posso ter tudo que desejar, mas ter valido a 
pena? Estou aqui neste restaurante de luxo, sozinha, com trinta e quatro 
anos, no tenho marido nem filhos... ser que agi certo? Claro que agi. De 
que me adiantaria ter um homem a meu lado e um bando de crianas para 
me dar trabalho? Devo estar carente nestes dias. Estou pensando em coisas 
que nunca foram alvo de minhas preocupaes. Minha me tinha um marido 
e dois filhos e uma vida infeliz. Pior ainda est hoje. De que adiantou tanto 
sacrifcio? De que adiantou ter tido filhos? No! Recuso-me a continuar 
pensando nisso! Minha vida est muito boa da maneira como est! 
Pensava assim, quando olhou para a porta e viu um casal entrando com 
duas crianas. Sentiu um aperto no corao, ao mesmo tempo em que ficava 
vermelha de dio. Era Osvaldo, acompanhado da esposa, que ela conhecia 
por foto e as crianas, uma de oito anos e outra de mais ou menos quatro 
anos. Nervosa, pensou: 
Que estou vendo aqui? A primeira  a menina, que eu sabia de sua 
existncia, mas e o menino? Ele nunca disse que tinha outro filho. Ao 
contrrio: dizia sempre que seu casamento era s de aparncia, que no 
tocava na mulher havia muito tempo e que entre eles no havia mais nada. 
Disse que o desinteresse aconteceu logo aps o nascimento da menina. Por 
que ele mentiu? Por que est me evitando! 
Osvaldo, sorrindo para a esposa, puxou a cadeira para que ela se sentasse. 
Assim que ela se sentou, beijou seus cabelos e foi ajudar as crianas. Mrcia 
acompanhava tudo sem acreditar no que estava vendo. 
Ele sempre mentiu? Parece muito apaixonado. No existe desinteresse. Ao 
contrrio... em seus rostos pode-se ver muita felicidade." 
"Sentiu o sangue subir. A raiva estava estampada em seu rosto. Assim que 
ele se sentou, ficou de frente para ela, que o estava matando com os olhos. 
O olhar foi to forte e penetrante que ele, sem saber por que, olhou em sua 

#
direo. Ao v-la, ficou branco como cera. No sabia o que fazer. Sua 
esposa nada percebeu, pois estava atendendo ao filho menor, perguntando-
lhe o que queria beber. Mrcia, completamente descontrolada, levantou-se. 
Ele, com medo de que ela fizesse um escndalo, comeou a tremer. Ela 
passou por ele e saiu sem nada dizer ou fazer. Ele, finalmente, serenou e 
comeou a conversar com a esposa. Sabia que a situao era grave, mas 
naquele momento era a nica coisa que poderia fazer. 
Do lado de fora, Mrcia pediu seu carro. O garom que havia tirado o pedido 
veio atrs dela. 

 Senhorita, aconteceu algum problema? Foi feita alguma coisa que a 
desagradou? 
 No... desculpe... no estou me sentindo muito bem. Tirou uma nota da 
carteira e deu a ele, que agradeceu e voltou para dentro. O manobrista 
trouxe seu carro, ela entrou e saiu em disparada. Seu corpo todo tremia de 
raiva e dio. Falava em voz alta: 
 Ele est me evitando. Eu, tola, pensando que estava com algum 
problema. Problema nada! Est  muito feliz com a esposinha e aquelas 
crianas idiotas." 
#
Foras desconhecidas 

"Chegou ao prdio e estacionou o carro. Subiu at seu apartamento, abriu a 
porta e entrou correndo sem olhar para nada, s querendo arrumar um modo 
de se vingar. Seu corpo tremia. 
No o amo, mas ele nunca poderia ter feito isso comigo. Quem pensa que  
para me tratar assim? No me conhece. Se conhecesse, no se atreveria. 
Mentiroso! Canalha! Ver do que sou capaz! 
Nunca em sua vida havia sido to humilhada. Ela, a poderosa, que 
conseguiu tudo que sempre quis, estava ali sendo enganada. Nunca poderia 
admitir. Com raiva, foi at o bar, pegou uma garrafa de vinho e comeou a 
beber sem parar. No estava acostumada a bebidas alcolicas e logo sentiu 
que suas pernas estavam amolecendo e sua cabea ficando vazia. S via 
em sua frente  figura dele, todo carinhoso com a esposa e os filhos. Falava 
em voz alta: 

 Canalha! No tinha intimidades com a esposa. No a amava. Ele s tinha 
a menina, como foi que aquele menino nasceu? 
Tomou quase toda a garrafa. Com muita dificuldade, foi at o quarto e deitou-
se vestida do modo que chegara. Ao deitar-se, sentiu a cama balanar como 
se estivesse em um navio. Comeou a rir daquele movimento e segurou-se 
com medo de cair. Nunca havia bebido tanto e to depressa, por isso para 
ela, aquela situao era estranha. Ria e chorava de raiva. Lembrou-se 
novamente de sua me, e a, sim, chorou muito. Adormeceu sem perceber. 
Sonhou com coisas boas e ruins misturadas. Estava em um lugar muito 
escuro e frio e ao mesmo tempo em outro quente e com muita luz. Encontrou 
no sonho muitas pessoas que no conhecia. Quando acordou, pela manh, 
j passava das onze horas. Pela primeira vez estava muito atrasada e 
chegaria tarde ao trabalho. O telefone tocou e ela sentiu uma forte dor de 
cabea com o barulho. Com muito custo, atendeu. Era sua secretria." 
" Bom-dia, dona Mrcia, sou eu. Liguei para saber se aconteceu alguma 
coisa. A senhora no chegou para a reunio e estamos todos preocupados. 
Ela se sentou melhor na cama e pensou: A reunio? Como fui me esquecer! 
Respirou fundo e disse: 
 No passei bem  noite e acordei s agora. Estou com muita dor de 
cabea, no vou trabalhar hoje. Vou at o mdico ver o que est 
#
acontecendo. Avise a todos, por favor. 

 Est bem. No precisa se preocupar. Cuide-se. Espero que no seja nada 
srio. 
 No deve ser. Talvez uma gripe, estou com um pouco de febre. Mas no 
se preocupe. Cuide de tudo em minha ausncia. 
Desligou o telefone. Sua cabea parecia que ia estourar. Foi at o banheiro, 
colocou a banheira para encher. Enquanto a banheira enchia, desceu. 
Queria ir para fora, ver como estava o dia, a piscina e tambm olhar a 
cidade. Quando voltava para o quarto, ouviu vozes que vinham da cozinha. 
Dirigiu-se at l. Era sua empregada, que conversava com outra pessoa. 
 Pois , menina. A mulher  boa mesmo. Ela fala tudo que est se 
passando com a gente. Depende do trabalho. Ela faz o bem, mas se precisar 
faz o mal, tambm. 
 Tem certeza de que  verdade, Francisca? 
 Claro que tenho. Ela me falou tudo de Valtinho: o jeito que ele  e por que 
no consegue emprego. Ela  boa mesmo. Rita foi l e conseguiu separar 
Rui da mulher dele, e ele est com ela agora. 
 No acredito!  verdade mesmo? 
Ao ouvir aquilo, Mrcia entrou na cozinha. 
 Bom-dia. Posso saber do que esto falando? 
Sua empregada, ao v-la em casa, ficou desconcertada, no sabia como se 
desculpar por estar com uma pessoa estranha acompanhando-a. Sabia que 
Mrcia no gostava disso. 
 Dona Mrcia, a senhora no foi trabalhar? Esta  minha amiga, Francisca. 
Ela veio me ajudar, porque preciso ir ao mdico. Sabe como : mdico 
pblico, no se pode perder a hora." 
" Est bem, Marluce, no se preocupe. Ouvi alguma coisa sobre uma 
mulher que faz trabalhos para ajudar em nossos problemas. Que mulher  
essa? Onde ela mora? 
 No liga, no, dona Mrcia. Isso  histria de Francisca. No tem o que 
falar e fica falando bestagem. 
Francisca, recm-chegada do Nordeste, era humilde, mas muito falante. 
Retrucou: 
 Bestagem, nada, dona. A mulher  boa mesmo. Descobre tudo, at o que 
a gente est pensando. 
#
 Tudo isso que ouvi que ela fez  verdade mesmo? 
 Claro que  dona. Ela faz qualquer coisa que a gente quiser. 
 Onde ela mora? 
 Mora l pelos lados de So Miguel. 
 Como fao para falar com ela? 
 Tem de marcar hora. Ela atende muita gente. 
 Como fao para marcar hora? 
Francisca olhou para Marluce, que fez um sinal com a cabea dizendo que 
no, mas ela se fez de desentendida e continuou: 
 Quer saber mesmo a verdade, dona? Hoje a gente no vai a nenhum 
mdico, no. A gente vai  at a casa da mulher. A gente marcou hora com 
ela j faz um tempo. Se a dona quiser, pode ir junto. Quem sabe ela atende 
 senhora tambm! 
Marluce empalideceu. Ficou com medo da reao de Mrcia. 
 Est bem, vou com vocs. A que horas precisam estar l? 
 s quatro da tarde. Por isso vim ajudar Marluce. Seno, no ia dar tempo. 
 Vou sair um pouco e l pelas duas horas estarei de volta. Retirou-se da 
cozinha. Foi para o banheiro, tomou um banho, vestiu-se e saiu sem rumo. 
No tinha para onde ir. No estava acostumada a ter os dias livres. Andou 
por vrias ruas. Resolveu ir at uma loja comprar algumas roupas. Precisava 
fazer algo para que o tempo passasse. Almoou no restaurante aonde ia 
sempre com Osvaldo. Ele, naquele dia, no estava l, o que a deixou mais 
nervosa ainda. 
Se o encontrasse, talvez me desse uma explicao. Quem sabe aconteceu 
algo que o fez tomar essa atitude. Preciso encontrar um modo para falar com 
ele. Mas como farei? Ele no me telefona, nem atende os meus 
telefonemas." 
"Estava ansiosa para conhecer a tal vidente. Enquanto dirigia rumo a seu 
apartamento, ia pensando: 
Como ser essa mulher? Nunca fui a um lugar como esse. Alis, nunca fui a 
lugares voltados a coisas espirituais, nem mesmo segui uma religio. No 
acredito em religio, qualquer que seja. s vezes chego a pensar: ser que 
existe realmente um Deus? 
s duas da tarde, voltou, abriu a porta e entrou na sala. Tudo, como sempre, 
estava em ordem. Foi at a cozinha e l estavam as duas terminando de 
#
preparar o jantar. Francisca acabara de colocar verduras e legumes em uma 
travessa. Quando Mrcia chegasse,  noite, teria s de temperar. Marluce 
estava terminando de lavar a loua. Mrcia perguntou: 

 J terminaram? 
 Quase tudo, dona Mrcia. 
 Est bem, Marluce. Vou tomar um banho e trocar de roupa. Logo estarei 
pronta e poderemos ir. 
Tomou um banho rpido. Colocou uma roupa simples. Enquanto se trocava, 
ia pensando: 
Devo estar louca, para ir a um lugar como esse. Bem, no custa nada. Ser 
s por curiosidade. Quem sabe eu consiga descobrir o que realmente est 
acontecendo? Preciso ir bem simples. Ouvi dizer que essas pessoas cobram 
muito caro por qualquer servio. Se ela descobrir que tenho dinheiro, vai 
querer me explorar. 
Foi at a cozinha. As duas estavam prontas e esperando. Foram juntas para 
a garagem. Mrcia, querendo evitar constrangimento no elevador, pois 
empregados no podiam descer pelo social, pediu a elas que fossem na 
frente. Ela desceria em seguida." 
"Quando chegou  garagem, as duas estavam encostadas no carro, 
esperando. Embora Mrcia usasse um carro da empresa, de ltimo tipo, 
possua um veculo prprio, um modelo esporte, muito bonito. Ela trocava de 
carro todos os anos. Com o antigo como entrada e uma pequena diferena, 
estava sempre com o carro do ano. Olhando para as duas, falou: 
 Vamos ao carro pequeno. O da empresa no pode ser usado para 
assuntos particulares. 
Elas no entendiam aquelas coisas. O que queriam mesmo era andar 
naquele carro, o que nunca pensaram que um dia poderia acontecer. 
Entraram e Mrcia saiu dirigindo. Pegaram a Marginal e, assim que apareceu 
a placa de So Miguel, Francisca disse: 
 A senhora pode entrar a. E seguir sempre em frente. Mrcia no falou 
nada durante o trajeto. As duas iam conversando, apreciando a paisagem 
que todos os dias viam, mas de dentro de um nibus. Para elas, agora, de 
dentro do carro tudo parecia diferente. Mrcia dirigiu muito tempo por uma 
estrada reta, no prestou ateno ao nome. Em determinado momento, 
Francisca falou: 
#
 A senhora pode entrar  esquerda no prximo farol. Mrcia foi seguindo 
as instrues. Desde que saram da Marginal, ela percebeu que o bairro 
comeou a mudar de aparncia, mas agora a mudana era maior: as casas 
e pessoas eram muito pobres. Sentiu um arrepio no corpo, enquanto 
pensava: 
No posso acreditar que um dia morei em um bairro como este, com tanta 
pobreza, tanta sujeira... 
Quanto mais andavam, mais pobre o bairro ia ficando. Havia muitas crianas 
brincando nas caladas, alheias  pobreza em que viviam. Em certo 
momento, Francisca falou: 
 A casa dela fica no fim desta rua. Mrcia parou o carro, falando: 
 Ento vamos a p. No quero que ela veja meu carro. Marluce e 
Francisca no entenderam o porqu daquilo, mas ela era a patroa, devia 
saber o que estava fazendo. Desceram e as trs caminharam a p. Andaram 
dois quarteires. Durante a caminhada, Mrcia sentiu um mau cheiro terrvel. 
Vinha de um pequeno crrego que passava por ali. " 
"Pela rua, corria uma gua de aparncia muito feia. Mrcia ia pensando: 
Este cheiro  caracterstico de pobreza. Esse esgoto correndo pela rua... no 
sei como as crianas no ficam doentes. Quantas vezes, como elas esto 
fazendo agora, tambm no brinquei com os ps descalos, pisando em 
guas como essa? Ainda bem que, um dia, consegui me livrar de tudo isso... 
Pararam em frente a uma casa. Francisca bateu palmas ao porto. Uma 
senhora saiu  janela: 
 Pois no. 
 Viemos falar com dona Durvalina. 
  l nos fundos, podem entrar. 
Francisca entrou na frente e as duas a seguiram por um corredor muito 
comprido. Havia muitas portas e janelas. Nas portas havia nmeros, dando a 
impresso de que ali moravam muitas famlias. Mrcia fazia um esforo 
enorme para no sair dali correndo. Tudo aquilo fazia com que se lembrasse 
de sua infncia, que ela h muito tempo fazia questo de esquecer. 
Finalmente, chegaram ao fundo do quintal. Havia ali mais uma porta e uma 
janela. Francisca bateu  porta. Uma voz respondeu:  Pode entrar. 
Entraram. Mrcia sentiu um mal-estar terrvel. Um quarto escuro, apenas 
iluminado por algumas velas. Em um canto, estava uma mulher fumando 
#
charuto e sentada no cho. Ao lado dela, uma garrafa de cachaa. Mrcia 
entrou e, ao ver aquilo, deu um passo para trs. Seu primeiro impulso foi de 
fugir. Nunca estivera em um lugar como aquele. Sentiu muito medo. 
Segurou Marluce pelo brao e, sem nada dizer, comeou a sair. A mulher 
deu uma gargalhada estridente e falou: 

 Para onde a moa vai? Est fugindo do qu? No precisa ter medo. No 
fao mal a ningum. A no ser que me pea e pague. No trabalho de 
graa." 
Mrcia estancou. No sabia se entrava de vez ou se saa. Seu corao 
batia forte. Falou: 
 Desculpe, mas no estou acostumada. Nunca vim a um lugar como este, 
nem nada parecido. Estou com medo. 
A mulher soltou outra gargalhada, falando: 
 Medo de mim? J lhe disse que no precisa ter medo. Se veio at aqui,  
porque precisa de ajuda, e vejo que posso ajudar. Chegue mais perto e fique 
de joelhos para que eu possa ver seu rosto. 
Um pouco receosa, mas puxada por Francisca, Mrcia aproximou-se e 
ajoelhou-se. A mulher pegou suas mos, que tremiam muito, olhou bem 
dentro de seus olhos e falou: 
 A moa precisa mesmo de minha ajuda... muito mais do que imagina. Vou 
pedir pras outras duas moas esperarem l fora. O que tenho para falar  s 
com a moa aqui. 
As duas entenderam e saram. Mrcia tentou se levantar, queria sair dali 
tambm, mas a mulher segurou-a forte, no permitindo. Uma fora estranha 
fez com que ficasse ali parada, sem poder se mexer. O medo e o horror 
tomaram conta dela. Depois que as duas saram, a mulher, olhando bem nos 
olhos de Mrcia, continuou: 
 A moa veio at aqui porque quer prender um homem do seu lado pra 
sempre... 
Ao ouvir aquilo, Mrcia estremeceu e perguntou: 
 Como sabe? Quem lhe contou? 
 Sei isso e muito mais. Sei que esse homem j tem famlia e est muito 
feliz agora. 
 No pode ser ele no pode estar feliz. Ele no pode me abandonar. Foi 
por isso mesmo que vim at aqui. O que pode fazer para me ajudar? 
#
 Pra ajudar a moa? Pra ajudar mesmo? 
  para me ajudar. Para isso estou aqui." 
" Se for pra ajudar a moa, s posso dizer: se levante e v embora. Pense 
na sua vida, em tudo que conseguiu at hoje, nas pessoas que prejudicou e 
nas que abandonou. Tambm posso dizer que fique, vamos fazer um 
trabalho pra esse homem no querer outra mulher que no seja a moa. Mas 
assim no sei se vou ajudar. 
Ao ouvir aquilo, Mrcia viu sua vida toda passar por sua cabea em questo 
de segundos. Ficou mais impressionada ainda. 
 No sei como descobriu e se descobriu alguma coisa a meu respeito, mas 
a nica coisa que me interessa  ter esse homem para mim e para sempre. 
Pode mesmo fazer isso? 
 Sim, mas tudo tem um preo. A moa est disposta a pagar? 
Mrcia lembrou-se das histrias que ouvira a respeito de explorao por 
pessoas como aquela e respondeu: 
 No tenho muito dinheiro, mas se estiver a meu alcance, eu pago. Quanto 
? O que vai fazer? 
 Vou fazer quatro bonecos. Em dois deles vou colocar o nome do homem; 
em outro, o nome da moa; e, no ltimo, o nome da mulher dele. A moa vai 
me trazer trs metros de fita preta e trs metros de fita branca. Com a fita 
preta vou amarrar o boneco com o nome dele junto com o boneco da mulher 
dele. No meio dos dois, nas partes de baixo, vou colocar uma agulha; e na 
parte de cima, no lugar da cara, um pedao de carne podre. Cada vez que 
os dois quiserem fazer amor, as partes de baixo vo doer e o cheiro das 
bocas vai ser muito ruim, e eles nunca mais vo conseguir. 
Mrcia acompanhava cada palavra da mulher e, em seu pensamento, ia 
visualizando a cena. Delirava de alegria ao ver os dois tentando se amar, 
sem, contudo, conseguir. Com os olhos faiscando, perguntou: 
 Tem certeza de que dar certo? Tudo isso acontecer mesmo? Ele vai 
sentir nojo dela? 
 Vai, sim, moa. Ele no vai conseguir chegar perto dela. 
 E com os outros bonecos? O que vai fazer?" 
" Vou amarrar com a fita branca. Nas partes de baixo vou colocar uma 
pimenta e nas partes de cima vou colocar um perfume. Cada vez que ele 
pensar na moa, as partes de baixo vo deixar ele louco de vontade de ficar 
#
com a moa. Quando estiverem juntos, o perfume vai deixar ele 
completamente louco de amor e de desejo. 
Mrcia continuava antevendo a cena em seu pensamento. Sentia todo o 
amor dele, amor para o qual ela nunca deu muita importncia, mas que 
agora ela queria e precisava. 

  s isso que quero. Foi para isso que vim at aqui. Quero ele assim, me 
desejando e me querendo cada vez mais. Quero que ele deteste e sinta nojo 
da mulher. Mas  s o que preciso fazer? To fcil assim? Eu mesma posso 
amarrar os bonecos. Eu mesma posso fazer isso. 
 No pode, no, moa. Alm de tudo isso, existe muita reza que a moa 
no sabe fazer. 
 Est bem. Sei que preciso pagar. Quanto ? 
 Pra meu cavalo so cinco mil. Para mim so sete garrafas de marafo, sete 
charutos e sete velas pretas, que a moa tem de levar na encruzilhada. 
 Cinco mil?  muito dinheiro! 
 Sei que pra moa o dinheiro vale muito, mas sei tambm que a moa tem 
como pagar, por isso  moa  que vai escolher. 
Mrcia pensou um pouco: 
Cinco mil  muito dinheiro. Mas, realmente, eu tenho e no vai me fazer falta. 
Se ela conseguir mesmo, vai valer a pena. 
 Est bem, eu pago. Pode fazer e, se der certo, dou outro tanto. 
 Moa, isso no pode ser feito assim. Eu dei o preo de meu cavalo e o 
meu, mas no falei ainda do preo que vai ser cobrado l de cima. No falei 
porque no sei qual vai ser. Isso  l com eles... mas posso dizer que vai ser 
bem alto. 
Mrcia entendeu o que ela quis dizer, mas para ela, naquele momento, nada 
importava a no ser ter Osvaldo para sempre. Na realidade, no era t-lo 
para sempre, mas no permitir que ele a trocasse por outra, mesmo essa 
outra sendo sua verdadeira esposa. Olhou para a mulher e falou:" 
" No me importa o que tenha de pagar. Quero que tudo o que me 
prometeu acontea. Se conseguir realmente fazer isso acontecer, no tem 
preo. Pagarei o que pedir. 
 A moa sabe com quem est falando? 
 Sei. Com a senhora, dona Durvalina. 
 No, ela  meu cavalo. A moa est falando com um Exu. A moa sabe o 
#
que  um Exu? 

 No, no sei. 
 Sei que a moa no sabe. Sei tambm que no est pensando bem 
naquilo que est pedindo. Por isso vou contar o que  um Exu. 
Mrcia estava sendo sincera: ela realmente nada sabia sobre aquilo. Durante 
toda a sua vida, s pensou em estudar e trabalhar, nunca se interessou por 
outros assuntos que no fossem esses. Por isso, sentiu at uma pequena 
curiosidade. 
 Gostaria de saber algo sobre isso. Nunca me preocupei, mas agora estou 
um pouco curiosa. 
 Por causa da curiosidade e vingana  que muita maldade  feita. Moa 
deixa isso tudo pra l. Volte para sua vida. Ela tem sido muito boa pra moa. 
Mrcia no entendia por que aquela mulher, ao mesmo tempo em que lhe 
pedia dinheiro por um trabalho que ela nem sabia o que era, lhe dizia 
aquelas coisas. 
 Estou mesmo curiosa. Se vou pagar, preciso saber do que se trata. 
A mulher bebeu um pouco de cachaa na prpria garrafa e jogou uma 
baforada de charuto sobre Mrcia. Pausada e calmamente, continuou 
falando: 
 Exu  um esprito escravo, tem de fazer tudo que mandam pra ele fazer. 
Ele pode fazer o bem e o mal; pra ele no tem escolha. Todo Exu sabe que, 
em um lugar que ele no sabe onde , existe uma escada que ele pode subir 
ou descer. Se a moa vem e pede pra fazer o bem pra algum ou pra moa 
mesma, sei que subo um degrau dessa escada; mas, se a moa pede pra 
fazer o mal, deso dez degraus. A moa est pedindo pra fazer o mal para 
uma famlia inteira. Se a moa quiser mesmo, vou ter de fazer e vou descer 
dez degraus. Por isso, vou ficar muito triste com a moa. Ainda por isso 
tenho de avisar: todo bem e todo mal tm sempre cinqenta por cento de 
volta. " 
"A moa faz o que quiser, mas tem de saber que cinqenta por cento vo 
voltar pra ela mesma de bem ou de mal. Se a moa esquecer tudo isso que 
est querendo e for embora, vai fazer um bem pra moa mesma e vai 
receber cinqenta por cento de bem; mas, se quiser fazer o mal para essa 
famlia, vai receber cinqenta por cento de mal, que fez, de volta. E mais 
cinqenta por cento por me ter feito descer dez degraus da escada. No final 
#
de tudo, a moa vai receber de volta cem por cento. 
Mrcia ficou impressionada pelo modo como aquela mulher falava. S agora, 
acostumada com a escurido, podia ver melhor seu rosto. Era uma mulher 
jovem ainda, mas seu rosto estava crispado, dando a ela a impresso de ser 
muito velha. Sua voz, embora no chegasse a ser, parecia de homem. 
Pensou um pouco e falou: 


 Se tudo o que est falando  verdade, no estou entendendo muito bem, 
mas sinto que estou correndo um grande risco. Acho melhor esquecer e ir 
embora. No vale a pena arriscar. 
 A moa  que sabe. Estou aqui pra fazer o que a moa quiser. S falei 
essas coisas porque sei que a moa ia fazer inocente, mas se a moa quiser, 
pode voltar. Eu fao. A moa tem uma nota de dinheiro a? No precisa ser 
de valor grande... uma nota qualquer. 
Mrcia, desconfiada, abriu a bolsa e tirou a nota de menor valor que possua 
e entregou-a para a mulher. Esta pegou a nota, enrolou-a e abriu-a vrias 
vezes, soltando sobre ela baforadas de seu charuto. Depois a dobrou e a 
devolveu a Mrcia, dizendo: 
 A moa vai andar pela rua e vai encontrar uma pessoa muito pobre. D 
essa nota para ela e se puder d mais alguma coisa. Estou fazendo isso 
para mostrar que tudo que falei  verdade. 
Ainda um pouco desconfiada, Mrcia pegou a nota e colocou a na bolsa, 
pensando: 
Seria uma prova se este lugar no fosse to pobre, mas, aqui por perto, deve 
haver muitas pessoas pobres, mesmo assim, vou ver. 
A mulher deu uma gargalhada e jogou mais uma baforada de charuto na 
direo de Mrcia." 
" Agora a moa pode ir embora. Pense bem em tudo que falei. Se quiser, 
pode voltar. Vou ficar aqui at que um dia encontre a tal escada. No precisa 
marcar consulta, viu moa? 
Mrcia levantou-se e deixou perto de dona Durvalina uma nota de cinqenta, 
que sabia ser o preo da consulta. 
Saiu. L fora as duas a esperavam ansiosas. Mrcia saiu com o rosto 
crispado; aquelas ltimas palavras da mulher realmente tinham tocado fundo 
em seu corao. 
Francisca levantou-se e entrou no quarto escuro. Mrcia sentou-se no banco 
#
que ficou vago. Marluce quis perguntar alguma coisa, mas no se atreveu, 
apenas ficou olhando a expresso da patroa. Francisca ficou com dona 
Durvalina por meia hora, depois Marluce entrou. Mrcia nada dizia. 
Francisca sentou-se ao lado dela. Ficou calada por um tempo, mas no 
agentou muito: 

 Ento, o que achou? Gostou? Ela sabe tudo mesmo, no ? 
Mrcia apenas respondeu com a cabea, confirmando, no queria falar. No 
respondeu  pergunta por que estava pensando: 
No entendo at agora como ela conseguiu descobrir tudo. No foram 
Francisca ou Marluce... Elas mesmas no sabiam, nem poderiam imaginar 
que eu viria aqui. Preciso me informar mais a respeito de Exu e dessa 
religio. 
Finalmente, Marluce saiu, e elas foram embora. O carro estava distante da 
casa; tiveram de fazer o caminho de volta andando. Quando atravessaram a 
rua, na primeira quadra, encontraram uma menina que por sua aparncia 
parecia ser muito pobre e tinha seis ou sete anos. Ela se aproximou de 
Mrcia, falando: 
 Moa, a senhora tem um trocado? 
Mrcia olhou para ela, seus olhos se encontraram e ela sentiu uma ternura 
inexplicvel por aquela menina desconhecida. Automaticamente, lembrou-se 
de dona Durvalina, dizendo que ela encontraria uma pessoa pobre, mas 
aquela menina tinha algo mais que ela no sabia explicar. Abriu a bolsa e 
estava tirando a nota quando ouviu em suas costas algum dizendo:" 
" Lenita! Pedindo dinheiro de novo? J falei que no quero que faa isso! 
Mrcia deu a nota para a menina e voltou-se para olhar quem estava 
falando. Era uma mulher que, sem olhar para ela, balanava o brao da 
menina, enquanto dizia: 
 Devolva esse dinheiro pra moa! A gente  pobre, mas no precisa pedir! 
Trabalho muito pra lhe dar tudo o que precisa! 
Mrcia ficou parada, branca como cera... diante dela estava sua me. Estava 
mais velha, tinha os cabelos brancos, mas era a mesma que havia visto no 
noticirio da televiso. Ficou olhando sem saber o que fazer ou falar. O que 
mais desejava naquele momento era sumir dali. Enquanto a mulher falava 
com a menina, ela pensava: 
No sei o que fazer. Como vim parar neste lugar? E agora? Vou ter de falar 
#
com ela. Nunca quis isso, e no quero agora. 
A mulher olhou para ela e devolveu o dinheiro: 

 Obrigada, moa, por sua bondade, mas a gente no precisa, no. 
Mrcia percebeu que ela no a tinha reconhecido. A ltima vez que a vira foi 
quando dona Leonor morreu, j fazia mais de dez anos. Naquele tempo, 
Mrcia era magra e franzina, tinha os cabelos curtos e negros. Hoje, mulher 
feita havia mudado muito, e sua me no prestara muita ateno nela, s 
queria desculpar-se pela menina. Deu um sorriso amarelo para a me e saiu 
rapidamente. 
Foi muito bom ela no ter me reconhecido. Seria embaraoso, 
principalmente na presena de Marluce e de sua amiga. 
Chegaram ao carro. Ela deixou as duas em um ponto de nibus, porque elas 
moravam longe dali. Voltou para seu apartamento. J eram mais de sete 
horas. Entrou, sentou-se em sua poltrona preferida, ficou pensando em tudo 
que havia acontecido naquele dia. Sentiu um forte cheiro de charuto. Cheirou 
suas roupas e seus cabelos. 
No sinto cheiro algum. Deve ser porque fiquei muito tempo dentro daquele 
quarto.  melhor eu tomar um banho... s assim conseguirei livrar-me deste 
cheiro. 
Entrou no chuveiro. Enquanto se banhava, pensava:" 
"Tudo o que aquela mulher disse me pareceu muito srio. Fez questo de 
que eu soubesse o que pretendia fazer. Disse tambm que poderei receber 
de volta o que fizer. No acredito em nada disso, mas Francisca disse que 
ela afastou algum da esposa. Vou deixar isso para l. Estou agora 
pensando naquela menina. Minha me na televiso disse que no sabia 
onde estava sua neta. Seria aquela menina? Ser que  filha de meu irmo? 
Aqueles olhos... por que senti que j a conhecia? Por que senti que ela  
algum que amo? No pode ser... Nunca a vi antes... 
Saiu do banho. Em frente ao espelho, admirou seu rosto. Deu um sorriso. 
Sabia que era uma mulher bonita. Seus longos cabelos negros, lindos e 
brilhantes... Sempre os tratou com os melhores produtos. Sua pele clara e 
olhos de um castanho claro davam a ela uma aparncia realmente formosa. 
No sei por que fiquei to brava com Osvaldo. Sou bonita, posso ter o 
homem que quiser. Ele que continue ao lado daquela mulherzinha insossa. 
Vou escolher agora um homem para mim, mas ser perfeito. Tem de ser 
#
perfeito, porque vai ser o pai de meu filho! 
Novamente sentiu o cheiro de charuto. 
Devem ser estas roupas; vou lev-las para a lavanderia. 
Passava pela sala quando escutou o interfone tocando. Atendeu: 


 Pois no. 
 O senhor Osvaldo est aqui para falar com a senhora. Posso deixar 
subir? 
Ela refletiu por um momento. Estava vestida s com um roupo. Sorriu, 
falando: 
 Pode mandar subir, obrigado. 
Voltou a sentir muita raiva. Queria saber qual a mentira que ele diria agora. 
Foi para seu quarto e passou pelo corpo o perfume preferido de Osvaldo. 
 Vou provoc-lo e, quando estiver pronto, eu o mandarei embora, para que 
nunca mais volte. 
A campainha tocou e ela foi abrir a porta. Ele estava ali em sua frente, com o 
rosto preocupado. Ela sorriu. 
 Pensei que nunca mais voltaria a v-lo. Foi bom que veio. Precisamos 
conversar. 
Abraou-o, e procurou sua boca. Ele se afastou, dando um beijo em seu 
rosto. Ela sorriu, pensando:" 
"Veremos at quando resistir. 
Entraram. Ela ofereceu uma bebida, ele aceitou. Preparou uma para cada 
um e sentaram-se. Um pouco desajeitado, Osvaldo disse: 
 Estou aqui para que possamos ter uma conversa definitiva. Clarice, 
depois de muito tempo, no suportou mais a solido e o desprezo que eu lhe 
fazia passar e resolveu me abandonar. Foi para o Paran viver com seus 
pais. 
 No foi isso que vi no restaurante. Parecia que estavam muito felizes. 
 Estvamos mesmo... E estamos. No suportando sua ausncia e a de 
meus filhos, fui atrs dela e a convenci de que a amava e a queria de volta. 
 Voc fez isso, Osvaldo? Por qu? Essa seria a oportunidade de ficarmos 
juntos... 
 Voc nunca deixou transparecer que queria isso, Mrcia. Disse sempre 
que era uma mulher independente e que no queria um compromisso srio. 
 Nunca quis mesmo, mas agora estou pensando seriamente nisso. Estou 
#
com trinta e quatro anos e est na hora de ter um marido e filhos. Hoje, sei 
que voc  o homem que quero para ser meu companheiro e pai de meus 
filhos. 

 Para isso estou aqui. Preciso te contar tudo. Descobri que amo minha 
esposa, que no posso viver sem ela, por isso tudo entre ns est acabado. 
Quero ser de agora em diante o marido e pai que nunca fui. Vou me dedicar 
inteiramente a eles. Estou aqui para colocarmos um ponto final em nosso 
relacionamento. Vamos recomear nossas vidas. Tenho por voc um imenso 
carinho, mas  a ela que amo. Agora que descobri isso, no posso mais trala, 
no conseguiria. 
Mrcia sentiu uma onda de dio invadir seu corpo. Mas, sendo sempre muito 
controlada, manteve-se impassvel, como se nada que ele estivesse falando 
a atingisse. Olhou para ele amorosamente, fixou bem seus olhos e o abraou 
com muito amor. Seu roupo soltou-se de um lado e suas pernas bonitas 
ficaram transparecendo. Enquanto beijava seu rosto e pescoo, dizia:" 
" Voc no pode estar dizendo a verdade. Sei que me ama do mesmo 
modo que eu o amo. Se no fosse assim, no teramos ficado tanto tempo 
juntos. Sinta meu perfume... Coloquei-o s para lhe agradar, vamos 
continuar como sempre, no precisamos nos casar. Apenas ficaremos como 
antes, nos vendo e nos amando... Voc no precisa se separar s no me 
deixe... no sei como viverei sem voc... te amo muito... 
Ele, com os olhos fechados, sentindo aqueles lbios tocando-o, por um 
minuto se entregou, mas voltou  realidade, afastou-se dos braos dela e 
disse: 
 No adianta! Resolvi que vou ser feliz ao lado da mulher que 
verdadeiramente amo. No farei mais nada que possa faz-la sofrer. 
Mrcia no desistiu. Voltou a abra-lo. 
 No sabe o que est dizendo. Ns nos amamos, por sete anos vivemos 
felizes. Voc no pode simplesmente jogar tudo para o alto. Eu te amo... 
Tentou beij-lo novamente, mas ele, agora de forma brusca, se afastou. 
Levantou-se e, em p, a certa distncia, disse: 
 Sinto muito, mas no posso. Tenho uma famlia que amo. Por muito tempo 
estive afastado deles, mas agora usarei todos os momentos disponveis para 
lhes proporcionar felicidade. Voc  uma mulher bonita, independente, tem 
dinheiro e cultura, poder ter o homem que quiser. Esquea-me e procure 
#
refazer sua vida, como estou fazendo com a minha. 
Em uma ltima tentativa, ela deixou o roupo cair e estendeu os braos para 
ele, num convite sedutor, mas ele olhou para ela, mandou-lhe um beijo com 
a ponta dos dedos e foi embora. 
Mrcia ficou ali parada, nua e sentindo muito dio. Pegou o roupo e jogou-o 
sobre as costas. Seu corpo tremia num misto de frio e de dio. 
No consigo acreditar que isto esteja acontecendo! Quem ele pensa que  
desprezando-me dessa maneira? Ele tem razo: sou independente e bonita! 
Posso ter o homem que quiser, quando quiser! " 
"Acontece que eu quero s ele. Nem que seja para depois desprez-lo, mas 
agora, neste momento, eu o quero com todas as foras de meu ser! E 
ningum, ningum mesmo, vai impedir que eu o consiga de volta! 
Foi para seu quarto e deitou-se. Na posio fetal, comeou a chorar, no 
sabia se de dor ou de dio. Chorou muito. Adormeceu sem perceber. Sonhou 
com um campo muito verde, onde havia uma alameda. Olhou para o 
horizonte e viu uma silhueta correndo em sua direo. Quando a figura se 
aproximou, ela percebeu que era a menina que havia conhecido, Lenita, que, 
naquele momento, corria para ela abrindo os bracinhos e sorrindo. Mrcia, 
muito feliz, abriu os braos para receb-la, mas a menina desapareceu. 
Acordou tremendo e suando. Abriu os olhos e notou que estava em seu 
quarto. Sentiu frio, estava com o corpo descoberto. O roupo, que estava 
apenas em suas costas, cara. Cobriu-se com o cobertor e ficou pensando: 
Que sonho estranho... aquele lugar era muito bonito. A menina, com certeza, 
era Lenita; talvez um pouco menor, mas era ela. Que felicidade senti quando 
a vi correndo e que desespero senti quando ela desapareceu. Quem ser 
essa menina que me faz to bem? 
Recolocou o roupo, que estava nos ps da cama. Levantou-se e foi at a 
cozinha. A mesa, como sempre, estava posta e seu jantar deveria estar no 
forno. Marluce era dedicada e tratava-a muito bem. Abriu o forno e olhou 
para a comida. Na geladeira, havia uma travessa com salada, bastaria a ela 
temperar. Mas estava sem fome, no queria comer nada. Sentia como se em 
sua garganta houvesse um caroo que no deixava passar alimento algum. 
Pegou um copo com leite e voltou para seu quarto. Olhou o relgio: era 
meia-noite e quarenta. Vestiu seu pijama e voltou para a cama." 

#
"Amanh  sexta-feira, no posso faltar ao trabalho, mas no sbado pela 
manh voltarei  casa de dona Durvalina e mandarei fazer o tal trabalho. 
No importa o preo que terei de pagar. Quero esse homem a meus ps. Eu 
o terei com certeza. Nem que para isso tenha de vender minha alma para o 
diabo! 
Sentiu novamente o cheiro de charuto. Cheirou suas roupas e nada. Pensou: 
Esse cheiro deve estar impregnado em minha pele. 
Ela no podia ver com os olhos fsicos, mas, se pudesse, veria vultos negros 
que a envolviam em uma dana macabra." 


#
Direito  justia 

"No dia seguinte, Mrcia acordou na hora certa. Cumpriu sua rotina de se 
preparar para o trabalho. Enquanto se vestia, no conseguia esquecer 
Osvaldo falando-lhe aquelas coisas horrveis e indo embora, apenas 
mandando um beijo com a ponta dos dedos. Seu dio aumentou e pensou 
com muita raiva: 
Alm de tudo, ainda saiu me humilhando com aquela atitude. Eu o odeio! 
Vou me vingar! Se ele pensa que vai me usar e depois jogar fora, est muito 
enganado! Se tudo que dona Durvalina disse for verdade, eu o verei aqui 
rastejando a meus ps! 
Trabalhou o dia inteiro. Por mais que tivesse problemas particulares, seu 
trabalho era sagrado. Ainda mais agora, com o doutor Fernando doente, ela 
teria de mostrar ao presidente que era uma pessoa eficiente. Quando,  
tarde, todos foram embora, ela sozinha, no escritrio, lembrou-se de 
Osvaldo. Tornou a v-lo mandando-lhe o beijo com a ponta dos dedos e 
saindo sem nada dizer. Seu dio aumentava cada vez mais. 
Nunca aceitarei isso! Eu, que sempre consegui tudo na vida! No importa o 
que tenha de fazer, terei aquele homem de volta! Quando voltar implorando 
meu amor, conhecer uma nova Mrcia, que ele nunca pensou existir! Farei 
com que sofra muito! Aps t-lo de volta, vou abandon-lo. Eu quero 
abandonar! No aceito ser abandonada. Nunca. Nunca! 
Sobre sua mesa havia uma foto com todos os funcionrios, tirada em uma 
festa de fim de ano. Olhou um por um e pousou os olhos no rosto de Farias. 
Sorrindo, pensou: 
Ele tambm se julgou melhor que eu. E viu o que lhe aconteceu... 
Lembrou-se de tudo novamente: como conseguiu que ele se afastasse da 
empresa depois de tantos anos. Sorriu novamente. 
Sou mesmo sensacional! Lembro como se fosse agora. Naquele dia, ele, 
desesperado, implorava: 

 Mrcia, por favor, voc no pode fazer isso. Vai destruir minha famlia! 
 Claro que posso! No tenho nada a ver com sua famlia. Voc  quem 
deve se preocupar com ela. Mant-la bem  sua responsabilidade..." 
" No posso sair da empresa. Estou aqui h muito tempo e estou velho 
para conseguir outro emprego como este. 
#
 O problema no  meu,  seu. Sou jovem e preciso pensar em meu 
futuro, e ele neste momento est em suas mos. 
 Por ser jovem, voc poder conseguir uma clientela prpria, como eu fiz. 
Eu  que no tenho mais energia para isso. 
 Por que me dar a todo esse trabalho? Sua clientela j est conquistada e 
pode ser minha. Vou lhe dar trs dias e, se no pedir demisso, mandarei as 
fotos para a presidncia e para sua mulher. 
 No teria coragem de fazer isso. Meus filhos esto casados e nunca me 
perdoariam. Sabe como esta empresa  conservadora, eu seria demitido na 
mesma hora... 
 Por isso mesmo estou te avisando.  melhor pedir a demisso e sair com 
dignidade. Do contrrio, perder o emprego da mesma maneira e ainda ser 
humilhado. 
Mrcia relembrou que, no dia seguinte, chegara  notcia de que ele se havia 
envolvido em um acidente na estrada com mais quinze carros e que havia 
morrido. Seu carro ficou totalmente destrudo no meio dos outros. Muitas 
pessoas se feriram, mas s ele morreu. As pessoas envolvidas no acidente 
no conseguiram dizer como tudo acontecera. Estava uma noite fria e com 
muita neblina. De repente, os carros foram batendo uns nos outros, no se 
podendo dizer qual havia sido o culpado. O carro de Farias estava voltado 
para trs, no sentido contrrio ao trfico. Deduziu-se que, com a batida, ele 
foi virado pelos demais. Mrcia e os outros funcionrios ficaram 
consternados. Durante o velrio, a empresa, por meio de um de seus 
diretores, prestou homenagem a ele pelos servios prestados. Todos os 
funcionrios gostavam muito dele e por isso compareceram tambm. Mrcia 
mostrava-se triste como os demais. Aps o funeral, ela foi para casa e ficou 
imaginando o que diria quando fosse chamada para ocupar o lugar que 
antes pertencera a ele. No dia seguinte, quando voltou ao trabalho, foi 
chamada  sala de seu superior. Assim que entrou, ele disse:" 
" Mrcia, infelizmente Farias se foi de nosso lado. Estamos tristes, porque 
ele era amado por todos, inclusive por minha famlia, pois ele era nosso 
amigo particular, mas a empresa e nossas vidas devem continuar. Ele 
sempre falou muito bem de voc, sempre disse que era uma moa capaz e 
com grandes chances de crescimento. Por isso estou lhe pedindo que 
continue trabalhando com os clientes que eram dele. Tenho certeza de que 
#
far o possvel para que tudo caminhe bem. Sei que, de onde ele est neste 
momento, est aprovando minha atitude. 
Mrcia, agora relembrando tudo, abriu um sorriso: Enquanto ele dizia aquilo, 
eu, fazendo um enorme esforo, deixei que algumas lgrimas cassem pelo 
meu rosto. Com a voz embargada, respondi: 


 Eu tambm sentirei muito sua falta, pois devo tudo que sou e que sei a 
ele. Ensinou-me tudo como se fosse meu pai, ou um amigo sincero. A melhor 
maneira para homenage-lo ser fazer com que seu trabalho continue sem 
soluo de continuidade. Sei que estar feliz por me ver fazendo tudo quilo 
que me ensinou. No o envergonharei nunca... 
 Tenho certeza de que assim ser. 
Sa daquela sala e voltei para a minha, onde pude secar as lgrimas e 
comemorar: 
Consegui! Consegui! Ningum jamais desconfiar que eu fiz aquelas 
ameaas! Se soubesse que ele logo morreria, teria esperado mais um 
pouco. Agora, tenho de mostrar minha capacidade. Obrigada, Farias. 
Pegou a fotografia que estava sobre a mesa, olhou para o rosto de Farias, 
sorriu e recolocou a foto no lugar. 
Naquele mesmo instante, como se tivesse sido atingido por um raio, Farias 
abriu os olhos: continuava ainda naquele lugar horrvel. Ao relembrar tudo o 
que havia acontecido, comeou a gritar: 
 Onde estou? Que lugar  este? 
O lugar era realmente horrvel: escuro, lamacento e malcheiroso. Ele ouvia 
gritos. Assustado, pensou:" 
"Esses gritos esto me deixando louco. Estou escondido nesta espcie de 
caverna, fugindo de figuras horrendas que me perseguem o tempo todo. Sei 
que, a qualquer momento, elas me encontraro e terei de fugir novamente. 
No entendo o que est acontecendo, mas, s de me lembrar das figuras, 
sei que preciso ficar quieto o mais que puder. J estou cansado de procurar 
uma sada e no encontrar. Por mais que ande e me esconda, essas figuras 
sempre me encontram. Que lugar  este? Como vim parar aqui? Estou sujo, 
com as roupas rasgadas e sinto muito frio e fome, mas o medo que estou 
sentindo me faz ficar escondido, sem coragem para nada. 
Estava assim, desesperado, com as mos tapando seus olhos, quando 
sentiu uma mo em seu ombro. Assustou-se e pulou para o lado, tentando 
#
livrar-se daquela mo. Um homem, tambm sujo e com a vestimenta 
rasgada, disse: 

 No precisa ficar com medo. Estou aqui para te ajudar. Meu nome  
Gervsio. H muito tempo estou te observando e creio que agora chegou  
hora de falar com voc. 
Farias no entendia por que, mas acreditou naquele homem. Perguntou: 
 Que lugar  este? Por que no encontro uma sada? Que figuras so 
essas que querem me pegar? 
 Vejo que o amigo tem muitas perguntas. Vou tentar responder a todas. 
 Por favor, faa isso. Estou desesperado, sem entender nada. 
 Este lugar  chamado de Vale dos Suicidas. 
 Suicidas? Est louco! No estou morto. Estou vivo, e muito vivo. Muito 
menos me suicidei. Que estou fazendo aqui? 
 Se est aqui,  porque deve ter se suicidado. Voc nunca ouviu falar da 
vida aps a morte? 
 Claro que ouvi, mas nunca dei muita ateno para essas coisas de 
religio; precisava trabalhar. Mas no consigo acreditar que eu esteja morto. 
No consigo! 
 Est, sim, meu amigo, assim como eu e todos os moradores deste vale. A 
morte, assim como a vida, no passa de iluso. 
 Se o que est dizendo for verdade, ento realmente posso estar morto. 
Mas com certeza no me suicidei. Eu no tive culpa. Fui obrigado por aquela 
mulher. Ela  um monstro." 
" Ningum tem o poder de nos obrigar a nada. S fazemos o que 
queremos. Se voc se suicidou, a culpa foi s sua. 
 Est dizendo isso porque no a conhece. Ela me obrigou. 
 Quer me contar o que aconteceu? 
 Vou contar tudo como aconteceu e ver que a culpa foi toda dela. Mrcia 
entrou bem jovem na empresa em que eu j trabalhava havia muito tempo. 
Era graciosa e sorridente e, com o passar do tempo, conquistou minha 
amizade. Aos poucos, fui passando a ela toda a minha experincia. Ensinei-
lhe todo o ofcio que levei anos para aprender. Ela, muito inteligente, tornou-
se uma tima vendedora, s que no se deu por satisfeita, e quis meu lugar, 
a clientela que levei tanto tempo para conseguir. Ela se mostrava amiga e 
confidente, por isso revelei a ela algumas particularidades de minha vida. Era 
#
casado havia muitos anos, tinha quatro filhos, todos adultos e bem 
posicionados na vida. Mas havia muito tempo eu possua uma outra mulher. 
Conseguia manter uma vida dupla. Essa outra mulher me era muito 
importante. Sabia que eu era casado, mas aceitou-me assim mesmo, por me 
amar muito. A empresa e minha famlia eram muito conservadoras e jamais 
aceitariam essa situao. Mrcia, aps eu ter lhe contado tudo, contratou um 
investigador particular para me seguir. Um dia me chamou, dizendo: 

 Farias, creio que  hora de voc pedir demisso da empresa. 
 Por que eu faria isso? Estou aqui h muito tempo e pretendo ficar por 
muito mais. Mas por que est dizendo isso? 
 Porque quero e preciso de sua clientela. E s posso consegui-la se voc 
pedir demisso. 
 O que a leva a crer que farei isso? 
 Ela tirou da bolsa um envelope e me entregou. Eu o abri, e dentro havia 
vrias fotos minhas com a outra mulher. Em algumas, estvamos abraados 
no supermercado, em outras nos beijando no porto de sua casa, quando eu 
me despedia. Todas eram comprometedoras. Com as fotos nas mos, 
perguntei: 
 Que pretende fazer com estas fotos?" 
" Mandarei cpias para sua esposa e para os diretores da empresa. Sabe 
como so conservadores... Alm de perder o emprego, perder tambm a 
famlia. 
 Comecei a tremer. Sabia que ela tinha razo. Pedi, implorei, mas ela se 
mostrou insensvel. Cinicamente, disse: 
 Se pedir demisso, poder obter a aposentadoria. Diga  sua famlia que 
est doente. Se no pedir, mostrarei a todos estas fotografias e darei o 
endereo de sua outra casa. Ser desprezado. Voc  quem sabe... Vou te 
dar trs dias para pensar no que vai fazer. Depois disso, sabe que no 
hesitarei em mandar as fotos. 
 Ela saiu e eu fiquei ali com as fotos nas mos, sem saber o que fazer. Eu 
no poderia pedir demisso. O dinheiro que ganharia com a minha 
aposentadoria no daria para manter minha famlia com o mesmo padro de 
vida. Pensei muito, mas no encontrava sada, Gervsio. 
 Se tivesse pensado um pouco mais, Farias, veria que sempre h uma 
sada. Mas o que fez em seguida? 
#
 Sa dali completamente transtornado, Gervsio! J na estrada, dirigindo 
meu carro, ia vendo o rosto dela me dizendo todas aquelas coisas. Via 
tambm o rosto de minha mulher, de meus filhos e dos diretores da empresa. 
Fiquei cada vez mais desesperado. A noite estava fria e havia um pouco de 
neblina. Em meu desespero, pensei que a nica soluo seria morrer, mas 
no poderia me suicidar, porque assim minha famlia no receberia o seguro. 
Se eu morresse, tinha certeza de que a empresa no os abandonaria. No 
sei como tive aquela ideia. Em uma manobra, virei o carro no sentido 
contrrio em que estava. S senti a primeira batida. Depois no vi mais 
nada. Quando recuperei os sentidos, estava aqui neste lugar, sem entender 
o que estava havendo. No sei o que aconteceu com minha famlia nem com 
minha amante, a quem tanto amo. S sei que, se cometi suicdio, a culpa 
no foi minha, foi da Mrcia! Eu a odeio! 
 Voc no precisava ter feito isso. Poderia ter encontrado outra soluo. 
 No existia outra soluo! No existia!" 
" Existia, sim, Farias: voc poderia ter enfrentado Mrcia, ter acreditado no 
amor de sua famlia e no quanto era admirado por seu trabalho. Poderia 
contar a todos aquilo que acreditava ser um erro. Quem lhe garante que eles 
no entenderiam a situao? 
 No. Eles no entenderiam. Eu os conheo. Mas Mrcia foi  culpada.  
uma injustia eu estar aqui. Se no fosse por ela, ainda estaria vivo.  uma 
injustia! 
 Posso afirmar que sempre existe uma soluo para tudo, mas, se insiste 
em dizer que sofreu uma injustia, vou levar voc para que converse com 
algum que vai ajudar. Venha comigo. 
 No posso sair daqui. Os monstros vo me pegar. 
 No se preocupe nem tenha medo: Vou lev-lo em segurana. Venha. 
Farias continuava assustado, mas sabia que no poderia continuar ali. 
Sentiu que aquele homem poderia ajud-lo. Olhando para os lados e 
segurando no brao de Gervsio, foi caminhando. Gervsio entrou por vrios 
corredores. Andava parecendo conhecer muito bem o caminho. Aos poucos, 
Farias foi ficando confiante. Embora o caminho fosse muito escuro e 
lamacento, as figuras feias no os atacavam. Depois de andarem por muitos 
lugares, finalmente chegaram a um corredor iluminado. Entraram em uma 
sala onde havia uma mesa. Um homem que estava sentado, assim que 
#
entraram, levantou-se e, sorrindo, disse: 

 Gervsio, novamente aqui! Por quem est acompanhado? 
 Sim, Damio, estou aqui novamente. Trago comigo Farias. Ele quer lhe 
falar; diz que sofreu uma injustia. 
 Seja bem-vindo, meu irmo. A Lei de Deus  sempre justa e perfeita, mas, 
se eu puder ajud-lo, estou aqui para isso. Quer me contar o que aconteceu? 
Farias sentiu um profundo respeito por aquele homem que lhe transmitia 
muita paz. Contou tudo o que acontecera. Damio o ouviu sem interromper. 
Quando Farias terminou de falar, olhou para Damio. Este, tambm o 
olhando, disse: 
 Sinto que j terminou de contar. Preciso saber: o que quer que eu faa? 
 Quero justia. Mrcia  a nica culpada." 
" A Lei  justa. Ela serve para nos ajudar a encontrar nosso caminho. Voc 
diz que sofreu uma injustia... se isso realmente aconteceu, ter o direito de 
exigir que a Lei seja cumprida. Mas pode tambm usar a maior lei que existe. 
Essa lei  a lei do amor, que a tudo perdoa. 
 Perdoar? Nunca! No posso perdoar. Ela me destruiu! 
 O perdo sempre foi e ser o nico caminho para se chegar a Deus. Sem 
ele, nos afastamos da felicidade e da perfeio para sempre. 
 No! No vou perdoar! Se essa Lei existe, se  para todos, exijo, como 
direito, que ela seja usada a meu favor! 
 Est bem. Se  isso que deseja, assim ser. Gervsio pode acompanhlo. 
Ele tem o direito de usar a Lei. 
 Sim, farei isso, Damio. Farias, vamos? 
Farias estava encantado com a oportunidade de poder se vingar daquela 
mulher que foi a causa de todo o seu sofrimento. Voltou-se para Gervsio, 
que estava um pouco atrs dele. 
 Claro que vamos! Senhor Damio, estou muito agradecido por esta 
oportunidade. 
Damio, com o rosto triste, respondeu: 
 No precisa agradecer. Infelizmente, sei que ela est prestes a cometer 
algo muito ruim. Gostaria de poder intervir, mas no posso. Porm tenho 
esperana de que, como todo esprito, ela tenha dentro de si e saiba 
encontrar a bondade e o amor de Deus. Tenho esperana de que, por isso, 
vai se libertar desses pensamentos. Se assim fizer, conseguir se afastar do 
#
mal. Portanto tambm estar protegida e poder encontrar a paz. Se isso 
acontecer, meu irmo, se ela persistir no bem, voc tambm no poder 
fazer nada. Esta  a Lei. Gervsio, voc vai acompanh-lo. Deixe que faa 
tudo que quiser. Ele tem esse direito, j que julga ter sofrido uma injustia. 
Mas preciso dizer-lhe algo mais, Farias: tente usar esse direito para perdoar 
e amar. S ganhar com isso. 

 Ela  m e gananciosa! Vai fazer essa ruindade que o senhor est 
dizendo, sim. Para ela no existe ningum alm dela mesma.  ruim, no vai 
pensar um minuto para prejudicar outra pessoa. Tenho certeza!" 
" Se assim for, se ela fizer o mal, ser toda sua. Gervsio olhou para 
Farias e disse: 
 Meu amigo, vou lhe pedir mais uma vez: abandone essa ideia de 
vingana, acredite que a Lei  justa. Ser muito melhor para voc. 
 Nunca! Por culpa dela estou aqui neste lugar horrvel. Ela no pode ficar 
impune! Usarei todas as armas que possuir para destru-la! 
Damio fez um sinal com a mo. Gervsio entendeu, segurou o brao de 
Farias e puxou-o. Farias fez uma reverncia para Damio, este os abenoou 
com um sorriso e saram. 
Enquanto os dois saam, Farias impressionado com aquela figura, 
perguntou: 
 Gervsio, quem  esse homem?  um santo? 
Gervsio sorriu e respondeu: 
 No, ele no  um santo.  um esprito de luz e, como todos, est nos 
encaminhando para o aperfeioamento. Ele est e estar sempre aqui para 
nos ajudar. Agora, vamos para onde voc quer, para junto dela. Feche os 
olhos... 
Farias confiava em Gervsio, pois ele o estava ajudando. Quanto a Damio, 
no entendia bem o que sentia, pensou: 
Ao mesmo tempo em que o respeito, sinto medo de sua presena. 
Assim pensando, acompanhou Gervsio." 
#
A fora do amor 

"Quando abriu os olhos, Farias estava dentro do carro de Mrcia, que voltava 
para casa. Ela, enquanto dirigia, ouvia msica e ia pensando nele. Ele foi um 
covarde! Se eu estivesse no lugar dele, teria contado tudo para a minha 
famlia. No teria me curvado perante uma chantagem. S sinto que tenha 
morrido to rpido. Se soubesse que seria assim, no teria feito nada, 
bastaria s esperar. 
Ao ouvir aquilo, Farias tomado de dio, quis se jogar sobre ela, mas foi 
impedido por Gervsio. 

 No deve fazer isso. 
 Ela no est nem um pouco preocupada com meu destino. 
 Estou vendo, mas ela est agora dirigindo um carro. Se a atacar, poder 
causar um acidente e prejudicar no s ela como outras pessoas. Se isso 
acontecer, ser sua culpa e voc ser o responsvel. A Lei se voltar contra 
voc. 
 Eu serei o responsvel? Nunca fiz mal a ningum. Ao contrrio: sempre 
procurei ajudar. A ela mesma, ajudei, ensinei tudo o que sabia. Ela  quem  
m. 
 Est certo, mas voc est aqui para vingar-se dela, no para pr em risco 
a vida de outras pessoas. Tenha calma. Vai poder usar sua fora, mas s 
contra ela. 
Enquanto isso, Mrcia, alheia  presena deles, chegou  garagem do 
prdio. Tomou o elevador e entrou em seu apartamento, acompanhada por 
Farias e Gervsio. Abriu a porta. Foi direto para seu quarto. Havia trabalhado 
muito, estava cansada. Tirou a roupa e dirigiu-se ao banheiro para tomar um 
banho. Farias seguiu-a, dizendo: 
 Voc vai agora conhecer meu dio. Vou destru-la. J sei como farei. Est 
com vontade de beber, Mrcia? Beba. Vai se sentir melhor. 
Ela, parecendo ouvir, foi at a sala, pegou um copo, encheu de vinho e 
comeou a beber. Farias continuou: 
 Isso! Beba muito! Vou fazer com que perca tudo que conseguiu com sua 
maldade. 
Ela continuou bebendo. Lembrou-se de Osvaldo, e o dio voltou:" 
#
"Quem ele pensa que ? Nunca conseguirei esquecer o gesto que fez, 
mandando-me aquele beijo com a ponta dos dedos e deixando-me ali 
sozinha. Nua. No perdoarei nunca! Vou t-lo de volta! Farei qualquer coisa. 
Amanh bem cedo irei novamente  casa de dona Durvalina, levarei o 
dinheiro e mandarei fazer o tal trabalho. Ningum impedir minha vingana. 
Por estar cansada e embriagada, dormiu logo, mas foi um sono agitado. 
Sonhava e acordava, no conseguindo dormir tranqilamente. Pela manh, 
acordou, sentindo dores pelo corpo, a cabea doendo muito. No entendia 
por que no havia dormido bem. Pensou: 
No dormi a noite toda. Deve ser o dio que estou sentindo por Osvaldo. Vou 
at a casa de dona Durvalina mandar fazer o trabalho. Ele tem de voltar. Eu 

o quero arrastando-se a meus ps, e depois, o abandonarei para nunca mais 
voltar a v-lo! 
Era muito cedo, mas mesmo assim pegou o carro e saiu dirigindo sem 
destino. Foi fazer algumas compras para esperar o tempo passar. Quando 
acreditou ser a hora certa, foi em direo  Marginal e  casa de dona 
Durvalina. Teve alguns problemas, pois no conhecia muito bem o caminho, 
mas finalmente encontrou a rua. Deixou o carro no mesmo lugar que deixara 
da outra vez, longe da casa, e foi caminhando. Havia muitas crianas 
brincando. Pensou: 
Como  bom ser criana... Elas brincam sem entender sua real situao. Eu 
tambm fui assim, brincava sem entender a pobreza em que vivia, mas 
assim mesmo eu era feliz. S quando cresci foi que realmente entendi minha 
situao. 
Umas dez casas antes da de dona Durvalina, algumas crianas haviam 
desenhado no cho uma amarelinha. Ela se lembrava muito bem dessa 
brincadeira. Sorriu. 
Viu Lenita, que, sentada em um degrau, olhava as crianas brincando. 
Mrcia notou que ela estava com o rosto triste. Sem saber por que, 
aproximou-se, perguntando: 
 Por que no est brincando? 
 No posso. Sou doente e no posso pular muito." 
" Doente? Que doena? 
 No sei. Parece que  do corao. O mdico disse que no posso fazer 
esforo, por isso fico s olhando. 
#
Mrcia sentiu um grande aperto no corao. Aquela menina, no sabia por 
que, representava muito para ela. Sentiu muita vontade de abra-la, mas 
novamente se lembrou de quem era e no podia misturar-se com aquelas 
pessoas, embora fossem parte de sua famlia. Apenas sorriu e continuou 
andando. Seu corao pedia que voltasse, abraasse e ajudasse aquela 
menina, mas sua mente a impedia de faz-lo. Estava quase chegando  
casa de dona Durvalina, quando ouviu gritos desesperados das crianas. 
Voltou-se e viu Lenita deitada no cho e as outras crianas gritando. 
Correndo, foi at elas: 

 Que aconteceu? 
 No sei dona. Ela caiu e ficou assim. 
Mrcia viu Lenita muito branca e respirando com dificuldade. 
 Onde ela mora? Onde est sua me? 
 Ela est morando na minha casa e no tem me, mora com a av e ela 
est trabalhando. Vou chamar minha me. 
Mrcia, pegando a menina no colo, desesperada, disse: 
 Faa isso. V chamar sua me. Vou lev-la a um hospital. 
O menino saiu correndo. Mrcia lembrou que o carro estava distante. 
Embora a menina fosse muito magrinha, no conseguiria chegar ao carro 
com ela nos braos. Tornou a deit-la no cho, falando para as outras 
crianas: 
 Fiquem com ela, mas no muito perto, ela precisa ter ar para respirar. Vou 
buscar meu carro e volto logo. 
As crianas, assustadas, acenaram com a cabea para ela ver que 
entenderam e afastaram-se um pouco. Depois de colocar a menina 
novamente no cho, Mrcia saiu correndo em direo ao carro. 
Quando voltou, a me do menino j estava agachada junto  Lenita, que 
continuava desacordada. Mrcia parou o carro, falando: 
 Vou lev-la a um hospital. Seria bom se a senhora viesse comigo." 
"A mulher comeou a levantar a menina. Mrcia ajudou-a e as duas a 
colocaram no banco traseiro. A senhora entrou tambm e foi segurando a 
cabea de Lenita. Mrcia acelerou o carro, ligou as luzes de emergncia e 
saiu em disparada. Perguntou: 
 Onde  o hospital mais perto daqui? 
 O hospital pblico fica distante, mas logo ali na outra esquina h um 
#
hospital particular. S que a av dela  pobre e no pode pagar um 
tratamento. 

 Isso no  problema. Para onde devo ir? Onde fica esse hospital? 
A mulher foi ensinando o caminho. Em pouco tempo, estavam em frente a 
um grande hospital. Mrcia viu uma placa com a inscrio "Emergncia". 
Estacionou. Apressada, saiu do carro e entrou correndo no hospital. Voltou 
acompanhada por duas enfermeiras que traziam uma maca. 
Pegaram  menina e entraram apressadamente. Mrcia e a outra mulher as 
acompanharam. L dentro, as enfermeiras seguiram com a menina por uma 
porta. Mrcia e a senhora ficaram esperando, sentadas em uma poltrona. O 
porteiro entrou e dirigiu-se a Mrcia: 
 Desculpe, mas a senhora deixou seu carro em um lugar proibido, 
reservado para as ambulncias. Tambm deixou as chaves no contato. 
Mrcia, muito nervosa, s naquele momento percebeu que havia esquecido 
as chaves. Tremia muito, e disse: 
 Por favor, ser que poderia tir-lo de l para mim? Estou muito nervosa. 
O porteiro, sorrindo, saiu. Logo depois voltou, entregando-lhe as chaves. 
Mrcia agradeceu. 
A recepcionista fez um sinal para que ela se aproximasse. Mrcia no 
percebeu. Nervosa com tudo que estava acontecendo, no tirava os olhos da 
porta por onde Lenita entrara. Seu corao batia rpido. Pensava: 
Ela no pode morrer. Sinto que me  muito importante. Precisa viver. 
A recepcionista tornou a fazer o sinal. Mrcia, sem entender muito bem o que 
a mulher desejava, aproximou-se do balco. 
 Chamei-a porque percebi, pelas roupas que a menina est vestindo que 
ela no  sua parente. Preciso abrir uma ficha, mas para isso necessito os 
dados pessoais. A senhora os tem?" 
" No, no tenho. Apenas a socorri. 
 H algo mais: este  um hospital particular, por isso s daremos a ela o 
primeiro atendimento. Se tiver de ficar internada, ter de ir para um hospital 
pblico. 
Mrcia no acreditou no que estava ouvindo. 
 Est me dizendo que por no ter dinheiro ela no ter um atendimento 
adequado? Poder morrer? 
 No, no  isso. S ter de ir para um hospital pblico. 
#
 Quero... quero, no! Exijo que ela tenha todo o atendimento que precisar! 
No sei os dados dela, mas aquela senhora deve saber. Depois que ela for 
atendida quero falar com o mdico para saber sua real situao. 
Voltou para a poltrona, perguntando para a senhora: 
 Sabe o nome da menina? Onde esto seus pais? 
 No sei o nome todo. Sei que se chama Lenita, mas no sei o resto. Ela 
no tem pais: a me morreu quando ela nasceu, e o pai dois anos depois. 
Desde que nasceu vive com a av, que  minha amiga. So muito pobres. A 
av acabou de perder o barraco onde morava numa favela, e est em minha 
casa at conseguir um lugar. 
Ao ouvir aquilo, Mrcia sentiu novamente aquele aperto no corao. 
Relembrou o rosto de Ricardo, seu irmo. Embora no gostasse de sua me, 
s vezes sentia saudades de seu irmo. Agora ficou sabendo que ele no 
vivia mais. Com um n na garganta e a voz embargada, disse: 
 Sinto muito por tudo isso. V, por favor, at o balco e d as respostas 
que souber. Vamos esperar e ver o que o mdico tem para dizer a respeito 
do tratamento que a menina ter de fazer. 
A mulher levantou-se e foi at o balco. Mrcia ficou relembrando seu tempo 
de infncia e seu irmo, as brincadeiras que faziam. Estava presa em seus 
pensamentos quando um mdico entrou na sala e falou com a recepcionista. 
Ele olhou para Mrcia, que seguia todos os movimentos que eles faziam. Ele 
se dirigiu at ela, dizendo: 
 Soube que queria falar comigo. Acredito ser a respeito do estado da 
menina. " 
"Quero dizer-lhe que ela agora est muito bem e fora de perigo, s que a 
doena que tem precisa de acompanhamento, e ela est muito desnutrida. 
Infelizmente no poder continuar neste hospital, mas o ideal seria que 
tivesse um tratamento contnuo, aqui ou em outro lugar. Gostaria muito que 
ficasse conosco e que eu pudesse continuar tratando-a, mas no sei quais 
so as condies da famlia. Este  um hospital particular, e eu infelizmente 
no sou dono, apenas trabalho aqui. 
 Entendo doutor. S lamento que tenha de ser assim. Mas no se 
preocupe: ela ficar aqui o tempo que for necessrio. Deixe tudo por minha 
conta. Faa o que for preciso. 
O mdico sorriu e disse: 
#
 Obrigado. Sei que apenas socorreu a menina, que no a conhece, por 
isso, estou muito agradecido em seu nome. Falarei com a famlia e 
continuarei tratando dela em meu consultrio sem cobrar.  tudo que posso 
fazer. Quem sabe, juntos, poderemos fazer com que ela tenha uma boa 
qualidade de vida. 
 Farei o possvel para que ela tenha tudo que precisar doutor. Essa menina 
precisa de auxlio e eu tenho como ajudar. No se preocupe, faa tudo que 
estiver a seu alcance. 
O mdico cumprimentou-a com a cabea e voltou pela mesma porta de onde 
tinha sado. Precisava ficar atento ao estado de Lenita. A senhora voltou e 
disse: 
 Dei as informaes que sabia. Preciso avisar a av da menina para que 
venha at aqui e complete as informaes. 
Mrcia voltou a lembrar-se de sua me e disse: 
 A menina ficar aqui por alguns dias. A av deve estar preocupada e no 
sabe para que hospital viemos. Providenciarei tudo com a recepcionista, 
depois levarei a senhora de volta para que comunique todo o acontecido a 
ela. 
Foi at o balco. 
 Que preciso fazer para que ela tenha todo o atendimento necessrio?" 
" Deixe um cheque com esta quantia. Quando a menina tiver alta, 
devolveremos o que sobrar, ou cobraremos o excedente. 
Mrcia verificou o valor, tirou da bolsa um talo de cheques, preencheu uma 
das folhas e entregou-a a moa, dizendo: 
 Vou deixar este cheque e meu telefone. Se precisar de mais, basta me 
telefonar. 
 Est bem. Assim que a famlia chegar, darei seu telefone para que 
possam agradecer. 
Ao ouvir aquilo, Mrcia estremeceu. Disse com uma firmeza que assustou a 
moa: 
 Nem pensar! No se atreva a fazer isso. Estou ajudando a menina, mas 
no quero ser mais incomodada por sua famlia. Portanto, este telefone no 
pode ser dado a ningum. A ningum, entendeu? 
A moa, assustada, respondeu: 
 No entendo por que quer se manter annima. O ato que est fazendo  
#
muito bonito. Mas, se  assim que deseja, manterei o sigilo. Vou anotar aqui 
na ficha que seu telefone no deve ser dado a ningum. Est bem assim? 

  isso mesmo o que desejo. 
Mrcia voltou para junto da mulher que a acompanhava. 
 A menina est bem e j providenciei para que fique aqui o tempo que for 
necessrio. Agora, podemos ir. Mais tarde, traga a av dela at aqui; acredito 
que esteja desesperada para saber o que aconteceu com a menina. 
 No precisa me levar: moro aqui perto e vou a p. No sei quem  a 
senhora, mas apareceu do cu. Obrigada por tudo. Pode me dizer seu 
nome? A av de Lenita vai querer saber para agradecer. 
 Meu nome no importa. O importante  que ela continue cuidando bem da 
menina. Diga a ela que mantenha o tratamento com o mdico. Providenciarei 
os remdios que precisar. 
 Ela adora essa menina e faz tudo que pode por ela. Trabalha muito. 
 Assim espero. Bem, vou embora, mas antes tenho de fazer algo. Voltou 
para o balco e falou para a recepcionista: 
 Ser que podia chamar o mdico novamente? Preciso falar com ele. 
A moa chamou pelo interfone: 
 Doutor, aquela mulher que ajudou a menina deseja falar com o senhor. 
" Est bem, irei em seguida. 
Aps alguns minutos, ele voltou. Olhando para Mrcia, disse: 
 Est querendo perguntar-me algo mais? 
 No, sua explicao sobre a doena e o tratamento foi completa, mas o 
senhor disse que vai continuar tratando da menina em seu consultrio. Ela 
vai precisar ser medicada, por isso vou deixar meu telefone com o senhor. 
D a ela toda a medicao que precisar, em seguida me telefone, e eu lhe 
mandarei o dinheiro dos remdios para sua conta bancria. Por favor, d-me 
o nmero da conta e da agncia. No se preocupe: basta me telefonar e 
dizer o valor. No mesmo dia eu farei o depsito. No economize, gaste o que 
for necessrio. 
O mdico ficou olhando para ela sem entender todo aquele interesse, mas 
considerou que aquilo no era de sua conta. A menina seria tratada e para 
ele isso era o que importava. 
 No estou preocupado, sei que cumprir com o prometido. No se 
preocupe; ela ter todo o tratamento necessrio. 
#
 Sei disso, doutor. Telefonarei mais tarde para saber como ela est. Ser 
que poderia v-la antes de sair? 
 Claro que pode. Ela agora est dormindo, mas seu estado  muito bom. 
Est tudo sob controle. Venha comigo. 
Ela o acompanhou, entrando por aquela mesma porta. Foi levada at o 
quarto. Lenita dormia tranqilamente. Sua cor natural j voltara. Mrcia, 
emocionada, ficou olhando para aquele rostinho e pensando: 
Voc  to bonita! No se preocupe: farei tudo que for possvel para ajudar 
voc a crescer e a se tornar uma linda moa. Voc  muito querida. No sei 
qual o motivo, porm sinto que te amo muito. Vou embora, mas, daqui para 
frente, acompanharei sua vida. 
Deu um beijo na testa da menina e saiu. No percebeu, mas um vulto 
luminoso aproximou-se sorrindo e tambm beijou sua testa. 
Mrcia foi para o seu carro e partiu. A imagem de Lenita no saa de sua 
cabea:" 
"Queria cuidar dela para sempre, mas sei que minha me no permitir, 
parece que  muito apegada  menina. S de pensar que para t-la comigo 
terei de aceitar minha me tambm, sinto um frio correr pela minha espinha. 
Que sentimentos estranhos so esses? Como posso gostar tanto de uma e 
odiar tanto a outra! 
Estava distrada com seus pensamentos. S quando chegou  rua de seu 
prdio lembrou-se de dona Durvalina. 
Com tudo o que aconteceu, acabei esquecendo-me dela, mas talvez tenha 
sido melhor. Lenita precisa muito de minha ajuda. Farei tudo o que puder, 
farei com que meus pensamentos sejam todos para ela. Preciso encontrar 
uma forma. No sei ainda, mas com certeza pensarei em algo. Sempre 
penso! 
Entrou em casa. Pela primeira vez sentiu que o apartamento era muito 
grande para ela sozinha. Olhou atravs da porta de vidro para a piscina. 
Este apartamento  to grande... a piscina quase nunca  usada. Para 
Lenita, ela seria muito boa. Aqui h muito espao para brincar. 
Sentia o corao leve. Encontrara um motivo para viver, alm de seu 
trabalho. Encontrou algum em quem sentia que podia confiar e que podia 
amar. 
Embora Gervsio e Farias permanecessem a seu lado o tempo todo, no 
#
conseguiam se aproximar, muito menos intuir maus pensamentos. Desde 
que Mrcia encontrara Lenita e se preocupara com ela, e durante todo o 
tempo em que esteve no hospital, ela ficou como que protegida por uma aura 
de luz que brotava de seu corao. 
Durante a viagem de volta, no carro, seu pensamento foi s para Lenita e 
pelo grande amor que sentia por ela. Gervsio e Farias entraram em seu 
apartamento, mas ela os afastava com o pensamento de amor. Farias ficou 
nervoso: 

 Que est acontecendo? Por que no posso mais chegar perto dela? 
 Voc ouviu o que Damio disse: se ela no praticar aquela maldade, se 
deixar o corao s com o sentimento de amor, voc no poder se 
aproximar. 
 No  justo! Ela no pode ter mudado tanto. 
 Sempre podemos mudar. As chances que Deus nos d so imensas." 
" No consigo acreditar. Ela logo vai mostrar quem  na realidade. 
 Vamos esperar, Farias... vamos esperar... 
Mrcia voltou-se. Estava se encaminhando para o quarto, quando olhou para 
o lugar onde pela ltima vez vira Osvaldo. Tornou a v-lo indo embora, com 
aquele sorriso sarcstico. Imediatamente todo o orgulho ferido e o dio 
voltaram e ela pensou com muito dio: 
Como fui me esquecer dele? Aquele idiota! Livrou-se por causa de Lenita, 
mas amanh vou voltar at a casa de dona Durvalina e mandar fazer o 
trabalho. 
No mesmo instante em que sua faixa de pensamento mudou, Farias e 
Gervsio perceberam que ela agora podia ser atacada. Farias foi para junto 
dela e comeou a falar: 
 Isso mesmo. Ele no presta. Ele humilhou voc. Precisa se vingar! Se 
beber, vai se sentir melhor. 
Como se o estivesse ouvindo, ela olhou para o bar e, imediatamente, a 
vontade de beber voltou. Deixando-se novamente influenciar por Farias, 
encheu um copo. Ele bebia junto a ela por meio do vapor do lcool. Ela, 
envolvida por ele, encheu um copo atrs do outro. O dio por Osvaldo era 
muito grande. Quanto mais pensava nele, mais bebia. Logo percebeu que 
estava completamente embriagada. Deitou-se em um sof na sala e caiu em 
sono profundo. Farias tambm embriagado, adormeceu a seu lado. 
#
Naquela noite, Mrcia novamente teve um sono agitado e sem descanso. 
Pela manh, acordou sentindo-se muito mal e com dor de cabea. 
Acompanhada por Farias, foi para o chuveiro. Enquanto tomava banho, ia 
pensando: 

 O Osvaldo, como estar em sua nova vida? Aquele idiota! Ontem se livrou 
por causa de Lenita... Lenita? Lenita? Como ser que ela est?" 
"Saiu do chuveiro, pegou o telefone e telefonou para o hospital. Informaram-
na de que a menina estava bem e que a av a acompanhava. Enquanto 
falava sobre Lenita, novamente se deixou envolver por uma profunda 
ternura. O vulto luminoso aproximou-se, o que obrigou Farias a se afastar. O 
esprito envolveu-a em sua luz e assim fez com que ela ficasse mais 
tranqila. Com aquele sentimento de ternura e amor, Mrcia dirigiu-se para a 
sala, o vulto acompanhando-a. Farias tambm a seguiu s que agora  
distncia. Ela, sentada em seu sof preferido, pensava: 
Preciso ajudar a menina, s no sei como. Posso aparecer para minha me 
e pedir a ela que no conte a ningum quem sou. Ela pode dizer que sou 
uma pessoa que a est ajudando por causa da menina. No... No posso 
fazer isso. Ela  minha me. Na realidade no tenho motivos para odi-la 
tanto. Ela me deu tudo que podia, me ensinou o que sabia. Quando me 
mandou para a casa de dona Leonor, foi pensando em meu bem, e acertou. 
Preciso ajudar Lenita, no posso deixar que ela fique desamparada. 
O vulto luminoso a seu lado a olhava com muito carinho. Com um sorriso 
radiante em seu rosto, a envolveu novamente em sua luz. Ela continuou 
pensando: 
Isso mesmo: tomarei um banho e irei ao hospital. Se minha me me 
reconhecer, conto a ela minhas intenes de traz-las para morar comigo.  
isso mesmo que tenho de fazer. Hoje, sou uma mulher realizada. Se pensar 
bem, devo isso a ela. Foi ela quem, pensando em meu futuro, me 
encaminhou. 
O vulto sorria. Ele sabia que s estava ali porque ela trazia agora em seu 
corao pensamentos de amor e gratido. 
Enquanto tomava banho, Mrcia pensava em Lenita e no tratamento de que 
precisava." 
"Sinto que, se no a ajudar, ela fatalmente morrer, o mdico foi bem claro. 
Minha me est em situao ruim, mas, por mais que eu queira, no sei por 
#
que no consigo sentir pena dela, ela me  completamente estranha, no 
consigo confiar. A nica de minha famlia por quem sinto algo  Lenita. Por 
ela, serei capaz de tentar viver com minha me. 
Ao pensar em Lenita, seus olhos se iluminavam e a sua aura tambm. O 
vulto a seu lado sorria e dizia: 

 Meu amor, voc tem de conseguir. Precisa esquecer e perdoar o passado. 
S assim poderemos ser felizes novamente. Voc tem de conseguir. 
Ela sentiu um suave perfume, que no era do sabonete que estava usando. 
Com o perfume, sentiu novamente saudade, mas no sabia do qu. 
Est decidido: irei ao hospital e, depois que Lenita tiver alta, vou traz-la 
para c. Se o preo ser ter de trazer tambm minha me,  o que farei. 
Pagarei. 
Enquanto se vestia, via a menina sorrindo para ela e correndo por aquele 
apartamento enorme. Farias percebeu que a faixa de ondas dela havia 
mudado novamente. Comeou a sacudir Gervsio, que dormia 
tranqilamente: 
 Gervsio! Gervsio, acorde! Ela vai sair e parece que est disposta a 
trazer a menina e sua me aqui para casa. Acorde! 
Gervsio abriu os olhos e falou um pouco atordoado: 
 Por que est gritando? 
 Ela vai sair e parece estranha. Acho que vai buscar a menina! 
 Ser mesmo? Que quer fazer? 
 Precisamos impedir. Ela no pode fazer isso. Precisamos fazer com que 
ela volte a pensar em Osvaldo. 
Antes que Gervsio falasse algo, Farias lanou-se sobre ela, mas no 
conseguiu alcan-la. Uma luz a protegia como se fosse um escudo. Ele foi 
jogado para longe. Ficou desesperado, sem saber o que fazer, e comeou a 
gritar: 
 Gervsio, que aconteceu? Por que no consigo me aproximar?" 
" Por que ela est tendo pensamentos bons e firmes, por isso um daqueles 
l de cima a est protegendo. Enquanto ela continuar assim, no poderemos 
nos aproximar. 
 No pode ser! Ela  l de ter bons pensamentos? Ela  muito m, cnica e 
calculista! 
 Sempre h uma hora para se arrepender e conseguir o perdo e o amor 
#
de Deus. Se ela continuar assim, tudo para voc estar perdido. No 
conseguir se aproximar. 
Farias no se conformou. Jogou-se vrias vezes sobre ela e vrias vezes foi 
repelido e atirado longe. 
Mrcia s via diante dela o rosto de Lenita, e aquele sentimento de ternura 
tomou conta de todo o seu ser. 
No posso permitir que ela morra por falta de assistncia ou por m 
alimentao. Tenho muito dinheiro e posso dar tudo de que ela precisa. Irei 
at l e contarei a ela que, quando sair do hospital, vir aqui para minha 
casa e ser muito feliz. 
O vulto de branco sorria e deu-lhe um beijo no rosto. Ela sentiu uma brisa 
suave passando por seu corpo. 
Estou me sentindo muito bem. Parece que encontrei um novo sentido para 
minha vida. Sinto que agora serei realmente feliz, podendo dividir com Lenita 
tudo o que possuo. 
Farias continuava se jogando sobre ela. No se conformava com o fracasso 
e gritava: 

 No  justo, Gervsio! Depois de tudo que ela me fez, ser protegida dessa 
maneira. Ela no presta! Merece castigo e no perdo! 
 Meu amigo, se ela continuar assim, no poderemos fazer nada. Tora 
para que voc tenha razo e que ela volte a ter sentimentos de dio e 
vingana. S assim voc poder se aproximar e tentar faz-la ser novamente 
o que sempre foi: m, calculista e mesquinha. Se conseguir isso, ela ser 
toda sua, mas, se ela no voltar a ser como antes, voc ter de ir embora e 
esquecer." 
" Esquecer? Nunca! O que ela me fez no tem perdo! Como vou 
esquecer que por causa dela fui atirado naquele vale horrvel? Por causa 
dela estou aqui nesta situao! No vou esquecer nem perdoar. Nunca! 
 No adianta ficar assim. Tem de ter pacincia e esperar. O perdo  muito 
bom. Tente perdoar e ver como se sentir muito bem. Acredite na Lei, ela  
justa e sbia." 
#
Orgulho ferido 

"Mrcia terminou de almoar, pegou o carro novamente e saiu rumo ao 
hospital. No conhecia muito bem o caminho, nunca antes estivera por 
aquele lado da cidade. Ao sair da marginal, perdeu-se. No sabia onde 
estava e que caminho deveria tomar. Parou em um posto de gasolina e pediu 
informao ao frentista. Ele lhe ensinou o caminho, e ela continuou 
procurando. Estava passando por uma rua quando viu o carro de Osvaldo 
estacionado em frente a um porto. Seu corpo todo estremeceu e seu 
corao comeou a disparar. Diminuiu a velocidade. Estava se aproximando, 
quando viu de dentro da casa algumas pessoas saindo. Osvaldo vinha 
abraado  esposa, as crianas corriam  sua frente. Junto vinha um outro 
casal, mais velho, que Mrcia deduziu serem os pais dele. 
Ele conversava distrado e no viu seu carro. Ela acelerou justamente para 
que ele no a visse. Estacionou mais  frente e pelo retrovisor ficou 
observando. Todos se abraaram. Osvaldo ficou o tempo todo com as mos 
no ombro da esposa. Sorrindo, entraram no carro e saram no sentido 
contrrio ao dela. Novamente, o dio voltou. Mrcia falou alto: 

 Ele est feliz com a esposa, no est nem um pouco preocupado comigo! 
No est se importando se estou s e carente! No est se lembrando nem 
que um dia eu existi. Isso no vai ficar assim! No vou a hospital algum! Vou 
para a casa de dona Durvalina mand-la fazer o que tem de ser feito! 
Continuou dirigindo. Passou em frente ao hospital. Dali para frente sabia 
como chegar a seu destino. Dirigiu, por mais alguns minutos, e finalmente 
chegou. Dessa vez, parou o carro em frente  casa. No estava com 
disposio de andar. Bateu palmas e a mesma senhora que morava no 
quarto da frente atendeu: 
 Pois no. 
 Preciso falar com dona Durvalina. Ela est?" 
" No sei. Ela mora na terceira porta. Pode entrar. 
Mrcia entrou e caminhou at a porta. Bateu e dona Durvalina atendeu. 
 Pois no. Posso ajudar em alguma coisa? 
Ela estranhou aquela figura. Uma mulher alta, com cabelos negros, com os 
olhos brilhantes, podia-se dizer que era bonita, no tinha nem trinta anos. 
Mrcia ficou olhando, pensando estar diante de outra pessoa. quela que 
#
estava  sua frente em nada se parecia com a outra com quem havia 
conversado. Meio sem jeito falou: 

 A senhora  dona Durvalina? 
 Sou eu mesma. Posso ajudar em alguma coisa? 
 Estive aqui outro dia e falei com a senhora. Disse que faria um trabalho 
para mim, disse tambm que eu poderia vir a qualquer hora. Como trabalho, 
ser muito difcil eu vir durante a semana, por isso vim hoje. A senhora pode 
me atender? 
 Sinto muito, mas dia de domingo eu no trabalho. 
 Imaginei isso, mas  muito urgente. Sei que o preo da consulta  
cinqenta. Pagarei cem. 
A mulher pensou por um instante e falou: 
 Est bem. Vai precisar esperar um pouco, tenho de me preparar. Pode ir 
l para o fundo. A porta est s encostada. Entre e irei em seguida. 
Mrcia, com um sorriso vitorioso, dirigiu-se  porta. Abriu, entrou. Ficou 
impressionada. O quarto parecia bem maior. O ambiente estava claro, 
iluminado por uma luz lils. No fundo, um altar com flores e alguns santos. 
Velas acesas de vrias cores. Olhando aquilo, pensou: 
Definitivamente, este no  o mesmo lugar em que estive naquele dia. Ser 
que estou ficando louca? 
Estava ali olhando, quando dona Durvalina entrou:" 
" Est estranhando alguma coisa? 
 Estou. No outro dia, isto aqui parecia escuro e feio. Hoje parece iluminado 
e bonito. 
 Bem se v que a moa no entende nada de minha religio. Durante a 
semana, para atender as pessoas, eu trabalho com a esquerda, mas 
tambm trabalho com a direita. Tenho meus santos e protetores. 
Dependendo da consulta, eu uso um lado ou o outro. 
Enquanto falava, puxou uma cortina preta, separando os dois ambientes. 
Acendeu algumas velas pretas, pegou charutos e a garrafa de cachaa, ficou 
em p com os olhos fechados. Seu corpo comeou a tremer e de repente 
soltou uma gargalhada estridente. 
Mrcia, assustada, viu a transformao da mulher  sua frente. Novamente 
no lembrava nem por um instante a dona Durvalina que acabara de 
conhecer. A mulher sentou-se no cho, acendeu um charuto e tomou um 
#
pouco da cachaa. 
Mrcia agora j sabia o que tinha de fazer e ajoelhou-se  sua frente. Como 
da outra vez, a mulher pegou suas mos. Deu uma gargalhada e falou: 


 Ento a moa voltou? Resolveu mesmo fazer o trabalho? 
 Sim, e precisa ser hoje. 
 A moa pensou bem no que vai ter de pagar? 
 Pensei. No me incomodo, pagarei o que for preciso. 
 J que  assim, s me resta atender seu pedido. Vou fazer o trabalho. 
Espero que a moa no se arrependa. 
 No vou me arrepender. Resolvi hoje. No tenho tempo e no sei comprar 
o material necessrio, por isso vou deixar o dinheiro com a senhora para 
comprar tudo. 
 Est certo, moa, mas antes preciso lhe falar mais uma coisa. Esse 
trabalho que vou fazer pode dar certo, mas tambm, dependendo da pessoa 
que for receber, ele pode no funcionar. Se ela for uma pessoa boa, com 
bom sentimento, vai ter proteo e nada vai acontecer. A moa est 
entendendo? 
 Quer dizer que pode no acontecer nada? Quer dizer que estarei 
gastando meu dinheiro em algo que pode no acontecer?" 
" Isso mesmo. Se a pessoa pra quem o trabalho for feito  protegida, no 
vou conseguir realizar. Estou avisando para depois, se no der certo, a moa 
no volte pra reclamar. 
 Ele no  uma boa pessoa! Ele no tem bons sentimentos,  um canalha. 
Eu o odeio! Vou arriscar, sei que dar certo! 
 A moa  quem sabe. H outra coisa que preciso avisar. Se o trabalho der 
certo ou se no der, isso no importa; o que importa  a inteno da moa. 
Se fizer, vai ter de pagar o preo, dando certo ou no. 
 J disse que no me preocupo com isso. S vamos saber se dar certo, 
fazendo o trabalho. 
 Moa, depois que eu fizer, vai ser difcil desfazer. Pense bem... 
Mrcia irritou-se com toda aquela conversa. Ela j havia pensado muito e era 
exatamente aquilo o que queria. Falou quase gritando: 
 J pensei bem. No voltarei atrs. Vou pagar o que for preciso. A senhora 
no quer receber o pagamento? 
 A moa no est falando com senhora nenhuma, a moa est falando 
#
com um Exu. 
Mrcia se assustou com o olhar que a mulher lhe dirigiu, disse: 


 Est bem, desculpe.  que estou muito nervosa. Mas mesmo assim volto 
a perguntar: o senhor no quer receber? 
 Est bem, moa, se quer assim, vamos fazer. A moa d o nome de todas 
as pessoas, deixa o dinheiro do meu cavalo e outro tanto pra comprar tudo 
que precisar, e amanh meu cavalo compra tudo. Eu preparo e ela faz a 
entrega. Vai demorar sete dias pra a moa ver se deu resultado. Est bem 
assim? 
 Est.  s o que quero: ver o resultado. 
 Est bem. Agora a moa pode ir embora e esperar at a semana que 
vem. Se der certo, a moa no precisa mais voltar, s se quiser fazer outro 
trabalho. 
Enquanto falava, bebia e soltava baforadas de charuto sobre Mrcia. 
Mrcia levantou-se, tirou da bolsa os cem da consulta, os cinco mil do 
trabalho e mais duzentos para que o material fosse comprado. Entregou  
mulher e saiu." 
"J no carro, sorria satisfeita com o resultado que teria. Estava feito. Ela 
veria Osvaldo a seus ps, pedindo perdo. Era tudo que queria. A seu lado, 
sentados no banco de trs, Gervsio e Farias tambm sorriam alegres. 
Gervsio falou: 
 Agora ela  toda sua. Pode fazer cumprir sua justia. Essa  a Lei. Temos 
de voltar e falar com Damio. Ele vai dizer o que pode ser feito. 
 Como pode dizer o que deve ser feito? Ele j disse que eu poderia fazer 
cumprir minha justia. 
 Ele disse e  verdade, mas para tudo existe uma ordem. Precisamos 
voltar e falar com ele. 
 Est bem. J que  assim, que seja, mas estou feliz, porque vou poder 
me vingar!" 
#
Uma famlia feliz 

"Enquanto isso, Osvaldo passeava por um parque de diverses, onde, aps 

o almoo, levou as crianas. 
Enquanto elas brincavam, ele e Clarice passeavam abraados. Ela no 
acreditava na felicidade que estava sentindo. Disse: 
 Estou to feliz, Osvaldo! Voc voltou a ser o homem que conheci e com 
quem me casei, voltou a ser amoroso comigo e com as crianas. 
  mesmo, meu amor, tenho de reconhecer que a fiz sofrer muito. Sua 
partida me fez perceber o quanto amo voc e as crianas, e me fez 
compreender que s poderei ser feliz ao lado de vocs. 
Clarice deu um beijo em seu rosto, dizendo: 
 Agradea  sua me e a Marlene. Foram elas que me deram  ideia de 
jogar uma ltima cartada. 
 Que est dizendo? Minha me? Marlene? - perguntou, admirado. 
 Sim, foram elas. Sua me estava cansada de ver voc naquela vida 
desvairada, esquecendo-se de mim e das crianas, e Marlene voc conhece: 
 s bondade. As duas me convenceram de que a melhor coisa que eu teria 
de fazer seria abandonar voc. Sabamos que seria uma cartada difcil e 
definitiva, mas sua me dizia sempre: 
 Filha, voc precisa fazer isso. Sei que meu filho ama voc e as crianas. 
Ele s no se deu conta disso, ainda. Por isso tem de fazer com que ele 
sinta a falta de vocs. No conhece o ditado? Para dar valor,  necessrio 
perder. 
 E se ele no sentir nossa falta? Se ele no se preocupar e no for me 
procurar? 
  um risco que voc precisa correr. De que adianta ficar ao lado de um 
homem que no a respeita, que est sempre ausente na educao dos 
filhos? Voc  muito boa, no merece isso. 
 Minha me te disse isso, Clarice? 
 Disse muitas vezes, Osvaldo. Marlene ajudava muito, sempre dizendo: 
 Sua sogra tem razo, Clarice. Vocs merecem muito mais. Voc tem de 
confiar na bondade de Deus e ter certeza de que Ele nunca abandona Seus 
filhos. Vocs se casaram e ele abenoou seu lar com duas crianas. Se 
assim fez, foi para que tudo desse certo. Deus  pai." 
#
"s vezes Ele nos manda alguma dificuldade, por nossa prpria culpa, para 
nos ensinar ou porque temos alguma dvida para resgatar. 

 Marlene  uma mulher maravilhosa, Clarice. Trabalha para minha me, 
nem sei h quanto tempo. Est sempre em dificuldades, mas no reclama 
nunca. Como pode? 
 No sei. Ela sempre diz que se sofre  porque se merece. So coisas l 
de sua religio... acredita na vida aps a morte, reencarnao e tudo mais. 
 Voc acredita em reencarnao? 
 No sei. s vezes penso: por que existem tantas diferenas aqui na 
Terra? Dizem que Deus  Pai de todos... ento por que a muitos Ele d tudo 
e a outros no d nada? Ser que Ele tem filhos preferidos? 
Osvaldo ficou ouvindo Clarice e pensando. Quando ela terminou de falar, ele 
continuou: 
 Pensando dessa forma, a gente chega  concluso de que, se existe um 
Deus, tem de haver reencarnao. S isso poderia realmente explicar as 
diferenas que existem. Deve existir algum motivo para que as pessoas 
tenham vidas to diferentes: uns sofrem tanto e outros, nada... 
 Estive pensando muito sobre isso. Marlene mesma... desde que a 
conheo, sempre sofreu todo tipo de desgosto. Por qu? Uma mulher to 
boa e prestativa, sempre disposta a dividir o que tem... ela tem sempre uma 
palavra de consolo, e em sua pobreza ainda encontra meios para ajudar 
aqueles que mais precisam. No d para entender. 
  muito complicado mesmo. Bem, mas isso no importa. 
Estou feliz de voltar a encontr-la e am-la. Elas duas tinham razo: amo 
muito voc e as crianas. Ficaremos sempre juntos e nada vai nos separar 
novamente. 
Clarice correspondeu o beijo suave que ele deu em seus lbios, falando:" 
" No sei se reencarnao existe, nem se essa histria de almas gmeas  
verdadeira, mas, se isso tudo for verdade, com certeza estivemos juntos nos 
amando em outra encarnao e somos almas gmeas, porque eu o adoro. 
As crianas saram de um brinquedo e vieram correndo ao encontro dos 
dois, pedindo sorvete. Ainda abraados, foram at um carrinho e compraram 
o preferido de cada um. Os quatro, cada um com seu sorvete, continuaram 
andando pelo parque. As crianas praticamente engoliram de uma vez o 
#
sorvete para poderem brincar novamente. Quem os visse, com certeza, diria: 

 Essa  uma famlia feliz. E, realmente, era." 
#
Oportunidade de repensar 

"Mrcia acordou e foi trabalhar. Naquela semana, por ser a ltima do ms, 
ela teve muito trabalho e precisou ficar todos os dias at mais tarde no 
escritrio. Osvaldo no telefonou, mas ela quase no teve tempo de pensar 
nele e, quando pensava, contava nos dedos os dias que faltavam para o 
domingo. Sabia que teria de esperar at l. Dedicou todo o seu tempo ao 
trabalho, quase no pensou em Lenita tambm. Na tera-feira, a 
recepcionista do hospital ligou: 

 Dona Mrcia, sou Regina, aqui do hospital. 
 Hospital?! Ah, sim... Lenita! Como ela est? 
 Est bem, vai receber alta hoje, aps o almoo.  por isso mesmo que 
estou ligando. O cheque que a senhora deixou  superior aos gastos e 
teremos de devolver o restante. Estou ligando para saber se a senhora vem 
at aqui ou se prefere que o dinheiro seja depositado em uma conta de 
banco. 
 Nem uma coisa nem outra. Esse dinheiro foi reservado para Lenita. 
Desconte do cheque as despesas e d o troco  av da menina para 
comprar alimentos e tudo o que for necessrio para atender s necessidades 
de Lenita. 
 Farei isso. A senhora  mesmo uma santa. Agradeo em nome da menina 
e de sua av. Obrigada. 
Desligou o telefone. Mrcia, ainda com o aparelho na mo, pensou: 
Uma santa? Eu? Ainda bem que a menina est bem. Mas Precisa de 
tratamento. Vou arrumar um meio de ajud-la. 
No hospital, a recepcionista colocou o telefone no gancho. Pelo interfone, 
pediu  enfermeira do andar que enviasse a av de Lenita at a recepo. 
Pouco depois, ela chegou, perguntando: 
 A senhorita mandou me chamar? 
 Sim. Sua neta vai receber alta, e a moa que deixou cheque pediu para 
darmos o troco  senhora, para comprar toda alimentao de que a menina 
precisar. 
 Quem  essa moa? 
 Ela pediu que seu nome e endereo no fossem fornecido quer continuar 
annima." 
#
" Preciso saber quem . Preciso agradecer tudo que fez por minha menina. 

 Sinto muito, mas ela imps essa condio. No podemos quebrar o 
prometido. 
 Moa, por favor, preciso saber quem  ela. 
 S posso lhe dizer que o nome dela  Mrcia e que  uma mulher muito 
rica. 
 Mrcia?! Mrcia? Voc disse Mrcia? 
 Foi exatamente isso que disse. O nome dela  Mrcia. Mas por que o 
espanto?  um nome como outro qualquer. 
 Moa, por favor, preciso saber o endereo dela. Preciso disso mais do 
que nunca! 
 Minha senhora, desculpe, mas no posso. 
 Por favor, moa, preciso agradecer. Se ela no tivesse socorrido minha 
neta, ela agora poderia estar morta. O mnimo que posso fazer  agradecer 
do fundo do meu corao. 
Regina ficou pensando por alguns segundos, olhando para a ficha de Lenita 
que estava em suas mos. Voltou a olhar para a velha senhora: 
 Pensando bem, no vejo inconveniente algum em lhe dar o endereo. O 
gesto dela foi muito bonito, no deve ser ignorado. Ela no quis que a 
senhora soubesse quem era porque agiu com boa vontade, apenas 
querendo ajudar a menina, no para receber agradecimento. Vou lhe dar o 
telefone que ela deixou,  de seu escritrio. A senhora pode telefonar e 
agradecer, mas, por favor, no diga a ningum que fiz isso... posso perder 
meu emprego. 
 No vou dizer, pode ficar tranqila. Regina anotou o nmero do telefone, o 
nome e o endereo da empresa em que Mrcia trabalhava e entregou o 
papel  av de Lenita, que o dobrou e guardou na bolsa. Agradeceu e voltou 
para o quarto. Precisava preparar Lenita para irem embora. 
Mrcia voltou ao trabalho. Aquela semana era mesmo puxada." 
"O trabalho como sempre, foi entregue e elogiado. Todos os seus auxiliares 
tambm trabalharam muito. No gostavam dela, mas eram obrigados a 
admir-la como profissional. Possua um grande conhecimento sobre tudo 
que fazia. 
No sbado de manh, saiu e foi fazer algumas compras. Sabia que, na 
semana seguinte, Osvaldo voltaria, e queria que ele a encontrasse em uma 
#
camisola deslumbrante. Fez compras, depois foi ao cabeleireiro, voltou para 
casa, arrumou-se e foi ao teatro. No domingo, acordou cedo e voltou quele 
parque em que esteve observando as pessoas. Sentou-se no mesmo banco 
e ficou pensando: 
Ele voltar, e desta vez exigirei que abandone a esposa e que se case 
comigo. Est na hora de ter meus filhos. S agora estou percebendo como 
sou sozinha. No tenho ningum a meu lado a quem possa me dedicar e 
dividir tudo o que tenho. Preciso mudar esse estado de coisas. Vou formar 
minha famlia, est mais do que na hora. 
Continuou olhando as pessoas correndo, andando e os pais brincando com 
as crianas. Um homem de corpo atltico e bonito passou por ela, lanou-lhe 
um olhar e, sorrindo, continuou correndo. Ela o acompanhou com os olhos. 
Ele era realmente bonito e seu sorriso tambm. Ele sumiu, para logo depois 
passar correndo por ela e sorrir novamente. Ela no se conteve e sorriu 
tambm. Ele continuou correndo e, cada vez que passava por ela, sorria. Em 
uma das voltas, acenou com a mo e foi correspondido. Ele sumia de um 
lado, ela ficava olhando para o outro, esperando sua chegada. Em uma das 
vezes que apareceu, ele parou e sentou-se a seu lado. Suava muito, mas 
mesmo assim era bonito." 
"Estava de short e podia-se ver suas pernas grossas de puro msculo. Devia 
ter uns trinta e poucos anos. Os cabelos castanhos, um pouco grisalhos nos 
lados, davam a ele uma aparncia magnfica. Aquela beleza viril a encantou. 
Enxugando o rosto com uma toalha que carregava no pescoo, ele falou: 

 Meu nome  Ronaldo. Muito prazer. 
Ela, meio sem jeito por no estar acostumada a ser assediada, respondeu: 
 O meu  Mrcia. Muito prazer. 
 Voc no costuma vir aqui, no ? Venho quase todos os domingos e 
nunca a vi antes. 
  verdade. Esta  a segunda vez que venho. Gosto de admirar a natureza 
e ver as pessoas felizes e despreocupadas. 
 No pratica esporte? 
 No. Sempre trabalhei e estudei muito, nunca me sobrou tempo. 
 Tempo a gente sempre arruma. O esporte no faz bem s para o corpo, 
mas para a mente tambm. 
 Acredito. S que nunca senti vontade. Quem sabe agora eu passe a me 
#
interessar. 
Ele deu um largo sorriso: 


 Espero, sinceramente, que se interesse Mrcia, porque assim poderemos 
nos ver mais vezes e, quem sabe, nos tornar amigos. Preciso ir embora. Foi 
um prazer conhecer voc e espero v-la mais vezes por aqui. At logo... 
 Voc me ver, com certeza. At logo... 
Ele foi embora. Mrcia ficou olhando at que ele desaparecesse, pensando: 
Ele  realmente muito bem apessoado e simptico. Seu sorriso  franco e 
bonito. Seus olhos... que olhos eram aqueles? Meu Deus, que homem! 
Sorriu por estar to impressionada e sentindo algo que nunca sentira antes. 
Os olhos dele possuam algo que a atraa e muito. Foi para casa resolvida a 
voltar no prximo domingo na mesma hora. Precisava v-lo novamente. 
Passou o resto do domingo tranqila. Leu, tirou uma soneca, assistiu  
televiso. Cada vez mais constatava que era uma pessoa s, completamente 
s." 
#
Tristeza e aceitao 

"Na segunda-feira, levantou-se e foi para o escritrio. Aquele era o dia. Com 
certeza, Osvaldo telefonaria louco de vontade de v-la. Chegou  empresa, 
estacionou o carro na garagem e subiu pelo elevador. Aquela era sua rotina 
diria. Ao entrar no saguo, a recepcionista, ao v-la, disse: 

 Dona Mrcia, esta senhora a est esperando por muito tempo. Disse que 
precisa conversar com a senhora e que  urgente. 
Mrcia voltou-se e viu em sua frente sua me. Estremeceu. Ela estava 
vestida de maneira simples, com roupas que denotavam sua origem. Mrcia 
ficou calada, sem conseguir se expressar. O sangue sumiu de seu rosto. 
Agindo como se no a conhecesse, a mulher falou: 
 Vim at aqui para agradecer o bem que fez  minha neta e para lhe dizer 
que agora ela est muito bem. 
Mrcia, ainda confusa, acreditando que mais uma vez ela no a havia 
reconhecido, disse: 
 No precisava fazer isso. Qualquer pessoa na mesma situao teria feito 
o que eu fiz. 
 Precisava agradecer, sim. Com o dinheiro que sobrou, vou poder tratar 
dela por um bom tempo. Muito obrigada mesmo. 
Enquanto falava, a mulher ia olhando para ela profundamente. De repente, 
parou de falar e ficou s olhando. Por seu rosto correram duas lgrimas. 
Mrcia percebeu que ela a havia reconhecido. Percebeu tambm que a 
recepcionista da empresa acompanhava toda a conversa. Ficou com medo 
de que a me falasse algo comprometedor na frente dela. Num instante, 
disse: 
 Por favor, entre aqui em minha sala, quero que me fale mais a respeito da 
menina. 
Entrou na sala e a me a acompanhou. A funcionria da recepo ficou 
encantada e admirada pelo fato de a Bruxa (era assim que a chamavam) ter 
feito uma boa ao. Correu para contar aos outros empregados. 
Mrcia, depois que fechou a porta, falou: 
 A senhora tem mais alguma coisa para me dizer? 
 Mrcia!  voc mesma! A minha Mrcia, que tenho procurado h tanto 
tempo. " 
#
"Mrcia... Por que se afastou da gente? Por que nunca mais deu uma notcia 
sequer? No pensou que eu ia morrer de preocupao? 

 No sou a Mrcia que a senhora est pensando! A Mrcia que conheceu 
fugiu um dia de toda aquela pobreza, misria e tristeza, do meio de pessoas 
pobres e infelizes! Sou outra pessoa, venci na vida, graas a meu trabalho e 
boa vontade. No perteno, alis, nunca pertenci, a seu mundo! Sempre 
odiei todos vocs, nasci em sua casa por engano! 
 No fale assim. Somos sua famlia, sou sua me... 
 No tenho famlia, no tenho me, no me importo como esto vivendo e 
onde! Estive esse tempo todo isolada porque no queria ter contato algum 
com vocs. Quero continuar assim! 
 Mrcia, minha filha, no pode imaginar o quanto tenho sofrido sem 
notcias suas... 
 Agora com certeza vai sofrer ainda mais, pois descobriu que sou rica e 
poderosa, enquanto a senhora continua na misria de sempre! Quanto quer 
para esquecer que me viu? Quanto quer para no contar a ningum que sou 
sua filha? Posso pagar o que quiser, tenho muito! 
Ao ouvir aquilo, a velha senhora limpou as lgrimas com as mos e olhou 
firme para Mrcia, respondendo: 
 Como voc  mesquinha! No quero e no preciso de nada. Sou sua me 
e continuarei sendo para sempre. No vou dizer a ningum e no precisa 
pagar por meu silncio. Dinheiro algum pagaria a vergonha e a tristeza que 
estou sentindo neste momento por ter gerado um monstro como voc. Peo 
a Deus que tenha pena de sua alma, que lhe mostre o caminho do bem e do 
amor, que a proteja. Deus a abenoe, minha filha... 
Seu corao estava despedaado. Enxugando as lgrimas que insistiam em 
cair, saiu da sala, passando pela moa que a havia atendido e que percebeu 
que ela estava chorando. Preocupada, perguntou:" 
" Por que est chorando? Aconteceu alguma coisa? Quer um pouco de 
gua? 
A mulher estava com muita raiva. Pensou em dizer o que havia acontecido, 
dizer que aquela que estava dentro daquela sala, posando como uma grande 
senhora era sua filha. Pensou, mas no disse. Enxugou as lgrimas, 
respondendo: 
 Estou bem. S um pouco emocionada, nada mais. At outro dia. 
#
A moa, intrigada, insistiu: 

 Est bem mesmo? 
A velha senhora fez sim com a cabea e saiu. 
Enquanto descia sozinha no elevador, muito magoada com a atitude daquela 
filha que havia criado com todo o amor, deixou as lgrimas correrem sem se 
preocupar em disfarar. Chorando, pensava: 
No consigo acreditar que esta  a mesma menina que gerei dentro de mim. 
Meu Deus! Depois que desapareceu, quantas noites fiquei sem dormir, 
preocupada com ela. Sempre me preocupei muito. Nunca entendi por que 
simplesmente desapareceu de minha vida. Fiquei to feliz quando, no 
hospital, suspeitei que ela poderia ser minha filha to procurada e amada. 
Agora que tive a confirmao, s posso lamentar e chorar muito. 
J na rua, andando meio perdida, parou na calada, fechando os olhos. 
Pensou: 
Esta deve ser mais uma prova pela qual terei de passar. Meu Deus preciso 
de foras para no fraquejar. Estou velha e cansada, minha vida toda tem 
sido de provas e sacrifcios, no sei se suportarei mais esta. Por favor, ajude-
me a no me revoltar e bradar contra Sua justia. Estou cansada. 
Imediatamente um vulto se aproximou, abraou-a e carinhosamente falou em 
seu ouvido: 
 Minha filha, no se desespere. Tudo um dia vai terminar. Sua filha precisa 
muito de seu amor e de sua ajuda. Deus est e estar sempre com voc, 
enquanto acreditar em Seu amor e em Sua justia. Reaja contra esse 
sentimento de dio, mgoa e desiluso que agora est sentindo. Confie no 
amor, na justia e na Lei." 
"Ela no ouviu, mas sentiu dentro de si um consolo muito grande. Lembrou-
se de Lenita, que estava em casa e que precisava de sua proteo. 
Lembrou-se de Mrcia quando criana, correndo para que ela a abraasse. 
Lembrou-se de seu marido, que j havia partido para Deus, e de seu outro 
filho, que como ela teve tambm uma vida triste. Com o olhar distante, 
continuou pensando: 
Mrcia ao menos est feliz. Do que estou reclamando? Indo embora, 
encontrou seu caminho. Ela tem razo: se tivesse continuado conosco, teria 
tido um destino igual. Que Deus a abenoe. Que Deus me perdoe por este 
momento de fraqueza, me perdoe se, por um instante, duvidei de Sua 
#
sabedoria, justia e amor. 
Continuou andando. Precisava ir depressa, porque tinha um longo dia de 
trabalho pela frente. Havia telefonado no dia anterior, avisando sua patroa 
que chegaria um pouco mais tarde, mas no podia abusar. J trabalhava 
havia muito tempo para ela, eram na realidade amigas, mas sua obrigao 
teria de ser cumprida. Acelerou o passo e tomou um nibus, calma e 
tranqila. Pelo menos um de seus filhos estava feliz. 
Enquanto o nibus andava, ela pensava em seu passado, no filho que to 
cedo foi embora: 
Ricardo era to bonito, me amava e se preocupava comigo. Queria muito 
encontrar a irm desaparecida. Lembro o dia em que pela primeira vez 
trouxe Cinira para me conhecer; era ainda uma menina: 

 Mame, esta  Cinira, ela trabalha l na fbrica. 
 Muito prazer. Fique  vontade." 
"Notei que era uma menina simples, mas muito bonita. Comearam um 
namoro. Fiquei um pouco preocupada porque eram muito crianas, mas no 
fiz nada. Ricardo estava muito feliz, aquilo era o suficiente para que eu a 
aceitasse. Namoraram por quase um ano. Numa tarde de domingo, os dois 
chegaram juntos. Ricardo, com o rosto um tanto preocupado, disse: 
 Mame, estamos com um problema e a gente no sabe como resolver. A 
gente precisa de sua ajuda. 
Senti que algo muito grave estava acontecendo. Comecei a ficar 
preocupada: 
 O que est acontecendo? Fale logo, estou ficando nervosa, Ricardo! 
 Cinira est esperando uma criana. Ela est grvida. 
 Oh, meu Deus! Vocs ainda so crianas... Voc s tem dezessete anos, 
e ela quinze, meu filho... 
 A gente sabe disso. Os pais dela so muito severos, no vo aceitar. 
Quando souberem, vo coloc-la para fora de casa. Por isso a gente precisa 
da sua ajuda, mame. 
 Vou fazer o que puder para ajudar vocs. O que querem? 
 A gente precisa de dinheiro para que ela possa fazer um aborto. 
 Aborto?! Aborto? No! No posso fazer isso. Sabe que no tenho 
dinheiro. Ganho o suficiente para nosso sustento, mas, mesmo que tivesse 
no lhe daria para um aborto.  um crime. Essa criana  um esprito de 
#
Deus, no podem matar! 

 A gente no tem condio de criar uma criana, mame... que vamos 
fazer? No tem outro caminho... 
 Sempre tem um caminho, e esse no  o melhor. Talvez, o mais fcil, mas 
no o melhor. 
 A gente no sabe o que fazer. 
 Voc gosta realmente dela? 
Lembro que olhei para aquela menina que mantinha os olhos baixos e 
chorava. Ele respondeu:" 
" Claro que gosto! Eu a amo, por isso no quero que sofra. O pai dela no 
vai aceitar. 
 Se gosta mesmo, vai assumir essa criana e a ela tambm. Vocs vo se 
casar, e vir morar aqui. 
 Aqui? Esta casa  s um quarto-e-sala. 
 A gente d um jeito. Qualquer coisa  melhor que um aborto. 
S ento Cinira levantou os olhos, que brilhavam mostrando a felicidade que 
sentia. 
 A senhora vai fazer isso, mesmo? -disse ela.  Vai deixar a gente vir 
morar aqui? 
 Claro que sim, minha filha. Antes de te conhecer, meu filho era triste e 
calado. Hoje est feliz, mudou completamente. Sei que se amam como no 
iria ajudar? 
Naquele mesmo dia, fomos at o cartrio. Mas a gente no imaginava como 
seria difcil realizar aquele casamento. Os dois eram menores de idade, por 
isso no poderiam se casar sem o consentimento do juiz. Depois de muita 
luta, eles conseguiram convencer o juiz de que se amavam e que queriam 
realmente aquela criana. Na festa de casamento s havia um pequeno bolo, 
mas muitos amigos. Seis meses depois, nasceu Lenita. Quando a vi no 
berrio, senti uma ternura enorme. Eu a amei desde o primeiro instante. A 
meu lado, olhando a criana atravs do vidro, Ricardo tambm estava feliz e 
orgulhoso: 
 Mame, ela no  linda? 
 , sim, meu filho.  a menina mais linda do mundo. Vamos fazer o 
possvel para que seja muito feliz. 
Cinira ficaria no hospital por dois dias. Lenita nasceu s duas da tarde.  
#
noite, Cinira comeou a ter uma hemorragia. Os mdicos no conseguiram 
explicar o motivo, s disseram que fizeram o possvel, mas no adiantou a 
hemorragia no foi estancada. Uma semana aps o nascimento de Lenita, 
Cinira morreu. 
Ainda pensando, olhou pela janela do nibus. L fora o sol brilhava. 
Lgrimas comearam a correr por seu rosto, e ela as enxugou com as mos. 
No queria relembrar tudo que havia passado, mas a lembrana do 
desespero em que seu filho ficou fazia-a sofrer muito." 
"Como Ricardo ficou desesperado ao saber que a esposa havia morrido... Eu 
tentava consolar meu filho, mas, mesmo j conhecendo algo sobre a vida 
espiritual, eu mesma no conseguia aceitar. Dizia: 


 Por que, meu Deus? Eles se amavam tanto... Essa criana, apesar de 
tudo, foi muito bem-vinda. No  justo. Meu filho  to bom, o que ser dele 
agora? 
Levamos Lenita pra casa. Ela realmente era muito bonitinha. Ricardo entrou 
em uma depresso profunda. O fato de eu trabalhar a muito tempo nas 
mesmas casas facilitou que minhas patroas permitissem que eu trabalhasse 
tendo de levar a menina comigo. Aos poucos, todas se apaixonaram por ela. 
Dois anos atrs, Lenita estava com quase dois anos e parecia ser uma 
criana saudvel. Em uma noite, percebi que ela estava tendo dificuldades 
para respirar. Eu e Ricardo a levamos a um pronto-socorro. Depois de 
examin-la, o mdico disse: 
 Ela tem um problema de corao, vai precisar ficar internada para que 
sejam feitos vrios exames. 
Assustados, eu e Ricardo nos olhamos. No mesmo instante nos lembramos 
de Cinira morrendo em um hospital. Ele no queria deixar a menina, mas eu 
o convenci de que seria o melhor. Com o corao apertado, a gente deixou 
Lenita ali. No dia seguinte, na hora da visita, fomos at o hospital. Ela estava 
com uma boa aparncia. Ao ver a gente, a enfermeira disse: 
 O doutor Tavares pediu que fossem at seu consultrio. Precisam 
conversar. 
Preocupados, fomos at ele, que nos recebeu com o rosto srio: 
 Fizemos os exames e descobrimos que ela tem um problema srio no 
corao. Talvez, quando crescer um pouco mais, tenhamos de fazer uma 
#
cirurgia. 

 Cirurgia? O senhor tem certeza?" 
" Sim, mas vamos iniciar um tratamento. Ela ter de tomar este remdio 
todos os dias. Veremos como vai reagir. 
A gente levou Lenita pra casa. Ricardo permaneceu calado durante todo o 
trajeto. Eu no sabia em que ele pensava, mas no me atrevi a perguntar. 
Trs dias depois, ele chegou a casa com uma motocicleta: 
 Mame, sabe bem que Lenita vai precisar de um tratamento. A gente no 
pode continuar morando aqui nesta favela. Por isso resolvi mudar de 
emprego. O que ganhava na fbrica era muito pouco. Trabalhando com esta 
moto, poderei ganhar muito mais e em breve a gente vai poder mudar. 
Senti um aperto no corao, mas sabia que no podia fazer nada. Apenas 
disse: 
 Tem certeza de que essa  a melhor coisa a fazer, meu filho? 
 Tenho mame, sim. Preciso ganhar mais, e essa  uma tima maneira. 
Alm do mais, com a moto, se Lenita passar mal durante a noite, vai ser 
muito mais fcil levar ela para o pronto-socorro. 
 Est bem, Ricardo. Se acreditar ser o melhor, que seja. 
Ele comeou a trabalhar para uma empresa. No final do primeiro ms de 
trabalho, chegou  casa muito feliz: 
 Olhe aqui, mame: recebi meu primeiro salrio, e  mais que o dobro 
daquele que recebia na fbrica. Se continuar assim, logo a gente vai poder 
mudar. 
 Fico feliz por voc. Ser muito bom mudarmos para um lugar melhor. 
Seis meses depois, em uma noite, ele comeou a sentir uma dor de cabea 
muito forte. Dei a ele um comprimido com ch, dizendo: 
 Deve ser o comeo de uma gripe. 
A dor passou, e ele voltou a dormir. Duas horas depois, acordou gritando: 
 Mame, no estou agentando a dor. Est muito forte. Preocupada, 
perguntei: 
 Quer ir at um hospital?" 
" No, vou tomar outro comprimido e, se amanh no passar, eu vou. 
Dei para ele outro comprimido. Ele dormiu mais um pouco, mas pela manh 
a dor ainda continuava agora mais forte. Ele no tinha condies de dirigir a 
moto. Pegamos um txi e fomos a um hospital. Aps o exame, o mdico 
#
disse: 

 Ter de ficar internado. Estou suspeitando de que esteja com meningite. 
O cho sumiu de meus ps. Senti que ia desmaiar, mas o mdico me 
amparou. Sem deixar transparecer meu desespero, me despedi de Ricardo. 
Naquela mesma noite, ele morreu. Era meningite da mais letal, no houve 
uma maneira de ser salvo. 
Ainda pensando, Marlene olhou novamente para fora, enquanto o nibus 
seguia seu caminho. 
Est faltando pouco, preciso prestar ateno. Estou to envolvida em meus 
pensamentos que posso at perder meu ponto. 
Ela, no entanto, no conseguia parar de pensar: 
Como me revoltei contra Deus! Quando recebi a notcia da morte de Ricardo, 
comecei a gritar: 
 Deus, como pde fazer isso comigo? Sou uma pessoa boa. No fao 
nada de mal para ningum. Tenho vivido uma vida inteira de sofrimento e 
misria. Perdi meu marido, minha nora tenho uma filha que no sei por onde 
anda. E agora meu filho? No  justo. No  justo!" 
"Eu chorava muito. A enfermeira, vendo que eu estava sozinha, me deu uma 
injeo e fiquei dormindo no hospital por algumas horas. Quando acordei, 
estava mais calma, mas no conseguia perdoar Deus por me tratar daquela 
maneira. Precisava providenciar o sepultamento de meu filho. Sabia que 
precisava voltar para casa e continuar vivendo, pois havia deixado Lenita 
com uma vizinha. Lenita... Ah, minha Lenita... Foi por ela que suportei tudo. 
Eu no podia morrer. Ela precisava de minha proteo e afeto, no podia 
deixar que ficasse sozinha neste mundo. Quanto a Mrcia, no posso fazer 
nada. Estou h muito tempo vivendo sem ela. Agora sei que ela est bem, e 
isso me basta. Meu ponto de nibus est chegando, preciso descer. 
Levantou-se, tocou a campainha e desceu." 
#
Resultado do trabalho 

"Depois que a me saiu, Mrcia sentou-se em sua cadeira. Tremia, no 
sabia se de emoo ou de raiva. Por que ela teve de me encontrar? Por que 
eu tive de dizer todas aquelas coisas? Por que eu a odeio tanto? Por que 
nunca consegui nem consigo agora acreditar em seu amor, ou pelo menos 
confiar nela? 
Ficou assim sem trabalhar por algum tempo. O interfone tocou. Era o doutor 
Fernando, que havia se recuperado e voltado, querendo que ela fosse  sua 
sala. Ela se levantou, foi at o banheiro, retocou a maquiagem, passou as 
mos pelos cabelos e foi at ele. Recebeu suas orientaes e voltou para 
sua sala. Como sempre, o trabalho para ela era o melhor remdio. Enquanto 
trabalhava, esquecia-se de tudo, at de Osvaldo. 
O dia passou rapidamente. Osvaldo no ligara, mas ela nem se deu conta 
disso. Nos momentos de folga, s pensou em Lenita, em sua me e no dio 
que viu em seus olhos quando esta disse sentir vergonha de t-la gerado. 
Quando o expediente terminou, foi para sua casa. S quando l chegou foi 
que lembrou ser segunda-feira, o fim do prazo estabelecido por dona 
Durvalina fora no domingo. 
Ele no telefonou. Ser que o trabalho no vai dar certo? 
Foi at a cozinha. Seu jantar estava preparado, mas ela novamente estava 
sem fome. Ficou por ali, andando de um lado para outro, sentindo um 
imenso vazio que tomava conta de todo o seu ser. Foi se deitar. Estava 
dormindo quando o telefone tocou. Meio adormecida, atendeu: 

 Al... Quem ? 
 Sou eu, Osvaldo. Sei que j  muito tarde, mas preciso te ver agora! 
Ela deu um pulo, sentou-se na cama. 
 Osvaldo? Mas  muito tarde. Onde voc est? 
 Estou aqui embaixo, em um telefone pblico. Preciso subir e te ver agora. 
Ela sorriu e pensou: 
Sim! O trabalho deu certo!" 
" Pode subir. Estou esperando. 
Enquanto ele subia, ela foi at o banheiro, escovou os dentes, passou seu 
perfume preferido e colocou a camisola nova que havia comprado 
especialmente para aquele dia. Olhou o relgio: era mais de uma hora da 
#
manh. A campainha tocou, ela foi abrir a porta. 
Assim que se encontraram, uma onda de desejo os envolveu. Comearam a 
se beijar sem nada dizer, ali mesmo na porta. Ele parecia alucinado, e ela 
tambm. Entraram. O amor foi violento e selvagem. No foi dita palavra 
alguma. Quando terminaram, ele pareceu voltar  realidade: 

 No sei o que estou fazendo aqui. Aconteceu algo em minha casa que me 
desgostou e eu senti uma necessidade imensa de ver voc, de te possuir! 
 Que aconteceu em sua casa? 
 Prefiro no falar, foi horrvel. No sei se poderei continuar vivendo ao lado 
de Clarice, mas sinto que a amo, e muito. 
Ao ouvir suas ltimas palavras, Mrcia estremeceu. 
 Como pode dizer que a ama depois de me possuir de forma to 
apaixonada? 
Ele no soube responder. 
Enquanto isso, Clarice, em sua casa, chorava desesperadamente. 
 Meu Deus, que aconteceu esta noite? Por que tudo tem de mudar to 
drasticamente? Estvamos to felizes. Por que aquela dor to intensa? De 
onde veio aquele mau cheiro terrvel? 
Chorava, e com razo. Ela e Osvaldo jantaram com as crianas. Aps 
coloc-las na cama, prepararam-se para dormir. Antes, porm, planejaram 
momentos de amor. Assim que comearam as primeiras carcias, de suas 
bocas comeou a sair um mau cheiro insuportvel, o que fez com que 
afastassem os rostos. Insistiram, mas foi em vo: ao invs do prazer, uma 
dor terrvel tomou conta dos dois. A dor foi to intensa que foram obrigados a 
desistir. 
Imediatamente, Osvaldo se lembrou de Mrcia e sentiu por ela um desejo 
incontrolvel. No desistiu: saiu e foi  sua procura. Ele, durante o trajeto, 
por muitas vezes parou o carro, procurando entender o que havia 
acontecido. Desesperado, pensou:" 
"Eu amo Clarice com toda a ternura que s um amor verdadeiro pode ter. Por 
que est acontecendo tudo isso? Ser que estamos doentes? 
Pensava em voltar, mas o desejo por Mrcia foi maior que o amor por 
Clarice. No resistiu e, por isso, foi at ela. 
Depois de amar Mrcia, Osvaldo saiu do apartamento dela, pegou o carro e 
ficou andando sem destino. Sentia que amava Clarice. Sentiu tambm que 
#
no fundo detestava Mrcia, mas sabia que no poderia mais viver sem ela. 
Queria voltar para casa, mas temia sentir novamente aquele cheiro horrvel 
que o perfume de Mrcia havia eliminado. Sabia que Clarice tambm deveria 
estar sofrendo. Andou... Andou. 
Vou para casa. Amo Clarice e nossos filhos. Algo deve ter acontecido que 
no entendo, mas amanh mesmo vamos, os dois, ao mdico fazer alguns 
exames para descobrir o motivo daquela dor e daquele cheiro... 
Chegou a casa. Clarice estava deitada ainda chorando. Entrou no quarto, 
pensando que ela estivesse dormindo. Deitou-se a seu lado, e percebeu que 
no havia mais aquele odor ruim. Deu um beijo na testa da esposa, que 
abriu os olhos vermelhos de tanto chorar. Ela ficou com medo de abrir a boca 
e novamente o mau cheiro voltar. Ele a abraou, falando: 

 Meu amor, sei que, como eu, est sofrendo muito. Mas no importa o que 
aconteceu esta noite, ns nos amamos. Vamos amanh mesmo a um 
mdico para descobrir o que est acontecendo. Amo vocs, e nada vai 
conseguir nos separar, nem que tenhamos de viver como irmos dentro 
desta casa. Mas nunca vou te abandonar... se fizesse isso, estaria 
abandonando a mim mesmo. No consigo mais viver longe de vocs. Deve 
haver uma explicao para tudo isso que est acontecendo e ns a 
encontraremos desde que continuemos juntos." 
"Ao dizer aquelas palavras, Osvaldo, sem perceber, afastou com violncia o 
vulto negro que os tentava envolver. Clarice voltou a chorar. Ele a abraou e 
a beijou com amor. O mau cheiro no voltou. Deitaram-se e dormiram 
abraados, como sempre. 
No dia seguinte pela manh, ao levantar, Osvaldo ligou para o escritrio 
avisando que s iria trabalhar na parte da tarde. Levantou-se e foi para a 
cozinha. Clarice estava dando caf para as crianas, que iriam em seguida 
para a escola. Ele se aproximou, beijou seus lbios e sentou-se para tomar 
caf. Da rua ouviu-se uma buzina, e Clarice saiu para levar as crianas at o 
nibus escolar. Voltou, sentou-se ao lado de Osvaldo e tomaram caf juntos. 
Ela j havia marcado hora com seu ginecologista. Eram ainda oito horas, e a 
consulta seria s onze. Aps terminar o caf, ela se levantou, tirou a loua de 
cima da mesa e levou-a at a pia. Osvaldo tambm se levantou e a abraou 
por trs. Ela se encostou-se a seu peito e fechou os olhos. Ao sentir o corpo 
do homem amado encostado ao seu, Clarice estremeceu.. Ele a virou de 
#
frente e a beijou. Ela correspondeu ao beijo e, assim abraados e aos beijos, 
foram para o quarto. Assim que se deitaram, o mau cheiro voltou e as dores 
se fizeram sentir. Ela, desesperada, levantou-se chorando e dizendo: 

 No adianta. No vamos conseguir nunca mais. Isto est se tornando 
uma tortura. 
No mesmo instante, ele sentiu um desejo enorme por Mrcia, muito embora 
neste horrio ela devesse estar no escritrio. 
No faz mal, vou at l. Fecharemos  porta e nos amaremos ali mesmo. 
Preciso v-la. Tem de ser agora! 
Sentia seu perfume, que o embriagava. Vestiu-se, pegou a chave do carro e 
foi para a garagem. Entrou no carro e deu a partida. J estava saindo, 
quando parou, pensando: 
No posso ir. Amo minha mulher. Isso que est acontecendo tem de ter uma 
explicao. Vamos ao mdico, como planejado." 
"Seu corpo doa de desejo por Mrcia, mas ele resistiu. Entrou em casa 
novamente, e Clarice estava ali, sentada na cama e chorando. O mau cheiro 
havia passado. Ele a levantou e a abraou, dizendo: 
 Tudo isso tem de ter uma explicao. Vamos ao mdico e descobriremos. 
Ns nos amamos e nada vai nos separar. 
Beijou seus lbios novamente, e o beijo foi suave e amoroso. 
Dez minutos antes das onze, estavam no consultrio do ginecologista. 
Osvaldo segurava fortemente a mo de Clarice, como se temesse perd-la. 
O desejo por Mrcia aumentava, mas ele, suado e nervoso, resistiu. 
O ginecologista, aps ouvir a histria dos dois, ponderou: 
 Estou estranhando, porque a senhora j  minha paciente h muito tempo 
e nunca observei que tivesse alguma ferida, que seria um dos provveis 
motivos para sentir dor. Vamos fazer um exame. 
Auxiliada por uma enfermeira, Clarice deitou-se na mesa e o mdico a 
examinou. Quando terminou, disse: 
 Exatamente o que falei: aparentemente no h nada errado, mas vamos 
pedir alguns exames de laboratrio, s com eles poderei fazer um 
diagnstico preciso. Quanto ao senhor, vou pedir alguns exames tambm. 
Osvaldo e Clarice ficaram um pouco mais tranqilos. Ele perguntou: 
 O que o senhor acredita que possa estar acontecendo conosco? 
 No sei como responder a essa pergunta. Tenho quase vinte anos de 
#
profisso e nunca vi algo parecido. Precisamos esperar o resultado dos 
exames. Fiquem tranqilos, acharemos as respostas. 
Confiantes, sentiam que o mdico iria ajud-los. Foram para a escola pegar 
as crianas e depois almoaram em um restaurante. As crianas estavam 
felizes de passar o dia com o pai. No estavam acostumados a v-lo, porque 
quando acordavam ele j havia ido para o trabalho e quando voltava eles j 
estavam dormindo. S depois que Osvaldo assumiu o amor pela esposa e 
pelos filhos foi que ele comeou a chegar a casa cedo o suficiente para 
jantarem e ficarem juntos." 

#
Desculpa para o suicdio 

"Enquanto isso, Gervsio e Farias, saram da sala de Damio. Farias 
confuso, sem saber que caminho seguir, perguntou: 

 Gervsio, quem  na realidade Damio? Ele parece no pertencer a um 
lugar como este. 
 No sei muito tambm, s coisas que ouo aqui e acol. Parece-me que 
ele  um esprito muito iluminado, que escolheu trabalhar aqui na tentativa 
de ajudar aqueles que se suicidam. Na maioria das vezes, os suicidas 
sempre culpam algum por seu ato. Sofrem muito por isso, at o dia em que 
se convencerem de que ningum e nada pode ser culpado, a no ser eles 
prprios. Damio est sempre presente a cada atitude que  tomada por 
qualquer um. Quando percebe que chegou a hora e que existe uma chance 
de o esprito entender e livrar-se do dio, ele manda cham-lo  sua 
presena. Ele, ento, o ajuda a pensar e a tomar o melhor caminho. Dizem 
tambm que ele est aqui para ajudar um amigo, ou melhor, inimigo. 
Farias acompanhava o que Gervsio dizia. 
 Ajudar um inimigo? Deve estar brincando! No posso acreditar que 
algum quisesse viver em um lugar como este sem necessidade! S para 
ajudar um inimigo. Sinto muito, mas no acredito! 
 Existem espritos que fazem muito mais que isso. Muitos deles renascem 
sem necessidade, s para ajudar um amigo ou inimigo. Por isso o cu e o 
inferno no so como os imaginamos na Terra. 
 Que est dizendo? No existe cu e inferno? O que acha que  o vale? 
Aquilo parece um inferno muito pior do que o imaginado. 
 Se fosse o inferno descrito na Terra, todos os que l ento permaneceriam 
para sempre, sem esperana de sair, o que no  verdade, porque um dia 
todos os espritos encontraro a luz divina. 
 Um dia, podero mesmo sair dali? 
 Sim,  um lugar de aprendizado e reflexo, mas todos tero a 
oportunidade de sair, podendo, assim resgatar seus erros." 
" Est dizendo que todos so levados ao suicdio porque querem. Eu 
mesmo fui levado por aquela mulher perversa. Se ela no tivesse aparecido 
em minha vida, eu estaria at hoje vivendo feliz ao lado de minha famlia. 
 No conheo a histria de vocs em uma vida anterior, mas sei que voc 
#
s no a enfrentou por covardia. Portanto, a culpa no foi dela e sim sua. 

 No aceito isso! No podia deixar que as pessoas soubessem que eu 
tinha uma vida que, para muitos, poderia no parecer digna. Eu tinha uma 
imagem que no podia ser destruda. Se tudo fosse descoberto, seria meu 
fim! 
 Por que as pessoas no poderiam saber? 
 Porque todos acreditam ser um crime, um pecado. 
 E voc, no que acredita? 
 Tambm acho um crime, um pecado. 
 Ento voc  culpado duas vezes. A primeira, por ser covarde; a segunda, 
por praticar algo que achava ser pecado, mas assim mesmo o cometia. 
 No  pecado, Gervsio? 
 Deus  justo e perfeito, no permitiria que um esprito nascesse para o 
erro, Farias. Ele quer que todos os seus filhos encontrem o caminho para a 
felicidade. s vezes coloca  nossa frente outros espritos a quem 
precisamos ajudar, ou simplesmente para nos testar. 
 Testar? Est dizendo que aquela mulher com que tive um longo 
relacionamento, poderia ser um teste? 
 No sei o motivo, mas pode ser, sim, Farias. No sabemos os caminhos 
para nossas vidas. 
 Nunca soube nada sobre esse assunto. No tinha tempo, precisava 
trabalhar. 
 Se soubesse algo sobre isso, teria sido diferente? 
Farias voltou seu pensamento para seu passado. Viu-se praticando atos que 
para ele eram errados, mas que lhe faziam muito bem. Pensou na outra 
mulher que fez parte de sua vida, mas de quem sentia vergonha. Pensou em 
quantas vezes disse que no voltaria mais  sua casa, e em quantas vezes 
voltou. 
 No sei. Sempre acreditei que os sentimentos eram mais fortes que eu." 
" Talvez fosse uma tendncia a que voc devesse resistir. Ou 
simplesmente aceit-la sem discutir. 
 No sei. Estou cada vez mais confuso, mas, mesmo que eu aceitasse, os 
outros e minha famlia no aceitariam e me condenariam para sempre. 
 Quem lhe garante isso? Mais de uma vez voc duvidou do amor de Deus 
e de sua famlia. Quem lhe garante que, se eles viessem a descobrir, aps 
#
um primeiro susto e at uma grande revolta, o amor que sentiam por voc 
fosse superior e eles simplesmente ignorassem o fato, continuando a am-lo 
para sempre? 

 No. No acredito que isso pudesse acontecer. Eles no poderiam 
compreender nunca! Como exigir isso deles, se eu mesmo no 
compreendia? 
 Isso voc nunca saber, porque no tentou. S estou fazendo tudo isso e 
fazendo voc pensar para que entenda que, embora Mrcia tenha 
contribudo para o seu suicdio e deva ser punida, no foi  nica culpada; 
voc tambm teve sua parcela, e grande, de culpa porque foi covarde e no 
conseguiu enfrentar aquilo que considerava errado. 
 Talvez voc tenha razo. Mas, mesmo assim, se ela no tivesse me 
obrigado, estaria at hoje vivendo muito bem e, quem sabe, com o tempo, eu 
teria coragem de abandonar aquela mulher, ou de assumi-la de vez. 
 Nunca saber... nunca tentou... na primeira oportunidade, se acovardou e 
encontrou o caminho que parecia ser o melhor. 
Farias, ficou calado, apenas abaixou a cabea e, pensativo, acompanhou 
Gervsio." 
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Conhecendo a espiritualidade 

"Mrcia chegou  empresa sorridente e feliz. Entrou em sua sala e pediu um 
caf. Enquanto esperava, ia pensando: 
Todo o trabalho e o dinheiro gasto valeram  pena. Ele voltou melhor do que 
eu poderia imaginar. Senti que est inteiramente a meus ps. Vou ficar com 
ele por algum tempo e depois vou abandon-lo. Ele vai ver quanto custa um 
dia ter tentado me humilhar. Poder ficar com aquela esposinha, mas nunca 
poder am-la ou possu-la novamente. Quando vier me procurar, eu o 
expulsarei para sempre. Nunca mais vou querer v-lo em minha frente. 
Nunca mais! 
Trabalhou o dia todo, mas no conseguia esquecer Osvaldo, o modo como 
ele a havia amado e como, com certeza, voltaria naquela noite. 
Ele vai querer amar a esposinha novamente, no vai conseguir e voltar a 
me procurar. Vou adorar v-lo a meus ps, implorando meu amor. Valeu 
mesmo a pena o dinheiro gasto. A felicidade que estou sentindo, no h 
dinheiro que pague. 
No dia seguinte pela manh, Osvaldo e Clarice foram  clnica fazer os 
exames pedidos pelo mdico. Decidiram que, enquanto os resultados no 
chegassem, evitariam ter contato fsico. Perceberam que, assim fazendo, 
poderiam viver em paz, mas sabiam que aquele estado de coisas no 
poderia durar por muito tempo. Amavam-se e, naturalmente, se queriam de 
todas as maneiras. No poderiam ficar Por muito tempo sem esse contato. 
Aps fazer os exames, Osvaldo foi para seu trabalho, Clarice pegou as 
crianas na escola e foi almoar na casa de sua sogra. 
Dona Slvia considerava-a como filha e sofria muito ao ver o que Osvaldo 
fazia com ela, por isso lhe dava toda a ateno e carinho." 
"Quando Clarice tinha quinze anos, seus pais vieram do Paran para So 
Paulo e foram morar ao lado da casa em que Osvaldo morava. Entre as duas 
famlias nasceu uma amizade sincera, e entre os dois um amor que os levou 
ao altar. Viveram felizes por pouco tempo. Quando nasceu a primeira filha, 
Osvaldo sentiu-se rejeitado e dividido no amor que Clarice dava  criana. 
Foi se distanciando e conheceu Mrcia. Da para frente deixou Clarice e os 
filhos completamente abandonados. Por ser um empresrio bem sucedido, 
no deixava faltar nada que o dinheiro pudesse comprar, mas sua presena 

#
foi ficando cada vez mais breve. Isso durou muitos anos. Sua me 
acompanhava tudo e sofria ao ver o que ele fazia. Tentou muitas vezes falar 
com ele, mas foi em vo: ele, simplesmente, sorria e continuava como antes. 
Ela e Marlene, sua empregada e amiga h muitos anos, davam conselhos a 
Clarice para que o abandonasse, mas Clarice o amava e tinha medo de 
perd-lo para sempre. At que, uma noite, ao se aproximar dele, pedindo 
carinho, depois de ele ter chegado tarde da noite, como era seu costume, ele 
a repeliu ferozmente. No dia seguinte, ela decidiu seguir os conselhos da 
sogra e de Marlene e foi embora para a casa de seus pais, que haviam 
voltado para o Paran. Da para frente, tudo mudou. Osvaldo agora era o 
homem com quem havia se casado, fiel e cumpridor de seus deveres. Ela 
estava feliz, e sua sogra sabia disso. 
Naquela manh, Clarice chegou com as crianas para o almoo. Dona Silvia 
j a esperava. Depois do almoo, as crianas foram para a rua brincar. 
Clarice e a sogra estavam sentadas  mesa; Marlene coava caf. Dona 
Silvia, que estava prestando ateno ao comportamento da nora desde que 
ela chegara, perguntou:" 
" Clarice, o que est acontecendo? Voc me parece que no est bem. 
Osvaldo mudou novamente? Voltou  sua antiga vida? 
Clarice olhou para a sogra e para Marlene, que se voltou para ouvir sua 
resposta. Comeou a chorar e entre lgrimas falou: 

 No. Ele continua apaixonado e nos dando toda a ateno. Estou muito 
preocupada, mas ele no tem culpa, est sendo maravilhoso, apesar de 
tudo. 
 Tudo o qu? Que est acontecendo? Voc me parece muito tensa, seu 
rosto denota um sofrimento muito grande. Conte logo. 
Clarice contou. As duas ouviram caladas. Quando terminou de narrar os 
acontecimentos, concluiu: 
 No sei o que fazer. Eu e ele nos amamos muito, mas temo que, se isso 
continuar, nosso casamento se acabe definitivamente. No poderemos viver 
por muito tempo como irmos. No sei o que fazer... No encontro 
explicao... Fomos hoje a um laboratrio para fazer alguns exames, para 
que o mdico consiga descobrir o que est acontecendo. No sei... Tenho a 
impresso de que isso no vai resolver. 
Marlene, ao ouvir aquilo, voltou-se para olhar Clarice de frente e perguntou: 
#
 Voc disse que tudo isso s acontece quando esto fazendo amor? 
 Sim. Se ficarmos conversando ou simplesmente de mos dadas, nada 
acontece. S quando estamos envolvidos em carcias mais profundas  que 
aquele cheiro horroroso surge e as dores tambm. Somos obrigados a parar. 
Marlene ficou olhando sem nada dizer. Dona Slvia perguntou: 
 Vocs foram ao mdico e ele disse que aparentemente est tudo bem? 
 Disse, mas temos de esperar o resultado dos exames que fizemos hoje. 
Marlene segurou suas mos, falando: 
 Isso est me parecendo coisa feita." 
" Como assim? Que coisa feita  essa? 
 Existem espritos maus que so usados para fazer maldade. 
 No acredito nisso e, mesmo que acreditasse, quem poderia querer nosso 
mal? A troco de qu? 
 Os espritos maus so as mesmas pessoas ms que um dia 
desencarnaram. Quando desencarnamos, continuamos sendo como sempre 
fomos. Se ramos bons, continuamos bons; se ramos mentirosos, maus, 
fofoqueiros, briguentos, continuamos da mesma forma. Dependendo do grau 
da maldade praticada, os espritos se tornam escravos de outros mais 
espertos.  como um presidirio que vai parar em uma cela onde existem 
presos antigos e poderosos: ele  obrigado a se adaptar ao que estes 
querem. 
 Isso ser verdade? Quer dizer que, mesmo no tendo erros, como 
acredito no ter, posso ser vtima de um esprito como esse? 
 Deus  Pai supremo e justo. Nunca, jamais permitiria que um filho seu 
sofresse sem motivo. Voc hoje pode ser e , sei disso, uma pessoa boa e 
cumpridora de seus deveres, mas nada pode nos garantir que no passado, 
em outra vida, tenha sido sempre assim. 
 Est dizendo que posso hoje responder por algo que fiz no passado e de 
que no me lembro? 
 Isso mesmo. Essa  a Lei. 
 Que Lei  essa? No importa o que fiz ontem, importa o que sou hoje. 
 Voc pode pensar assim, mas suas vtimas de ontem podem pensar de 
maneira diferente e exigir uma justia da qual se acham merecedoras. 
 Se for verdade, isso no  justo. 
 Aqui na Terra, quando um crime  cometido, a lei no prende o infrator e o 
#
condena? Por que com a justia de Deus seria diferente? 

 Se  assim, estou pagando por erros passados. Se realmente algum fez 
algo para destruir meu casamento,  por que mereo? Est dizendo que no 
h uma maneira de escapar? Est dizendo que nada pode ser feito? Est 
dizendo que o mal poder vencer sempre?" 
" Existe uma luta constante entre o mal e o bem. Todos somos espritos 
aprendizes, estamos aqui para nos encontrar com amigos de outrora, para 
nos ajudarmos mutuamente, e inimigos, para tentarmos uma reconciliao. 
Se algum lhe fez um mal que pode at destruir seu casamento, o nico 
caminho que conheo  o do amor e do perdo. 
 Perdo? Amor? Como posso perdoar e amar uma pessoa que est 
tentando destruir a mim e  minha famlia? 
 Esse  o nico caminho que conheo. 
 Se existe algum que faz uma maldade dessas, deve existir algum que a 
desfaa e a mande de volta para quem fez. Vou procurar uma pessoa assim 
e mandarei tudo de volta. 
 No faa isso, Clarice. Se assim o fizer, estar tambm se tornando 
escrava e sofrer muito por isso. 
Dona Slvia, que at agora s ouvia as duas, colocou sua mo sobre as de 
Clarice, que gesticulava muito enquanto falava. 
 Clarice, minha querida -disse ela.  Sabe quanto gosto de voc e de 
meus netos. Seria a ltima pessoa neste mundo a lhe dar um mau conselho. 
Conheo Marlene h muito tempo, sei de toda a sua vida e como tem 
suportado todas as dificuldades em nome do que acredita. Pode parecer 
estranho, mas ela sabe o que diz, tem muito conhecimento e, sempre que 
aconselhou algum, foi para o bem. Escute o que ela tem para dizer e siga 
seus conselhos, sei que no vai se arrepender. 
Clarice confiava naquelas duas mulheres que estavam  sua frente, mas no 
admitia que existisse algum que pudesse fazer mal a outra pessoa. Pensou 
um pouco e falou: 
 No estou entendendo muito bem o que esto falando. S sei que meu 
casamento est se destruindo e com ele a minha felicidade e a dos meus 
filhos! No posso ficar parada e rezando sem nada fazer para impedir isso! 
Sei que amo e sou amada... 
Marlene a interrompeu: 
#
 Acabou de dizer as palavras mgicas. Sabe que ama e que  amada... 
essa  exatamente a arma que deve usar. O amor que existe entre vocs  o 
que os libertar de qualquer mal." 
" Preciso que me diga o que tenho de fazer. Quero fazer o certo e farei 
qualquer coisa para salvar o meu casamento. 
 A primeira coisa a fazer  pedir a Deus que proteja a pessoa que cometeu 
esse crime. Que Deus a ilumine para que se arrependa. 
 No sei quem , nem sei se acredito nisso. Como posso pedir por um 
estranho? 
 No importa quem seja. No importa se acredita ou no. Apenas seja 
sincera. Dona Silvia, pea a Rosa que segure as crianas na casa dela por 
uma hora mais ou menos. Vou fazer algo, e elas no podem estar presentes. 
Precisarei de sua ajuda. 
Dona Slvia levantou-se, foi at a vizinha, onde as crianas brincavam, falou 
com a dona da casa e voltou. Sentou-se novamente e disse: 
 Podemos ficar  vontade. Ela vai prender as crianas l. Marlene tirou 
tudo que havia em cima da mesa, colocou uma jarra com gua, sentou-se ao 
lado de Clarice e dona Slvia, segurou as mos de cada uma e fez com que 
elas segurassem as suas, formando assim uma corrente. Fez um pai-nosso, 
abriu uma pgina do Evangelho e leu a parbola do filho prdigo. Quando 
terminou de ler, falou: 
 Senhor meu pai, como um dia o filho prdigo pediu perdo e o regresso 
para o lar, neste momento estamos aqui pedindo perdo por todos os crimes 
praticados. Sabemos que somos devedores, mas sabemos tambm que de 
Suas mos s podem cair bnos. Senhor, neste momento, unidas no 
mesmo amor em torno de nosso irmo Osvaldo, pedimos que suas bnos 
caiam sobre ele e sua famlia, que de nossos coraes, neste momento, 
possam sair raios de luz que o atinjam, onde estiverem, a pessoa e os 
espritos envolvidos. Que eles possam, Senhor, entender que o mal hoje feito 
s poder lhes trazer muito mais sofrimento amanh. Confiamos em Sua 
justia e sabedoria." 
"Ao terminar, ela abriu os olhos, pegou dois copos com gua e deu um deles 
a Clarice e dona Slvia para que bebessem, enquanto ela bebia o outro. 
Clarice e a sogra no viram, mas, se tivessem visto o que Marlene via, 
ficariam deslumbradas. A cozinha foi tomada por luzes coloridas de um lils 
#
suave que as envolvia e subiam. Marlene contemplava aquela luz e em 
pensamento agradecia: 
Obrigada, Senhor meu Pai, por ter ouvido nossas preces. Em Suas mos 
colocamos nossas vidas. 
Quando as luzes desapareceram, ela falou: 


 Agora est tudo bem. Nossas preces foram ouvidas, e tudo seguir como 
tem de ser. Devemos confiar e esperar o resultado. 
Clarice e a sogra abriram os olhos. Realmente, acompanharam com 
sinceridade a orao que Marlene proferiu. Clarice no sabia por que no 
conseguia sentir dio. Em seu corao s existia o grande amor que sentia 
por seu marido e seus filhos. Dona Slvia sorria confiante. Conhecia Marlene 
havia muito tempo e sabia de quanto ela era capaz para fazer o bem. 
O telefone tocou, e dona Slvia foi atender. Era Osvaldo: 
 Mame, Clarice ainda est a? 
 Est. Estamos tomando caf. Por qu? 
 De repente senti uma vontade imensa de falar com ela, de ouvir sua voz. 
 Espere um pouco, vou passar o telefone. 
Sorrindo e fazendo com os dedos um sinal de positivo, passou o aparelho 
para Clarice, que, tambm sorrindo e com lgrimas nos olhos, atendeu. 
 Al, Osvaldo. 
 Clarice, meu amor, que bom ouvir sua voz. Agora a pouco senti tanto 
medo de perder voc, senti tanta vontade de estar a seu lado. Estou ligando 
para dizer que te amo muito... 
 Tambm te amo, Osvaldo. Sinto que daqui para frente tudo vai ficar bem. 
Seremos felizes para sempre." 
" Vou chegar cedo em casa. Um beijo. 
Ela colocou o aparelho no gancho e agora chorava copiosamente. Sem 
perceber, estava ajoelhada e dizendo: 
 Obrigada, meu Deus, por me mostrar que estou no caminho certo. Por 
favor, continue nos abenoando e iluminando nossos inimigos. 
Marlene, tambm de mos postas, completou: 
 Que, com certeza, foram nossas vtimas no passado. Clarice, entre 
lgrimas e sorrisos, abraou as duas e comeou a danar enquanto falava: 
 Sinto que nosso amor vai ser mais forte que tudo. Juntos, venceremos 
qualquer maldade. 
#
No momento em que Marlene terminava a orao, Mrcia, no escritrio, sem 
saber por que, parou de escrever. A imagem de Lenita surgiu  sua frente, e 
ela se enterneceu. Seus pensamentos voltaram-se para aquele rostinho to 
querido. Fechou os olhos por um instante e, como se voltasse a um passado 
desconhecido lembrou-se daquele sonho no qual se via em um lugar muito 
lindo, ao lado de Lenita e de um homem desconhecido que sorria para elas. 
Embora ele fosse desconhecido, ela sentia que o amava. Em seguida, 
aparecia algum que tirava a menina de seus braos com violncia. Lembrou 
que, quando sonhava, nesse momento ela sempre acordava. 

 Que estranho! Que sentimento  esse que sinto por uma menina 
desconhecida at outro dia? Como ser que ela est? Sei que precisa de 
cuidados, mas por que tem de viver ao lado daquela mulher que tanto odeio? 
Ser que a odeio mesmo? No entendo esse sentimento que nutro por ela. 
Sinto que  uma pessoa em quem no posso confiar. 
Voltou ao trabalho, que, como sempre, para ela era o mais importante. 
Na casa de dona Slvia, assim que Marlene e Clarice terminaram de 
agradecer a Deus pela graa recebida, as crianas entraram correndo. 
Clarice abraou-as falando: 
 Agora vamos embora. Preciso preparar o jantar para o papai. Hoje vou 
fazer uma comida especial, aquela de que ele mais gosta. " 
"Pegou as crianas e foi embora. Estava leve e confiante. Sabia que o amor 
deles era a nica arma que possua e, com certeza, a usaria. Ao abrir a porta 
de casa, sentiu um perfume de limpeza. A empregada j havia ido embora, e 
tudo estava perfeito. Gostava de cozinhar, por isso ela mesma preparava as 
refeies todos os dias. As crianas estavam sujas e cansadas de tanto 
brincar. Mandou que fossem para o banho enquanto ela preparava o jantar. 
No era ainda sete horas quando Osvaldo chegou. Deu-lhe um beijo nos 
lbios e foi para a sala brincar com as crianas. Da cozinha, escutou um 
barulho. Foi para a sala, e Osvaldo estava deitado no cho com as duas 
crianas em cima dele. Rolavam pelo tapete e riam muito. Ela, da porta, viu 
aquela cena e sorriu pensando: 
Com a ajuda de Deus, nada poder impedir que essa felicidade dure para 
sempre, que meus filhos possam crescer ao lado do pai amoroso que 
Osvaldo se tornou e que eu continue sendo feliz ao lado do homem que 
tanto amo. 
#
Voltou para a cozinha e terminou o jantar. Enquanto jantavam, as crianas, 
felizes por terem o pai em casa na hora do jantar, falavam muito, contando 
do dia que tiveram na casa da av que tanto amavam e das brincadeiras 
com os amiguinhos. 
Osvaldo ouvia os filhos com ateno. De vez em quando voltava seus olhos 
para Clarice, que o fitava tambm. 
Realmente se amavam muito. 
Terminaram o jantar. As crianas ficaram mais um tempo assistindo 
televiso, depois foram para a cama. Clarice foi para o quarto e preparou a 
cama para dormirem. Ela e Osvaldo haviam combinado que no se tocariam 
enquanto no recebessem o resultado dos exames. Ela nadou por todo o 
quarto, para assegurar-se de que tudo estava limpo e cheiroso. Deitou-se. 
Logo depois, Osvaldo entrou e deitou-se tambm." 
"Ela lia um livro que Marlene lhe havia emprestado. Ele tirou o livro de sua 
mo e beijou-lhe para dar boa-noite. Um beijo que a princpio parecia ser 
sem maiores conseqncias tornou-se quente e sensual. Sem perceber, 
comearam a se acariciar, esquecendo a promessa feita de esperar o 
resultado dos exames. Quando estavam no auge das carcias, a dor e o mau 
cheiro voltaram. Parou imediatamente, Osvaldo levantou-se e foi para a sala. 
Clarice, dessa vez, o seguiu e no chorava. Sentou-se a seu lado, e os dois 
perceberam que a dor e o mal estar haviam desaparecido. Osvaldo sentiu 
novamente aquele desejo enorme por Mrcia. O desejo era tanto que ele 
no resistiu: foi para o quarto e comeou a se trocar para sair. Clarice 
colocou-se em sua frente, falando: 

 Espere. No vou deixar voc sair. Precisamos conversar: 
 No temos o que conversar. Nunca mais conseguiremos fazer amor. Mas 
eu te amo. 
 Tambm te amo, por isso mesmo precisamos conversar. Preciso te contar 
o que aconteceu hoje na casa de sua me. 
Ele parou, olhou para ela e disse: 
 No posso ficar. Tenho de sair. Preciso ir a um lugar, e quando voltar 
conversaremos. 
 Vai procurar a outra mulher? 
Ele se sentiu como uma criana pega fazendo uma travessura. 
 O que est dizendo? Que outra mulher? Est louca? 
#
 No estou louca.  exatamente sobre isso que precisamos conversar. 
O desejo por Mrcia era intenso. Ele precisava v-la e possu-la de qualquer 
maneira. 
 Agora no posso ficar. Preciso sair." 
"Clarice, desesperada por no conseguir impedir o marido, gritou: 
 Se sair agora, quando voltar no me encontrar mais aqui. Vou embora, e 
sozinha. As crianas ficaro. 
Ao ouvi-la dizer aquilo, ele parou e perguntou desesperado: 
 Est dizendo que vai me abandonar e os seus filhos? 
Dessa vez ela no chorava. Conseguiu foras sem saber de onde e 
respondeu: 
 Sim. Porque, se voc sair esta noite, tudo estar perdido para ns. Serei a 
pessoa mais revoltada e infeliz deste mundo e no terei nada para oferecer 
os meus filhos, a no ser revolta e dio. No  isso que quero para eles, que 
merecem muito mais: carinho e segurana, o que s nosso amor pode dar. 
Osvaldo sentiu que ela estava falando a verdade e que cumpriria o que 
estava prometendo. Sentiu um vazio imenso s de pensar em ficar sem ela. 
Abraou-a com fora, enquanto quase gritava: 
 Deus, me ajude! O que estou sentindo  mais forte que eu Clarice. 
Vendo o desespero do marido, o abraou e o conduziu de volta para o 
quarto. Ele se deitou, procurando dormir, mas foi em vo: seu desejo por 
Mrcia era incontrolvel. Ele se levantava e se deitava, no conseguia parar. 
Ia at a porta do quarto, voltava, parecia que estava a ponto de enlouquecer. 
Clarice lembrou-se de tudo que Marlene havia dito. Calmamente se ajoelhou 
e comeou a falar em voz alta: 
 Meu Deus, Pai poderoso e amoroso, no permita que o mal tome conta 
de nosso lar. Estamos aqui para cumprir nossa misso perante ns mesmos 
e nossos filhos. No permita Senhor, que essa misso seja interrompida. 
Que sua luz divina caia sobre ns e sobre nossos inimigos. Abenoe Senhor, 
o nosso lar. Ajude-nos, meu Pai. Que nosso amor possa superar tudo o que 
est acontecendo. Confiamos Senhor, em Seu amor." 
"Osvaldo no entendia o que ela estava fazendo, mas sentiu que aos poucos 
o desejo foi sumindo e uma paz imensa tomou conta de todo o seu ser. 
Levantou-se, abraou a esposa, ajudou-a a levantar-se e beijou-a nos lbios 
num gesto de gratido e amor. Sabia que aquela orao tivera sobre ele um 
#
poder enorme. Abraado a ela, falou: 

 Agora estou bem, no vou mais sair. Mas voc vai me contar tudo que 
est acontecendo. Sinto que sabe de algo, e eu tambm preciso saber. 
Ela o beijou nos olhos, falando: 
 Vamos para a cozinha. Vou fazer um ch e enquanto bebemos vou contar 
tudo que aconteceu hoje na casa de sua me. 
Abraados, foram at a cozinha. Passaram pelo quarto das crianas, onde 
ambos dormiam profundamente. Entraram e cobriram os dois. Na cozinha, 
Clarice preparou um ch. Enquanto enchia as xcaras, disse: 
 Estou muito cansada, parece que participei de uma batalha. De qualquer 
modo, se houve essa batalha, parece que ao menos desta vez eu ganhei. 
Eu, no... Ns ganhamos. Nosso amor provou que  mais forte que tudo. 
Marlene tinha razo. 
Clarice no pde ver e no sabia, mas realmente havia participado de uma 
batalha. Osvaldo, enquanto sentia aquele desejo imenso por Mrcia, estava 
totalmente envolto por um vulto negro que lanava sobre ele baforadas de 
charuto. Quando ela comeou a rezar, uma luz intensa entrou no quarto, 
arremessando o vulto para longe. Ele resistiu muito, por isso ela se sentia 
agora muito cansada. Ele teve de parar de jogar fumaa de charuto sobre 
Osvaldo, mas no foi embora. Estava agora na cozinha, sentado em um 
canto. Fumava seu charuto e bebia sua cachaa prestando ateno em tudo 
que eles falavam, esperando o momento exato para atac-los novamente. 
Enquanto tomavam o ch, Clarice contava todo o acontecido." 
"Osvaldo ouvia, no acreditando. 
 Isso tudo  inveno da cabea de Marlene. Ela  chegada a essas 
coisas de espiritismo. Isso nunca teve sentido para mim, essa histria de 
reencarnao, de outras vidas...  tudo uma grande bobagem. 
 Eu tambm pensava assim, mas, depois de tudo que aconteceu hoje, no 
pude deixar de me interessar por esse assunto. Marlene me emprestou 
alguns livros e os estou lendo, apenas com a inteno de estudar e entender, 
e estou gostando das explicaes que tem neles. 
 Supondo-se que tudo isso fosse verdade, quem se interessaria em 
destruir nosso casamento? 
 Deduzimos que s poderia ser uma mulher abandonada ou que goste 
muito de voc. 
#
Ao ouvir aquilo, Osvaldo imediatamente pensou em Mrcia, mas no podia 
afirmar perante a esposa que mantinha um caso fora do lar havia muito 
tempo. Disfarou, falando: 

 No existe outra mulher. Mas, se existisse eu a mataria com minhas 
prprias mos. 
 Seria um outro engano. Marlene me convenceu de que esse seria o pior 
caminho a seguir. Ao contrrio, devemos fortalecer nosso amor e rezar muito 
por essa pessoa, pedindo a Deus que seja iluminada e que se arrependa 
dessa loucura que praticou. De acordo com o que Marlene disse, devemos 
rezar muito por esse esprito que tentou e continuar tentando nos separar. 
Ao ouvir aquilo, o vulto que estava sentado levantou-se e aproximou-se mais 
para poder ouvir melhor. Clarice continuou: 
 Marlene disse que esse esprito, quando vivo, talvez tenha sido muito mau 
para com outras pessoas ou com ele mesmo. Quando se viu do outro lado, 
perseguido pelos demais, pensou que realmente era escravo e por isso 
continuou se dedicando  maldade. Devemos rezar e pedir muito para que 
Deus lhe mostre estar errado, e assim ele poder ajudar as pessoas e 
libertar a si prprio. 
O vulto ficou pensando:" 
"Ser que ela est dizendo a verdade? Ser que a tal escada existe mesmo? 
Ser que estou sendo enganado durante esse tempo todo? 
Osvaldo a interrompeu, perguntando: 
 Voc diz que temos de perdoar e rezar por eles? No estou entendendo, 
Clarice. 
 Jesus veio a Terra para nos ensinar exatamente isso. Ele disse: "Perdoai 
setenta vezes sete". Com isso, quis nos mostrar que o perdo deve ser 
infinito. Falou tambm da importncia de perdoar. 
Osvaldo, depois de pensar um pouco, falou: 
 Nunca fui dado a acreditar em religio alguma. Embora tenha sido criado 
na igreja catlica, depois de adulto me limitei a comparecer a casamentos e 
missas de stimo dia. Sempre acreditei ser a religio um atraso de vida. 
Sempre acreditei que Jesus tinha sido um anarquista de sua poca. Agora, 
escutando voc, chego a pensar que estive errado o tempo todo. Jesus no 
promoveu a anarquia, a desordem, mas sim a compreenso com os 
inimigos. Vou ler mais sobre sua histria. Preciso saber mais sobre ele e 
#
sobre tudo o que disse. 

 Tambm farei isso. Sinto necessidade de saber mais. Sinto que 
precisamos saber para conseguirmos lutar contra todo o mal que est sobre 
nosso lar. Supondo-se novamente que isso seja verdade, o que devemos 
fazer para nos livrar desse mal? 
Clarice se levantou. Pegou uma jarra com gua e a colocou sobre a mesa, 
exatamente como Marlene havia feito. Segurou as mos de Osvaldo e 
fechou os olhos, dizendo em voz alta: 
 Aqui estamos Senhor, dentro de nosso lar, juntos e confirmando nosso 
amor. No sabemos muito sobre a vida eterna, mas sabemos que o Senhor 
 um Pai supremo e amoroso. Por isso lhe pedimos humildemente que nos 
proteja e a nossos filhos, para que possamos continuar vivendo em paz a fim 
de cumprir nossa misso aqui na Terra." 
"A essa pessoa que porventura tenha nos feito algum mal, se ela existir, 
pedimos que sua luz a ilumine e a traga de volta para Seus braos; a esse 
esprito ou espritos em pacto com ela, tambm seja enviada muita luz para 
que eles entendam que o esprito  livre, por isso no precisa ser escravo, a 
no ser de si mesmo. Senhor tenha compaixo de ns todos e derrame Suas 
graas sobre nosso lar. 
Ela fez aquela orao com tanto fervor que Osvaldo, sem perceber, a 
acompanhou com toda a emoo e f. O vulto saiu de l correndo; precisava 
de esclarecimentos sobre o que havia ouvido. Precisava saber se o que ela 
dissera era realmente verdade. Precisava saber se a tal escada realmente 
existia. 
Aps a orao, Clarice bebeu um pouco de gua e serviu tambm para 
Osvaldo. Guardou o resto da jarra para dar s crianas no dia seguinte. 
Levantaram-se e foram para o quarto, em um estado de muita paz e amor. 
Dormiram abraados como antes." 
#
O encontro do amor 

Mrcia acordou violentamente. Sentou-se na cama e demorou um pouco 
para perceber que estava em seu quarto. Sabia que havia sonhado com algo 
horrvel, mas no se lembrava do qu. Levantou-se, foi at a sala ver se 
havia algum l. Sentia uma presena, mas no sabia o que era. Andou pela 
casa toda procurando encontrar algo. Certificando-se de que no havia nada, 
voltou e deitou-se novamente. Fechou os olhos para continuar dormindo, 
mas no conseguia. Algo a impedia, pensamentos desencontrados 
passavam por sua mente. Meio adormecida, via o rosto de Farias pedindo a 
ela que no contasse nada do que sabia. Esse rosto de repente se 
transformava no rosto de Lenita, que estava chorando. Sua me, Osvaldo e 
muitas imagens passaram por sua cabea. Uma imagem demorou mais 
tempo: era o rosto de um homem alto e forte, com uma expresso de dio e 
que fumava um charuto, jogando baforadas sobre ela. Essa imagem fez com 
que acordasse novamente. Dessa vez sabia o que havia sonhado. Sentou-se 
na cama e lembrou-se do trabalho que havia encomendado. Seu corpo 
tremia e doa, como se houvesse levado uma surra. Levantou-se novamente, 
foi ao bar, pegou um copo e encheu de vinho e tomou quase tudo de uma 
vez. Sabia que precisava dormir, porque teria de levantar cedo para ir ao 
trabalho. Um pouco tonta com o vinho, adormeceu, mas seu sono no foi 
tranqilo. Dormia e acordava a todo instante. Pela manh, acordou cansada 
e com olheiras profundas. Lembrou que os comprimidos para dormir haviam 
terminado e que deveria voltar ao mdico para que ele receitasse mais. 
Trocou-se e foi trabalhar. 
Durante o dia, por vrias vezes, sentiu tonturas e fraqueza. Esses momentos 
vinham com tal intensidade que ela se desviava do trabalho e, quando 
voltava ao normal, no se lembrava de onde havia parado. Ficou 
preocupada: aquilo no era normal. Nada, nunca, por pior que fosse seu 
estado emocional, conseguiu um dia sequer afasta-la de suas obrigaes no 
trabalho." 
Decididamente, tenho de ir a um mdico. 
Estava to preocupada com sua sade que no pensou em Osvaldo em 
nenhum momento do dia. Estava muito preocupada consigo mesma para 
pensar em algum que no fosse ela prpria. O dia arrastou-se, e ela ligou 

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para seu mdico, marcando uma consulta para o dia seguinte. 
Osvaldo, no trabalho, pensava em Mrcia e em tudo que Clarice havia dito. 
Lembrou-se da expresso no rosto de Mrcia no dia em que disse que no a 
veria mais. 
Ela seria bem capaz de fazer algo assim, s por orgulho ferido. Embora 
acredite que ela tenha coragem para tanto, custo a acreditar que o tenha 
feito. Durante todo esse tempo em que estivemos juntos, sempre foi muito 
cordata e deixou muito claro que no queria um envolvimento maior do que 
aquele que mantnhamos. Ser que ela fez algo? Mas, se Clarice tiver razo, 
nosso amor ser mais forte. Que Deus proteja Mrcia para que ela encontre 
algum que a ame e a quem ela ame tambm. 
No pensava aquilo por medo, mas pelo amor que um dia julgou sentir por 
ela e por que a admirava como mulher e profissional. Sabia que havia 
conquistado tudo com seu esforo e trabalho. Mesmo que quisesse, no 
conseguia sentir raiva de Mrcia, muito menos dio. Entendia seus motivos 
e, colocando-se em seu lugar, julgou que, tendo oportunidade, tambm faria 

o mesmo. Procurou afastar seu pensamento dela e voltou a pensar em 
Clarice e em seus filhos e no quanto os amava. 
Seguindo os conselhos de Marlene, eu e Clarice devemos confirmar a todo 
instante nosso amor. E isso que farei, Eu a amo e ficarei a seu lado, custe o 
que custar. 
 noite, quando chegou a casa, Mrcia novamente reparou que aquele 
apartamento era muito grande para ela sozinha. Percebia agora a solido em 
que vivera o tempo todo. Pegou um copo com vinho e sentou-se em uma 
poltrona. Ligou a televiso, mas no conseguia prestar ateno ao que 
estava passando. S ento se lembrou de Osvaldo." 
No me procurou mais depois daquela noite... Ser que o trabalho perdeu o 
efeito? Ser que ele no vai voltar? 
Seu corao se apertou. Mais do que nunca, sentia falta de Osvaldo ou de 
algum para lhe fazer companhia. Pensando nele, resolveu sair e andar um 
pouco de carro pela cidade. Queria cansar o corpo para poder dormir 
tranqila, como fazia antes. 
Dirigia seu carro distrada, e s percebeu que o semforo havia fechado 
quando estava sobre a faixa. Freou bruscamente, e um carro que vinha logo 
atrs bateu no seu. O barulho foi grande, e ela saiu vociferando em direo 
#
ao motorista, que tambm saa de seu carro. 
Ao v-lo, ela parou. Ele, sorrindo, falou: 

 Desculpe, estava distrado e no pensei que fosse parar. Ficaram se 
olhando. Ele perguntou: 
 Voc no  a moa do parque? Sou Ronaldo, no est me 
reconhecendo? 
Claro que ela o reconhecera. Jamais esqueceria um homem como aquele. 
Sorrindo, respondeu: 
 Agora estou me lembrando. Voc  o corredor? 
 Isso mesmo. No se preocupe com o estrago de seu carro, vou mandar 
consertar e arcarei com todas as despesas. 
 Acontece que preciso do carro para trabalhar. 
 Sem problema. Tenho vrias agncias de automveis, posso lhe 
emprestar um enquanto o seu permanecer no conserto. 
Mrcia sorriu. Havia mentido, porque para trabalhar usava o carro da 
empresa. S disse aquilo por estar sem palavras e muito emocionada por vlo 
novamente. Ele, amvel, falou: 
 Seu carro ainda pode andar o estrago no foi muito grande. Podemos ir a 
algum lugar tomar algo e festejar a coincidncia desse nosso reencontro 
casual, porm muito feliz. 
Ela no sabia o que responder. Nunca fora dada a galanteios, e ele parecia 
ser um galanteador nato. 
 No sei o que dizer. J  tarde e estou voltando para meu apartamento. 
 Ora, vamos tomar algo, depois iremos at uma de minhas agncias pegar 
outro carro. Poder escolher o que quiser." 
Percebendo sinceridade no que dizia e achando que ele era um homem 
bonito e agradvel, ela simplesmente fez um sinal com a cabea, dizendo: 
 Est bem, vamos. S que no posso demorar muito. Amanh preciso 
acordar cedo. 
 No se preocupe: ser rpido, o tempo suficiente para que eu possa 
admirar um pouco sua beleza. 
Ela entrou em seu prprio carro e o seguiu. Pararam em frente a um 
barzinho freqentado por jovens que danavam ao som de uma msica 
muito alta. Entraram, sentaram-se e pediram um drinque, mas o barulho era 
insuportvel. Ele, com seu bonito sorriso, disse quase gritando para que ela 
#
o ouvisse: 

 Aqui no vai dar para conversarmos. Gostaria de saber mais sobre voc e 
falar-lhe de minha vida. Que tal irmos para outro lugar? 
Ela sorriu. 
 Acredito que seja a melhor coisa que temos para fazer. Aqui, realmente, 
est impossvel. 
Resolveram ir a um restaurante, onde o ambiente fosse mais calmo. Quando 
se dirigiam para os carros, Ronaldo falou: 
 Vamos antes at uma de minhas agncias. Deixaremos seu carro e voc 
pegar outro. 
Ela sorriu, dizendo: 
 Perdoe-me, mas eu menti. No preciso de outro carro para trabalhar. Uso 
o da empresa. 
Ele sorriu e instintivamente deu um beijo em sua testa. 
 Melhor ainda. Mesmo assim, vamos at a agncia e deixamos seu carro 
l. Depois, iremos ao restaurante e a levarei para casa. 
Ela consentiu. Em hiptese alguma poderia discordar daquele homem 
maravilhoso. 
Fizeram exatamente isso. No restaurante, enquanto esperavam a comida e 
depois, enquanto comiam, ele, muito falante, contava sua histria. 
 Meus avs vieram da Itlia e aqui conseguiram conquistar muitas coisas. 
Ficaram ricos, e eu praticamente nasci em bero de ouro. Estudei muito, aqui 
e no exterior. Com vinte e quatro anos, conheci Magali, por quem me 
apaixonei de uma maneira violenta, e em menos de seis meses estvamos 
casados. Vivemos felizes at que, ao dar  luz ao nosso primeiro filho, ela e 
a criana morreram." 
Mrcia percebeu em seus olhos certa tristeza enquanto relatava os fatos. 
 Sinto muito. Deve ter sofrido demais. 
 No pode imaginar o quanto. Entrei em uma depresso profunda, parecia 
que o mundo havia terminado. Sentia-me como se houvesse morrido com 
ela. No dormia nem comia, minha nica vontade era morrer para poder 
reencontr-la. 
Ela ficou realmente consternada. 
 Sinto muito. Mas o que fez para reagir? 
 Aps muito tempo, com a ajuda de minha me, que no se conformava 
#
em me ver daquela maneira, e, tambm, de alguns amigos, me recuperei e 
decidi que continuaria vivendo. 

 Ainda bem que reagiu. Hoje me parece muito bem. 
 Quando voltei  vida, resolvi que daquele dia em diante me dedicaria 
exclusivamente s minhas agncias e ao esporte, que, depois dos carros,  
o que mais amo. 
 Isso eu percebi: gosta mesmo de correr. 
 Correr, fazer musculao e jogar tnis. s vezes nadar, mas no  meu 
esporte preferido. 
 Nossa! Onde arruma tempo para tudo isso? 
 Acordo muito cedo. Quando se gosta do que se faz, o tempo nunca  
problema. 
 Parece que tem uma vida muito agitada, diferente da minha, que se divide 
em trabalho, trabalho e trabalho. 
 No tem namorado? Ela se lembrou de Osvaldo. 
 No. Nem para isso tenho tempo. S mesmo o trabalho faz parte da 
minha vida. 
 Isso precisa mudar. A vida  muito boa se for bem vivida. Vou lhe 
confessar: aps sair da depresso, nunca mais outra mulher despertou em 
mim qualquer sentimento de amor. Talvez por medo de sofrer novamente, 
no permiti que isso acontecesse... At agora. 
Ao ouvir aquilo, Mrcia estremeceu. 
 Que est querendo dizer? 
 Que agora estou sentindo algo estranho novamente. Desde aquele dia no 
parque, no consegui mais esquecer voc. O pensamento foi to forte que, 
por isso, deve ter acontecido o acidente, somente para nos reencontrarmos. 
Mrcia no conseguia acreditar no que estava ouvindo. Aquele homem 
maravilhoso no podia estar dizendo a verdade." 
 No acredito no que est dizendo. No me conhece. No sabe quem sou. 
Ns nos encontramos apenas uma vez. 
 Tambm no entendo. S sei que estou perdidamente apaixonado e, se 
voc quiser, poderemos iniciar um relacionamento, para que possamos nos 
conhecer melhor. 
Ela, sorrindo e no podendo esconder sua felicidade, respondeu: 
 Voc deve estar louco! No pode estar dizendo a verdade! 
#
 Claro que sou louco e claro que estou dizendo a verdade! Depende de 
voc, s de voc... 
Ele falava manso, de uma maneira que fazia com que Mrcia pensasse que 
estava dormindo e sonhando. Enquanto ele falava, ela pensava: 
O que  isso? Esse  o homem que sempre sonhei encontrar, mas que ao 
mesmo tempo pensei no existir. Devo estar sonhando mesmo... 
Mas no estava. Ele sorria, muito, demonstrando a sinceridade com que 
falava. Ela se entregou completamente a seus encantos. Aps terminarem 
de jantar, foram para o apartamento dela. Ao chegarem a frente ao prdio, 
ele estacionou, saiu do carro, deu a volta e abriu a porta para que ela 
descesse, pegando sua mo para ajud-la. Ela, emocionada, pensava: 
Este homem no existe... 
Ele olhou em seus olhos e disse: 
 Voc bem poderia me convidar para um drinque de boa-noite. 
Ela no resistiu. Sorriu, dizendo: 
 Vamos subir? Terei imenso prazer em lhe oferecer um drinque. 
Subiram. Ao entrar, Ronaldo encantou-se com o tamanho do apartamento e 
o bom gosto da decorao. 
 Este lugar  muito bonito e grande. Mora com seus pais? 
 No, no tenho famlia. Moro sozinha. 
 Est me dizendo que mora sozinha em um apartamento deste tamanho? 
No se sente muito sozinha? 
Ela, sria, respondeu: 
 Trabalho muito. No tenho tempo nem para sentir solido." 
 Acredito que esteja na hora de pensar mais em voc e menos no trabalho. 
Trabalhar  importante, mas no pode se transformar na prioridade da vida. 
Ela no respondeu. Encaminhou-se at o bar para preparar um drinque. Ele 
a seguiu e, abraando-a por trs, comeou a beijar seu pescoo e seus 
cabelos. Ela no resistiu por muito tempo e em poucos minutos j estavam 
no quarto amando-se com muito carinho e amor. O amor foi intenso, porm 
suave. Mrcia sentiu prazeres que nunca antes havia sentido. Quando 
terminaram, ele, emocionado, falou: 
 Decididamente, voc  a mulher de minha vida. Com voc eu at me 
casaria. O que acha? 
 Casar? Nunca pensei nisso. Tenho meu trabalho, que me toma muito 
#
tempo. 

 No vai mais precisar trabalhar, se no quiser. Tenho o suficiente para lhe 
dar a mesma vida confortvel que tem agora. S quero ficar a seu lado para 
sempre. 
Ela no acreditava: 
Decididamente, estou sonhando. No pode estar acontecendo,  bom 
demais! Ele continuou falando: 
 Mas, se preferir continuar trabalhando, tambm no me oporei voc  
quem vai decidir o que quer fazer desde que diminua o ritmo e fique a meu 
lado para sempre. 
 Espere um pouco... Voc est indo rpido demais. Ns no nos 
conhecemos. 
 Tem razo. Vamos ficar juntos por trs meses. Depois desse tempo, se 
tudo der certo, e sei que vai dar nos casaremos e seremos felizes para 
sempre. Que acha de minha proposta? 
 O que posso dizer, com um argumento como esse? 
Ela simplesmente balanou a cabea, beijou-o e foi beijada com amor e 
muito carinho. 
Quando ele foi embora, ela ficou sentada em sua cama, pensando em tudo o 
que havia acontecido naquela noite. Beliscava-se para ver se estava 
acordada mesmo ou se tudo no havia passado de um sonho. Era bom 
demais para ser realidade. 
 verdade? Tudo aconteceu mesmo? Ele esteve aqui, me amou?  o 
homem mais maravilhoso que conheci em toda a minha vida. Vamos nos 
casar e seremos felizes. Muito felizes." 
Adormeceu. Naquela noite, sem necessidade de comprimidos ou vinho, teve 
um sono tranqilo. Estava feliz, e a felicidade embala qualquer sono e sonho. 
No dia seguinte, Mrcia, como todos os dias, acordou na hora. S que 
naquela manh sentia-se diferente. 
Estou muito feliz. Finalmente, encontrei um homem de verdade. Ser que o 
verei novamente? Ser que no foi s por uma noite, como muitos outros 
que passaram por minha vida? Foi para o trabalho. Estava ainda envolvida 
pelas lembranas da noite anterior. Por mais que tentasse, no conseguia 
esquecer aquele homem maravilhoso. 
Ele  to bonito, agradvel, me fez to feliz! Custo a acreditar que realmente 
#
tenha acontecido... Mas aconteceu... 
Perto das dez horas, um mensageiro chegou, trazendo um ramo de rosas 
vermelhas acompanhadas por um carto, que dizia: 
Rosas para a mulher mais perfeita que j conheci. Com amor. 
Ronaldo 
Mrcia, depois que as recebeu, j com a porta da sala fechada, pegou as 
rosas, cheirou-as, leu o carto e comeou a danar e a pensar, feliz. 
Ele  realmente sensacional! Eu o amo! 
 noite, ele foi at sua casa, e novamente se amaram. Ela parecia estar 
delirando de tanta felicidade. Nos braos dele, com os olhos fechados, 
pensava: 
Finalmente encontrei o homem ideal, o amor de minha vida. Sinto que 
seremos felizes para sempre." 


#
A ajuda sempre vem 

"Clarice e Osvaldo, em seu quarto, mantinham uma distncia considervel 
para evitar tudo que conheciam e no queriam que se repetisse. 
Continuavam lendo para entender melhor aquela nova doutrina. Precisavam 
conhecer e acreditar. Todas as noites, aps colocar as crianas para dormir, 
sentavam-se na mesa da sala, discutiam partes que achavam interessantes 
de algum livro. No final, os dois juntos faziam uma orao e iam dormir. 
Nunca mais tentaram uma aproximao ntima; temiam que todo aquele 
horror ocorresse novamente. Amavam-se o suficiente para apenas estar 
juntos, fazendo companhia um ao outro. Quinta-feira era o dia da semana 
em que Clarice estava acostumada a almoar na casa de sua sogra. Como 
sempre fazia, pegou as crianas na escola e rumaram para l. 
Ao v-los chegar, dona Slvia os recebeu com sorrisos, abraos e beijos. 
Percebeu que Clarice, embora continuasse um pouco abatida, trazia nos 
olhos certa tranqilidade. Enquanto almoavam, perguntou: 

 Minha filha, como esto s coisas com Osvaldo? Aquilo voltou a 
acontecer? 
 Sim, mas com tudo que Marlene me ensinou e disse, consegui impedir 
que Osvaldo sasse de casa. Conversamos muito e agora, embora 
mantenhamos distncia, estamos conseguindo viver muito bem e temos 
estudado os livros que ela me emprestou. 
Marlene, que tambm estava almoando, disse: 
 Fico contente que tenha entendido e feito com que Osvaldo entendesse 
tambm. Acredito que esse  o princpio do fim de seus sofrimentos. 
 Acredita mesmo?" 
" Sim. J que esto fazendo leituras dirias, gostaria de participar de uma 
delas qualquer dia desses. 
 Quando quiser, ser para ns um imenso prazer. Sabe o quanto Osvaldo 
a admira. Embora estejamos lendo e querendo realmente aprender, existem 
algumas dvidas que poder nos esclarecer. 
 Posso tentar, mas, apesar de estar a tanto tempo lendo e estudando, s 
vezes ainda tenho muitas incertezas. O importante  sempre procurar as 
respostas quando houver dvidas, mas posso lhe garantir que, aps 
esclarecer uma, sempre surge outra. Assim  que vamos aprendendo cada 
#
vez mais. Mas responderei o que souber; se no souber, vamos procurar as 
respostas juntos. 

 Sei que com sua ajuda aprenderemos muito. Vou falar com Osvaldo. Que 
tal marcarmos para quinta-feira  noite?  o dia em que trabalha aqui; assim, 
dona Slvia poder ir tambm. 
 Puxa! Pensei que no iriam me convidar. Cheguei a pensar que no 
queriam minha presena. 
Marlene e Clarice riram. Marlene disse: 
 Como poderia ficar de fora num momento importante como esse na vida 
de seu filho? Sabe que o amor que sente por ele e toda a famlia  tambm 
uma arma importante. 
 Se meu amor for uma arma, posso garantir que sou a mulher mais 
armada do mundo. Amo de corao a todos, so parte de minha vida. 
Clarice aproximou-se e beijou aquela mulher que amava como se fosse sua 
me. Sabia de sua sinceridade ao dizer aquelas palavras. 
 Dona Slvia, a cada momento sinto que venceremos toda maldade. 
Temos, sim, a maior arma do mundo. 
Na quinta-feira seguinte, como o combinado, Osvaldo, ao sair do trabalho, 
passou na casa de sua me. Ela e Marlene estavam prontas, esperando-o. 
Ele as apanhou e rumaram para sua casa Clarice recebeu-as com um 
sorriso feliz e sincero. Amava aquelas duas mulheres e sabia que, se 
houvesse alguma salvao para sua famlia, viria de Deus, mas por meio 
delas." 
"Ao entrar na sala, Marlene percebeu que em um canto da sala havia um 
vulto sentado, fumando um charuto e acompanhando todos os movimentos 
do casal. Ela simplesmente olhou, mas no disse nada. Clarice estava com a 
mesa posta para o jantar. Havia feito um prato especial para receber as 
queridas visitantes. 
 Que bom que chegaram! Espero que gostem da comida que preparei. 
Aps o jantar vou limpar a mesa e prepar-la para nossas oraes. Est bem 
assim, Marlene? 
Marlene, embora estivesse observando o vulto, agia normalmente, como se 
no estivesse acontecendo nada. Respondeu: 
 Est timo. Agora no conversaremos sobre assuntos pesados. A hora 
das refeies deve ser sempre tranqila. 
#
Marlene, enquanto falava, continuava acompanhando o vulto. Sentou-se em 
uma cadeira da qual podia observar todas as suas expresses. Durante o 
jantar, conversaram sobre muitas coisas. O assunto preferido foram s 
crianas e suas brincadeiras. Como no podia deixar de ser, riram muito. 
Jantaram em paz. Por mais que Marlene houvesse pedido, no adiantou: as 
dvidas de Clarice e Osvaldo em relao aos livros que estavam lendo eram 
muitas, e eles no viam a hora de t-las esclarecidas. Algumas coisas no 
estavam claras para eles. Marlene respondia a todas as perguntas, no 
desviando os olhos do vulto, que agora estava mais perto, esperando o 
momento para atac-los novamente. Clarice disse: 

 S no entendo por que um esprito, ao invs de fazer o bem, prefere 
fazer o mal. Em tudo que tenho lido, h sempre um castigo para um mal 
praticado. 
Marlene olhava para o vulto, e este, querendo saber qual seria a sua 
resposta, agora a fitava tambm, sem saber que estava sendo visto por ela. 
Ela se levantou e se dirigiu at onde ele estava. Ao chegar perto, virou-se 
para os demais, dizendo:" 
" Vamos fazer de conta que aqui h um esprito que tenha recebido certo 
pagamento de algum para fazer o mal que prometera e estaria aqui 
espreitando, esperando um descuido qualquer de cada uma de suas 
possveis vtimas. Ele faz isso porque algum disse que era o certo. 
Provavelmente, quando vivo, no teve instruo alguma sobre a vida depois 
da morte. Talvez no tenha cumprido bem suas obrigaes e por isso, ao 
acordar, se viu em um lugar muito feio. Quando percebeu que estava vivo, 
mesmo depois da morte, ficou perdido sem entender nada. Outros espritos 
mais espertos disseram a eles que eram os chefes por terem chegado antes 
e que se ele quisesse sair daquele lugar e continuar bebendo e fumando, 
como fazia antes, deveria fazer tudo o que eles mandassem. Ele, em sua 
ignorncia, acreditou, porque, a se ver naquele lugar ruim, pensou que 
estava perdido, que aquele era o nico caminho que tinha para seguir. 
O vulto a seu lado, ao ouvi-la falando, perguntou: 
 Existe outro caminho? Sei que sou um pecador sem perdo e tenho de 
passar toda a eternidade no inferno em que vivo! Jamais vou poder entrar no 
cu, por isso tenho de seguir nesse caminho, tentando encontrar, quem 
sabe, a escada de que j ouvi falar muitas vezes, mas nem eu nem aqueles 
#
que mandam em todos os outros sabemos onde est! Todos dizem que 
nunca ningum a encontrou. 
Marlene ouviu aquele quase lamento, mas fez que no ouvisse e continuou: 


 Todos ns, inclusive os espritos, deveramos saber que Deus  um Pai 
amoroso. Se nos manda algumas provas, se nos castiga de vez em quando, 
 porque, sabendo que estamos nos desviando do caminho, quer nosso 
desenvolvimento como esprito. Ningum, encarnado ou no, est 
condenado a uma vida eterna de sofrimento. Um dia a felicidade vai vir, 
atravs do caminho do bem, do amor e do perdo. Jesus, quando passou 
pela Terra, ensinou que cada um tem de fazer sua parte. "A gente precisa 
aprender qual  nossa parte. Para isso Ele coloca em nosso caminho outros 
espritos, encarnados ou no, para nos ensinar. Assim, por meio da dor ou 
da felicidade, sempre aprendemos mais. Por isso devemos agradecer por 
todas as oportunidades que nos so dadas. 
Todos a ouviam atentamente, inclusive o vulto, que voltou a sentar-se no 
cho e, pensativo, fumava seu charuto e tomava um gole de cachaa. 
Marlene seguia seus movimentos e sorriu ao perceber que o havia atingido 
com suas palavras. Continuou: 
 Muitas pessoas, quando voltam para o plano espiritual, pensam ainda 
estar vivas. Sentem necessidades bsicas do corpo, como fome e sede. 
Aqueles que, durante a vida, bebiam cachaa ou fumavam charuto, 
continuam sentindo essa necessidade, e para isso trabalham em troca 
dessas coisas. Com o tempo percebero que nada disso faz mais falta ao 
esprito, portanto no precisam fazer o mal ou o bem em troca de nada. 
Podem continuar s fazendo o bem e com certeza encontraro uma escada 
que os conduzir  luz e  felicidade. 
O vulto olhou para ela, depois para o charuto e para a garrafa que tinha nas 
mos. Largou os dois e segurando e sacudindo Marlene, perguntou quase 
gritando: 
 Voc sabe onde fica essa escada? Voc sabe? Precisa me mostrar onde 
est e como fao para encontrar. Precisa me ensinar... 
Marlene, embora o visse sacudindo-a, no sentia nada. Acompanhava tudo 
que ele fazia. Intimamente agradecia a Deus, pois sentia que aquele esprito 
estava prestes a ser salvo. Continuou falando:" 
#
" Quando retornamos a Terra para uma nova escola de aprendizado, 
deixamos no plano espiritual amigos que nos amam e que sofrem se no 
conseguirmos vencer os desafios. Muitos deles esperam com ansiedade 
nossa volta. Portanto, esprito algum precisa ficar perdido sem destino; ele 
sempre ter algum que ama e est esperando a sua volta. Basta desejar 
profundamente e pedir a Deus essa graa. 
Clarice tentou se levantar para tirar a loua da mesa e arruma-la para a 
leitura do Evangelho, mas, a um sinal de Marlene, voltou a sentar. As 
crianas no gostavam quando eles comeavam a falar naquele assunto, por 
isso se levantaram e foram para a sala de televiso. Dona Slvia, mais 
acostumada com o modo como Marlene trabalhava, segurou a mo de 
Clarice e a de Osvaldo, e, fazendo um sinal, baixou a cabea e fechou os 
olhos. Eles entenderam e fizeram o mesmo. Os trs ficaram em profunda 
orao, sinceramente querendo ajudar quem estivesse ali. Marlene, ainda 
em p no canto e percebendo que o vulto estava examinando-a e 
entendendo o que ela falava, continuou: 

 Todos somos filhos de Deus, portanto eternos como Ele. Todos temos um 
passado do qual, com um pequeno esforo e a ajuda de bons irmos 
espirituais, podemos nos lembrar. Por isso, meus irmos, j que estamos, 
neste momento, com muita f e caridade, vamos juntos, elevar nossos 
pensamentos at Deus, nosso Pai, para que possamos ser atendidos e 
socorridos por aqueles que amamos e por quem fomos amados um dia, e, 
com certeza, teremos essa graa. 
Os trs, sentados e com as mos entrelaadas, seguiam atentamente o que 
ela falava. O vulto levantou-se, andou at a mesa e viu que eles estavam em 
profunda orao. Marlene continuava parada e seguindo todos os seus 
movimentos. Uma luz intensa desceu sobre a cabea dos trs. O vulto 
assustou-se e deu um passo para trs. " 
"Marlene, com os braos abertos e com as mos para o alto, por trs dele, 
continuava em orao. Ao ver a sala toda iluminada, ele, assustado, voltou a 
sentar-se em seu canto, continuando a ouvir Marlene, que no parava de 
falar nas pessoas que nos amavam e queriam nos ajudar. Ele, ouvindo 
aquilo, fechou os olhos por um segundo. Depois, de sua garganta partiu um 
grito desesperado: 
 Teresa! Teresa! Estou lembrando. Teresa! Em seguida comeou a chorar, 
#
falando: 

 Teresa, o que fiz de nossas vidas? Teresa, onde voc est? Onde esto 
nossos filhos? 
Osvaldo, Clarice e dona Slvia no viam aquela cena, mas Marlene sim. Ela, 
profundamente emocionada, continuou falando: 
 As pessoas que amamos esto sempre ao alcance de nosso pensamento. 
Para t-las ao nosso lado, s  necessrio pedirmos a Deus, nosso Pai, sua 
permisso. Ele  infinito em sua bondade e perdo, precisamos apenas 
acreditar e pedir sinceramente. 
O vulto comeou a chorar violentamente, com soluos que no conseguia 
controlar. Seu corao queria sinceramente ver a esposa, e agora sabia que 
poderia v-la, se Deus permitisse. O mesmo Deus que disseram t-lo 
condenado para sempre. Aquela mulher que ele no conhecia estava 
dizendo que tudo era mentira, que Deus existia, sim, que s precisava pedir 
com sinceridade. Ajoelhou-se, baixou a cabea e com a voz quase em 
lamento falou: 
 Deus, meu Pai, no sei ainda qual o crime que cometi para estar aqui no 
inferno em que vivo at agora. S sei que tenho algum que muito amei, sei 
que ela me amou tambm. Senhor meu Deus, permita que eu a possa ver 
novamente e pedir seu perdo. S Seu amor infinito, como est dizendo 
essa mulher, vai poder me ajudar agora. 
Marlene, chorando baixinho, tambm pedia." 
" Meu Pai, atenda, por favor, a esse irmo que est perdido. Assim como o 
pai recebeu de volta em sua casa o filho prdigo, recebe agora, este seu 
filho com festa e louvor.  uma ovelha desgarrada que volta. Tem piedade, 
meu Pai. 
Como por encanto, luzes foram formando uma escada que descia do alto. O 
vulto, ao ver aquela escada to procurada, no se conteve: gritando e 
chorando, levantou-se e voltou a sacudir Marlene para que ela tambm 
visse. Gritava feliz: 
 A escada! Ela existe. Ela existe! Voc estava dizendo a verdade! Ela 
existe. A escada existe! 
Da escada uma forma comeou a descer. Toda branca, com um suave tom 
de lils em suas vestes, olhava para o vulto e sorria. Ele, ao ver aquele ser 
que se aproximava, voltou a se ajoelhar. Preso de muita emoo, quase no 
#
podia falar. De sua garganta, partiu um som baixo, que com muito custo 
Marlene conseguiu ouvir: 

 Teresa!  voc mesma? Teresa  voc mesma? Est to bonita!  voc 
mesma? No estou sonhando? No estou sofrendo uma alucinao? 
Ao chegar ao p da escada, o vulto iluminado abriu os braos e caminhou, 
sorrindo, at ele, que continuava ajoelhado. Pegou em suas mos e, 
enquanto o levantava, disse: 
 Sou eu mesma, Clemente. Suas preces foram atendidas. Estou aqui para 
lev-lo a um mundo de amor, felicidade e muita luz. L encontrar outros 
amigos e a oportunidade de resgatar todos os seus erros. Deus  Pai justo e 
infalvel e nos ama a todos da mesma maneira, pecadores ou no. 
Abraaram-se com muito amor. Sobre eles caram muitas luzes coloridas. 
Marlene ouviu uma suave msica cantada por vozes de crianas. Seu 
corao encheu-se de felicidade. Presa de muita emoo, sem perceber 
comeou a falar em voz alta: 
 Obrigada, meu Deus, por este momento de deslumbramento. Sei que 
estou aqui na Terra resgatando faltas passadas, mas este momento 
compensa qualquer sofrimento. Obrigada, meu Pai, por receber este seu 
filho amado e desviado." 
"Marlene continuava vendo os dois se abraar. O vulto luminoso voltou-se 
para ela, dizendo: 
 Obrigada, minha irm, por sua f e caridade. Este  meu marido de outras 
vidas. Ns nos desencontramos h muito tempo e hoje, com sua ajuda, 
voltamos a nos ver. Que Deus a abenoe, e muito. 
Marlene sorriu humildemente. Estava muito emocionada, por isso no 
conseguia dizer uma palavra sequer. O vulto luminoso abraou o outro e 
falou: 
 Voc veio a esta casa para fazer o mal, mas aqui recebeu o bem. No 
acha que deve algo a esses irmos? 
Ele pensou, olhou para um lugar distante, e imediatamente em suas mos 
surgiram os bonecos que um dia havia amarrado. Chorando arrependido, ele 
os foi desamarrando. Logo depois de desamarrados, sumiram de suas mos 
em uma bola de luz. O vulto iluminado, sorrindo, acompanhou o outro, que 
muito feliz subia a escada que por tanto tempo havia procurado. Assim que 
sumiram, levaram com eles as luzes. Marlene sentou-se, falando: 
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 Est feito! Tudo est bem. Por meio do perdo, conseguiram combater e 
vencer o mal. Perderam um inimigo, salvaram um irmo e ganharam muitos 
amigos. Agora, vocs estaro livres para continuar suas jornadas. 
Os trs abriram os olhos. Dona Slvia sorria enquanto os outros dois se 
olhavam sem nada entender. Clarice disse: 
 O que est dizendo, Marlene? Estamos livres do mal? Tudo terminou? 
Mas como? A mesa no foi preparada, a loua est ainda sobre ela. 
Estvamos apenas conversando e ouvindo seus ensinamentos. No abrimos 
os trabalhos. No fizemos orao. No lemos o Evangelho nem o 
comentamos, como sempre. 
Marlene, tomando um pouco de gua que estava em cima da mesa, falou: 
 Todo esse ritual  importante e deve ser feito sempre que possvel, mas a 
falta dele no faz com que os objetivos no sejam alcanados. Deus no 
entra em nossas casas por elas estarem arrumadas ou no, por serem ricas 
ou pobres. " 
"O que interessa a Ele so nossos coraes, a f que sentimos Nele e em 
seu julgamento. Por isso nossos coraes  que devem estar sempre limpos 
do dio, da mgoa e cheios de muita f. S assim Deus poder entrar neles 
a qualquer momento. 
Dona Slvia, sorrindo com o espanto do filho, falou: 
 Marlene  vidente e assim que aqui chegou deve ter visto algo. Enquanto 
falava conosco, dando respostas e nos esclarecendo, na verdade estava 
falando com um outro esprito que ns no vamos. Marlene, no foi isso que 
aconteceu? 
 Foi isso mesmo, mas agora estou com muita vontade de tomar um caf. 
Posso ir at a cozinha preparar? 
Clarice levantou-se e a acompanhou. Gostava de seu prprio caf, mas 
sempre achou o de Marlene melhor. Osvaldo e a me permaneceram na 
sala, conversando. 
 Mame, a senhora acredita mesmo que todo o mal foi embora? Acredita 
que estamos livres de tudo aquilo? 
 Acredito meu filho. Conheo Marlene h muito tempo, j vi coisas que ela 
fez que voc no acreditasse. Por isso pode estar certo de que tudo agora 
est bem. 
 Mame, se isso for verdade, essa mulher  uma santa. Por que tem uma 
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vida to miservel e com tanto sofrimento? Por que ela no usa esses 
poderes para ganhar dinheiro? 

 J perguntei isso a ela algumas vezes, e ela sempre responde que est 
aqui resgatando dvidas imensas contradas no passado e que no possui 
poder algum, apenas uma f muito grande no amor de Deus. 
 Se for verdade mesmo, se eu e Clarice ficarmos livres daquele tormento, 
no existe dinheiro que pague; darei a ela o que for preciso. 
 Meu filho querido, se quiser perder uma amiga e ouvir um palavro muito 
grande, fale com ela que quer pagar. 
 Ela fala palavres?" 
"Dona Silvia soltou uma gargalhada. 
 Fala muitos! Ela mesma diz no ser santa. 
Clarice e Marlene voltaram da cozinha, Clarice estava com uma bandeja na 
mo. Sentaram-se e tomaram o caf. Osvaldo, disse: 
 Marlene, tem certeza que tudo terminou? Pode nos dizer como 
aconteceu? 
 Podem ficar tranqilos: tudo est terminado. Mas, neste momento, no 
quero falar a esse respeito. Talvez em outra hora eu conte toda a maravilha 
que presenciei aqui. Por enquanto, vamos, somente, agradecer as graas 
recebidas nesta noite. 
Ela no quis comentar o que havia presenciado porque sabia que a viagem 
que os espritos estavam fazendo agora seria longa. Eles precisavam s de 
pensamentos de amor. 
Pouco depois, Marlene se despediu de Clarice. 
 Preciso ir para minha casa. Fique tranqila, que agora est tudo bem, 
mas lembre-se de que o amor de Deus  infinito e Ele nunca abandona Seus 
filhos, pecadores ou no. Continue amando seu marido e seus filhos e nada 
de mal pode atingir vocs. 
 Obrigada por tudo, obrigada por seus ensinamentos. No sei como 
poderei pagar por tudo que fez. 
 No tem de agradecer e muito menos pagar. Foi Deus quem fez tudo. 
Vocs so Seus filhos e tm muito amor no corao. Boa-noite. 
Osvaldo acompanhou Silvia e Marlene at suas casas. Deixou primeiro sua 
me e, depois, seguiu com Marlene. Enquanto dirigia, disse: 
 Marlene, preciso te agradecer por tudo o que fez em nossas vidas. 
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 No tem de agradecer, no fiz nada. Tudo que conseguiram foi por que 
mereciam. Deus nunca permite que uma injustia seja feita. O mal s e 
permitido quando a pessoa que o faz encontra outra que, se tivesse 
oportunidade, faria o mesmo." 
" No estou entendendo... 
 Vou dar um exemplo bem fcil. Uma vela acesa com m inteno s 
encontrar lugar no corao da pessoa que tambm acende velas com ms 
intenes. Se o corao for livre de maldade, nada o atingir. 
 Mas a maldade nos atingiu. Sofremos por causa dela, muitos dias! 
 Voc estava desviado de seus deveres de esposo e pai. Dividido, sem 
saber o que fazer com a sua vida, no estava dando o valor devido a tudo 
que havia conseguido. Foi preciso tudo isso acontecer para que desse valor 
a sua esposa e filhos e escolhesse um caminho. Graas a Deus, voc 
escolheu o caminho certo. 
Osvaldo ficou calado, pensando. A imagem de Mrcia surgiu em seu 
pensamento. 
 Marlene, vou confessar um segredo: sei quem fez essa maldade. O que 
faremos com ela? 
 Vamos, em nossas oraes, agradecer a Deus a graa recebida, e pedir-
lhe que a ilumine e a tire do caminho da perdio. Com seu ato, embora 
tenha sido cheio de m inteno, ela fez com que o amor entre voc e 
Clarice ficasse mais forte, fez com que vocs procurassem entender mais 
sobre a vida daqui e aps a morte. Deu a oportunidade para que um esprito 
que estava desgarrado, perdido e sofrendo muito se aproximasse de ns e 
encontrasse o caminho de volta para o Pai. No final, aquilo que teria sido 
para o mal se transformou em um bem para muitos. Devemos pedir muito 
por ela e aprendermos que nada neste mundo acontece sem a permisso e 
a vontade de Deus. 
Osvaldo ficou calado. Os argumentos de Marlene eram irrefutveis. Hoje se 
sentia um homem realizado ao lado da esposa e dos filhos. S podia 
agradecer mesmo. 
Ao chegar  casa de Marlene, pensou: 
Este lugar  to pobre! Como ela pode ser uma pessoa to tranqila e sem 
revolta? Como pode s pensar no bem? Como, em sua pobreza, pode ainda 
encontrar meios para ser feliz?" 
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"Estacionou o carro e, antes que ela descesse, beijou-a na testa, num 
profundo reconhecimento por tudo o que ela havia feito por ele e por sua 
famlia. Ela apenas sorriu. Enquanto descia do carro, falou: 

 Juzo, menino. Deus lhe deu mais uma oportunidade. No a deixe 
escapar. 
Ele sorriu, ligou o carro e partiu em direo  sua casa. Estava leve, feliz e 
tranqilo. 
Em casa, Clarice o esperava. Sentia vontade de ficar abraada ao marido, 
sentir sua presena fiel e verdadeira. Quando ele retornou, as crianas j 
estavam dormindo. Ela o esperava na cama, lendo. Ele se aproximou, 
beijou-a com suavidade e muito carinho, como se fosse  primeira vez. Em 
poucos minutos estavam se amando, sem problema algum, com muito amor 
e felicidade." 
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A festa 

"Fazia j quase trs meses que Mrcia estava namorando Ronaldo. Todos os 
dias recebia maos de rosas, sempre acompanhadas de um carto com 
frases apaixonadas. Ronaldo continuava sendo maravilhoso, como no 
primeiro encontro. Todas as noites ele ia at sua casa. Depois de se amarem 
e conversarem um pouco, ele ia embora, cheio de amor e paixo. Nos fins 
de semana, iam ao parque, e ela agora j estava at correndo um pouco a 
seu lado. Quando se cansava, ficava olhando-o correr, acenando com a mo 
ou jogando beijos quando passava por ela, que no cabia em si de tanta 
felicidade. 
Mrcia esqueceu completamente Osvaldo e mais ainda ter um dia mandado 
fazer aquele trabalho. Nos primeiros dias, percebeu que ele nunca mais a 
procurou. Deduziu que tudo no passara de uma explorao e pensava: 
Aquela mulher me enganou: pegou meu dinheiro e no fez nada. Mas no 
tem importncia, foi at bom. Imagine se hoje eu tivesse Osvaldo atrs de 
mim? O que faria com Ronaldo? Como sempre ocorre em minha vida, tudo 
acabou dando certo. 
Faltava uma semana para os trs meses combinados. Em uma sexta-feira, 
Ronaldo quis ir a um restaurante. 

 Vai fazer trs meses que estamos juntos. Quero comemorar com muito 
requinte. Vamos jantar em um restaurante. O lugar ser uma surpresa, tenho 
certeza de que vai adorar.  muito bem freqentado, por isso quero que v 
muito bonita. Sabe do imenso orgulho que tenho de seu porte e beleza. O 
que acha de minha ideia? 
Mrcia ouvia tudo com o corao disparando de tanta felicidade. 
 Pode ficar tranqilo: vou usar uma roupa especial. Estarei muito bonita. 
Sabe que tambm gosto de desfilar com um homem elegante e bonito como 
voc. 
Ela se preparou com todo o requinte. Na hora marcada, ele chegou tambm 
muito bem vestido. Ao v-la, falou:" 
" Voc est deslumbrante. Eu te amo cada vez mais. Beijaram-se e 
saram. Foram a um restaurante de luxo, onde ela nunca havia ido. Todas as 
mesas estavam tomadas, com classe e requinte nunca vistos por ela. No 
centro havia uma pista de dana e um pequeno palco, onde violinos tocavam 
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msicas suaves. Aps terminarem o jantar, uma doce melodia comeou a ser 
tocada. Ronaldo levantou-se e convidou-a para danar. Ela o acompanhou 
deslumbrada com tudo o que estava acontecendo. 
Comearam a danar. Enquanto tocava, o maestro, ao microfone, anunciou 

o nome de Ronaldo, pedindo-lhe que fosse at o palco acompanhado por 
sua noiva. Pararam de danar. Mrcia estranhou, no sabia que ele era 
reconhecido naquele lugar. Ronaldo pegou sua mo e a conduziu at o 
palco. Todos os freqentadores os acompanhavam com os olhos. Assim que 
chegaram ao palco, uma nova msica comeou a tocar, exatamente a que 
Mrcia mais gostava. Do alto do palco e sobre suas cabeas, ptalas de 
rosas comearam a cair. Ronaldo, emocionado, tirou do bolso uma caixinha 
que continha um lindo anel de brilhante e, enquanto o colocava no dedo 
dela, falava: 
 Quero agradecer a presena de todos os meus familiares e amigos que 
aceitaram meu convite e gostaria de apresentar minha adorvel noiva. Quero 
tambm comunicar que dentro de um ms realizaremos nosso casamento. 
Todos se levantaram e comearam a aplaudir. Mrcia, deslumbrada com 
aquela surpresa, comeou a tremer, sem ter palavras para exprimir seus 
sentimentos. Ronaldo colocou a mo em sua cintura e a conduziu at o 
centro da pista, onde recomearam a danar. Ela se deixava levar em seus 
braos ao ritmo daquela msica. Sua cabea rodava entre lgrimas e 
sorrisos. Beijou e foi beijada ardentemente por Ronaldo, que feliz disse:" 
" Isto no  nada em comparao a tudo que lhe darei durante toda a vida 
que passaremos juntos. 
 Meu amor, voc no existe! Eu te amo muito, muito, muito! 
Os convidados, aps o trmino daquela primeira msica, aproximaram-se, 
cumprimentaram o casal e comearam a danar. Foi uma noite inesquecvel 
para todos que ali compareceram. Mrcia foi apresentada aos pais de 
Ronaldo, depois aos irmos e sobrinhos, e no final a toda a famlia. Ela, 
gentil, sorria para todos. Quem visse aquele rosto angelical jamais poderia 
imaginar toda a maldade que era capaz de fazer. 
No final da festa, antes que os convidados fossem embora, Ronaldo e 
Mrcia saram escondidos. As despedidas seriam demoradas e eles no 
queriam esperar mais para se amar. Ele a levou a um hotel onde uma sute 
os esperava. Vendo tudo aquilo, ela disse: 
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 Hoje est parecendo nossa noite de lua-de-mel. Depois de tudo isso, no 
posso imaginar o que far quando ela chegar realmente. 
 Isso voc vai conferir em Paris. 
 Paris? Est dizendo que vamos passar nossa lua-de-mel em Paris? 
 E em toda a Europa. Teremos dois meses s para nos amarmos e 
conhecermos lugares. O que acha? S no iremos se voc no quiser. 
 Claro que quero! Sempre quis conhecer Paris, mas, embora tivesse 
dinheiro, faltava-me tempo e companhia. Sempre foi o sonho de minha vida! 
 Ento esse sonho ser realizado. Gostou da surpresa que te preparei no 
restaurante? 
 Adorei. Nunca poderia imaginar que algum dia eu fosse  protagonista de 
um conto de fadas." 
" Como quis te fazer uma surpresa, no convidei ningum de sua famlia. 
Nunca comentou nada sobre eles, por isso no sei onde esto e no quis te 
perguntar, mas para nosso casamento fao questo de que todos 
compaream. 
Uma nuvem passou pelo rosto dela ao lembrar-se da famlia. Fez fora para 
que uma lgrima casse de seus olhos. Vagarosamente e baixinho, falou: 
 No tenho ningum. Meus pais morreram em um acidente quando eu 
tinha apenas seis meses. Fui criada por minha av, que me deu tudo, e j 
faz dez anos que morreu. Sou sozinha no mundo. 
Ao ouvi-la dizer aquelas palavras, um vulto iluminado que estivera a seu lado 
durante toda a noite balanou a cabea e, demonstrando tristeza, disse: 
 No, meu amor, no faa isso. Diga a verdade... 
Ela parou de falar, parecendo ouvir algo. Imediatamente, lembrou-se de 
Lenita e de sua me. 
No, no posso dizer a ele que minha famlia  pobre e vive naquele lugar 
miservel. Ele no entenderia. 
Ronaldo, muito triste, abraou-a e disse: 
 Sinto muito. Deve ser muito triste no ter ningum. Minha famlia  muito 
unida e agradeo todos os dias por ter todos ao meu lado. Mas agora voc 
no ficar mais sozinha. De agora em diante, todos ns seremos sua famlia. 
Poder nos amar e ser amada. 
Ela, abraando-o, falou: 
 No se preocupe: j me acostumei. Mas sei que de agora em diante 
#
nunca mais ficarei sozinha. Hoje tenho voc, que  maravilhoso e  tudo 
para mim. Farei com que sua famlia me aceite. E daqui a algum tempo 
teremos nossos filhos. 
A nuvem agora passou pelo rosto dele. Afastou-se dela, colocou as mos em 
seus ombros e perguntou desesperado: 

 Voc est esperando uma criana? 
Ela se assustou com sua atitude. Nunca o vira daquela maneira. 
 No. Mas pretendo, um dia, ter vrios filhos. 
Como se um peso fosse tirado de sua cabea, ele a abraou novamente." 
" Ainda bem. Eu morreria se soubesse que voc est esperando um filho. 
Isso nunca ir acontecer. 
 No estou entendendo... Como, nunca vai acontecer? Igual a toda mulher, 
quero ter meus filhos. 
 Poder adotar quantos quiser. Darei a eles todo o amor deste mundo, 
mas nunca vou querer ver voc esperando um filho. Tenho medo de te 
perder. 
S naquele momento ela se lembrou do trgico fim da primeira esposa de 
Ronaldo. Falou baixinho em seu ouvido: 
  isso, meu amor? Acredita que possa acontecer novamente? No se 
preocupe: no vai acontecer. Nosso amor  perfeito demais para que algo de 
mal possa acontecer. Nunca ouviu aquele ditado: Um raio no cai duas 
vezes no mesmo lugar? Esquea tudo isso, vamos viver nossa noite de 
amor. Teremos muito tempo para pensar em filhos. 
Ele foi at o bar, onde havia uma garrafa de champanhe, encheu duas taas 
e ofereceu uma a ela, fazendo um brinde: 
 Que nosso amor seja feliz e eterno. 
Tomaram a champanhe. Ele colocou uma msica para tocar e comearam a 
danar. Embalados pela champanhe e pela msica, em poucos minutos 
estavam deitados sobre a cama, acariciando-se. Em dado momento, ela 
segurou sua cabea, colocou seus olhos bem perto dos dele e falou: 
 Eu o amo... Eu te amo muito... 
Assim que abriu a boca para falar, um terrvel mau cheiro saiu por ela ao 
mesmo tempo em que Ronaldo sentia uma dor profunda. Ele, desesperado, 
afastou-se dela e levantou-se. O mau cheiro era to forte que Ronaldo saiu 
correndo para o banheiro, fechou a porta e comeou a vomitar. Ela, 
#
desesperada, correu atrs dele e comeou a chorar e gritar: 

 Meu amor, o que est acontecendo? Que cheiro  esse? Ele cheirava seu 
corpo para ver se havia algum lugar em que o cheiro no estivesse. 
 No sei. Saiu de sua boca! Voc deve estar doente! 
 Por favor, abra a porta! Precisamos conversar. Precisamos entender o 
que est acontecendo!" 
" J vou sair... Espere um pouco... 
Ela voltou para a cama. Ficou sentada olhando para a porta do banheiro. 
Depois de quinze minutos, a porta se abriu. Ele estava abatido, com o rosto 
de quem estava nitidamente passando muito mal. Assim que o viu ela disse: 
 Est vendo? O cheiro foi embora... 
Bastou ela abrir a boca para o mau cheiro voltar e envolver todo o ambiente. 
Ele se vestiu rapidamente e comeou a sair, quando ela, desesperada e 
chorando muito, o segurou pelas pernas. 
 No v embora! No me deixe! Eu te amo. Voc me ama! 
Ele tentou ficar, mas, a cada palavra que ela falava, parecia que o mau 
cheiro aumentava. Ele saiu quase correndo, batendo a porta violentamente e 
dizendo: 
 Preciso respirar um pouco de ar puro. Se ficar aqui, acho que vou morrer. 
Ela se viu sozinha no quarto. Chorava sem parar. Vultos negros, 
gargalhando, rodopiavam em volta do quarto todo e sobre ela. Ela 
continuava chorando, procurando entender o que havia acontecido dos 
vultos, que agora eram muitos, passou perto de seu nariz a figura de dois 
bonecos amarrados um ao outro. Como por encanto, no mesmo instante, ela 
se lembrou de dona Durvalina e do trabalho que havia encomendado. 
Preocupada, pensou: 
No pode ser. O trabalho no deu certo. Osvaldo nunca mais me procurou. 
Olhou para o relgio que estava sobre o criado-mudo. 
Duas horas da manh. No vou encontrar aquele lugar durante a noite, mas 
amanh, assim que clarear vou at l. Ela vai ter de me explicar o que est 
acontecendo. Logo hoje? Estava tudo to perfeito. Eu amo Ronaldo! No 
posso perd-lo. Pagarei o que for preciso para que esse feitio saia de minha 
vida! 
Lembrou que no estava em seu apartamento. Ligou para a recepo e 
pediu um txi. 
#
O recepcionista no entendeu o que havia acontecido. Ronaldo havia pedido 

o que de mais luxuoso existia no hotel. Quando o viu sair correndo, quase 
alucinado, ainda vestindo o palet, ficou apenas olhando e querendo 
entender, pensou:" 
"Agora ela pediu um txi... Que ser que aconteceu? Infelizmente acho que 
no vou saber. Preciso mesmo  chamar o txi. 
O mau cheiro do quarto desapareceu. Enquanto esperava o txi, Mrcia ia 
se lembrando de suas idas e vindas  casa de dona Durvalina. Lembrou-se 
do encontro que teve com sua me e com Lenita. Lembrou-se de Farias e da 
maldade que havia feito com ele. Enquanto ela relembrava o passado, os 
vultos negros ficavam  sua volta, rindo e rodopiando em uma dana 
infernal. 
O txi chegou, ela desceu do quarto e, sem olhar para o recepcionista, foi 
embora. Chorou durante todo o caminho. O motorista tentou iniciar uma 
conversa, mas logo percebeu ser intil. Ela estava com o pensamento 
distante e deixou claro que no queria conversar. 
Entrou em casa. Olhou todo aquele luxo  sua frente, que agora no tinha o 
menor valor. A nica coisa que queria era ter Ronaldo de volta. 
Quando, finalmente, encontrei o amor de minha vida, ele simplesmente 
escapou por entre meus dedos. No posso mais viver sem ele. Eu o amo... 
Voltou a chorar. Foi para seu quarto, voltou para a sala, entrou pelos demais 
quartos, foi para o banheiro. No havia lugar em que se sentisse bem. Sofria 
muito. 
Tentou ligar para Ronaldo. Precisava falar com ele, nem que fosse  
distncia, mas o telefone tocou vrias vezes e ele no atendeu. Via em sua 
frente o rosto de nojo com que ele a olhara. No conseguia dormir. Era 
sbado, mas dona Durvalina a atenderia de qualquer maneira. Sabia que 
bastava oferecer o dobro do preo cobrado. No queria nada, s queria que 
o feitio fosse quebrado. 
Se dona Durvalina fez, ela ter de desmanchar. Finalmente, adormeceu no 
sof em que estava sentada, de frente para a porta de vidro que dava para a 
piscina. Acordava, olhava para o cu, voltava a dormir. Assim ficou durante 
toda a noite. Dormindo e acordando, esperando o amanhecer." 
"Acordou com a claridade do sol batendo em seu rosto. Abriu os olhos, 
lembrou-se de tudo o que havia acontecido. Parecia que o dia seria bonito. 
#
Ronaldo, como todos os sbados em que no tinha uma viagem 
programada, iria at o parque correr. Ela resolveu: 
Vou at l. Talvez o encontre e poderemos conversar. No posso lhe contar o 
que fiz, mas, como sempre, arrumarei um modo de lev-lo a pensar sobre o 
assunto, a esperar at que eu encontre uma soluo. 
S de pensar que poderia perd-lo, sentiu um aperto no corao. Sabia que, 
se o perdesse, seria a mulher mais infeliz do mundo. Comeou a chorar 
novamente. Foi ao banheiro, tomou um banho, cheirou seu corpo, e nada: 
no havia cheiro algum. 


 Decididamente, foi feitio mesmo. 
Vestiu-se e foi para o parque. Ainda era cedo. Ronaldo costumava chegar 
mais tarde. Enquanto esperava, ficou observando as crianas brincando e as 
pessoas andando. Lembrou-se de seus planos de ter muitos filhos. Lembrou-
se da festa maravilhosa que teve, da viagem programada para Paris e toda a 
Europa, seu maior sonho. Comeou a andar em volta do lago, pensando: 
Este lago  to bonito... O lugar ideal para morrer... Se no conseguir trazer 
Ronaldo de volta, se no conseguir viver do lado dele pelo resto de minha 
vida, esse ser meu destino... Virei aqui  noite, quando no houver 
ningum, e simplesmente mergulharei. Sem ele, no quero mais viver. O 
suicdio ser o nico caminho que terei para seguir. 
A seu lado, caminhando junto e soprando esses pensamentos para ela, iam 
vrios vultos negros. Ela esperou quase at o meio-dia. Ronaldo no 
apareceu. Ligou para sua casa. A empregada informou que ele havia viajado 
e no disse para onde. Seus olhos se encheram de lgrimas. 
Definitivamente, eu o perdi para sempre. Como vou viver sem ele? Minha 
nica esperana  dona Durvalina, s ela poder me ajudar..." 
"Voltou para seu carro e seguiu em direo  casa de dona Durvalina. 
Passou pela casa em que sua me morava com Lenita. Pensou nas duas, 
mas sua urgncia no momento era trazer Ronaldo de volta. Bateu palmas, e 
a mesma senhora do quarto da frente atendeu: 
 Pois no. Ah,  a senhora? Pode entrar. 
Mrcia entrou e bateu  porta do quarto. Dona Durvalina abriu e perguntou: 
 A moa, aqui? Depois de tanto tempo. No pensei que um dia ia voltar. O 
trabalho deu certo? Est feliz? 
Mrcia, furiosa, respondeu: 
#
 O trabalho no deu certo! Vim aqui para que o desmanche. Pagarei em 
dobro sua consulta, mas preciso falar com a senhora hoje, sem falta! 
A mulher, calmamente, respondeu: 
 No precisa ficar nervosa. Vou atender  senhora. Pode me esperar l no 
fundo, a porta est aberta. 
Mrcia, agora, j conhecia o caminho e dirigiu-se para l. Empurrou a porta e 
viu novamente o altar cheio de santos, flores e velas. Uma imagem de Jesus 
com os braos estendidos parecia sorrir para ela. Seus olhos, embora de 
vidro, pareciam ter vida. Ela ficou olhando-o e pensando: 
Nunca em minha vida parei para saber mais sobre sua histria. Nunca tive 
tempo para isso. 
Aproximou-se e viu-o de mais perto. Em sua alucinao, pareceu que ele 
sorria. 
Devo estar louca.  apenas uma imagem, nada mais. Estava ainda diante 
dele quando dona Durvalina chegou e perguntou: 
 Est falando com Ele? s vezes,  a melhor coisa que tem para se fazer. 
 o melhor caminho a seguir. 
Mrcia se voltou violentamente ao ouvir a voz da mulher e respondeu muito 
nervosa: 
 No vim aqui para falar com uma imagem de gesso! Vim aqui para falar 
com a senhora, que  de carne e osso! 
 A moa parece que no entendeu. Nunca falou ou tratou alguma coisa 
comigo. Sempre falou com um esprito." 
" Com a senhora ou com o esprito, no importa! Preciso que desmanche o 
que fez! 
 A moa vai esperar um pouco. Daqui a pouco vai falar com quem de 
direito. 
Disse isso e novamente puxou a cortina negra. Colocou no cho uma garrafa 
de cachaa e alguns charutos. Fez um tipo de orao. Seu corpo comeou a 
tremer e, em seguida, ela soltou uma gargalhada. Sentou-se no cho e olhou 
para Mrcia, perguntando: 
 Que a moa veio procurar aqui? 
Mrcia percebeu que a mulher falava diferentemente da ltima vez em que l 
esteve. Parecia estar conversando com outro esprito. 
 Vim aqui pedir para desmanchar o trabalho que fez. 
#
 No fiz trabalho algum pra moa. 
 Como no? Paguei tudo o que foi pedido! O trabalho, alm de no ter 
dado resultado, ainda se voltou contra mim! Quero que seja desmanchado. 
Pagarei o que for preciso! 
 Espere um pouco, moa. No fiz trabalho algum pra moa. 
 Como no? Disse que ia amarrar uns bonecos, deu o preo e eu paguei! 
 A moa nunca falou comigo, no. A moa falou com o outro, que se 
debandou pr outro lado, o que deixou o chefe muito bravo. Estou aqui no 
lugar dele. S isso. 
 No estou entendendo. Est agora querendo se fazer passar por outra 
pessoa s para no devolver o dinheiro ou desmanchar o trabalho? 
 A moa est entendendo muito bem. A moa veio aqui, pediu um trabalho, 
e a moa pagou. O trabalho foi feito... 
 At pode ser, mas s deu resultado por uma noite. No sei se ainda est 
acontecendo com a outra pessoa aquilo que me foi prometido. S sei que 
agora est acontecendo comigo. Eu no quero! Eu no quero! 
Mrcia gritava e chorava tudo ao mesmo tempo. Seu corpo tremia ao 
lembrar-se da cena ao lado de Ronaldo, do mau cheiro e do rosto dele 
quando se afastou dela. Continuou: 
 Isso no  justo. O homem que mais amo fugiu de mim, de meu amor. 
No importa quem tenha feito. Quero que desmanchem..." 
" Moa, esse negcio de justia  muito complicado. Tem sempre dois 
lados. No foi avisada que tinha um preo? No foi perguntado se a moa 
estava disposta a pagar? 
 Foi. Eu disse que queria e que estava disposta a pagar. Mas agora no 
quero mais. Quero que seja desmanchado. Pagarei o dobro; se for preciso, 
at mais. Pagarei tudo o que for preciso. S quero ficar livre dessa maldio. 
 No foi dito que cinqenta por cento ia voltar pra moa? Ou mesmo at 
cem por cento? 
Mrcia parou, olhando para aquele homem com quem agora ela tinha 
certeza que estava conversando. O rosto da mulher estava vincado, parecia 
mais forte e msculo. Na vez anterior, a mulher bebia e fumava charuto sem 
parar. Hoje ela no estava bebendo e fumava um cachimbo. A garrafa de 
cachaa e os charutos estavam l, mas ela no tocou neles. 
 Cinqenta por cento? Cem por cento? Do qu? O trabalho no deu certo. 
#
Osvaldo procurou-me s uma vez. Depois, nunca mais. Se no me procurou 
mais,  porque deve estar muito feliz. Se no deu certo, por que terei de 
pagar? 

 O trabalho pode no ter dado certo, mas foi feito. No foi dito pra moa 
que, mesmo que no desse certo, ia ser cobrado? Que o que valia era a 
inteno? A moa teve inteno, no teve? A moa quis afastar aquele 
homem da mulher, no quis? 
Mrcia ficou relembrando o primeiro dia em que ali estivera e em tudo que 
lhe fora dito. 
 Naquele dia eu tive inteno porque estava com muita raiva, com muito 
dio, mas hoje no. S quero ser feliz. Quero que seja desmanchado para 
que eu possa ter minha vida de volta, ter o homem que tanto amo 
novamente me amando. Quero ser feliz. 
 No foi dito pra moa que depois de feito, ia ser muito difcil desmanchar 
o trabalho? 
 Foi. Mas foi dito difcil, e no impossvel. Deve haver um meio. Preciso 
saber qual . Tem de me dizer. Pago o que for preciso. Dinheiro no  
importante. Quero minha vida de volta. Quero ser feliz!" 
" No d, no, moa. Eu no posso fazer nada. No fui eu quem fez o 
trabalho. 
 Como no pode fazer nada? Como no foi voc quem fez o trabalho?  
muito fcil dizer isso. Recebeu o dinheiro, conforme combinado. Paguei 
minha parte do modo que pediu. Agora, simplesmente, me diz que no pode 
fazer nada? No vou aceitar isso. No posso aceitar. Se aceitar, sei que 
nunca mais terei meu amor de volta. Preciso dele. Nunca conheci a 
felicidade e, agora que a consegui, no posso simplesmente perd-la! 
 A moa no tem de aceitar nada. A moa  livre pra procurar uma sada. 
Eu no sei como fazer. A moa foi avisada de que o que ela estava fazendo 
podia voltar pra ela mesma, no foi? No posso fazer nada... 
 Por sua culpa estou perdendo, se j no perdi o nico homem que amei 
na vida! O homem que poderia me dar a felicidade maior deste mundo! 
 Por minha culpa? Acredita mesmo que foi por minha culpa? A moa veio 
aqui querendo um homem. No se preocupou com o que ele queria. Agora 
quer um outro. A moa no sabe o que quer? 
Mrcia agora estava furiosa. 
#
 Como no sei o que quero? Consegui tudo na vida exatamente porque 
sempre soube o que queria! Se voc fez, outro vai desmanchar e eu vou 
encontrar! Exatamente porque sei o que quero. Quero aquele homem de 
volta. Ele voltar, nem que para isso eu tenha de gastar at meu ltimo 
centavo! 
 A moa  quem sabe. Eu no posso fazer nada. S posso dizer uma coisa 
pra moa: no gaste seu dinheiro  toa. No  com dinheiro que vai 
conseguir desmanchar o que mandou fazer. No  no... 
 Se no for com dinheiro, ser com o qu? Pode me explicar? 
 No posso, no. A moa mesma  que vai ter de descobrir. 
 Seja o que for, descobrirei. Pode estar certo. 
Mrcia levantou-se e, sem se despedir, saiu. Estava com muita raiva, muito 
nervosa e com muito dio. 
Antes de entrar no carro, olhou para a casa que sabia ser de sua me e de 
Lenita. Pensou em ir at l." 
"Elas esto a. Poderia lev-las para viver em minha companhia. Quem sabe, 
fazendo uma boa ao, possa reverter o trabalho? No. No e no! Como 
posso me dedicar a elas? Estou com muitos problemas! Preciso encontrar 
uma forma de reverter tudo isso. Em algum lugar deve haver resposta. Vou 
encontrar esse lugar, nem que tenha de revirar o mundo. Elas que fiquem 
por a! Viveram at hoje muito bem, podero continuar vivendo. No quero 
me envolver em suas vidas. Elas s me dariam mais problemas. 
Acelerou o carro e saiu em disparada, sem olhar novamente para a casa, 
chegando at a virar o rosto para o outro lado. 
S me faltava agora encontrar aquela mulher, que se diz minha me, com 
suas lgrimas. No quero v-la nunca mais. Preciso encontrar um meio de 
me livrar dessa maldio. No posso perder Ronaldo. Eu o amo. Ele tambm 
me ama. Vou encontrar algum que possa me ajudar... 
Antes de ir para casa, passou mais uma vez pelo parque, na esperana de 
ver Ronaldo correndo. Mas foi intil: ele no estava ali. Sentada no banco, 
ficou relembrando os dias felizes que viveu com ele. Chorava como criana. 
Chorou muito e, de repente, parou. 
No posso ficar chorando. No sou mulher de chorar. Tenho de fazer algo. 
Deve existir algum que possa me ajudar. 
Triste, voltou para casa. 
#
No dia seguinte, pegou o jornal e comeou a folhe-lo, na inteno de se 
distrair. Aps ler alguns artigos financeiros e polticos, chegou aos 
classificados. Sem interesse, comeou a l-los. Notou que havia vrios 
anncios de videntes e pessoas que faziam consultas espirituais e 
desmanchavam trabalhos. Selecionou alguns nmeros de telefone e 
comeou a ligar. Marcou consultas noturnas, uma para cada dia da semana, 
com pessoas diferentes. 
Uma delas vai me ajudar.  impossvel que no exista neste mundo algum 
que consiga desmanchar o mal que aquela mulher fez." 
"Ficou andando pelo apartamento. Cada pedao a fazia lembrar-se de 
Ronaldo. Ela o amava desesperadamente, no podia perd-lo. 
Isso no! Vou encontrar uma maneira. 
Sem que ela soubesse,  sua volta, rodopiando, feliz, estava Farias sempre 
acompanhado por Gervsio. Farias chegou junto a ela, falando em seu 
ouvido: 

 No est com vontade de beber? Um vinho agora seria muito bom... V 
at o bar, vai ver como vai se sentir melhor... Pegue um copo e beba... Eu 
lhe farei companhia... 
Como se estivesse hipnotizada, ela se dirigiu ao bar, pegou um copo, 
encheu-o de vinho e comeou a beber. Farias, sentado a seu lado, aspirava 
ao lcool com ela. 
Mrcia bebeu um copo aps o outro. Completamente embriagada, dormiu no 
sof da sala, sem foras para ir at seu quarto. Durante a noite, teve 
horrveis pesadelos. Farias, a seu lado, falava coisas que faziam com que 
acordasse e dormisse logo em seguida. 
Farias apertava sua cabea, causando dores violentas. Ela acordava, mas o 
efeito do lcool era mais forte, e voltava a dormir. Quase pela manh, viu em 
seu sonho o corpo dele entre as ferragens, com sangue por todo lado, 
apontando-lhe o dedo e dizendo: 
 Voc me matou! Voc me matou! Assassina! Assassina! 
Ela deu um pulo e acordou, ainda vendo-o e ouvindo sua voz. Olhou em 
volta e percebeu que estava em seu apartamento. Ainda bem que foi um 
sonho. Por que ele disse que eu o matei? A morte dele foi um acidente. Por 
que no estou em meu quarto? Ai, que dor de cabea! Por que tive de beber 
tanto? 
#
Levantou-se, mas ainda sentia uma pequena tontura. No dia anterior, no 
comera nada, apenas bebera. 
Estou fraca, preciso me alimentar. Que dia  hoje? Nossa!  dia de trabalho! 
Deitou-se novamente na cama. Seu corpo estava pesado. Farias subiu em 
seus ombros, dando a ela a impresso de estar com um peso enorme nas 
costas. Ele ria, enquanto pulava e falava:" 
" Voc no presta. Quis subir a qualquer preo. Agora, perdeu o que mais 
queria e vai perder todo o resto. Vou me vingar. Foi sempre to egosta que 
no tem um amigo sequer para te ajudar. Voc no presta! 
Ela absorvia, sem saber, tudo o que ele dizia. Sentia uma Profunda solido. 
Lembrava-se de tudo o que havia feito contra muitas pessoas. Via Lenita, 
plida, desmaiada em seus braos, e sua me, sorrindo e chorando, quando 
a encontrou. Em seguida, a figura de Farias preso nas ferragens. Sua 
cabea rodava, mas ela precisava se levantar e ir trabalhar. 
Preciso me levantar... Tenho compromissos importantes marcados na 
empresa... Nunca deixei de cumprir compromisso algum. 
Tentou levantar-se novamente. 
Vou tomar um banho e ficarei melhor. No posso ficar deitada, preciso ir para 
a empresa. 
Levantou-se. Voltou a se lembrar de Ronaldo. 
No posso perd-lo. No posso! Meu amor, onde voc est? Volte, por favor. 
No saberei viver sem voc. 
Tornou a se deitar. Seu corpo estava fraco, sua vontade estava dividida entre 
a obrigao do trabalho e a imensa dor que sentia por se ver ameaada por 
algo que no sabia como enfrentar. Ficou deitada por mais algum tempo. 
Com muito esforo, levantou-se novamente e conseguiu chegar ao banheiro. 
Tomou um banho demorado e realmente se sentiu melhor. 
Vestiu-se e, ainda com um pouco de dor de cabea, foi para a empresa. 
Levou com ela a folha de papel em que havia marcado os endereos das 
pessoas que visitaria para encontrar uma soluo para seu problema." 


#
Oportunidade de perdo 

"O dia se arrastou e, por muitas vezes, ela se distraiu com o trabalho. 
Quando algum perguntava algo a respeito de um assunto qualquer, por 
vrias vezes no soube responder. Sua cabea e suas costas doam muito. 
Farias continuava em cima dela e no parava de falar: 

 No adianta voc agora  minha. Nunca mais vou sair daqui! Nunca mais. 
Vou te levar  loucura. Quero te ver l no vale, naquele inferno. No vou te 
deixar em paz, nunca mais. Nunca mais! 
Naquele dia, pela primeira vez desde que comeara a trabalhar na empresa, 
olhava a todo instante no relgio. Deixou seu trabalho para o dia seguinte. 
Sentia que no estava em condies de tomar qualquer deciso. Tinha 
conscincia de que, para voltar a ser a funcionria exemplar que sempre 
fora, teria de resolver seu prprio problema. 
Pela primeira vez, tambm, no estava conseguindo separar sua vida 
particular da profissional. Seus superiores perceberam que ela no estava 
bem. s trs horas da tarde, doutor Fernando chamou-a em sua sala. 
 Mrcia, estou notando que hoje voc no est bem. Est acontecendo 
alguma coisa? Est com algum problema? 
 Desculpe senhor, estou com uma terrvel dor de cabea. Mas tenho 
certeza de que logo estarei bem. 
  melhor que v para casa ou a um mdico. Estou preocupado. Sabe que 
temos decises importantes para tomar e sempre contei com sua ajuda, mas 
hoje me parece que no podemos decidir nada. V para casa, cuide-se e 
volte amanh. 
Mrcia no gostou do que estava ouvindo. Ela sempre fora elogiada e agora 
sentia que o chefe a estava recriminando. Perdeu o controle: 
 Que est querendo dizer? Que no sou uma boa profissional? Que estou 
deixando meus problemas particulares interferirem em meu trabalho? 
Ele estranhou a pessoa que estava  sua frente. Nunca antes a vira 
descontrolada dessa maneira." 
" Que  isso? S estou preocupado com sua sade. Sei que  uma boa 
profissional, nunca poderia duvidar disso. Vejo, agora, que realmente no 
est bem e que precisa se tratar. V procurar um mdico. Pode ficar em casa 
quantos dias forem necessrios. S volte quando realmente se sentir bem. 
#
Ela percebeu que havia perdido o controle. Farias rodopiava  sua volta, 
gargalhando e muito feliz. 
Agora, sim.  isso mesmo o que quero ver! Fernando precisa te conhecer 
como  na realidade! Vai perder tudo o que conseguiu, mentindo e 
enganando. 


 Desculpe -ela disse ao seu chefe   que realmente no estou bem. 
Estou me sentindo muito fraca. 
 Por isso mesmo, deve consultar um mdico. Fique em casa todo o tempo 
de que precisar. 
 Mas tenho muito trabalho para concluir... 
 No se preocupe, v procurar ajuda e se trate. 
Ele falou com tal impostao de voz que ela no teve como argumentar. 
Sentia-se realmente muito mal, tentou sorrir e retirou-se da sala. J em sua 
sala, pegou a bolsa e saiu. Farias e Gervsio a acompanharam. 
Pegou o carro. Na rua, respirou fundo. Sentia que o ar lhe faltava. 
No posso ir para casa. L me sinto sufocar. Mas aqui tambm. No sei o 
que fazer. Essa dor que sinto pela perda de Ronaldo  imensa. Vou dirigir um 
pouco. Melhor ainda: vou at sua casa. Ele no pode ter viajado assim de 
repente. Deve estar em casa ou em algumas de suas agncias. Vou procurlo 
e pedir que volte. Se for preciso, contarei a ele tudo o que fiz. No... Isso 
no poderei fazer nunca. Ele no entenderia e, com certeza, no me 
perdoaria! 
Continuou dirigindo. Ronaldo morava em uma manso localizada em um 
bairro nobre da cidade. Parou o carro em frente a um enorme porto de 
ferro. Desceu e ficou parada, olhando para dentro do jardim. Um homem, ao 
v-la ali parada, veio em sua direo. 
 Pois no, senhorita, deseja alguma coisa?" 
" Preciso falar com o senhor Ronaldo. Ele est em casa? 
 Sinto senhorita, mas ele viajou no sbado pela manh e no disse quando 
voltaria. 
 O senhor sabe aonde ele foi? 
 O patro no costuma dizer aonde vai. 
 Obrigada. Se ele voltar, por favor, avise que Mrcia esteve aqui. Vou 
deixar meu carto. Poderia me telefonar assim que ele voltar? 
 Poderei dizer para ele que a senhorita esteve aqui, mas telefonar, no. 
#
No se preocupe: ele mesmo vai ligar. A senhorita  muito bonita... 
Mrcia percebeu que no adiantava ficar ali. 

 Obrigada, o senhor foi muito gentil. At logo. 
Voltou para o carro e continuou dirigindo. Foi a todas as agncias de carro 
que sabia serem dele, mas nada. Em todos os lugares, recebia a mesma 
resposta: 
 Ele foi viajar. 
Cansada, resolveu ir para casa. Estava escurecendo, e ela teria tempo de 
tomar um banho, trocar de roupa e ir ao encontro da primeira mulher com 
quem havia marcado consulta. 
Vou, hoje, nesta. Se no der certo, vou a todas as outras; uma delas vai ter 
de me ajudar. Preciso de ajuda. Sempre soube lidar com meu trabalho. 
Sempre soube afastar de meu caminho quem me incomodasse, mas, com 
essas coisas, no sei lidar. No sei como fazer, mas algum deve saber, e 
vou encontrar esse algum. 
No apartamento, como sempre, tudo estava em ordem. Entrou e se sentiu 
sozinha. 
Precisava ter algum para conversar. Precisava ter uma amiga, mas no 
tenho ningum. Passei minha vida toda apenas querendo ganhar dinheiro e 
prestgio na empresa. Para qu? Para qu? 
Foi para o banheiro. Tinha tempo de tomar um banho de imerso, que 
sempre lhe fazia muito bem quando chegava do trabalho tensa e cansada. 
Foi o que fez. Ficou deitada na banheira por mais ou menos meia hora. 
Depois disso, trocou-se, pegou as chaves do carro e se preparou para sair." 
"Quando estava saindo, olhou para o bar, no canto da sala. Percebeu que j 
no havia ali muitas garrafas. Embora quase nunca bebesse, quando 
decorou o apartamento, colocou no bar algumas bebidas de todos os tipos, 
que fariam parte da decorao e que estariam l para o dia em que fosse 
receber alguns amigos. Todavia, esses amigos nunca vieram. As garrafas ali 
permaneceram por longo tempo. Agora, faltavam algumas, que ela mesma 
havia tomado. 
Vou comprar as que esto faltando. No quero meu bar vazio. 
Saiu em direo ao endereo que havia anotado.  rua ficava em um bairro 
bom, com belas moradias. Estacionou o carro em frente a um prdio e subiu 
ao terceiro andar. Foi recebida por uma senhora bem vestida e sorridente. 
#
 Boa-noite. Pode-se ver que  uma pessoa educada: chegou na hora 
marcada. 
 Boa-noite, dona Neide. Tenho urgncia em resolver um problema e penso 
que talvez possa me ajudar. 
 Vamos ver. Entre, por favor. 
Mrcia entrou. O ambiente ali era bem diferente daquele que encontrou na 
casa de dona Durvalina. Aquele apartamento revelava que a pessoa que ali 
vivia era de posses. Mrcia perguntava-se: 
Por que uma pessoa como essa se dedica a um trabalho desses? Deve 
cobrar um preo alto, mas no faz mal: pagarei o que for preciso. S quero 
Ronaldo de volta. 
Dona Neide percebeu sua curiosidade, enquanto a encaminhava a uma sala 
nos fundos do apartamento, e disse: 
 Parece no entender por que me dedico a um trabalho como este? 
 Por favor, a senhora tem de me desculpar.  que no entendo muito bem 
dessas coisas. Nunca dei muita ateno, por isso estou surpresa. 
 No precisa se preocupar com isso. Dedico-me a este trabalho j h 
muito tempo, h quase vinte anos. Estou cumprindo minha misso aqui na 
Terra. 
 Misso? Que misso? 
A de ajudar as pessoas que se encontram perdidas, sem um caminho para 
seguir. 
 Consegue realmente isso?" 
" Na maioria das vezes, sim, mas depende muito da pessoa que me 
procura. 
Ao ouvir aquilo, Mrcia pensou: 
Estou novamente falando com uma pessoa que vai querer me enganar. 
Quando no conseguir me ajudar, vai dizer como dona Durvalina, que a 
culpa  minha. Agora, no tenho como escapar. J que estou aqui, vou at o 
fim. Vamos ver no que vai dar, mas desta vez, s darei dinheiro se houver 
garantia. 
Chegaram a uma porta. Dona Neide abriu-a e convidou Mrcia para entrar. 
L dentro, encontrou um ambiente acolhedor. Ela, rapidamente, olhou tudo. 
Havia uma mesa forrada com cetim branco. Um incenso queimava sobre a 
esttua de algum que Mrcia no conhecia. O incenso soltava um aroma 
#
suave e bom. Sobre a mesa, cartas de baralho. Flores e velas acesas de 
vrias cores. Mrcia se impressionou com a paz que sentiu ali dentro. Dona 
Neide percebeu seu espanto: 

 Nunca esteve em um lugar como este? Nunca consultou as cartas? 
 No,  a primeira vez. Nunca me interessei pelo futuro, porque sempre 
soube como conduzir minha vida para que o futuro fosse do modo que 
quisesse. 
Dona Neide apenas sorriu. Mostrou a ela uma cadeira que estava em frente 
a ela e se sentou em outra que estava do outro lado. As duas ficaram frente 
a frente. A vidente fechou os olhos e com o baralho nas mos fez uma 
espcie de orao. Depois, embaralhou as cartas e pediu para Mrcia que 
cortasse trs vezes com a mo esquerda. Mrcia obedeceu. A mulher pegou 
de volta as cartas e perguntou seu nome. Mrcia respondeu. Dona Neide 
comeou a colocar as cartas sobre a mesa. Mrcia acompanhava, em 
silncio, todos os seus movimentos. Depois de colocar as cartas, a mulher 
ficou apenas olhando, sem nada dizer. Examinou, examinou e, finalmente, 
disse: 
 A senhorita est com energias muito pesadas a seu lado. Aqui no diz o 
que fez s mostra que mexeu com foras poderosas. Essas foras agora 
esto cobrando sua parte. Elas esto querendo que a senhorita pague tudo, 
perdendo aquilo que mais ama neste mundo. O que voc fez?" 
"Mrcia ficou impressionada. No falara a respeito de sua vida e aquela 
mulher no a conhecia. Ela estava, mesmo, vendo as coisas? 
 No fiz nada. Vim aqui porque preciso de ajuda. O homem que mais amo 
est fugindo de mim! 
 Qual  o nome dele? 
 Ronaldo. 
Dona Neide embaralhou novamente e pediu a Mrcia que cortasse. Em 
seguida, lanou as cartas sobre a mesa e, depois de analis-las 
demoradamente, falou: 
 Esse homem te ama sinceramente. Encontraram-se porque precisam 
continuar algo que foi interrompido em outra vida. Mas ele foi afastado por 
sua culpa. Ele est distante, foi para outro pas, mas, volto a dizer te ama 
muito. S sente medo, muito medo. Est sofrendo demais. 
 Algo que foi interrompido? Outra vida? O que est dizendo? 
#
 Vocs, em uma vida passada, tinham um compromisso, que foi 
interrompido contra a vontade dos dois. Nesta vida presente, deveriam se 
encontrar e recomear de onde pararam s que voc impediu que isso 
acontecesse por se deixar envolver por energias perigosas. 
 No estou entendendo nada do que est dizendo. Preciso que ele volte. 
No poderei continuar vivendo sem ele. 
 Que fez de mau? Com que foras mexeu? Que trato fez com essas 
foras? Preciso saber para ver se posso ajudar. No se preocupe: o que 
disser ficar s entre ns, no sair deste quarto. 
Ao perceber a indeciso de Mrcia em contar, ela continuou: 
 Preciso saber o que fez para ver se posso te ajudar. Precisa confiar. Foi 
para isso que veio at aqui. 
Mrcia comeou a chorar e contou tudo sobre dona Durvalina. Neide ouviu 
em silncio. Quando Mrcia terminou, ela fechou os olhos e permaneceu 
orando. Depois de algum tempo, abriu os olhos e disse: 
 Quando desejamos o mal para algum, no  necessrio nem praticar, 
porque nosso pensamento tem uma fora muito grande. Com ele, podemos 
construir ou destruir. Ao nosso lado, existem energias do bem e do mal e, 
infelizmente, voc se envolveu com as do mal. 
" No sabia o que estava fazendo. 
 No universo, existe uma Lei que comanda a tudo e a todos. Essa Lei tem 
de ser obedecida e cumprida. Desde que nascemos, aprendemos o que  
certo e errado; por isso, quando fazemos o mal para algum, sabemos o que 
estamos fazendo. Foi avisada que pagaria cinqenta por cento, mas, mesmo 
assim, insistiu em continuar. Agora, a cobrana chegou. 
 Eu no sabia o que estava fazendo. No imaginei que a cobrana seria 
dessa forma. Alm disso, o trabalho no deu certo: Osvaldo no voltou. No 
 justo pagar por algo que no consegui. 
 Justo? O que  justia para voc? No deu certo, mas poderia ter dado. 
Como estaria aquela famlia hoje? No deu certo, mas voc teve a inteno 
de fazer o mal. E isso foi o bastante. No precisaria de mais nada. 
 No posso pagar com aquilo que mais amo e de que mais preciso. Deve 
existir um meio de tudo ser contornado. Osvaldo deve estar feliz com sua 
famlia. Eu quero ser feliz com Ronaldo. Deve existir um meio. Sinto que a 
senhora sabe como me ajudar. No se preocupe com dinheiro: tenho muito e 
#
usarei at o ltimo centavo se for preciso. 

 Infelizmente, eu no fao trabalhos, s atendo  curiosidade das pessoas 
em relao ao passado, presente e futuro. Dou conselhos, ensino simpatias, 
nada, alm disso. No posso te ajudar. E h mais uma coisa que preciso lhe 
dizer. Do modo que est, ser presa fcil para pessoas mal intencionadas. 
Poder gastar todo o seu dinheiro e no conseguir nada. 
 Que est querendo dizer? No estou entendendo. 
 Aprenda algo muito importante. A mediunidade  um dom que nos  dado 
quando nascemos. A todos. Entendeu bem? A todos. Por isso, ela no deve 
ser usada para ganharmos dinheiro. Em qualquer lugar a que for, preste 
ateno: se houver cobrana, saia de l o mais rpido possvel. 
 Estou entendendo e aprendendo. Da prxima vez, tomarei mais cuidado. 
Mas a senhora deve conhecer algum que possa me ajudar." 
" Tenho uma amiga que possui um terreiro de umbanda. Talvez os 
caboclos e pretos velhos possam te ajudar. 
 Onde fica? Preciso ir a qualquer lugar onde haja uma esperana de ajuda. 
 Amanh  tera-feira, o dia em que ela trabalha com os caboclos. Vou te 
dar o endereo. O trabalho comea s trs da tarde. V at l. Posso lhe 
garantir que, se existe algum que pode te ajudar,  ela. No deixe de ir. 
Est precisando, e muito. Essas foras que esto com voc so muito 
perigosas. 
 Obrigada. Irei com certeza. Quanto lhe devo? 
 No me deve nada. Cobro, sim, das pessoas que aqui vm por 
curiosidade, para saber do presente, passado e futuro, mas seu caso  
diferente. Precisa de uma ajuda muito forte. As foras que esto ao seu lado, 
j lhe disse, so perigosas; no quero ter envolvimento algum com elas. 
Mrcia despediu-se da mulher. Tinha de continuar procurando ajuda. Nunca 
em sua vida pensou que existissem essas coisas e que elas pudessem fazer 
tanto mal. 
Farias e Gervsio a esperavam  porta do apartamento de dona Neide, do 
lado de fora. Tentaram entrar, mas alguma coisa os impediu. No sabiam o 
que era. No conseguiam ver a faixa de luz que estava na porta, impedindo-
os de entrar. 
Assim que Mrcia abriu a porta e saiu, eles novamente a seguiram. Ela 
sentia muita vontade de encontrar a cura para seus males. 
#
Preciso encontrar um modo de me livrar de tudo isso. Mas nem por um 
instante estou arrependida do que fiz contra Osvaldo. Ele mereceu. S sinto 
no ter dado certo. No posso aceitar o que est acontecendo comigo 
porque sinto que fui enganada, por isso no aceito ter de pagar e ele 
continuar feliz ao lado da esposinha. No posso aceitar e nem aceitarei 
nunca! 
Naquela noite, tambm no dormiu bem. Sentia algo que a sufocava, seu 
corpo no encontrava posio na cama. Pela manh, novamente acordou 
com dor por todo o corpo. Levantou-se, e, enquanto tomava banho, 
pensava:" 
"J que o doutor Fernando me ofereceu alguns dias de folga, vou aproveitar. 
Nunca tirei frias na empresa. Sempre me preocupei demais com meu 
trabalho, mas agora preciso me preocupar com minha vida. No vou 
trabalhar a semana toda. At o fim da semana, tenho certeza de que estarei 
com tudo resolvido e com Ronaldo de volta. 
Estava com a sensao de que havia sonhado muito, mas no lembrava o 
que fora. Marluce, ao chegar para o trabalho, espantou-se em v-la em casa. 

 Bom-dia. A senhora est doente? 
 No. Por que essa pergunta? 
 Durante todo esse tempo que aqui trabalho, nunca vi a senhora pela 
manh. 
 Esta semana no vou trabalhar, tenho alguns problemas para resolver. 
Durante a manh, ficou andando de um lado para o outro. Olhava no relgio 
a todo instante, estava ansiosa para ir at o tal terreiro. 
Vou para ver como . Se l houver alguma ajuda, vou buscar. Sinto que 
encontrarei minha paz. 
s trs horas em ponto, parou o carro em frente a uma casa. O terreiro 
ficava em uma vila nos arredores da cidade. Do lado de fora, a casa parecia 
ser grande. Mrcia notou que muitos carros estavam parados na rua. 
Pelo grande nmero de carros aqui parados, parece que o lugar  muito bem 
freqentado. 
Entrou um pouco desconfiada. Farias e Gervsio a seguiram. Foi 
encaminhada para os fundos da casa. L havia um galpo enorme. Na porta, 
antes de entrar, recebeu um pequeno carto com um nmero. Entrou. 
Vrias pessoas estavam sentadas e outras separadas por uma pequena 
#
cerca de madeira pintada de branco. No meio, havia uma espcie de porto. 
As pessoas que estavam dentro do cercado, vestidas de branco, danavam 
e cantavam ao som de um tambor. As pessoas danavam e rodopiavam, 
dando voltas. Mrcia acompanhava tudo. Em frente ao altar, havia uma 
mulher vestida de branco, portando na cabea um cocar de ndio, feito com 
penas brancas. Ela fumava charuto e comeava a cantar as msicas, que 
eram seguidas pelos demais. O som era envolvente. Mrcia estava se 
sentindo muito bem." 
"Farias e Gervsio tambm acompanhavam tudo com curiosidade. Viram 
que a volta toda estava cercada por outros ndios que no eram vistos pelas 
pessoas da platia. Na porta do cercado, havia dois que impediam que 
alguns espritos entrassem. Poderiam ser considerados os porteiros. 
Farias nunca havia visto coisa igual. Assustado, perguntou para Gervsio: 

 Que lugar  este? Quem so esses ndios? Que ela veio fazer aqui? 
 Esta  mais uma das religies que existem na Terra. Chegou aqui por 
meio dos negros. Hoje,  freqentada por pessoas de todas as classes 
sociais. Mrcia deve ter vindo aqui procurar ajuda. 
 Eu era e sou catlico. Nunca quis saber de outra religio. 
 Toda religio  boa, Farias, porque todas falam de Deus. E todas 
pretendem que aqueles que as seguem encontrem o verdadeiro caminho. 
As pessoas que se encontravam dentro do cercado cantavam e danavam 
muito. Uma a uma, deitavam-se em frente a um altar com muitos santos, 
velas e flores. Batiam  cabea, levantavam-se, deitavam-se em frente  
mulher de cocar e batiam a cabea novamente. Ela os abenoava, fazendo o 
sinal da cruz em suas costas. 
Mrcia nunca havia visto algo igual, mas estava gostando daquele ritual, 
achando-o muito bonito. Prestava ateno em tudo e percebeu que, 
conforme a msica mudava de ritmo, as pessoas danavam diferentemente. 
As mulheres, com saias brancas e muito armadas, danavam e rodavam 
sem parar. Se no fosse uma religio, poderia ser um timo espetculo para 
assistir. 
Quase uma hora se passara e as pessoas continuavam danando e 
cantando. Mrcia no estava cansada, ao contrrio: cada vez gostava mais 
de tudo que estava vendo. 
#
De repente, a msica parou. A mulher com o cocar branco sentou-se em 
uma espcie de poltrona colocada em frente ao altar." 
"Uma das pessoas de branco chegou ao pequeno porto e chamou um 
nmero. Uma senhora que estava sentada do lado de Mrcia levantou-se e 
entrou, foi para junto da mulher de cocar e ajoelhou-se  sua frente. Outros 
nmeros foram sendo chamados, e as pessoas eram encaminhadas a outras 
pessoas que estavam vestidas de branco. Chegou, ento, a vez de Mrcia. 
Ela havia observado tudo e fez exatamente o que as outras pessoas fizeram 
antes dela. Entrou e ajoelhou-se em frente  mulher do cocar, que soltou, 
sobre Mrcia, uma baforada de charuto e perguntou: 

 Que  que a fia veio fazer aqui? 
Ela falava com um sotaque estranho, e Mrcia sentiu alguma dificuldade 
para entender. Uma moa que estava ao lado dela, percebendo sua 
dificuldade, repetiu: 
 O pai quer saber o que a moa veio fazer aqui. 
 Estou precisando de ajuda e me disseram que aqui eu encontraria o que 
procuro. 
O caboclo falava e a moa repetia: 
 A moa veio busca ajuda ou veio ajudar? Mrcia estranhou a pergunta: 
 No entendi... Preciso de ajuda, vim buscar sua ajuda. 
 Sabe, o dia que a fia deixa de pensa s nela, a vida da fia vai muda. 
 No estou entendendo o que est querendo dizer, s sei que hoje preciso 
de ajuda. 
 Ta bem, fia. Oc sempre deixa tudo pra amanh. H fia ta muito escura. O 
anjo da guarda ta quase apagado e distante. A fia afasto ele. A fia faz muita 
maldade e ele num pode mais chega perto. A fia agora ta sozinha, 
acompanhada s por aqueles qui qu vingana. 
Mrcia ouvia novamente quase as mesmas coisas. Sentiu que ali tambm 
no encontraria ajuda. 
 Sei o que fiz, mas preciso de ajuda. Ser que no vou encontrar em lugar 
algum? 
 Fia, assim como as gua do rio um dia chega ao mar; assim como h 
semente um dia nasce, cresce e leva as planta sempre pr alto; assim como 
o sol dorme pra lua acorda... Assim tambm um dia o mal encontra o bem. 
 No estou entendendo." 
#
" A fia tem que pedi Ag prs pai da fia. Eles to triste e distante. J 
ajudara muito a fia, mas ela num soube reconhece. 

 Ag? O que  isso? 
 Ag, fia,  perdo. A fia tem que pedi perdo prs seus pai. 
 Meus pais? Perdo? No posso fazer isso. Meu pai j morreu e no sei 
onde est minha me. 
 Pra esses tambm a fia tem que pedi perdo. O pai j volto pra junto de 
Nosso Sinh, mas a me a fia sabe sim onde ta. To falando  dos outros pai 
da fia: Ogum e Oxum. 
 No estou entendendo nada mesmo. Ogum? Oxum? 
 Seu pai, fia,  Ogum. Guerreiro e lutado. Ele sempre ajudo a fia, abrindo 
todos os seus caminho. Oxum  a me da fia. Ela  Dona dos rio. Ela deu 
pra fia muito ouro e beleza. Agora to triste e num vo ajuda mais. Por isso, 
se a fia quis di novo a proteo deles, tem que pedi Ag. 
 Como fao isso? 
 A fia vai pega um inhame, assa ele na brasa. Quando tive bem mole, vai 
abri, o rega com bastante mel. Vai numa istrada i oferece pra Ogum, pedindo 
Ag. Depois vai pega um peixe bem grande, vai assa na foia da bananeira, 
enfeita com gema de ovo, vai  marge dum rio oferece pra Oxum, pedindo 
Ag. 
 No sei como fazer isso. 
 Meu cavalo faz.  s traze tudo. Ela faz. 
 Quanto vou ter de pagar por esse trabalho? 
 Meu cavalo num cobra nada. Ela sabe que, se um dia cobra alguma 
coisa, eu me afasto e num volto nunca mais. A fia s tem que traze as coisa. 
 Se eu fizer isso, minha vida vai voltar a ser como antes? 
 O caboclo num sabe. Isso quem vai decidi  Ogum e Oxum. A fia sabe 
que tem uma morte nas costa, num sabe? 
Farias que acompanhava tudo  distncia, porque um ndio que estava na 
porta no o deixara entrar, levantou-se e falou, gritando: 
 Ele vai contar Gervsio? Ela agora vai ficar sabendo o que fez comigo? 
Gervsio colocou a mo em seu ombro e fez com que voltasse a se sentar 
novamente. Mrcia assustou-se com aquilo: 
 Morte? Eu? Nunca matei ningum! 
#
 Pra mata num  preciso usa uma arma. A fia mato e vai se alembr 
agora." 
"A mulher olhou para Farias e jogou uma baforada em direo  plateia. A 
fumaa bateu em Farias e jogou-o ao lado dela e de Mrcia, que, assustada 
com tudo o que ouvira, no mesmo instante pensou: 
Farias? Ser que ele est falando de Farias? 
 O senhor est falando de Farias? Eu no o matei. Ele sofreu um acidente. 
 Fia, a arma que se usa pra mata pode s a boca. Fia, pensa! Pensa 
muito! Agora pode i fala com meu cavalo, e ela vai faze a comida de santo 
que eu pedi. 
Mrcia levantou-se e saiu dali, acompanhada por Farias. Ela se lembrava da 
ltima vez que falou com ele. 
 Ser que ele no sofreu um acidente? Ser que ele se matou? 
Falou com a pessoa que estava na porta: 
 Ela mandou que eu falasse com seu cavalo. Onde posso encontr-lo? 
 O cavalo  aquela com quem a senhora estava conversando. Assim que o 
caboclo for embora, a senhora conversa com ela. 
Mrcia voltou para seu lugar e sentou-se novamente. Farias tambm voltou. 
Ela estava intrigada: 
Como ele soube que eu mandei fazer aquele trabalho para Osvaldo? E de 
Farias? A mulher que fui visitar ontem  noite deve ter contado. Isso tudo 
deve ser uma mfia. Vou embora. 
Saiu dali sem olhar para trs. 
No vou fazer nada que ela mandou. Farias... Imagine se eu tenho alguma 
coisa a ver com sua morte! Ele era um fraco, no soube lutar. 
Farias, ao ouvir aquilo, ficou preso de muito mais raiva do que j tinha. 
Diante do caboclo, ele quase a perdoara: 
 Gervsio, no adianta: no posso perdoar. Ela  ruim mesmo. 
Aproximou-se de Mrcia e falou em seu ouvido: 
 Voc no tem jeito. At pensei em ir embora, seguir meu caminho e te 
deixar em paz, mas no vou. Agora, voc vai saber o que fez. Vai se lembrar 
a todo instante. No vou permitir que esquea. A justia vai ser cumprida! 
Mrcia entrou furiosa em seu carro. Falou alto:" 
" Estou me deixando levar por crendices! Eu, que sempre fui 
independente, que nunca precisei de nada nem de ningum! Ogum? Oxum? 
#
Isso tudo  conversa para levar meu dinheiro! 
Ligou o carro e saiu em disparada. Farias, a seu lado, dizia: 


 Vai perder tudo o que conquistou e usurpou. Voc vai ver! No est com 
vontade de beber? Eu estou! 
Mrcia dirigia sem prestar muita ateno ao trnsito. Estava com muita raiva 
e ao mesmo tempo com muito medo de perder Ronaldo para sempre. 
No, no vou perder Ronaldo! Deve haver e sei que vou encontrar uma 
soluo. Deve existir. Ainda bem que me lembrei: o bar l em casa est 
quase vazio. Vou comprar algumas bebidas. 
Entrou em um supermercado, comprou vrias garrafas de todo tipo de 
bebida. Saiu carregando os pacotes. 
Agora, meu bar estar novamente com as bebidas para qualquer gosto. 
Quem quiser poder me visitar, no passarei vergonha. Mas quem viria me 
visitar? Estas bebidas vo durar muito tempo. 
Farias e Gervsio seguiam com ela. Farias olhou para o amigo e, sorrindo, 
disse: 
 Ela no sabe, mas essas bebidas vo durar muito menos do que pensa. 
Vou convidar alguns amigos. Hoje, naquele apartamento, vai haver uma 
festana!" 
#
A caminho do fim 

"Assim que entrou no apartamento, Mrcia foi para a cozinha ver se havia 
algo para comer. Encontrou uma caixa com biscoitos. Pegou alguns e foi 
para o quarto. Tentou ler, mas no conseguiu. Foi at a sala e, no bar, pegou 
a garrafa de um vinho da marca que, s vezes, gostava de tomar. Encheu 
um copo e voltou para o quarto. No estava bem, algo estava faltando em 
sua vida. 
Claro que no estou bem. Como vou viver sem Ronaldo? 
Farias, em suas costas, dizia, baixinho, em seu ouvido: 

 No pode mesmo viver sem ele. A vida no vale mais nada para voc.  
fcil: basta se matar! Sempre foi sozinha, nunca confiou em ningum. Nunca 
gostou de algum. No far falta alguma. 
Ela andava de um lado para o outro com o copo na mo. Esticava os braos 
para cima, como se quisesse tirar um peso de suas costas. Nada adiantava. 
Tomou todo o vinho que havia no copo, foi para a sala e encheu outro.  
medida que bebia mais peso sentia em suas costas. Lembrou-se de Farias e 
do que o ndio tinha dito. 
No pode ser... Ele no se matou. Mesmo que tenha se matado, a culpa no 
foi minha. Eu, em seu lugar, teria enfrentado a famlia e teria dado uma surra 
em quem me estivesse chantageando. Ele era mesmo um fraco. Um 
covarde! 
Ao ouvir seu pensamento, Farias ficou furioso. Saiu e foi procurar alguns 
amigos para a festa. Gervsio tentou evitar, mas foi em vo. 
 Vou destruir essa mulher. Ela no presta. No tem um pingo de 
sentimento.  m e calculista! 
Saiu e voltou em seguida com outros espritos. Alguns j estavam 
embriagados, outros sentiam muita vontade de beber. 
Comearam a rodopiar em volta de Mrcia e sorviam o aroma de lcool que 
saa do copo e das garrafas. Ela, desprotegida, cedeu a seus desejos e 
comeou a beber sem parar. Bebeu um copo atrs do outro. A garrafa 
terminou, ela abriu outra, e agora j no bebia mais no copo, bebia no 
gargalo da garrafa. " 
"Completamente embriagada, caiu sobre o tapete da sala. Tudo rodava  sua 
volta. Tentou se levantar, mas no conseguiu. Via  sua frente Osvaldo, dona 
#
Durvalina, o caboclo e Farias. Deste  que no conseguia se esquecer. Ele, 
a seu ouvido, dizia, muito nervoso: 

 No vai me esquecer nunca mais. Vou ser sua sombra! Vai pagar muito 
caro por tudo o que me fez passar na vida e naquele vale infernal! S fui 
para l por sua culpa.  para l que te levarei, para sentir tudo de horrvel 
que senti! Voc vai se matar! Vou lutar para que isso acontea! Est sozinha. 
Continuar assim. No existe ningum neste mundo para se preocupar com 
voc ou que venha te ajudar. Foi sempre to egosta que nunca conseguiu 
ter um amigo. Est sozinha comigo. Assim ficar at que eu consiga te levar 
ao suicdio! 
Ele falava e ria como um alucinado. Ela, meio adormecida, chegava quase a 
escut-lo. No percebeu a noite passar. Pela manh, ao abrir a porta, 
Marluce assustou-se. 
 Meu Deus do cu! Que aconteceu aqui? Dona Mrcia! 
A sala estava toda revirada. Em sua embriaguez, Mrcia derrubara as coisas 
pelo caminho. Marluce viu a patroa deitada no cho da sala e correu para 
socorr-la. Ao chegar mais perto, sentiu o odor de vinho. Olhou tudo e viu as 
garrafas e copos espalhados por toda a sala. O tapete, de um tom creme 
bem claro, estava agora todo manchado de vermelho. Marluce tentou 
acordar Mrcia, mas no conseguiu. Decidiu lev-la ao banheiro. Com muito 
esforo, conseguiu, colocou-a embaixo do chuveiro e abriu a torneira. 
Conforme a gua caa, Mrcia ia despertando. Chorava e falava coisas sem 
nexo para Marluce. 
 Marluce, preciso te contar: eu no o matei. Ele morreu de acidente. E eu 
tambm no quis fazer mal para Osvaldo, s queria que ele no me 
abandonasse. Quero Ronaldo de volta. 
 Fique calma, dona Mrcia. Logo a senhora vai ficar boa. Esse banho vai 
fazer bem. 
 No adianta. Nunca vou ficar bem. Quero morrer. No agento mais esta 
vida!" 
" Que  isso, dona Mrcia? A senhora tem tudo: este apartamento, um 
lindo carro, seu trabalho, todas aquelas roupas. Que mais pode desejar? 
 Nada disso adianta. Perdi a nica razo de minha vida. Perdi o homem 
mais maravilhoso do mundo. Quero morrer. Marluce tem algum veneno aqui 
no apartamento? 
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 Claro que no! Para que a gente ia ter veneno? 
 No faz mal. Vou para a rua e vou comprar. Vou tomar tudo de uma vez. 
Assim, a morte vem depressa. Dormirei para nunca mais acordar. 
Marluce estava cada vez mais assustada. A patroa parecia outra mulher. 
Ficou com medo de que ela cumprisse aquilo que estava dizendo. Ajudou 
Mrcia a sair do banho, colocou-a na cama e foi para a cozinha preparar um 
caf bem forte, que sabia ser bom para curar bebedeira. Na cozinha, 
pensava: 
Meu Deus, o que vou fazer se essa louca resolver mesmo se matar? Preciso 
pedir ajuda, mas a quem? Ela nunca falou de sua famlia. Nunca ningum a 
procurou. No tem amigos. No tem ningum. 
Terminou de preparar o caf, colocou-o em uma xcara e voltou para o quarto 
onde havia deixado Mrcia. Ela no estava mais na cama. Marluce largou a 
xcara e saiu correndo em direo  sala. Mrcia estava ali com uma garrafa 
nas mos, bebendo no gargalo. Marluce correu para ela. Quis tirar a garrafa 
de suas mos, mas no conseguiu. Mrcia empurrou-a com tanta violncia 
que a fez cair no cho. Ela se levantou chorando e olhou para um canto da 
sala, onde havia uma agenda de telefones. Pegou a agenda e abriu-a. 
Estava quase vazia, os poucos nmeros anotados eram de pizzarias, 
supermercados e bancos. Folheou desolada as pginas, at que viu um 
nome: Luciana. Pegou o telefone e ligou. Do outro lado, uma mulher 
atendeu:" 
" Quem ? 
 Quero falar com dona Luciana. 
 Sou eu mesma, pode falar. 
 Desculpe eu estar telefonando. Meu nome  Marluce e trabalho pra dona 
Mrcia. Ela no est bem. Preciso de ajuda, mas a agenda de telefones no 
tem o nmero de ningum da famlia, s o seu. Lembrei que a senhora s 
vezes telefona para ela, por isso estou telefonando. 
 Fez bem. Mrcia no est bem? O que ela tem? 
 No sei. Acho que precisa ir a um mdico. Daria para a senhora vir at 
aqui? 
 No se preocupe: j estou indo. Fique ao lado dela e, se piorar, na 
agenda deve haver o telefone de algum pronto-socorro. Dentro de meia hora 
estarei a. 
#
Desligou o telefone. Marluce, tambm, largou o aparelho, olhando para 
Mrcia, que, com a garrafa na mo, continuava andando de um lugar para 
outro, falando com algum que s ela podia ver: 

 Voc tem razo: preciso morrer. No adianta mais ficar nesta Terra. 
Quarenta minutos depois o porteiro chamou pelo interfone. Estava avisando 
que dona Luciana acabara de chegar. Marluce pediu que ela subisse. Ao 
entrar no apartamento, Luciana ficou atnita. No conseguia acreditar que 
aquela que estava em sua frente era a mesma Mrcia que conhecia. Estava 
toda descabelada, andando cambaleante de um lado para o outro e falando 
coisas que no se conseguia entender. Aproximou-se, segurou no brao de 
Mrcia e disse: 
 Mrcia, que est acontecendo? Por que est bebendo dessa maneira? 
Mrcia olhou para ela e comeou a chorar: 
 Luciana? Que est fazendo aqui? Quem te chamou? V embora, no 
quero te ver! No preciso de ningum. S quero morrer... 
Luciana tentou abra-la, mas no conseguiu. Mrcia se afastou, gritando: 
 No adianta! No vou mais viver. Quero morrer. A vida  minha, fao com 
ela o que quiser!" 
"Luciana, preocupada, sentou-se em um sof e ficou olhando para a amiga. 
O que estar acontecendo com ela? Sempre foi muito fechada e reservada. 
Todas as vezes que conversamos, sempre me pareceu estar muito bem. 
Que vou fazer? Parece que ela no tem qualquer doena. Est apenas 
embriagada. 
 Marluce, no posso ficar aqui agora, preciso apanhar as crianas na 
escola. Fique com ela, no a deixe sozinha. No ritmo em que est bebendo, 
vai dormir logo. Assim que eu deixar as crianas em casa, voltarei e veremos 
o que se pode fazer, mas no a deixe sozinha. 
 Est bem, dona Luciana. Vou ficar aqui de longe, s olhando. Mrcia, 
alheia  presena das duas, continuou bebendo sem parar. Luciana saiu e 
Marluce, assustada, manteve-se distante. Depois que fora jogada no cho, 
ficou com medo de se aproximar. Como Luciana previra, em pouco tempo 
Mrcia estava deitada no cho, dormindo profundamente. S ento Marluce 
se levantou e foi at a cozinha preparar algo para as duas comerem, caso 
Mrcia acordasse com fome. 
s duas da tarde, Luciana voltou. Teria a tarde toda para tentar resolver o 
#
problema da amiga. Jamais em sua vida pde imaginar que algum dia a 
veria assim. No trajeto entre sua casa e a de Mrcia, lembrou-se dela na 
faculdade: 
Que ter acontecido com ela? Sempre foi uma menina extrovertida e 
brincalhona. Estou me lembrando agora do dia em que a conheci e me 
aproximei dela na biblioteca. Eu estava perdida, precisando de algum para 
conversar. Naquele tempo ela foi indispensvel em minha vida. Ns nos 
tornamos amigas e, quando Mrcia precisou de um emprego, no pensei 
duas vezes para apresent-la a meu pai. Durante todo esse tempo, nos 
encontramos poucas vezes, mas sempre ouvi elogios a respeito de seu 
trabalho. O que aconteceu para que ficasse nesse estado?" 
"Quando Luciana entrou no apartamento, Marluce a recebeu com olhar 
preocupado e disse: 

 Ela dormiu, acordou e agora est revirando todas as gavetas da casa 
procurando um revlver. Disse que precisa morrer... 
 Ela tem algum revlver em casa? 
 No. Eu nunca vi. 
 Assim  melhor. Precisamos fazer algo para ajud-la. No pode ficar 
sozinha. Voc pode dormir aqui? 
 No, meu marido trabalha de noite e no tenho com quem deixar as 
crianas. 
 Tambm no posso. Que vamos fazer? 
 A senhora no acha que era melhor ela ir pro hospital? 
 No. Ela tem um cargo importante na empresa, ningum pode saber que 
est se embriagando. Temos de encontrar outra soluo... J sei! Vou dar um 
telefonema. 
Pegou o aparelho e discou. 
 Slvia, sou eu, Luciana. Est tudo bem? 
 Luciana! H quanto tempo... Comigo est tudo bem, mas sou eu que 
pergunto: o que te deu para me telefonar? 
 Sei que hoje  dia de Marlene trabalhar em sua casa. Ela ainda est a? 
 Est, sim, mas por qu? Ela no vai  sua casa na sexta-feira? 
 Sim, mas preciso da ajuda dela hoje. Quero ver se ela pode fazer 
companhia a uma amiga minha que est doente e no tem ningum para 
ficar com ela  noite. 
#
 Vou cham-la. Marlene atendeu em seguida. 
 Dona Luciana, sou eu. Que est acontecendo? 
 Tenho uma amiga que no est muito bem e precisa de algum para ficar 
com ela durante a noite. Pensei que talvez voc aceitasse esse trabalho. Sei 
que costuma fazer isso s vezes. 
 Sabe como  trabalho nunca  demais. Mas sabe que tem um problema... 
 Sei qual , mas no se preocupe, pode vir. Ela est precisando de sua 
ajuda e acredito no ser s de companhia. Estou desconfiada de que algo 
mais esteja acontecendo aqui. 
 Est bem. Vou terminar meu servio aqui e vou em seguida. Qual  o 
endereo?" 
"Luciana passou o endereo e o telefone. Depois disse: 
 Faa o seguinte: apanhe um txi e, assim que chegar aqui, eu pago o 
motorista. 
 Est bem. Vou o mais rpido possvel. 
Luciana desligou, aliviada. Olhou para Marluce, que acompanhou toda a 
conversa e estava aliviada tambm. Mrcia continuava bebendo e mexendo 
nas gavetas, em busca do tal revlver que graas a Deus no existia. As 
duas a acompanhavam de longe, sem nada dizer. 
Eram quase cinco da tarde quando Marlene chegou. O porteiro interfonou 
avisando, e Marluce desceu com o dinheiro que Luciana lhe deu para pagar 
o txi. O porteiro estranhou todo aquele movimento no apartamento de 
Mrcia. Ela nunca recebia ningum e, agora, aquele entra-e-sai. 
Marluce conduziu Marlene at o apartamento. Assim que entrou, Luciana 
veio receb-la. 
 Marlene, que bom que chegou. Sei que vai poder ajudar muito. 
Marlene notou que o bairro e o apartamento eram luxuosos. J na porta, 
parou e ficou olhando, calada. Luciana apressou-se: 
 Est admirada com a beleza desta sala?  porque no viu o resto. A dona 
tem muito bom gosto. 
Marlene, ainda parada perto da porta, no respondeu. Olhava para a sala e 
via muitos vultos danando e rodopiando em uma algazarra profunda. 
Fechou os olhos e dali mesmo onde estava comeou a orar: 
 Senhor, meu Pai, proteja a pessoa que mora nesta casa. Ela deve estar 
sofrendo muito mesmo. D a oportunidade de se libertar dessas visitas. Que 
#
Sua luz divina possa entrar e clarear toda a casa, principalmente a 
moradora. Permita Senhor, que meu mentor possa estar aqui comigo para 
me intuir. 
Imediatamente, ela foi envolvida por muita luz. A seu lado, o vulto de um 
senhor sorridente pegou sua mo. Ela sentiu sua presena e sorriu 
confiante. Ao sentirem a luz e a presena, os vultos, assustados, pararam de 
rodopiar e desapareceram rapidamente. Somente Gervsio e Farias 
permaneceram, parados e encostados em um canto da sala. Farias nervoso, 
falou:" 
" Gervsio, no vou embora. Estou aqui para exercer meu direito de 
vingana, direito esse que ganhei quando pedi justia, direito esse que pela 
Lei no me pode ser negado. No vou aceitar essa intromisso. Quem  
essa mulher? Quem  esse que a est acompanhando? Que luz  essa? 
Eles  que no podem continuar aqui. Eles tm de ir embora. Principalmente 
essa luz, que est me fazendo mal! 

 Acalme-se. 
 Como me acalmar? Mrcia  minha! Tem de pagar por tudo. Eles tm de ir 
embora. Onde est a Lei? 
 A Lei est aqui mesmo. At para os encarnados existe sempre um 
julgamento justo. Se essa luz est aqui,  porque tambm, em nome da Lei, 
pediu permisso. No podemos exigir que v embora. 
 Que julgamento? O que ela fez comigo no tem perdo! Ela me destruiu! 
 Acalme-se. Vamos esperar. 
Farias ficou olhando para Marlene. Ela continuava parada em orao e 
cercada de luz. Quando terminou de rezar pedindo ajuda, ela abriu os olhos 
e percebeu que o ambiente estava praticamente limpo. Viu Farias e Gervsio 
encostados na parede e sentiu o olhar de dio que Farias lhe lanava. No 
demonstrou nenhuma emoo no rosto. Entrou decidida e disse: 
 Dona Luciana, onde est  moa que mora aqui? 
 Agora est em seu quarto, revirando tudo para encontrar um revlver. 
Estou muito assustada. Receio que, embora fosse  ltima coisa que 
quisesse fazer, teremos de lev-la para um hospital. Isso seria o fim de sua 
carreira na empresa. Ela ocupa um cargo muito alto, no pode ser ligada  
bebida. Eles no aceitariam. 
Marlene no disse nada, apenas acompanhou Luciana at o quarto de 
#
Mrcia. Ao chegar  porta, novamente parou. Seu corao disparou ao ver a 
situao em que Mrcia se encontrava. Quis dizer algo, mas no conseguia 
tamanho foi o espanto que sentiu. 

 Meu Deus, Pai todo-poderoso!  ela?! Como pode estar nesse estado?" 
"Mrcia, seguida por Farias e Gervsio, que se anteciparam a Marlene, 
andava de um lado para o outro, com o cabelo todo despenteado, as roupas 
sujas de bebida. Como se fosse um m, o olhar de Marlene atraiu-a. Ela 
parou bem de frente a Marlene, falando-lhe: 
 Mame?! Que est fazendo aqui? Quem te chamou? No disse que 
nunca mais queria te ver? 
Marlene, sem poder evitar as lgrimas, respondeu: 
 Mrcia! Mrcia, minha filha. No se preocupe. Logo mais vou embora. 
 V embora agora mesmo. No quero a senhora aqui em minha casa! Eu 
odeio a senhora! Quantas vezes vou ter de repetir isso? Tenho dio! dio! 
 Deve ter motivos para isso, mas neste momento precisa de minha ajuda, 
e eu no vou embora. 
Mrcia lanou-se sobre ela com muita fria. 
 V embora! No quero a senhora aqui. No preciso da senhora! Nunca 
precisei. Odeio-te! 
Farias percebeu que nem tudo estava perdido. Falava ao ouvido de Mrcia: 
 Isso mesmo: voc a odeia. Ela no presta. Mande-a embora. 
 V embora! No a quero mais aqui. Eu odeio a senhora! 
 No se preocupe. Vou embora, mas s depois que voc ficar bem. Deus  
nosso Pai de bondade infinita, nunca nos deixa sem ajuda. 
 Deus? Que Deus? 
 O mesmo Deus que te deu a vida. Que te d todos os dias o sol e a lua. 
Que te deu inteligncia e um corpo perfeito. Que agora me encaminhou at 
aqui. 
 Tudo isso  besteira. Esse Deus no existe. V embora. No quero ver a 
senhora nunca mais. Saia daqui! 
 Mrcia. Sou sua me. Eu te amo. Quero te ajudar. 
 No preciso de sua ajuda, nem de ningum. V embora! 
Marlene, enquanto falava, acompanhava com os olhos Farias que rodopiava 
em volta de Mrcia, falando a seu ouvido: 
 No ligue para ela! Voc agora  minha. Ningum vai poder ajudar!" 
#
"Mrcia olhava com dio e rancor para Marlene, que, envolvida pela 
situao, por um momento sentiu-se impotente. De seus olhos, lgrimas 
desciam. Sabia que, se aquele vulto estava tomando conta de sua filha, era 
porque ela mesma havia permitido. Mais uma vez elevou seu pensamento a 
Deus. Em voz alta, falou: 

 Meu Deus de infinita bondade, sei que foi essa mesma bondade que me 
encaminhou at aqui. Permita meu Pai, que eu consiga ajudar a esta minha 
filha, que um dia foi colocada em meus braos como uma criana. No 
consegui fazer com que ela entendesse o valor da vida que estava nos 
dando, porque eu mesma no entendia. Mas hoje sei que, se estamos juntas 
nesta vida,  s por Sua vontade, meu pai. Se ela atraiu sobre si um irmo 
vingador,  porque deve ter cometido um erro muito grande. Senhor nos d a 
chance de nos perdoarmos mutuamente e assim reencontrarmos Seu 
caminho. 
Farias tentou se lanar sobre ela, mas no conseguiu, e a luz que a envolvia 
o arremessou para longe. Encostado  parede, ele gritava: 
 No pode fazer isso! Tenho autorizao para estar aqui! Ela  minha! 
Voc no pode evitar! 
Olhando firmemente para ele, Marlene respondeu: 
 Sei meu irmo, que deve ter permisso para estar aqui, mas essa 
permisso no seria para ajudar Mrcia? No seria para que ela retornasse 
ao caminho de nosso Pai? 
Ao perceber que ela o via e ouvia, ele, assustado, falou: 
 O que  isso? Que est falando? Que est tentando fazer? No vim aqui 
para ajudar essa traidora! Vim para lev-la comigo, para o mesmo lugar em 
que ela, com sua maldade, me lanou. No vou sair daqui! Voc no vai 
conseguir me afastar daqui! Tenho permisso! Estou exigindo a minha 
justia! Tenho esse direito! Essa  a Lei! 
 A nica Lei que conheo  a do amor e do perdo. E  em busca dela que 
estou aqui neste momento. Em nome de nosso Pai, peo-lhe que a busque 
tambm." 
" Nunca! No vou perdoar nunca! Ela me destruiu, me lanou no pior 
inferno que possa existir. Vou fazer o mesmo com ela. Vai conhecer todos os 
horrores por que me fez passar! 
 Que Deus te ilumine.  s o que posso te desejar... 
#
Mrcia acompanhava aquelas palavras que sua me dizia para 
Algum que ela no via. Marluce e Luciana tambm acompanhavam, 
impressionadas. Ao v-las ali, paradas, Mrcia pegou uma almofada e atirou 
sobre elas, gritando: 


 Saiam daqui, todas vocs. Saiam daqui! 
Marlene olhou para elas e fez um sinal para que sassem. Elas entenderam. 
Luciana abraou Marluce, saiu e fechou a porta. J fora do quarto, Marluce, 
tremendo, falou: 
 Dona Luciana, o que  aquilo? Com quem aquela mulher estava falando? 
Ela  mais louca que dona Mrcia. A gente no pode deixar as duas 
sozinhas. No pode, no. Ela disse que dona Mrcia  filha dela? Foi isso 
que entendi? Ela  me de dona Mrcia? No pode ser. Dona Mrcia no 
tem famlia. 
 Como voc, tambm estou abismada com tudo isso. Conheo Mrcia h 
muito tempo e nunca soube que tinha me ou famlia, mas no devemos nos 
preocupar com isso agora. O importante  que precisamos ajud-la. Se 
existe algum que pode fazer isso, esse algum  Marlene. Ela sabe o que 
est fazendo. Vamos ficar aqui fora. 
S ento se lembraram da menina que veio acompanhando Marlene. Ela 
estava sentada em um sof. Luciana aproximou-se: 
 Lenita, sua av est l dentro cuidando de uma moa que est muito 
doente. V com Marluce at a cozinha, ela vai te dar um lanche. 
Lenita, com os olhos presos  escada que levava para o andar de cima, e ao 
quarto de Mrcia, parecia no a ouvir. Levantou-se do sof e dirigiu-se em 
direo  escada e ao quarto. Luciana tentou evitar, mas ela a olhou de uma 
maneira firme, que a fez parar. 
Enquanto isso, Marlene, dentro do quarto, continuava em orao pedindo 
ajuda para aqueles dois irmos que estavam ali, em luta." 
" Meu Pai, sei que tudo acontece por Sua vontade, mas, neste momento, 
estou pedindo ao Senhor que, se houver uma chance para ajudar os dois, 
que essa chance seja dada. 
Enquanto ela pedia, a porta se abria. Lenita entrou e dirigiu-se  cama onde 
Mrcia se debatia. Colocou sua pequena mo nos cabelos de Mrcia, que, 
ao v-la, parou e ficou olhando como se estivesse vendo um anjo. 
 Que est fazendo aqui? Voc  uma criana, no pode me ver neste 
#
estado. V embora! 

 No vou embora, gosto muito da senhora. Sempre a achei a moa mais 
bonita do mundo. No quero ver a senhora to feia assim... 
Mrcia olhou para Marlene e para a menina. Parou de gritar e abriu os 
braos para Marlene, falando em lgrimas: 
 Mame! Mame! Perdoe-me por tudo que fiz e me ajude... Ajude-me, 
mame... Preciso da senhora, me ajude. Preciso de seu Deus... 
 Estou aqui e vou ficar at que fique completamente boa e encontre seu 
caminho. O meu Deus, que  tambm o seu, vai ajudar a gente, sim. Pode 
acreditar: Ele no abandona nunca seus filhos e no vai abandonar a gente 
agora... 
Marlene, chorando muito, a abraou e puxou Lenita. As trs ficaram 
abraadas. Marlene disse: 
 Obrigada, meu Deus, por este momento e por esta nova chance. Ajude-
nos a encontrar o caminho do perdo e do amor. 
No mesmo momento, uma luz muito forte tomou conta de todo o quarto. Do 
meio dela, surgiu a figura de Damio. Aproximou-se das trs e, sorrindo, 
lanou sobre elas mais luz. Farias, que a tudo assistia, gritou: 
 Damio! Damio! Que bom que chegou. Essa mulher est tentando evitar 
que a justia seja feita! Est tentando evitar que a Lei seja cumprida! Ela no 
pode fazer isso, pode? 
Damio olhou para ele e, sorrindo, disse: 
 No, meu irmo, ela no pode. O nico que pode  voc, dando seu 
perdo. 
 Perdo? Nunca! Quero e exijo meu direito de justia! Voc disse que era a 
Lei. Quero ver essa mulher comigo, l no inferno que me lanou! No vou 
perdoar nunca!" 
" Tem certeza do que est falando? Quer mesmo a justia? No vai 
aproveitar este momento para perdoar? 
 No vou perdoar nunca! Quero a justia! Tenho esse direito! 
 Sendo assim, nada posso fazer. Tem razo, A justia tem de ser feita. 
Venha comigo. 
Marlene, emocionada e envolvida pelo abrao de Mrcia e Lenita, no 
percebeu a presena de Damio. 
Damio partiu, acompanhado por Gervsio e Farias. Chegaram  frente de 
#
um enorme prdio. Farias ficou encantado com to grande beleza. 

 Que lugar  esse? 
 Preciso presidir um julgamento. Voc vai me ajudar e aprender como  
que se realiza. Vamos entrar? 
 No estou entendendo, mas, se for para que possa fazer justia, irei a 
qualquer lugar. 
Entraram. Dentro, havia uma sala e um corredor comprido, onde havia vrias 
portas, parecendo um grande hospital. Um jovem aproximou-se para receblos: 
 Ol, Damio, novamente aqui? 
 Ol, Duarte. Sim, estou mais uma vez aqui. Este  Farias nosso irmo. 
Ele quer que a Lei seja cumprida. Est aqui para exercer seu direito de 
justia. Antes, porm, tenho de presidir, julgar e decidir o destino de alguns 
irmos. Trouxe Farias para que me ajude nesta misso. 
 Seja bem-vindo, Farias. Nada mais agrada a nosso Deus do que a justia 
cumprida. Venha comigo. 
Damio olhou para Gervsio, dizendo: 
 Meu irmo, quero lhe agradecer por tudo que fez, mas agora pode deixar 
por nossa conta. Farias poder me ajudar a dar a sentena para nossos 
irmos e depois fazer com que sua justia seja cumprida. Voc pode voltar 
ao vale. L deve haver outro irmo precisando de sua ajuda. 
 Est bem, vou agora mesmo. Farias meu amigo, que Deus te ilumine e te 
d o que realmente precisa para ser feliz. 
 Tenho certeza de que agora serei feliz. Vou fazer cumprir a justia e 
aquela mulher vai ter o que merece. 
Gervsio olhou para Damio e Duarte, sorriu e foi embora. 
Duarte, acompanhado por Damio e Farias, entrou em uma sala." 
"Parecia um cinema, com uma imensa tela e poltronas confortveis. 
Sentaram-se. Damio disse: 
 Bem, meu irmo, vamos agora assistir a um filme. 
 No quero assistir a filme algum. Quero saber o que tenho de fazer para 
que a Lei seja cumprida. 
 O que acha que deve fazer para que a Lei seja cumprida? 
 Quero que aquela traidora perca tudo o que conseguiu. Quero que seja 
desmoralizada. Quero que se mate para ir morar naquele vale infernal! 
#
 A justia est em suas mos. Mas, antes, preciso presidir esse 
julgamento.  no momento a minha prioridade. Aps assistirmos a este filme 
e voc me ajudar na sentena, cuidaremos de seu caso." 
#
O filme 

"A tela se iluminou, e uma longa estrada apareceu. Por ela, em disparada, 
vinha um cavalo branco. 
Montado sobre ele, um cavaleiro. O cavalo parou, o rosto do cavaleiro ficou 
em evidncia na tela. 
Do alto do morro, o cavaleiro olhava para uma casa grande que ficava no 
sentido contrrio. Olhou para a estrada e para o vale que o separava da casa 
e pensou: 
Preciso me apressar para poder chegar e dar meu consolo. Elas devem 
estar desesperadas. 
Continuou cavalgando. Olhava tudo: a enorme lavoura onde o verde do caf 
se fazia notar, as imensas terras. 
Ela deve estar sofrendo muito, preciso ficar a seu lado. 
Cavalgando, desceu o vale e comeou a subir o morro que o levaria at a 
casa. Quando chegou ao topo, pegou uma estrada que se estendia at a 
casa. Parou com o cavalo em frente a uma escadaria prxima  porta de 
entrada da casa. Desmontou, olhou para cima, avistou duas mulheres 
vestidas de preto e subiu os degraus rapidamente. A mais nova, sorrindo 
timidamente, estendeu a mo para que ele a beijasse, dizendo: 

 Cssio! Seja mais uma vez bem-vindo  nossa casa. Infelizmente, hoje o 
dia  de muita tristeza. Mas eu sabia que em uma hora como esta voc no 
nos deixaria sozinhas. 
Enquanto beijava a mo que lhe fora estendida, Cssio respondeu: 
 Boa-tarde, Virgnia. Como est? E voc, querida Elvira? Posso imaginar 
como est se sentindo. No consigo acreditar que isso realmente aconteceu. 
 Menino, que bom que veio! -disse Elvira.  Estou muito triste mesmo. 
Sabe o quanto gostava dele. Assim como a todos vocs tambm 
considerava Renato um filho. 
 Sei disso. E eu o considerava um irmo. Ontem, pela manh fomos eu e 
meu pai, at a cidade. Quando terminamos de fazer as compras, 
encontramos um amigo, e ele nos levou para sua casa. Ficamos ali 
conversando e, quando percebemos, j era muito tarde para voltar. Ele nos 
convenceu de que no deveramos viajar durante a noite. " 
#
"Ento, resolvemos pernoitar ali. Hoje pela manh, terminamos de fazer as 
compras e voltamos. Assim que chegamos, recebemos a notcia. Soubemos 
que Andr esteve ontem l em casa, mas no nos encontrou. Vim 
imediatamente, nem troquei a roupa com que viajei. Ainda no acredito no 
que ocorreu. Se soubesse que Renato tambm iria at a cidade, iramos 
juntos e isso no teria acontecido. No me perdoo por no estar com ele. 
Elvira, emocionada, disse: 

 No pense assim. Nada poderia evitar esse infeliz acontecimento. Tudo o 
que acontece tem sempre  vontade e a permisso de Deus. 
 Como a invejo querida Elvira. Gostaria de poder sentir essa f que voc 
possui nesse Deus. Se Ele realmente existe,  muito cruel. Se assim no 
fosse, no teria afastado Renato de nossa presena de uma maneira to 
estpida. 
 No fale assim, menino. Deus sempre sabe o que faz. 
 Acredito ser bom que pense assim. Com certeza, aceitar e entender 
com muito mais facilidade do que eu. Por mais que queira aceitar, no 
consigo me conformar. Ele era to jovem, tinha uma vida inteira pela frente. 
Tinha Juliana e Helena. Foi uma grande perda. No tenho palavras. Estou 
muito preocupado com Juliana. Como ela est? 
Virgnia recolheu a mo que havia estendido. 
 Pode imaginar. Como todos ns, recusa-se a acreditar. Est l dentro. 
No diz nada, apenas chora baixinho, mas quem a conhece percebe o 
quanto est sofrendo. Muito obrigada por ter vindo. Acompanhe-me, esto 
todos na sala. Juliana gostar muito de v-lo. 
Ele, abraado a Elvira, a seguiu. Seus olhos percorriam tudo. Chegaram a 
uma grande sala, no centro da qual havia uma mesa com uma urna 
funerria. Ao lado da urna, encontrava-se uma bela moa, que chorava 
baixinho. Cssio aproximou-se e tocou em seu ombro, fazendo com que ela 
se voltasse." 
" Sinto muito, Juliana. Estou aqui para ajudar no que for preciso. Sabe que 
poder contar sempre com minha presena e ajuda. Amo-a como se fosse 
minha irm e queria muito bem a Renato. Estou muito triste e nem sei o que 
dizer. 
 Cssio, meu querido amigo. Muito obrigada por sua presena. Sempre 
tive a certeza de sua amizade, mas no sei explicar o que estou sentindo 
#
hoje. Um sentimento de perda muito grande. Sabe o quanto eu e Renato 
ramos unidos e o quanto nos amvamos. 

 Sei o quanto est sofrendo, mas tudo na vida passa, e essa dor passar 
tambm. Elvira diz que Deus  que sabe das coisas. 
Virgnia aproximou-se e abraou Juliana. 
 Juliana, minha irm, voc est a em p h muito tempo. Acredito que seja 
melhor ir descansar um pouco. No se preocupe, atenderei a todos que 
chegarem. 
 Tem razo, estou cansada mesmo. No sei como estaria neste momento 
se no fosse  amizade de vocs. Vou tomar um banho e ver se consigo 
descansar um pouco. 
 Isso mesmo, minha irm, v e fique tranqila, no se preocupe com nada. 
Juliana, com um sorriso forado, se afastou. Cumprimentou algumas 
pessoas e se dirigiu a seus aposentos. Antes, passou pelo quarto de sua 
filha, que dormia tranqilamente. 
Helena, minha filha, em sua inocncia, no est percebendo a grande perda 
que sofremos neste dia. No sei como conseguirei continuar vivendo daqui 
para frente. Nossa vida ser muito triste. Gostaria de ir com ele, mas preciso 
continuar vivendo por voc. 
Helena abriu os olhos. Ainda meio adormecida, viu sua me a seu lado e 
sorriu: 
 Mame, sonhei que papai est l no cu.  verdade? 
 , sim, minha filha. Ele est no cu. Olhando por ns. 
A menina voltou a dormir. Juliana cobriu-a, beijou sua testa e foi para seu 
quarto. 
Dentro do quarto, olhou para sua cama, arrumada como sempre." 
"Tudo est igual: os mveis, as cortinas... Mas estou sentindo este enorme 
vazio. Como nossa vida pode mudar to de repente? Ontem mesmo nos 
amamos aqui, nesta cama, e fizemos promessas de amor eterno. Oh, meu 
Deus, o que acontecer comigo e com minha filha? Como poderemos viver 
sem ele? Renato era nossa fortaleza, nosso porto seguro. 
Deitou-se na cama. Seus olhos estavam vermelhos do muito que havia 
chorado, mas agora no havia mais lgrimas. Sentia um aperto muito grande 
no corao. Seu pensamento voltou ao passado: 
Estou lembrando-me o dia em que o conheci. Veio acompanhado por Cssio, 
#
nosso bom vizinho e amigo de infncia. Cssio tem dois anos a mais do que 
eu, e Virgnia, minha irm, tem um. Crescemos juntos. Quando pequenos, 
estudamos com os professores que papai e o pai de Cssio contrataram. 
Sempre fomos muito unidos. Estou me lembrando, agora, o dia em que 
Cssio chegou triste em casa, quando havia completado dezoito anos: 

 No sei o que fazer, estou muito triste. 
Eu e Virgnia no entendemos, porque ele era sempre muito alegre e 
espontneo. Perguntei: 
 Que aconteceu? Por que est assim? 
 Papai comunicou-me que chegou  hora de ir estudar na Frana. Ele quer 
que eu tome conta da fazenda e acredita que para isso preciso estudar fora. 
Insisti para ficar aqui, mas ele est inflexvel. 
Eu e Virgnia ficamos muito tristes. Lembro que disse: 
 Vamos sentir sua falta, mas seu pai deve ter razo. Para ele tambm deve 
estar sendo difcil ficar sem sua presena. 
 No sei, no. s vezes, penso que ele no gosta de me ver. Acredito que 
me culpe pela morte de mame. Por isso quer que eu v embora para bem 
longe. 
 Cssio! Pelo amor de Deus, nem pense nisso! Seu pai sabe que voc no 
teve culpa, sabe que sua me morreu porque tinha uma doena que contraiu 
antes de engravidar. Sabe que ela, mesmo sabendo que morreria e, breve, 
quis deixar para ele um filho. Por isso, todos sabemos que ele  louco por 
voc. Tenho certeza de que ele s est querendo seu bem." 
" Juliana, voc, s vezes, me parece to ingnua. Acredita que o mundo  
feito s de pessoas boas. Meu pai no me tem nenhum afeto, tenho certeza. 
Por isso, preciso mostrar a ele que saberei cuidar de tudo que nos pertence. 
Nunca lhe darei um desgosto. 
 No posso acreditar nisso. Ele  um homem muito bom, s est querendo 
seu bem e est mandando-o estudar fora para que realmente se instrua. Se 
no gostasse de voc, ele o deixaria por a, trabalhando no arado, sem se 
preocupar com seu futuro. 
Aps alguns dias, ele foi embora. Um dia antes de viajar, veio para se 
despedir de mim e de Virgnia. Samos andando pelo campo. Em um dado 
momento, ele parou e pegou em nossas mos, dizendo: 
 Vou embora, mas no quero que me esqueam. Vou estudar muito para 
#
poder voltar logo. 
Ele chorava, e ns duas o acompanhamos no pranto. Eu e Virgnia 
continuamos aqui, aprendendo o que era necessrio a uma mulher: costurar, 
pintar, bordar e tocar piano. Quando ele foi embora, sentimos muito sua falta. 
Durante todo o tempo em que esteve fora, ns nos correspondamos 
freqentemente. Ele nos contava como era a faculdade, seus amigos. A 
princpio foi difcil, mas com o tempo ele se acostumou. Quatro anos se 
passaram at recebermos a notcia de que ele estava voltando. Como eu e 
Virgnia ficamos felizes! Nosso melhor amigo estava retornando! Preparamos 
uma pequena festa de boas-vindas. Ele retornou e veio  nossa casa, 
acompanhado por Renato. Conheceram-se na Frana, onde haviam 
estudado juntos. Os dois desceram dos cavalos, e Cssio foi o primeiro a 
falar: 

 Bom dia, meninas. Finalmente, voltei. Podem imaginar como estou feliz. 
Este  Renato, meu amigo. Est aqui passando frias. Renato, estas so 
Juliana e Virgnia, minhas amigas de infncia e moradoras desta bela 
fazenda." 
" Lembro quando nossos olhos se encontraram... Eu tinha vinte anos e 
nunca havia me apaixonado. No sei explicar o que senti naquele momento. 
Meu corao comeou a bater descompassado. Por mais que quisesse, no 
conseguia desviar meus olhos dos dele. Era como se um m nos atrasse. 
Ele tambm, mais tarde, me confessou que sentira o mesmo. Aproximou-se, 
eu, timidamente, estendi minha mo. Ele a segurou levemente e a beijou. 
Senti como se um fogo imenso atingisse todo o meu corpo. Retirei a mo 
bruscamente. No entendia o que estava acontecendo, mas sabia que algo 
muito forte se iniciara naquele momento. Entramos em casa. Percebi que os 
olhos de Virgnia brilharam ao v-lo. Ela providenciou um lanche, que foi 
servido na varanda para ns quatro. Cssio estava entusiasmado com as 
mudanas encontradas na fazenda. Alegremente, nos contou sobre o tempo 
em que esteve estudando. Renato apenas sorria, concordando, e no 
desviava seus olhos dos meus. Um pouco embaraada, eu respondia s 
perguntas de Cssio: 
 Juliana, seu pai no se encontra aqui? 
 No, ele foi at a cidade fazer algumas compras.  uma pena. Ele teve 
urgncia de ir, mas voltar ainda hoje. Tenho certeza de que gostaria muito 
#
de conhec-lo. 

 No faltar oportunidade; j que estamos em frias, poderemos vir todos 
os dias para passear. O que acham? 
Virgnia respondeu: 
 Creio ser uma tima ideia. Somos sozinhas, e, embora nos demos muito 
bem,  sempre bom termos companhias diferentes para nos distrairmos. 
Daquele dia em diante, comeamos a nos ver todos os dias. Pela manh, 
Cssio e Renato chegavam cedo, tomvamos caf e saamos para cavalgar 
pelos arredores da fazenda. s vezes, amos at a fazenda de Cssio e 
conversvamos com seu pai. Embora eu quisesse lutar contra, o que sentia 
por Renato era mais forte. Uma tarde, quando Virgnia e Cssio saram para 
ver um bezerro que havia nascido, Renato falou:" 
" Juliana, preciso falhar-lhe. No sei qual ser sua reao, mas no posso 
mais evitar. Desde que a vi, senti que  a mulher que amo e quero para 
minha esposa. O que me responde? Quer se casar comigo? 
Comecei a tremer. Embora eu tambm sentisse algo muito forte por ele, no 
pensei que seria daquela maneira. Fiquei sem saber o que responder, 
apenas olhei em seus olhos por alguns minutos e desviei meu olhar em 
seguida, sem nada dizer. Ele falou com tristeza: 
 Vou interpretar o seu silncio como uma negativa. Perde-me, pensei que 
tambm sentisse algo por mim. 
 Eu sinto! Eu sinto... S que no pensei que voc sentisse o mesmo que 
eu. Voc me pegou de surpresa. No estou negando seu pedido, s estou 
surpresa. 
 Ento, quer dizer que aceita ser minha esposa? 
 Acredito que sim... Tambm sinto algo muito forte entre ns. S penso em 
voc, o dia inteiro e,  noite, sonho que estamos juntos. Acredito que isso 
seja o amor. S que precisamos falar com meu pai. No sei qual ser sua 
reao. 
 No se preocupe com isso: falarei com ele e farei com que entenda. 
Falarei do amor que sentimos um pelo outro e, com certeza, ele entender. 
Quando terminou de falar, beijou-me suavemente nos lbios. Senti como se 
estivesse voando. Senti vontade de sair mostrando para o mundo como 
estava feliz. Estvamos sorrindo um para o outro, quando Virgnia e Cssio 
voltaram. Ao nos ver daquela maneira, Cssio perguntou: 
#
 Posso saber o que est acontecendo aqui? 
 Nada est acontecendo, meu amigo. Apenas pedi Juliana em casamento 
e ela aceitou. 
 Em casamento? No sabia de seu interesse por ela. 
 Acredito ter me apaixonado desde o primeiro momento em que a vi. No 
comentei antes porque precisava saber se ela tambm sentia o mesmo por 
mim. Agora que tive a resposta, estou muito feliz. O mais importante  que 
ela me aceitou, porque me ama tambm. Agora, s preciso pedir permisso 
a seu pai." 
"Virgnia aproximou-se, me beijou e disse: 
 Embora, assim como Cssio, eu esteja surpresa, quero cumpriment-la. 
Espero que seja muito feliz. 
 Obrigada, minha irm. Sempre soube que podia contar com voc. 
Cssio ainda insistiu: 
 Conhecendo o pai de Juliana muito bem, acredito que no vai se opor. Ele 
j est velho e quer ver a filha protegida, de preferncia por um casamento. 
S exigir que ela permanea aqui a seu lado. Mas... E seu pai, Renato? 
Acredita que ele aceitar? Sabe muito bem que o mandou estudar para que 
continuasse  frente das empresas. Ele aceitar sua mudana para a 
fazenda, abandonando tudo que planejou para sua vida? 
 Cssio, realmente isso ser um problema, mas sei tambm que nada 
poder me separar de Juliana. Quanto a viver nesta fazenda, se essa for  
vontade do pai dela, eu aceitarei. Nada entendo de fazendas, mas sei que 
aprenderei. A nica coisa que quero  permanecer ao lado de Juliana para 
sempre. 
 Sendo assim, s posso desejar aos dois muitas felicidades. E torcer para 
que tudo d certo. 
 Obrigada, meu amigo, sei que dar certo. O amor que sentimos ser mais 
forte que tudo. 
Virgnia disse: 
 Vamos selar este feliz acontecimento com um jantar. Assim, Renato 
poder fazer o pedido oficialmente. 
Aplaudimos a ideia de Virgnia. Ela mandou preparar um jantar bem do gosto 
de papai. Cssio e Renato chegaram juntos. Vieram muito bem vestidos e 
Renato no conseguia esconder sua felicidade. Quando terminamos de 
#
jantar, passamos para a sala onde o caf seria servido. Assim que nos 
sentamos, Renato disse: 

 Senhor Olavo, sei que no me conhece muito bem, mas, desde que aqui 
cheguei me apaixonei por sua filha Juliana. Hoje, tomei conhecimento de que 
ela sente o mesmo por mim. Por isso, queria pedir sua permisso para que 
possamos nos casar. 
Papai olhou para mim. Eu somente sorri e abaixei os olhos. 
Ele perguntou:" 
" Minha filha,  isso mesmo que deseja? Quer se casar? 
  isso o que desejo. Tambm amo Renato. Ele prometeu que, se for sua 
vontade, aps o casamento continuaremos vivendo aqui. 
 Sendo assim, se pretendem continuar vivendo aqui, s posso abenoar 
essa unio e que Deus lhes d muita felicidade. 
Renato agradeceu a meu pai e beijou minha mo. Virgnia e Cssio nos 
cumprimentaram, j planejando a festa de nosso casamento. Eu estava feliz 
como nunca estivera antes. Amava Renato e sabia que seramos felizes. 
Naquela noite, ele se despediu, dizendo que iria para sua casa falar com 
seus pais. Fiquei ansiosa, esperando. No fundo, tinha medo de que eles no 
aceitassem. 
 Irei at l e conversarei, contando tudo o que aconteceu. Sei que ser 
difcil, porque meu pai tinha planos diferentes para meu futuro, mas direi que 
a amo e que minha vida no ter sentido sem voc a meu lado. 
Ele era de uma famlia rica da capital. No conhecia a vida do campo. Seu 
pai, um industrial famoso, possua vrias tecelagens. Mandou-o estudar na 
Frana para que tomasse conta de suas empresas. Meu pai, quando veio da 
Itlia, instalou-se aqui, onde nasci e fui criada. Amo tudo neste lugar, mas, se 
fosse preciso, embora meu pai ficasse triste, eu acompanharia Renato para 
qualquer lugar. 
Uma semana depois do pedido de casamento, Renato voltou. Trazia o rosto 
abatido. Chegou, beijou minha mo, cumprimentou meu pai e disse: 
 Infelizmente, no consegui convencer meu pai. Ele no aceita meu 
casamento com outra moa que no seja aquela que ele prprio escolheu. 
Alm disso, est me cobrando por tudo que gastou em meus estudos para 
que eu continuasse cuidando de suas empresas. 
#
Senti que a terra faltava sob meus ps. No conseguia falar, meu pai foi 
quem me socorreu:" 
" Bem, preciso saber como ficaram as coisas. Veio at aqui para dizer que 
no vai mais se casar com minha filha? 


 No, senhor. Ao contrrio: disse a meu pai que a amava e que me casaria 
com ela, com ou sem seu consentimento. Ele no aceitou, dizendo aos 
gritos: 
 Se  isso o que quer, assim seja, mas vou ter de fazer algo que jamais 
imaginei que um dia faria. A partir de hoje, no o considero mais meu filho, 
por isso no me chame mais de pai e deserdo-o de todos os meus bens! 
 Ele saiu da sala em que conversvamos e no me dirigiu mais a palavra, 
no me deixando alternativa alguma. 
Renato nos contava tudo com a voz embargada, quase chorando. Olhei para 
meu pai, que assentiu com a cabea. Aproximei-me de Renato e, segurando 
suas mos, beijei-o no rosto, dizendo: 
 Como ele pde fazer isso? No sabe o quanto voc o ama e respeita? 
 Ele lutou muito para ter tudo que tem por isso nada justifica que eu lhe 
desobedea. Meu casamento foi um tipo de contrato feito com um seu 
amigo; queriam os dois que nossas famlias se unissem para que as fortunas 
aumentassem. 
 E a moa, o que pensa a respeito disso? 
 Ela apenas aceitou o que o pai lhe imps, mas na realidade, tambm no 
me ama. Acredito que esteja feliz por minha recusa, assim ficar livre de um 
compromisso no desejado. Em tudo isto s existe um problema: para ficar 
com voc, Juliana, ficarei sem dinheiro. Meu pai me deserdar e no me 
dar mais um centavo. Nada entendo a respeito da vida no campo, mas, se 
me aceitar como seu esposo e o senhor como seu genro, garanto que 
aprenderei. 
Meu pai olhou para mim e para ele, sorriu e disse: 
 Aqui existe muito trabalho, e tenho o necessrio para vivermos muito bem. 
Se o que querem  casar e construir uma famlia, eu aceito. S quero a 
felicidade de minha filha. 
Casamos um ms depois. A cerimnia foi simples, mas eu era a mulher mais 
feliz do mundo. Virgnia e Cssio foram nossos padrinhos. " 
#
"Embora, no comeo, Renato nada entendesse do campo, assim que 
casamos comeou a se dedicar e a amar tudo aqui. Nunca mais quis voltar 
para a cidade. Seu pai no lhe perdoou por haver casado e abandonado 
tudo. Por isso o deserdou e nunca mais quis sua presena diante dele, nem 
mesmo quando Helena nasceu. Mesmo assim, fomos sempre muito felizes. 
Papai morreu quando Helena estava com dois anos. Foi a primeira grande 
perda que senti, mas Virgnia, Cssio e Renato estiveram sempre a meu 
lado. Hoje, sei que papai est no cu e, com certeza, recebendo meu 
Renato. No entendo como esse acidente pde ter acontecido. Ontem pela 
manh, Renato, despediu-se. Iria at a cidade prxima fazer umas compras 
para a fazenda. Abraou-me, dizendo: 

 Meu amor, preciso ir, mas volto  noitinha. Sabe que no gosto de deixla 
sozinha. 
 V com Deus, e no se esquea de trazer um presente para Helena. 
Sabe como ela fica sempre ansiosa por sua volta. 
 Claro que no esquecerei e trarei algo para voc tambm. Vocs so os 
tesouros de minha vida... 
Ele foi sozinho. Sempre que fazia essa viagem, levava um empregado da 
fazenda com ele, mas, nesse dia, resolveu ir s. Havia muito trabalho com a 
colheita do caf. Por isso, todos os empregados eram necessrios. O dia 
passou normalmente. Fiquei cuidando de meus afazeres. Aps o almoo, li 
uma histria para Helena, em seguida ela dormiu e fui pintar minha tela. 
Depois da famlia, o que mais adoro so minhas telas. Adoro pintar 
paisagens do campo e da natureza. 
Assim relembrando, Juliana sentiu um aperto no corao e a vontade de 
chorar voltou. Enxugou as lgrimas, sabia que precisava ser forte. Foi at 
uma penteadeira, na qual havia um espelho. Olhou para seu rosto e 
percebeu que seus olhos estavam vermelhos. Refletido no espelho, viu um 
quadro na parede, uma pintura feita por um artista local: ela e Renato 
sorriam felizes. Sorriu ao lembrar do dia que os dois posaram para o artista. 
E pensou:" 
"ramos to felizes. No consigo aceitar que tudo terminou. Ontem, quando 
Renato no voltou fiquei apreensiva e disse para Elvira: 
 Elvira, estou nervosa. Renato no voltou at agora, e ele no costuma 
demorar tanto. 
#
 Tambm estou preocupada, menina. No ser melhor mandar algum 
refazer o caminho que ele costuma seguir? 
 Creio que sim. Chame Andr, ele conhece o caminho como ningum. 
Pea a ele que leve dois ou trs homens junto. Estou com um 
pressentimento muito ruim. 
 Farei isso agora mesmo. Mas no se preocupe: se Deus quiser, nada 
aconteceu. Vamos confiar. Volto j. 
 Saiu apressada da sala e voltou em seguida, acompanhada por Andr: 
 Pois no, senhora. Estou aqui, o que quer que eu faa? 
 Quero que percorra o caminho que o senhor Renato costuma fazer. V 
com mais alguns homens, olhem tudo. Ele no chegou at agora, estou 
preocupada. 
 Pode deixar senhora. Vou encontr-lo, nem que para isso tenha de ir at a 
cidade. 
Andr saiu e fiquei mais calma, pois sabia da dedicao dele para com 
Renato. Fiquei esperando com a certeza de que ele encontraria meu marido. 
Duas horas mais tarde, ele voltou. 
Vinha montado em seu cavalo e, em um outro, Renato estava deitado sobre 
a sela. Eu vi pela janela quando chegaram. Corri para fora, gritando: 
 Que aconteceu, Andr? Por que o est trazendo assim deitado sobre o 
cavalo? 
 Sinto muito, senhora. Ele est morto... 
 Morto? Como morto? Que aconteceu? 
 No sei. Ns o encontramos deitado no meio da estrada. Quando cheguei 
perto, notei que estava morto. Examinando, percebi que sua mo estava 
preta e que nela havia uma marca. Acredito que tenha sido picado por uma 
cobra. 
 Cobra? Picado por uma cobra? Ele nunca se deixaria picar por uma 
cobra! 
 No sei como aconteceu, senhora, mas, pelo estado de sua mo, s pode 
ter sido uma cobra. Ser melhor mandar chamar o doutor Joo Pedro, ele 
poder dizer se  picada de cobra ou no." 
"Doutor Joo Pedro, o mdico de nossa famlia, foi chamado. Aps examinar 
o corpo de Renato, principalmente sua mo, declarou: 
 Juliana, a marca que ele tem em sua mo  mesmo uma picada de cobra, 
#
e das mais venenosas. Sua morte foi quase instantnea. Foi um terrvel 
acidente. 

 No pode ser... Ele no se deixaria picar por uma cobra. 
 Mas foi o que aconteceu. No resta a menor dvida. 
Fiquei intrigada, sem poder acreditar. No comeo, Renato nada entendia da 
vida no campo, mas, aps alguns anos, tornou-se um especialista, 
apaixonou-se por tudo. Depois da morte de papai, passou a comandar tudo 
na fazenda. Agora tambm isso no importa mais. O certo  que ele est 
morto e que seu corpo logo mais ser levado para o cemitrio. E eu vou ficar 
sozinha. No sei como vai ser minha vida. Ainda bem que tenho Virgnia e 
Cssio para me consolar. Eles me ajudaro a tocar minha vida para frente. 
Helena  ainda muito pequena, ser difcil explicar a ausncia do pai, mas 
Deus me ajudar. 
 Juliana posso entrar? 
 Claro que pode minha irm, estou apenas recostada. 
 J est quase na hora do enterro, voc precisa voltar para a sala. 
 Para ser sincera, no gostaria de ir. No suporto a ideia de v-lo partir 
para sempre, mas sei que tenho de cumprir todas as formalidades. 
 Tambm estou sentindo muito, mas no h outra maneira. Tudo tem de 
ser feito dentro dos conformes.  tudo muito triste, mas Deus  quem sabe 
de nossas vidas. 
 s vezes, penso que Deus no  justo. Por que levar meu marido, to 
belo e forte? Por que nos deixar aqui sozinhas, eu e Helena? 
 Nunca vamos entender os propsitos de Deus, mas vocs no esto 
sozinhas. Estou e estarei sempre com voc. Vou ajud-la a criar Helena. Ela 
 muito pequena ainda, mas, com o tempo, tudo passar e ela ser uma 
linda moa, voc ver. 
 Obrigada, Virgnia. Nunca duvidei disso. Mas vamos, no podemos 
retardar o inevitvel. Por favor, fique a meu lado." 
" Claro que ficarei, mas procure ficar calma. Vamos acordar Helena? Antes 
de vir para c, passei por seu quarto e ela estava dormindo profundamente. 
 Acredito ser melhor no a acordarmos, Virgnia. Ela no precisa 
presenciar um momento to doloroso para todos ns. 
 Tem razo. Vamos, sei o quanto est sofrendo, mas no esquea nunca 
que sempre estarei por perto. 
#
Juliana levantou-se e de seus olhos lgrimas insistiam em cair. No podia 
acreditar que aquilo realmente estava acontecendo. Seu marido, seu amor, 
estava indo embora para sempre. Com lgrimas correndo pelo rosto, falou: 

 Virgnia, nunca pensei que isto pudesse acontecer. Pensei que 
envelheceria ao lado de Renato. O que vai ser de minha vida? No estou me 
sentindo com toda essa fora. Tenho vontade de me deitar e dormir para 
depois acordar e ver que tudo foi um sonho ruim, nada mais que um sonho 
ruim... 
 Infelizmente, a realidade  outra. No  um sonho. Vamos... 
Entraram na sala. Juliana olhou para a mesa onde estava o corpo de Renato 
e sentiu um aperto muito grande no corao. As lgrimas corriam soltas. 
Olhou  sua volta e falou para Virgnia: 
 Embora tenham sido avisados, ningum da famlia dele compareceu. Ser 
que nem na hora de sua morte conseguiu ser perdoado por ter me amado? 
Ser que seu pai nem agora lhe perdoar? Meu Deus, como isso pode 
acontecer? 
 Agora no  hora de se preocupar com isso. Esquea todos. 
Simplesmente, despea-se de seu marido. 
 Tem razo, Virgnia. Nada agora  mais importante que isso. 
Dirigiu-se para o centro da sala. Olhou para o rosto de Renato, que estava 
tranqilo. Olhou para seus cabelos. Passou a mo por seu rosto e chorava 
baixinho, enquanto pensava: 
Meu amor, no sei como conseguirei viver sem voc, mas que Deus leve sua 
alma para o cu, onde deve ser seu lugar. Continuarei vivendo para terminar 
de criar nossa filha. Sei que um dia estarei a seu lado. Adeus, meu amor." 
"Cssio, que se encontrava ao lado da urna morturia, abraou Juliana, 
dizendo: 
 Minha amiga, est tudo terminado. Agora temos de lev-lo. Depois que 
tudo isto terminar, voc tem de descansar e recomear sua vida. Estou e 
estarei sempre com voc. 
 Sei disso, Cssio. Sei que voc e Virgnia estaro sempre a meu lado. 
 Pode ter sempre esta certeza. Agora, afaste-se para que a urna possa ser 
fechada. 
Juliana beijou o rosto de Renato e, chorando, se afastou. A urna foi levada 
para o cemitrio que havia dentro da prpria fazenda. Renato foi enterrado 
#
ao lado do pai e da me de Juliana. Aps as cerimnias finais, as pessoas 
foram se despedindo. Todos os amigos presentes podiam notar nos olhos de 
Juliana a enorme dor que estava sentindo naquele momento. 
Virgnia permanecia a seu lado, abraando-a e consolando-a. Aquele gesto 
era admirado por todas as pessoas que ali se encontravam. Depois que 
todos foram embora, Juliana dirigiu-se at a sepultura, dando um ltimo 
adeus a seu marido, que fora to querido e que a fizera to feliz. Cssio e 
Virgnia permaneceram olhando  distncia. Aps algum tempo, Juliana 
retornou, e os trs voltaram juntos para casa. Ao chegarem, encontraram 
Helena brincando com uma boneca. A bab estava com ela. A menina alheia 
a todo o sofrimento que os demais sentiam ao ver a me, correu para seus 
braos. Juliana recebeu-a de braos abertos e cobriu-a de beijos. 
Cssio, logo depois, se despediu. Virgnia dirigiu-se a seus aposentos. 
Juliana, com a menina no colo, embalava-a com todo o amor que podia dar. 
Seu corao doa ao imaginar que aquela pequena no conseguia perceber 
a grande perda que havia tido. 

 Mame, onde esto todas aquelas pessoas que estavam aqui? Onde est 
papai? 
Juliana sentiu um enorme desejo de chorar, mas sabia que no podia. Agora, 
s lhe restava  filha, que era ainda muito pequena e no entenderia. 
Respondeu: 
 Todas as pessoas foram embora. Papai foi fazer uma viagem muito longa, 
mas ns duas nunca o esqueceremos, est bem?" 
" Uma viagem? Por que ele no se despediu de mim? Sempre que ele 
viaja, despede-se. E na volta sempre me traz um presente. Desta vez ele 
tambm vai me trazer um presente? 
Juliana no suportou. Abraou-a e, com o rosto banhado de lgrimas, mas 
escondido por trs da cabea da menina para que ela no notasse, falou: 
 Quando ele voltar, trar um lindo presente, no se preocupe. A menina 
percebeu que a voz da me estava diferente. 
Colocou seu rostinho bem em frente ao de Juliana e disse: 
 Mame, por que est chorando? Est com dor de cabea? Juliana sorriu, 
enquanto respondia: 
 , filhinha, estou com dor de cabea, mas logo vai passar. Agora, vamos 
tomar um lanche? 
#
 No estou com fome, no. Elvira me deu um lanche, mas se a mame me 
quiser vou junto tomar um pouco de leite, assim a mame come tambm. 
Juliana abraou e beijou a filha, pegou-a no colo e as duas foram para a 
cozinha. Ela mesma queria preparar o lanche. Embora no estivesse com 
fome, sabia que precisava de algum alimento, mesmo que fosse s uma 
fruta ou um copo de leite. 
Depois daquele dia, Juliana continuou sua rotina, embora sentindo um 
profundo vazio dentro de si. As pessoas que a conheciam puderam notar um 
profundo abatimento em seu rosto, mas todos sabiam se tratar do enorme 
sofrimento que estava sentindo pela falta do marido, morto to jovem e de 
uma maneira to inesperada. 
Em uma manh, Cssio estranhou o fato de seu pai no levantar. Foi at seu 
quarto e encontrou-o deitado aos ps da cama. 
Mandou chamar o mdico, mas no adiantou: seu pai partira. Cssio ficou 
arrasado. Blasfemou contra Deus:" 
" Se  que existe mesmo, por que  to mau? Por que nos tira sempre as 
pessoas que mais amamos? Eu o odeio! 
Juliana aproximou-se: 
 No fale assim. Seu pai foi um excelente homem. Conseguiu tudo o que 
quis na vida. Voc deve continuar de onde ele parou. 
Ele a abraou e chorou muito. 
O tempo passou. Fazia j mais de um ano que Renato morrera. Cssio 
chegou quando Juliana estava na sala arrumando as flores de um vaso. Ela 
estendeu a mo para que ele beijasse, enquanto falava: 
 O que o traz aqui to cedo, Cssio? 
 Preciso falar com voc.  um assunto srio, mas no posso mais protelar. 
Tem de ser hoje. 
Juliana sorriu, falando: 
 Meu Deus! Por sua expresso, o assunto  srio mesmo! Pode falar, 
estou ouvindo. 
 Bem... No sei como comear... 
Juliana, ainda sorrindo, disse: 
 Que tal pelo comeo? 
 Bem... Faz mais de um ano que Renato partiu, agora acredito poder 
contar a voc algo que guardo h muito tempo. Quando voltei do exterior, 
#
meu desejo era chegar aqui e contar-lhe tudo, mas voc se apaixonou por 
Renato e se casaram. Senti que minhas esperanas haviam terminado. 

 Que est querendo dizer? No estou entendendo. 
 Agora que tomei coragem, no me interrompa, por favor. Vou falar tudo de 
uma vez. 
Juliana ficou calada, olhando para o amigo de tantos anos. Ele continuou: 
 Desde criana, sempre fui apaixonado por voc. Quando adulto, sabia do 
interesse que havia por parte de nossos pais para que nosso casamento 
fosse realizado. Quando fui estudar fora, no deixei de pensar em voc um 
momento sequer. Minha inteno era voltar e pedir-lhe em casamento, 
porm foi tarde. Perdi-a para Renato, mas agora ele no est mais aqui e 
posso novamente acalentar esse sonho. Quer se casar comigo? 
Juliana, assustada com aquela declarao, arregalou os olhos para ele, 
perguntando: 
 O que  isso, Cssio? Nunca pensei que sentisse por mim algo que no 
fosse amizade. 
" Sei disso, mas sempre senti. Sempre a amei desde que ramos crianas. 
Quero me casar com voc. O que responde? 
Ela, sem jeito, meio sem saber o que fazer, respondeu: 
 No sei, nunca esperei ouvir de voc algo como isso. No posso me 
casar com voc e com ningum, principalmente com voc, que sempre 
considerei um irmo. A amizade que sinto por voc  maior que qualquer 
coisa e no gostaria de estragar algo to bonito. Sinto muito, mas no posso 
me casar, no por enquanto. Trago ainda, dentro de mim, muita saudade de 
Renato. No sei se algum dia isso passar, mas sei que nunca poderei me 
casar com voc.  meu amigo. Por favor, esquea que me falou isso. 
Tambm esquecerei. No vamos estragar nossa amizade, que foi sempre 
to bonita e sincera... 
 Est bem... Perdoe-me, nunca mais tocarei no assunto. Ele saiu da sala 
quase correndo. Juliana percebeu que ele chorava, mas nada podia fazer. 
Para ela, Cssio era simplesmente um amigo. Um amigo muito querido, 
nada, alm disso. No podia se casar com ele, e sentia que com ningum. 
O tempo passou. Cssio nunca mais tocou naquele assunto. Aos poucos, a 
rotina foi voltando. Ela j nem se lembrava mais daquele assunto, at que 
certo dia Cssio chegou acompanhado por Virgnia. Vinham abraados e 
#
sorrindo. Virgnia disse: 

 Estamos aqui juntos para lhe dar uma notcia. Vamos nos casar, Juliana. 
 Casar? Vocs dois? Como pode ser? Nunca deixaram transparecer que 
se amavam. 
 Ns mesmos no sabamos, foi de repente. Numa troca de olhares 
percebemos que nos amvamos; para pensarmos em casamento foi s um 
pulo. 
 Fico muito feliz em saber disso. So as pessoas que mais amo depois de 
Helena. Desejo do fundo do meu corao que sejam muito felizes. Quando 
vai ser? 
 Daqui a trs meses. Gostaramos de fazer uma grande festa, para isso 
vamos esperar a colheita, assim a festa ser uma s. Que acha? Embora 
saibamos que ainda pensa muito em Renato, no sabemos se concordar 
com a festa." 
" Acredito que ele no se importaria vocs sempre foram nossos melhores 
amigos. Acredito que tenham mesmo de fazer uma grande festa. Virgnia 
temos de preparar seu enxoval. Ser que trs meses sero suficientes? 
Cssio, onde iro morar? Aqui ou em sua fazenda? 
 J conversamos sobre isso. Virgnia achou melhor que morssemos aqui 
para que voc no fique sozinha. Isto , se voc quiser. 
 Claro que quero. Como conseguiria viver sem minha irm a meu lado? 
Ainda bem que voc est cuidando de tudo. 
 Sendo assim, vou trazer para c meu escritrio. J que estou cuidando de 
sua fazenda desde que Renato morreu, ser melhor trazer os documentos 
de minha fazenda tambm, assim cuidarei de tudo sem precisar ir daqui para 
l. 
 tima ideia. Papai e Renato nunca permitiram que eu me envolvesse com 
os problemas da fazenda e, por isso, nada entendo. Se no fosse voc, no 
sei como seria. 
 Pode ficar despreocupada: tudo est caminhando bem. H colheita este 
ano ser uma das melhores que j houve. A propsito, preciso que me 
assine o contrato de venda do caf. 
 Assinarei assim que quiser. Virgnia vamos ver o que precisamos comprar 
para seu enxoval. 
 Vamos, sim. Vai ser preciso comprar muitas coisas. 
#
As duas se despediram de Cssio e foram para o quarto de Virgnia. 
Juliana realmente estava feliz com aquele casamento. Queria que a irm 
tivesse tudo de melhor. Fizeram uma lista enorme do que precisava ser 
comprado. Virgnia estava muito feliz, parecia ter ganhado a sorte grande. 


 Juliana, agora vou realizar meu grande sonho: casar-me com Cssio, que, 
alm de ser o homem que amo,  tambm uma das maiores fortunas deste 
lugar, perdendo s para a de papai. Tenho certeza de que ele me far muito 
feliz. 
Juliana estava sendo sincera: gostava muito dos dois. Sabia que eles s 
poderiam ser felizes. 
Pouco depois que Virgnia saiu, Helena veio at o quarto da me. Estava 
chorando. 
 Que foi minha filha? Que aconteceu?" 
" Estou com saudade de papai. Ele foi viajar e no voltou at agora, j faz 
muito tempo... 
Juliana sentiu novamente aquele aperto no corao. Abraando a filha, 
respondeu: 
 Filhinha, o lugar para onde papai foi  muito longe, mas um dia estaremos 
com ele. Voc, por enquanto, tem s de brincar e crescer para que ele, 
quando voltar, fique muito feliz por encontr-la uma linda moa. 
Com a menina no colo, foi para a sala, lhe deu alguns brinquedos e ficou por 
algum tempo brincando com ela. Elvira veio pegar Helena para lhe dar o 
lanche da tarde. Juliana foi para seu quarto, recostou-se na cama e comeou 
a chorar, pensando: 
Tambm sinto muita falta de Renato. Queria que ele estivesse aqui comigo, 
ainda mais neste momento em que terei de demonstrar felicidade. Na 
realidade, estou feliz com esse casamento. Virgnia e Cssio so meus 
melhores amigos, s posso desejar que sejam felizes. Ainda bem que Cssio 
se recuperou daquele amor que pensou sentir por mim. Daquele dia em 
diante, nossa amizade cresceu ainda mais. Quando me casei com Renato, 
ele ficou feliz e ajudou em tudo para que a festa fosse um sucesso, como 
realmente foi. Esteve sempre a meu lado. Est cuidando de tudo aqui na 
fazenda. S posso mesmo ficar muito feliz com esse casamento. Eu amo os 
dois. 
O casamento realizou-se trs meses depois. Juliana preparou o melhor 
#
quarto da casa. Ficou como Virgnia sonhara. Deu-lhes de presente uma 
viagem para a Europa. Ficariam viajando um ms inteiro. 
Antes de viajar, Cssio transmitiu todas as ordens necessrias para Andr, 
que era o homem de confiana dele, assim como o fora do pai de Juliana e 
de Renato. 
Virgnia ficou muito bonita vestida de noiva. Todos os convidados puderam 
notar a felicidade estampada no rosto de Juliana e o orgulho que sentia por 
estar dando uma festa to bonita para a irm. Cssio, sorridente, atendia a 
todos." 
" noite, aps os convidados terem ido embora, Cssio e Virgnia 
despediram-se de Juliana. Cssio disse: 

 Juliana, querida, estamos indo amanh de manh. No precisa se 
levantar cedo. Sabemos que est cansada com toda essa movimentao, 
por isso vamos nos despedir agora. No se preocupe com nada, Andr j 
tem todas as ordens. Se precisar de alguma coisa, basta falar com ele. 
 Cssio, no se preocupe comigo. Sua nica preocupao, agora, deve 
ser fazer minha irm feliz. 
Virgnia, abraando a irm, falou: 
 Isso ele far, com certeza. Demoramos muito para descobrir, mas 
sabemos hoje que nascemos um para o outro e que seremos muito felizes. 
  o que mais desejo. Tenho certeza de que ser assim. Despediram-se e 
foram para o quarto. Juliana saiu para a varanda. Olhou para o cu, a lua 
brilhava muito. Muitas estrelas faiscavam. Ela se encantou com a beleza que 
via. 
Estou mesmo exausta. Os preparativos para o casamento foram cansativos, 
mas valeu a pena. Deu tudo certo: Virgnia estava uma linda noiva. Ela e 
Cssio sero felizes. 
Ficou ali por muito tempo. A saudade de Renato era imensa, sabia que em 
alguma daquelas estrelas ele devia estar. Escolheu uma e, olhando 
firmemente, mandou um beijo. 
Entrou em casa. Apesar da saudade, estava contente por ver seus melhores 
amigos casados e felizes. Antes de se deitar, passou pelo quarto de Helena, 
que, tambm cansada por toda a movimentao da festa, dormia 
tranqilamente. Cobriu a menina, beijou sua testa e foi para seu quarto." 
#
A justia da lei 

"Os dias passaram. Para Juliana, nada mudou, sua rotina foi sempre  
mesma: dava algumas ordens e cuidava de Helena; nas horas de folga, 
pintava. J estava acostumada, mas sentia muita falta da irm, que sempre 
tivera a seu lado. Chamou Elvira. Assim que ela chegou, Juliana disse: 

 Amanh, Virgnia e Cssio estaro voltando da viagem. Mande arrumar o 
quarto deles com todo o carinho e que sejam colocadas muitas flores. O 
jantar deve ser preparado com tudo o que eles gostam, devem chegar com 
muita fome. Preste ateno aos detalhes, quero que tudo esteja em ordem. 
 Pode ficar tranqila, a casa estar um brinco. Tambm estou com muita 
saudade de meus meninos. 
Elvira saiu. Juliana ficou andando pela casa, verificando se tudo estava em 
ordem. Quem cuidava da arrumao era Virgnia, por isso sabia que ela 
gostava de tudo em seu lugar. Olhou a sala, o corredor. Parou em frente  
porta do escritrio. No costumava entrar naquele aposento, mas precisava 
ver se tudo ali estava arrumado tambm. L dentro, olhou para um quadro 
com a imagem desenhada de seu pai. Pensou: 
Papai, o senhor deve estar feliz, como eu, pelo casamento de Virgnia. Ela 
ser muito feliz, pode ficar tranqilo. Continuou olhando o lugar. Sobre a 
mesa, havia vrios papis. Sentou-se na cadeira, recolheu os papis e abriu 
uma gaveta para guard-los. Viu que havia algumas pastas de documentos. 
Por curiosidade, abriu  primeira. Eram papis de gastos de sua fazenda. 
Olhou as contas e percebeu que naquele ano o caf realmente daria lucro. 
Continuou olhando as outras. Abriu uma que era da fazenda de Cssio. 
Pegou um papel que dizia que a fazenda estava hipotecada para uma 
pessoa com a qual Cssio tinha uma dvida muito grande em notas 
promissrias. Ficou espantada: 
Por que ele nunca nada comentou a esse respeito? Essa dvida  muito 
grande e vai vencer daqui a seis meses. Como ele conseguir tanto 
dinheiro? Amanh, quando chegarem, no vou comentar, mas depois de 
amanh vou perguntar. " 
"Precisamos encontrar um meio de arrumar esse dinheiro. No sei como, 
mas deve existir um modo. No sei em quanto monta minha fortuna, mas 
deve dar para ajud-lo a pagar. 
#
Intrigada, foi para seu quarto. Por mais que quisesse, no conseguia 
esquecer aquela cifra, era muito grande. 
O que ter acontecido para que ele fosse obrigado a pegar emprestado tanto 
dinheiro? Deve existir algum motivo. Por que no me contou nada? Poderia 
t-lo ajudado. Desde que o pai sofreu aquele derrame, ele  quem cuida de 
tudo. Pelos papis, essa dvida no  do tempo de seu pai,  recente. Tentou 
pensar em outra coisa, mas no conseguiu. Passou o resto do dia 
preocupada, mas sabia que nada podia fazer at que voltassem e ele lhe 
contasse tudo. 
No dia seguinte, perto das seis horas, eles chegaram. Juliana viu no rosto da 
irm a enorme felicidade que estava sentindo. Ela entrou em casa sorrindo e 
trazendo muitos pacotes. Mandou chamar Helena e, sentada no cho, 
comeou a abrir os pacotes. 

 Trouxe muitos presentes para voc, Helena. Olhe como esta boneca  
linda. 
  mesmo, titia. Tem mais? 
 Sim, para voc e para sua me tambm. Juliana adorei a viagem. Assim 
que puder, acredito que voc e Helena devam faz-la tambm. 
 Enquanto viajavam estive pensando nisso. Mas, agora, vamos comer, 
devem estar com fome. 
Foram para a sala de jantar. Como Juliana havia ordenado, a refeio estava 
perfeita. Virgnia, no escondendo sua felicidade, contava em detalhes tudo 
o que havia visto durante a viagem. Cssio acompanhava a esposa, 
confirmando tudo que ela contava. Juliana procurava nos olhos de Cssio 
algum sinal de preocupao, mas nada. Ele continuava o mesmo. Ela 
poderia jurar que na vida dele no havia problema algum. No entendia, e 
ficava cada vez mais preocupada. Enquanto Virgnia falava sem parar, 
Juliana pensava:" 
"Vou falar com ele sem a presena de minha irm. Ela est muito feliz, no 
posso estragar sua felicidade. 
O jantar terminou. Virgnia falou: 
 Agora, eu e Cssio vamos nos deitar, Juliana. Pode imaginar como 
estamos cansados. 
 Posso sim, querida. V se deitar, amanh conversaremos. Os dois se 
despediram e saram da sala. Juliana continuava intrigada e pensava: 
#
Como ele pode esconder dessa maneira seus problemas? Por que no fala 
comigo e pede ajuda? Sempre me considerei sua amiga. 
Foi para seu quarto, deitou-se e ficou muito tempo pensando em tudo que 
havia lido. Depois de muito pensar e no entendendo o silncio de Cssio, 
adormeceu. 
No dia seguinte, acordou com a claridade do sol que batia em sua janela. 
Levantou, olhou  sua volta, sabia que havia tido um sonho bom, mas no se 
lembrava dos detalhes. Estava sentada diante do espelho quando Helena 
entrou correndo, rindo e gritando. Virgnia vinha logo atrs. Helena jogou-se 
sobre a me, que a amparou, sorrindo. Virgnia falou: 


 Essa menina no quis comer o bolo que eu mesma fiz. Vou peg-la! 
Helena, gritando e rindo ao mesmo tempo, escondia o rosto no peito da me, 
que a abraava, protegendo-a. Juliana, sorrindo, disse: 
 No tenha medo, Helena. Mame est aqui e no vai deixar tia Virgnia 
fazer-lhe nada. 
Virgnia aproximou-se e abraou as duas: 
 Isso mesmo, ns duas estamos aqui para proteg-la, Helena. 
Juliana sentiu um aperto no corao ao ouvir a irm falando aquilo. Enquanto 
a abraava, pensava: 
Como vou contar tudo a ela? Est to feliz. Vou falar ainda hoje com Cssio, 
ele vai ter de confiar em mim. Talvez haja um meio de ajud-lo. Precisamos 
encontrar um modo de arrumar esse dinheiro. Ele deve estar sofrendo 
muito." 
"As trs saram do quarto, abraadas. Passaram pela sala. A mesa estava 
posta para o caf. Cssio j havia sado. Para tomar o caf, s faltava 
Juliana. Ela se sentou  mesa. Virgnia sentou-se em outra cadeira. Helena 
ficou sentada no cho, divertindo-se com os brinquedos que Virgnia lhe 
trouxera. Enquanto tomava caf, Juliana olhou para a irm, perguntando: 
 Voc est mesmo feliz? 
 Claro que estou! Cssio  um homem maravilhoso e me ama muito. Por 
que no deveria estar? 
 Por nada. S estou fazendo uma pergunta. Cssio conta-lhe tudo? No 
tem segredos? 
 No tem segredos. Ele me conta tudo. Por que essas perguntas? 
Aconteceu algo durante nossa ausncia? 
#
Juliana sentiu vontade de contar o que descobrira, mas via que a irm estava 
muito feliz, e decidiu que conversaria primeiro com Cssio. Respondeu: 

 No, nada aconteceu. Estou feliz com sua felicidade, espero que dure 
para sempre. 
 Voc est estranha. Sinto que aconteceu alguma coisa e no quer me 
contar. 
 No, nada aconteceu. Fique tranqila. Vamos sair daqui para que a 
empregada possa tirar a mesa do caf e arrumar a sala. 
As duas saram. Juliana foi para fora ver o que Helena estava fazendo. 
Virgnia entrou em seu quarto e voltou logo depois, vestida para sair. Chegou 
perto de Helena e beijou-a no rosto, dizendo para Juliana: 
 Vou encontrar Cssio. Quero ficar com ele o maior tempo possvel. Hoje, 
vamos percorrer a fazenda. 
 Faa isso, minha irm. Aproveite todos os momentos junto de seu marido. 
A solido  muito triste. Jamais poderei esquecer Renato. No sei como 
estou conseguindo viver sem ele. Nunca mais serei feliz... 
Elvira queria falar com a patroa a respeito do almoo. Entrou pela porta, 
ainda ouvindo as ltimas palavras de Juliana. 
 Que  isso, menina? Ainda vai ser muito feliz. Renato est no cu, mas a 
menina  ainda muito jovem, vai encontrar um novo amor. 
Juliana olhou para sua velha empregada, sabia que ela a queria como filha. 
Sorrindo, disse: 
" No vou encontrar um novo amor, porque no estou interessada. Estou 
muito bem, com minha filha e com todos vocs. No preciso de um novo 
amor. 
 Precisa, sim. Com a ajuda de Deus, vai encontrar um. Vim pegar Helena, 
est na hora de seu banho. 
A menina no quis ir, mas Juliana disse: 
 V, minha filha, depois poder continuar brincando at a hora do almoo. 
Helena levantou-se e saiu contrariada. Virgnia olhou para Juliana: 
 Elvira tem razo. Voc  ainda muito jovem, no pode continuar nessa 
solido. Deve e vai encontrar algum.  s uma questo de tempo. 
 No estou preocupada com isso. Vivi com Renato uma unio perfeita, 
acredito ser impossvel encontrar outro algum que me faa to feliz como 
ele conseguiu fazer... 
#
 No vamos precipitar as coisas. Se tiver de ser, ser. Agora, tenho de ir. 
At logo mais. 
 At logo, Virginia. Aproveite todos os momentos ao lado de seu esposo. 
Todos eles so muito importantes. 
Virgnia partiu. Juliana ficou olhando para o horizonte, com o pensamento em 
Renato. 
Quanta saudade sinto. Por que teve de me deixar to cedo? Como foi se 
deixar picar por aquela cobra? 
O tempo foi passando. Fazia mais de um ms que Cssio e Virgnia 
retomaram da viagem. Juliana tentou falar vrias vezes com Cssio, mas 
no teve coragem. Sabia que a qualquer momento ele tocaria no assunto, 
pois se assim no fizesse era porque conseguira de alguma forma o dinheiro 
de que precisava. 
Naquela tarde, Juliana e Virgnia conversavam na varanda enquanto Helena 
brincava. Cssio chegou ofegante e feliz: 
 Ainda bem que encontrei as duas juntas. Recebi uma carta de meu primo 
Rogrio, l de Portugal! Ele est chegando para nos visitar e vai ficar aqui 
um ou dois meses. Juliana espero que no se importe. 
 Claro que no! Vejo que est muito feliz. Parece que gosta mesmo desse 
seu primo." 
" Gosto muito! Conheci-o ainda criana, quando papai me levou para 
Portugal. Enquanto estive estudando fora, na Frana, visitei-o muitas vezes e 
tornamo-nos grandes amigos. Todas as frias eu ia para Portugal. Durante 
esse perodo, ficamos o tempo todo juntos, e temos nos correspondido 
sempre. 
-Pois ento ser muito bem-vindo. Esta casa no  s minha.  de vocs 
tambm. Quando acha que chegar? 
 No sei... Voc sabe como a correspondncia demora em chegar. Mas, 
pela data em que esta carta foi escrita, ele j deve estar chegando. 
 Est bem, vou pedir para Elvira arrumar o quarto de hspedes. L ele 
ficar bem. Espero que goste de tudo aqui. De minha parte, farei o possvel 
para isso. 
Virgnia, nervosa, falou: 
 Juliana, s podia esperar isso de voc. Cssio estou to nervosa. Ser 
que ele vai gostar de mim? 
#
Juliana respondeu: 

 Claro que vai! Voc  muito bonita. Diria at que perfeita. Cssio, voc 
no acha? 
 Claro que acho. Querida, voc  a mulher mais perfeita do mundo. 
Obrigada, Juliana, por receber meu primo em sua casa. 
 Em nossa casa. Nunca se esqueam disso: a casa  nossa. Juliana saiu, 
deixando os dois sozinhos, e foi at a cozinha falar com Elvira. 
Trs dias depois, uma carruagem chegou  fazenda. Juliana, vendo-a da 
varanda, chamou por Virgnia, que foi correndo para junto da irm. As duas 
ficaram paradas, olhando. 
 Olhe Virgnia, deve ser o primo de Cssio. 
 Deve ser ele mesmo. E agora, o que fao? 
 Apenas o cumprimente como sempre faz com as visitas. No entendo por 
que tanto nervosismo.  s o primo de seu marido, nada mais que isso. 
 Sei disso. Mas estou nervosa. E se ele no gostar de mim? 
 Isso no ter a menor importncia. O que importa  que seu marido gosta 
de voc. E muito. 
A carruagem parou em frente  escada que dava acesso  varanda. Dela 
desceu um rapaz de aparncia muito agradvel. Assim que desceu, olhou 
para cima, falando:" 
" Qual das duas  minha adorvel prima? 
Juliana apenas sorriu, enquanto Virgnia descia as escadas. 
 Sou eu. Eu sou a esposa de Cssio. E voc, claro,  Rogrio. Ele beijou a 
mo que ela estendia. 
 Sou eu mesmo. Cssio no exagerou quando me contou de sua beleza. 
Se voc  Virgnia, aquela deve ser... 
Juliana, do alto da escada, ainda na varanda, disse: 
 Juliana. Sou Juliana, irm de Virgnia e cunhada de Cssio. Seja muito 
bem-vindo  nossa casa, espero que goste da vida no campo. 
 No s gosto como tambm vivo no campo. Cssio no lhes contou? Em 
Portugal, eu, meu pai e meus irmos temos uma imensa fazenda, s que 
no  de caf, mas de gado. Estou aqui exatamente para conversar com 
Cssio sobre a possibilidade de criarmos gado aqui no Brasil. Que acham? 
Juliana, sorrindo, respondeu; 
 Talvez seja uma ideia que possa ser estudada, mas no seria melhor 
#
entrar primeiro? 
Ele, sorrindo, enquanto subia os degraus que os separava, falou: 


 Acredito que sim, mas  que estou encantado com tudo o que vi durante a 
viagem. 
 Ter a oportunidade de ver muito mais. A fazenda  enorme, ainda mais 
agora que a cerca foi derrubada e a minha e a de Cssio se tornaram uma 
s. 
Rogrio chegou perto de Juliana, que lhe estendeu a mo. Ele a segurou 
ternamente, olhou bem em seus olhos e disse: 
 Muito prazer, senhora, acredito que vou gostar muito de minha estada por 
aqui. 
Juliana, sentindo-se um pouco encabulada com o toque de sua mo, 
respondeu: 
 Espero que sim. No me perdoaria se algo acontecesse que 
desagradasse um parente de Cssio. 
 Nada acontecer, pode ter certeza. 
Sob o sorriso de Virgnia, que notou o embarao da irm, os trs entraram na 
casa. 
Rogrio falava sem parar. Colocou-se logo  vontade, como se j as 
conhecesse h muito tempo. Cssio chegou logo em seguida e os dois se 
abraaram entusiasmados. 
 Que bom que chegou meu primo! Pensei que fosse demorar mais!" 
" Tambm estou contente por ter chegado. Durante a viagem at aqui, 
fiquei entusiasmado com tudo o que vi. A plantao de caf est uma beleza. 
 Est sim. Neste ano, no tivemos nenhum desastre da natureza. Tudo 
que foi plantado vai ser colhido. 
Juliana deixou-os conversando e foi para a cozinha pedir a Elvira que 
caprichasse no almoo. 
 Fique tranqila, menina, vou caprichar. O moo nunca mais vai esquecer 
minha comida. Ele  um bonito rapaz. Olhou para a menina de uma 
maneira... 
 Que  isso, EIvira? Ele acabou de chegar! 
 Faz pouco tempo mesmo, mas vi como ele olhou para a menina... 
Juliana balanou a cabea e saiu rindo. 
Na sala, os trs continuavam conversando. Quem mais falava era Rogrio. 
#
Juliana olhou para ele, pensando: 
 mesmo um belo rapaz, e tambm notei o modo como me olhou.  to 
diferente de Renato... fala muito. Renato sempre foi mais reservado, no 
gostava de jogar conversa fora. 
Ela se juntou ao grupo, dizendo: 


 Senhor Rogrio, se gostou de tudo que viu at aqui, vai gostar ainda mais 
da comida que EIvira est preparando para o almoo. 
Cssio, rindo, falou: 
 A comida dela  mesmo divina, mas, enquanto no fica pronta, se no 
estiver muito cansado, podemos sair e ver a fazenda. No dar para ver 
tudo, mas ter uma ideia. 
 Sei que vou gostar. Da comida e de ver a fazenda. Vamos? Eles saram. 
Juliana ficou seguindo-os com os olhos e pensando: 
 mesmo um belo rapaz! 
Virgnia foi para seu quarto para trocar de roupa. Queria estar bem vestida 
para o primo de Cssio. Juliana foi para a cozinha ajudar no almoo. Ela 
gostava de ficar ali, conversando com Elvira. Desde menina, acostumara-se 
com isso, ainda mais quando tinha algum problema que a incomodava. 
Estava sentindo algo diferente. Precisava falar com Elvira. 
Elvira estava junto ao fogo, mexendo em uma panela. Juliana chegou 
quietinha, sentou-se e comeou a descascar uma batata. Elvira olhou para 
ela e, sorrindo, perguntou: 
 O que  que a menina quer conversar?" 
" No quero conversar, quero somente ajud-la no almoo. 
 A quem est tentando enganar? Conheo-a desde menina, e sempre foi 
assim: quando tinha algum problema, chegava como quem nada queria, 
sentava-se a nessa mesma cadeira e ficava calada at eu perguntar. A 
menina cresceu, mas continua a mesma. Sobre o que quer falar? Ser que 
estou adivinhando? 
Juliana no respondeu, apenas sorriu. Elvira continuou: 
 E sobre o moo que chegou? 
 Voc disse que ele era um belo rapaz, e eu fui conferir... 
 E a? Viu que eu tinha razo? 
 Realmente, ele  um belo rapaz, mas nada tem a ver comigo. Ele fala 
demais, e eu ainda amo Renato. 
#
 Ele fala, mas a menina gosta de ouvir sua voz. Renato est no cu, e a 
menina est aqui na Terra. Renato gostava muito da menina para querer que 
ela ficasse sozinha. Ele no iria querer que a menina ficasse para o resto da 
vida pensando nele. L onde est, vai querer que a menina seja muito feliz. 
 No sei por que estamos falando dessas coisas. Rogrio  somente gentil 
e educado. 
 Vi como ele olhou para a menina. Ele gostou mesmo de voc... 
Juliana balanou a cabea e saiu sorrindo. Elvira tambm sorriu e pensou: 
Meu pai do cu d toda a felicidade que ela merece. 
Um pouco antes da hora do almoo, eles regressaram. Cssio estava feliz 
com a presena do primo. Virgnia e Juliana mudaram de roupa, trocando 
aquelas caseiras que usavam todos os dias por outras mais novas e bonitas. 
Cssio notou, mas no disse nada. O almoo foi servido. Rogrio comia com 
muita vontade 
 Esta comida est boa mesmo. Elvira tem um tempero muito agradvel. 
 Tambm achamos. 
Depois do almoo, foram para a varanda. Cssio serviu um licor. Rogrio, 
entusiasmado, disse: 
 Esta fazenda  mesmo uma beleza. Cssio notei que existe muita terra 
sem plantao. Se quiser, poder criar muito gado." 
" Ainda no pensei nisso, mas nunca  tarde, podemos discutir o assunto. 
Juliana acompanhava a conversa em silncio. Estava estranhando, pois 
sabia que tanto seu pai quanto Renato sempre quiseram reservar as terras 
para futuras plantaes. Sempre diziam que, quando a terra que estavam 
usando se cansasse, eles teriam muitas outras virgens. 
Cssio e Rogrio continuavam conversando. Juliana pediu licena e saiu, 
com a desculpa de que ia colocar Helena para dormir. 
No quarto de Helena, deitada ao seu lado, pensava: 
Cssio nunca me falou de sua vontade de transformar a fazenda, que 
sempre foi de caf, em uma de criao de gado. Ele disse para Rogrio que 
nunca pensou nisso, mas, do modo como falou, acredito que j tenha 
pensado e at falado com o primo a respeito.  estranho. Papai e Renato 
nunca quiseram... ofertas no faltaram, mas sempre recusaram. Cssio, ao 
contrrio, no recusou e ainda disse que pensaria. 
Quando voltou para a varanda, eles no estavam mais ali. Ela ficou olhando 
#
tudo. Seu pensamento voltou-se para o tempo em que via seu pai chegando, 
galopando sobre um cavalo. Triste pensou: 
Eu era to feliz naquele tempo... nunca pensei que um dia estaria assim, to 
solitria. Quantas vezes papai e Renato chegaram juntos, galopando por 
esse caminho? Jamais imaginei que um dia estaria aqui olhando para o 
horizonte, esperando-os, mas sabendo que nunca mais chegaro. Que est 
acontecendo comigo? Embora queira me lembrar de Renato, por que no 
consigo esquecer Rogrio? Seu sorriso amvel, sincero e to bonito... amei 
e ainda amo Renato, mas por que no consigo lembrar com nitidez seu 
rosto? Por que s consigo ver o rosto de Rogrio? Ser que estou 
apaixonada por ele? No! No, isso no pode acontecer..." 
"Muito confusa, entrou em casa. Sabia que aquele sentimento era estranho. 
Havia gostado muito de Renato, ele fora um esposo perfeito, mas agora o 
sentimento era outro, diferente. Ela sentia vontade de estar nos braos de 
Rogrio, queria amar e ser amada por ele. Passou o resto do dia esperando, 
ansiosa, sua volta. Quando eles voltaram, ela os recebeu com um semblante 
que transmitia toda a felicidade que sentia. Rogrio desceu do cavalo e, 
sorrindo, falou para ela, que estava no alto, na varanda: 

 Senhora Juliana, aqui tudo  perfeito. Estou pensando em me mudar para 
c. O que acha? 
Ela no soube o que responder. Seu corao comeou a disparar. Apenas 
sorriu. Quem respondeu foi Cssio: 
 Acho que seria uma boa ideia, mas e sua fazenda, seu trabalho em 
Portugal? Meu tio permitiria? 
 Eu no fao falta ali. Meu pai e meus irmos podem cuidar de tudo. Vou 
amadurecer essa ideia. Posso comprar uma fazenda e me instalar aqui 
perto. O que acha senhora Juliana? 
 Bem, acredito que seja uma tima ideia. Ficaremos felizes em t-lo como 
vizinho. 
Rogrio sorriu: 
 Vou amadurecer mesmo essa ideia. 
Mais alguns dias se passaram. Juliana percebeu que Rogrio, sempre que 
falava, a olhava profundamente. Seu olhar a perturbava, o que fazia com que 
ela abaixasse os olhos, evitando-o. Cada vez mais se sentia atrada por ele. 
O dia marcado para ele voltar para Portugal estava chegando. Pela manh, 
#
ao acordar, diante do espelho, ela pensava: 
Ele vai embora amanh. Desde aquele dia, nunca mais tocou no assunto de 
voltar e ficar definitivamente aqui. Ter mudado de ideia? Oh, meu Deus, 
como gostaria que ficasse! Sinto que o amo. No suporto a ideia de no vlo 
nunca mais. 
Saiu do quarto. A mesa do caf estava posta. Rogrio, Cssio e Virgnia 
estavam sentados, conversando. Juliana aproximou-se, falando: 


 Bom-dia! Peo desculpas pelo atraso. Dormi muito. 
Rogrio e Cssio levantaram-se para que ela se sentasse." 
"Rogrio, novamente, sorriu daquela maneira que ela tanto gostava. 
 Bom-dia! E est um dia lindo mesmo. O sol est claro. Tudo fica mais 
bonito com sua presena. 
Ela sorriu. Sentou-se, pegou uma xcara e colocou leite. Embora tentasse, 
no conseguia disfarar a tristeza que sentia por v-lo partir. Ele continuou: 
 Meus amigos, amanh partirei, mas no posso faz-lo sem lhes dizer 
algo. Cssio estive pensando todos esses dias, e resolvi que me mudarei 
definitivamente para c. 
Juliana deixou cair  xcara que estava em sua mo. Seu corao comeou 
a disparar e ela no pde evitar demonstrar, com os olhos, a enorme 
felicidade que sentia. No disse nada, apenas sorriu. Rogrio continuou: 
 Vou para Portugal comunicar minha deciso a meus familiares. Meu pai 
ficar um pouco triste, mas  um homem que acredita que uma pessoa s 
poder ser feliz quando conseguir o que quiser na vida. Meus motivos, com 
certeza, o convencero. 
Cssio olhou para o primo, dizendo: 
 Que motivos to fortes sero esses? 
 Acredito meu primo, que meus motivos os convencero tambm. Senhora 
Juliana, infelizmente, a senhora no tem pai e, sendo Cssio seu parente 
masculino mais prximo, acredito ser a ele a quem devo fazer o pedido. 
Juliana estava entendendo, mas no queria acreditar que uma coisa to 
maravilhosa estivesse acontecendo. 
 No estou entendendo... que est querendo dizer? Que pedido  esse? 
 Cssio, pensei muito e no posso ocultar o que sinto: estou apaixonado 
pela senhora Juliana e queria pedir sua mo em casamento. 
Cssio, assustado, olhou para Virgnia, que, com os olhos arregalados, olhou 
#
para Juliana. 
Ela, como eles, tambm estava admirada. Cssio, depois de alguns 
segundos, respondeu: 


 Bem, embora eu no seja parente, sou o amigo mais prximo, no posso 
responder. Juliana, o que diz?" 
"Ela agora estava tremendo. Elvira, que colocava sobre a mesa um bolo e 
estava s suas costas, apenas colocou a mo em seu ombro e apertou 
suavemente. Juliana percebeu o que ela quis dizer com aquele gesto. Olhou 
para Rogrio, dizendo com a voz trmula: 
 O senhor nunca demonstrou, nem sequer insinuou seu interesse por mim. 
Estou como os outros, surpresa, e no sei o que responder. Preciso de um 
tempo para pensar. 
 Ter at amanh de manh. Estive vendo uma fazenda h quinze minutos 
daqui. Ela  grande e tem um pasto muito bom para a criao de gado. Vou 
embora amanh e, quando voltar, trarei o dinheiro necessrio para compr-la 
e iniciar minha criao. Espero ter uma resposta sua at amanh. 
 Est bem, pensarei seriamente e lhe darei uma resposta. 
 Espero que seja a que estou esperando. Percebi que todos ficaram 
surpresos com meu pedido feito desta maneira. Assim o fiz porque quero que 
tudo seja feito da melhor maneira. Eu a amo e quero me casar.  assim que 
 feito em Portugal. 
Juliana sorriu. Embora nunca esperasse que seria daquela maneira, estava 
feliz. Ele no s ficaria ali, como ainda seria seu marido e estaria para 
sempre a seu lado. Teve de fazer um esforo imenso para no se jogar em 
seus braos e beij-lo com todo o amor que sentia. 
Terminaram de tomar o caf. Os dois se despediram e foram percorrer a 
fazenda. Cssio iria com Rogrio ver a fazenda que ele queria comprar. 
Rogrio, antes de sair, ainda olhou sorridente para Juliana, que mais uma 
vez abaixou os olhos. 
Depois que saram, Juliana olhou para Virgnia, que permanecia calada. 
Juliana abraou-a, dizendo:" 
" Minha irm, estou to feliz! Quando Renato morreu, pensei que nunca 
mais encontraria a felicidade, mas vejo agora que estava enganada. Vou ser 
feliz novamente. 
Virgnia, abraada a ela, disse: 
#
 Quer dizer que vai aceitar o pedido? 
 Claro que vou! Desde que o vi pela primeira vez, senti que o amava. 
Estava com muito medo de que ele fosse embora sem nada me dizer. 
 J pensou no que Helena dir? 
 Ele  carinhoso com ela e a faz rir a todo instante. Ela gosta muito dele e 
o aceitar. 
 Sendo assim, j que est decidida, s posso desejar que seja muito feliz. 
 Serei minha irm. Sinto que serei. Embora tenha amado Renato, sei que o 
que sinto por Rogrio  diferente, por isso sei que serei feliz. Ns quatro 
seremos felizes. Cssio contar com a ajuda de Rogrio para dirigir as duas 
fazendas. O trabalho para ele vai diminuir, assim ter mais tempo para ficar 
com voc. 
As duas se separaram. Juliana correu para a cozinha, onde Elvira preparava 
o almoo. Quando entrou pela porta, viu que ela estava de costas. Chegou 
devagarzinho e abraou-a por trs, dizendo: 
 Elvira, voc ouviu o que ele disse? 
Elvira voltou-se e, abraando-a, respondeu: 
 Ouvi menina. Ouvi e fiquei muito feliz. Deus ouviu minhas preces. No 
suportava mais ver minha menina triste, andando de um lugar para outro. 
Esse moo parece ser muito bom e gostar muito de voc. Vai ser um bom 
marido. 
 Tambm sinto isso. Estou to feliz que tenho vontade de sair pelo campo 
e colher algumas flores para enfeitar a casa. 
 Faa isso. V para o campo e demonstre a Deus toda a sua felicidade e 
gratido. 
 Mas e Renato? Aprovaria esse casamento? 
 Claro que sim! Como eu, ele tambm gostava muito da menina. S pode 
querer v-la feliz. No se preocupe com isso. V colher suas flores. 
Juliana, parecendo mesmo uma menina, beijou-a e saiu para o campo. O dia 
estava realmente bonito. O cu claro, com o sol brilhante. Havia muitas flores 
no campo. " 
"Juliana, como que deslizando, ia apanhando-as, formando assim um lindo 
ramalhete colorido. 
Estou muito feliz! O homem que amo me ama tambm. Sinto que com ele 
serei muito feliz. Agradeo a Deus e peo do fundo de meu corao que 
#
proteja este amor. Permita que eu possa realmente ser feliz ao lado de 
Rogrio e de minha filha. 
Enquanto colhia as flores, cantava e danava. 
O dia passou.  noite, durante o jantar, Juliana, que estava com o vestido de 
que mais gostava, disse: 


 Senhor Rogrio, estive pensando durante o dia todo sobre seu pedido. 
Resolvi aceitar e ser sua esposa. 
Desta vez, Rogrio deixou cair o garfo sobre a mesa. Ele olhou para ela, 
parecendo no ter entendido. Juliana, rindo da expresso que ele fez, 
continuou: 
 Est assustado por qu? No foi desta maneira que fez o pedido? 
Acreditei que minha resposta teria de ser do mesmo modo. 
 Est bem. Tem razo por estar agindo assim. Eu deveria t-la consultado 
primeiro, mas perdoe-me, sempre fui assim: quando decido algo, tenho logo 
de colocar em prtica. Vai mesmo aceitar casar-se comigo? 
 Vou. Embora tenha sido muito feliz em meu casamento, estou me 
sentindo muito s e o senhor me parece uma boa pessoa. Sinto que nos far 
muito felizes, a mim e a minha filha. 
 Pode ter a certeza de que farei o melhor possvel. Tambm sinto que serei 
muito feliz a seu lado. 
Cssio e Virgnia olharam-se. Notaram que, para aqueles dois, no havia 
mais ningum  mesa. Virgnia interrompeu-os, dizendo: 
 Bem, parece que vamos ter mesmo um casamento aqui. Felicidades aos 
dois. Quando ser? 
 Estou embarcando amanh para Portugal. Voltarei o mais rpido possvel. 
S gastarei o tempo necessrio para comunicar  minha famlia e pegar o 
dinheiro de que preciso para comprar a fazenda e iniciar minha criao. 
 Fico feliz por minha irm. Juliana acredito que esse seja o tempo ideal 
para prepararmos seu enxoval. Desta vez, quem dar de presente  viagem 
de npcias seremos ns, no , meu amor? 
"Cssio, ainda assustado com a rapidez com que tudo estava acontecendo, 
falou: 
 Ainda estou um pouco perturbado. No esperava por isso, mas daremos 
de presente a viagem, sim, Virgnia. Desejo que possam aproveit-la como 
ns aproveitamos a nossa. Sinceramente, desejo que sejam felizes, tanto 
#
quanto eu e Virgnia. Agora, se me derem licena, tenho de me retirar, 
preciso assinar alguns papis. 
Ele se levantou. Virgnia tambm, dizendo: 


 Irei com voc. Vamos deix-los sozinhos para as despedidas. Saram. 
Juliana, agora s, ficou encabulada na presena de Rogrio. Foram para a 
varanda. 
A noite estava linda, o cu estrelado e uma lua brilhante na fase crescente. 
Sentaram-se e ficaram em silncio, apenas admirando o luar. Ele quebrou o 
silncio: 
 Senhora Juliana, no pode avaliar quanta felicidade me trouxe ao aceitar 
meu pedido. 
 Seu pedido tambm me deixou muito feliz. 
Ele se levantou, tomou-a nos braos e beijou-a, a princpio suavemente, mas 
depois o beijo foi mais ardente. Ela se sentiu desfalecer. Amava aquele 
homem. S desejava estar com ele naquele momento. Ainda beijando-se, 
encaminharam-se para o quarto dela. Juliana sabia que no devia, mas o 
desejo foi mais forte. Em poucos minutos, estavam um nos braos do outro, 
num amor verdadeiro e selvagem. Enquanto se amavam, ela sentiu que 
nunca havia passado por uma experincia como aquela. Ele era totalmente 
diferente de Renato, mas, definitivamente, ela o amava. Quando terminaram, 
um ainda nos braos do outro, ele disse: 
 Eu a amo perdidamente. S partirei porque tenho compromissos, mas 
voltarei o mais breve possvel. Diga que vai me esperar com ansiedade. 
 Claro que sim. Contarei os dias. Sinto que, depois de hoje, no poderei 
mais viver sem sua companhia." 
"Passaram a noite juntos. Pela manh, entraram na sala de refeies 
abraados. Cssio e Virgnia ali j se encontravam. Ao v-los to felizes, 
Virgnia comentou: 
 Parece que esto realmente apaixonados. Acredito que essa separao 
ser dolorida. 
 Ser, sim, minha irm. J estou sentindo a falta de Rogrio, mesmo antes 
de sua partida. 
 J disse que voltarei o mais breve que puder. Tambm no consigo mais 
viver sem voc. 
Ao terminarem o caf, ele partiu. Cssio acompanhou-o. Ele teria de ir at o 
#
porto de Santos, onde embarcaria. Seria uma viagem longa. Cssio 
acompanhou-o apenas at a cidade vizinha, no poderia ficar ausente da 
fazenda por muitos dias. Antes de sair, Rogrio despediu-se de Helena, 
prometendo-lhe que, quando voltasse, lhe traria um lindo presente. 
Despediu-se de Juliana com um beijo na testa e outro nas mos. Subiu na 
carruagem e foi acenando at sumir da vista de Juliana e Virgnia, que 
tambm acenavam. 
Entraram. Juliana, chorando, dirigiu-se a seu quarto. Virgnia foi cuidar dos 
afazeres da casa. 
No fim da tarde, Virgnia estava na cozinha com Elvira quando Cssio 
retornou. Vinha com o rosto vincado, mostrando uma sria preocupao. 
Juliana que estava na sala, ao v-lo entrar em casa daquela maneira, 
perguntou assustada: 


 Por que est assim Cssio? Aconteceu algo com Rogrio? Ele respondeu 
rispidamente, de uma maneira que Juliana nunca tinha visto antes: 
 Assim como? Estou bem. S com alguns problemas. Nada aconteceu 
com Rogrio! 
 Talvez eu saiba a razo de seus problemas. 
 Que voc sabe Juliana? 
 Sei de sua dvida e sei tambm que o prazo est se esgotando. 
 Andou mexendo em meus papis? Com que direito? 
 Foi sem inteno. Quando vocs estavam viajando, fui ver se o escritrio 
estava em ordem. Comecei a mexer nas gavetas e encontrei a pasta com os 
documentos. A partir da, estou muito preocupada. Por que teve de fazer um 
emprstimo to grande? " 
"Se precisar de dinheiro, era s me pedir. No precisava pegar de estranhos, 
que devem ter cobrado juros abusivos. Por que no me contou? Sabe que 
possuo muito dinheiro e posso ajud-lo... 
 No preciso de seu dinheiro. Darei um jeito. Voc sempre com esse ar de 
caridade... no preciso disso! 
Saiu da sala e foi para seu quarto. Juliana ficou ali parada, sem entender o 
que estava acontecendo. Virgnia entrou na sala: 
 Ouvi vozes. Cssio chegou? 
 Chegou, sim. Est em seu quarto. 
Virgnia dirigiu-se para o quarto. Juliana quase contou a ela o que estava 
#
acontecendo. 
No! Ficarei calada. No posso causar esse sofrimento a ela. Est to feliz 
com o casamento, e ele a trata com tanto carinho... amanh, assim que 
Cssio se acalmar, falarei com ele. Emprestarei o dinheiro e tudo estar 
resolvido, sem que Virgnia precise tomar conhecimento de nada. 
Durante o jantar, Cssio permaneceu o tempo todo calado. Aquilo no era de 
seu feitio, mas Juliana, sabendo dos motivos, no insistiu na conversa, sabia 
no ser aquele o momento. Deixaria para o dia seguinte. 
Virgnia tambm permaneceu calada. Juliana olhava para um e para outro. 
Aconteceu algo entre os dois enquanto estiveram no quarto, mas nada posso 
dizer. No sei se ele comentou algo com ela. No posso arriscar. Ser que 
ele contou sua real situao? Est decidido: vou esperar at amanh. Assim 
que ele sair para percorrer a fazenda, inventarei uma desculpa qualquer para 
Virgnia, sairei e irei atrs dele. Estando sozinho comigo, farei com que 
aceite minha ajuda. Sozinhos, sem que Virgnia possa ouvir a conversa, 
falarei francamente. Ter de me ouvir. Este clima de tenso no pode 
continuar. 
Aps o jantar, Cssio despediu-se e foi para seu quarto. Virgnia permaneceu 
um pouco mais. Juliana ficou pensativa. Notou que a irm estava com o 
olhar distante e perguntou: 

 Virgnia, est acontecendo alguma coisa com Cssio? 
 No sei. Por qu?" 
" Ele me parece preocupado. Est sabendo de algo? 
 Tambm notei, mas ele no quis me dizer o motivo. Resolvi esperar at 
que queira me contar. 
 Fez bem. Acredito que logo tudo ficar bem. 
Em seguida, Virgnia despediu-se, dando por encerrada a conversa. Juliana, 
sozinha na varanda, ficou olhando para a lua e as estrelas. 
 uma pena que Cssio esteja com problemas. Eu, ao contrrio, estou muito 
feliz. Sinto em meu corao que daqui para frente no terei mais problema 
de solido. Encontrei novamente a felicidade. Sei que Rogrio em breve 
voltar que nos casaremos e seremos felizes. Helena gosta muito dele, no 
que  correspondida. Ser com certeza um bom pai para ela. Estou sentindo 
frio. Vou tambm me deitar. O dia de amanh ser cansativo e tenso. A 
conversa com Cssio no ser fcil, isso eu sei. 
#
Apagou as velas que iluminavam a sala. Foi para seu quarto, antes 
passando pelo de Helena, que dormia tranqilamente. Ajoelhou-se perto da 
cama e passou a mo carinhosamente pela testa da menina. 

 Minha filha querida... sei quanta falta sentiu de papai, mas agora tudo 
mudar. Rogrio gosta muito de mame e de voc tambm. Ele nos far 
felizes. 
A menina no ouviu o que ela disse, mas, como se tivesse ouvido abriu um 
leve sorriso e virou-se de lado, deixando o cobertor cair. Juliana cobriu-a 
novamente e foi para seu quarto. 
No estava com sono. Pegou um livro e tentou ler, mas no conseguiu, s 
pensava em Rogrio, em seu rosto, em seu sorriso e na noite de amor que 
tiveram. 
Ele  maravilhoso. Vou dormir para que o tempo passe depressa e ele volte 
logo. 
Sorrindo, ajeitou-se na cama e, aos poucos, foi adormecendo." 
"Alta madrugada acordou assustada com a porta de seu quarto sendo aberta 
violentamente. Sentou-se na cama e viu Cssio muito nervoso, com um copo 
de leite na mo. Ela, assustada, gritou: 
 Cssio! Que  isso? Que aconteceu? Por que no bateu antes de entrar? 
Ele, sem responder, colocou o copo sobre uma cmoda, aproximou-se da 
cama e violentamente a colocou de p. Ela, agora muito mais assustada, 
pois percebeu que ele estava transtornado, disse: 
 Cssio, fale comigo. Que aconteceu? 
Sem responder, ele segurou Juliana com fora pelos braos e a sacudiu. Ela, 
indefesa, primeiro, pelo susto de sua entrada, depois, pela maneira como ele 
estava agindo, no imps resistncia. Apenas perguntou: 
 Que est acontecendo? Sei que est com problemas, mas sempre h um 
caminho. Ia conversar com voc amanh para encontrarmos uma soluo. 
Sabe que tenho como e posso ajud-lo. Farei tudo que estiver ao meu 
alcance para isso. Posso ajud-lo! 
Sem a soltar, ele respondeu: 
 Pensei muito e decidi que realmente voc  a nica pessoa que pode me 
ajudar. Com sua morte! 
 Minha morte? No vou morrer. Deve estar louco! 
 Vai, sim! Est muito triste e com muita saudade de seu amado marido. 
#
No suporta mais viver com o peso de t-lo trado na noite passada. Vai se 
matar.  preciso.  a nica soluo para meus problemas. 

 No, no farei isso! Esta no  a nica soluo! Posso lhe dar o dinheiro. 
Rogrio no vai acreditar que me matei. Voc vai ser preso... 
 Por causa dele mesmo  que vai ter de morrer. Estava tudo caminhando 
como planejei. Cuidando de sua fazenda, eu pegaria o dinheiro de que 
precisava, pagaria minha dvida e voc no ficaria 
sabendo. No... no podia ser assim. Voc teve de xeretar. Teve de arrumar 
um marido que, com certeza, descobriria tudo! No posso deixar que isso 
acontea!" 
" Ele no vai se incomodar. Direi que lhe dei o dinheiro quando se casou 
com Virgnia... 
 Quer que meu primo descubra que no sou aquele homem bem-sucedido 
que pensa que sou? Quer que ele descubra que perdi todo o meu dinheiro 
no jogo? Nunca. Nunca! Voc vai se matar! 
 No vou fazer isso! No tem como me obrigar! 
 Tenho, sim. Est vendo este copo com leite? Contm um veneno muito 
forte, voc tomar e dormir no mesmo instante, no sentir nada. 
 No vou fazer isso! E, mesmo que o fizesse como provaria s pessoas 
que tomei de livre vontade? Ningum acreditaria. Elvira e Virgnia sabem 
como estou feliz. Elas no acreditaro. Est louco, mesmo! 
 No se preocupe com isso. J pensei em tudo. Antes de beber o veneno, 
escrever uma carta de adeus para seu amorzinho. Com essa carta, todos 
acreditaro. 
 No vou fazer isso! Eu amo Rogrio e quero ficar com ele. Vamos nos 
casar... 
 No vai, no. Vai beber o copo todo. Se no beber, pegarei o veneno e o 
derramarei na boca de Helena e ela morrer em seu lugar. A escolha  sua... 
Ao ouvir aquilo, Juliana tomou-se de toda a fora que nunca pensou possuir, 
libertou-se dos braos de Cssio e comeou a gritar desesperadamente: 
 Virgnia! Elvira! Socorro! Acudam-me! 
A porta se abriu e Virgnia entrou por ela. Ao v-la, Juliana correu para seus 
braos, gritando: 
 Ele est louco! Quer me matar e est ameaando matar Helena. Temos 
de fazer algo! 
#
Virgnia soltou-se de seus braos, olhou-a bem nos olhos e disse: 

 A escolha  sua. Voc ou Helena? 
 Voc est com ele nessa trama diablica? No posso acreditar! Os dois 
esto loucos! Elvira! Elvira! Socorro! 
Virgnia, com os olhos esbugalhados de dio, disse: 
 No adianta gritar. Coloquei no ch que Elvira toma todas as noites uma 
dose de sonfero. Ela, hoje no vai acordar. S amanh cedo. A escolha 
continua sendo sua. Voc ou Helena?" 
" No posso acreditar que estou ouvindo isso de sua boca. Voc  minha 
irm. Sempre a amei como tal. Sempre confiei em voc. No pode estar com 
esse louco no mesmo propsito... no faria isso comigo e muito menos com 
Helena! Voc  minha irm... eu a amo... 
 Sabe que no sou sua irm! Sou filha da mulher com quem seu pai se 
casou e para isso teve de me aceitar e aturar durante todo esse tempo. 
Apenas isso! 
 Isso no  verdade! Quando meu pai se casou com sua me, ramos 
ainda crianas. Ele lhe deu tudo de que precisava, alm de carinho. 
Crescemos juntas, Virgnia... 
Virgnia, visivelmente transtornada, disse: 
 Deu-me tudo de que eu precisava? Depois de dar a voc! Ele sempre a 
preferiu! Voc sempre foi a sua querida, a coitadinha que to cedo ficou sem 
me! Aquela que merecia tudo! Fiquei sempre com as suas sobras, com 
aquilo que no lhe agradava mais! Em seu testamento, ele definitivamente 
me mostrou qual era o meu lugar nesta casa! Voc viu muito bem o 
testamento que ele me deixou! Tudo ficaria para voc, e eu teria tudo de que 
precisasse, desde que permanecesse para sempre em sua companhia. 
Servindo-a, sendo sua empregada! 
 Isso no  verdade, Virgnia! Ele, fazendo isso, s quis proteg-la. Quis 
ter a certeza de que estaria amparada, a meu lado... sabia que eu jamais 
deixaria faltar qualquer coisa para voc... 
 Acredita mesmo nisso? Ento, por que ele no me incluiu no testamento? 
No... ao contrrio, deixou escrito que, se algo lhe acontecesse em sua falta, 
tudo iria para Helena! E, se algo acontecesse com ela, s nesse caso, ouviu 
bem, s nesse caso, tudo seria meu! Voc sempre teve tudo! Quando 
Renato apareceu, assim que o vi, me apaixonei, mas novamente voc ficou 
#
com tudo. At ele voc me roubou! Eu j a odiava, mas, a partir daquele 
momento, passei a odi-la ainda mais. Agora, chegou  hora de minha 
vingana e estou feliz por isso! 

 Voc amava Renato? Nunca pude imaginar... nunca deixou transparecer... 
no sabia que o amava..." 
"Cssio, que ouvia a esposa falando, nervoso, gritou:  E o que voc fez 
comigo? Com que desprezo recebeu minha confisso de amor... Parecia 
uma deusa, dizendo: S posso ser sua amiga, nada mais que isso, para 
depois se entregar ao primeiro que apareceu. Voc no presta Juliana! Tem 
de morrer Naquele tempo, eu a amava. Hoje, a odeio com todas as foras de 
minha alma. Quero que morra! 
 Mas vocs se casaram e vivem muito bem. Virgnia contestou: 
 Entre ns nunca existiu amor, apenas uma grande amizade. Sempre que 
ficava triste com algo que voc me fazia, eu corria para Cssio e comentava 
com ele. Depois que se casou, percebemos que seria muito difcil fazer com 
que nosso plano fosse cumprido. 
 Plano?! Que plano, Virgnia? 
 Deix-la na misria. A nica maneira seria tirar Renato do caminho. 
Assim, voc, no sabendo como tocar os negcios, pois nunca fez nada na 
vida, entregaria todo o seu patrimnio nas mos de Cssio. Foi o que 
aconteceu. Ele controlaria tudo, tiraria aos poucos todo o seu dinheiro e 
falaria que foram os maus negcios. Voc ficaria na misria e ns, com tudo 
que era seu, que, por direito, tambm deveria ser meu! 
 Est me dizendo que vocs, juntos, mataram Renato? No posso 
acreditar! Como tiveram coragem? 
 No desespero se faz qualquer coisa. No foi to difcil assim. Cssio me 
trouxe uma cobra pequena, mas de veneno mortal. Eu a coloquei no alforje 
em que Renato levava gua e comida sempre que viajava. Assim que ele o 
abrisse, a cobra o picaria e ningum desconfiaria de nada, como aconteceu. 
 Monstros! Vocs so uns monstros! Por inveja e ganncia tiraram  vida 
de Renato? Um homem bom que sempre os recebeu com carinho... So uns 
monstros! 
 Por isso mesmo  melhor que nos obedea e se mate, porque, se no o 
fizer, sabe que temos coragem suficiente para matar Helena! 
#
Juliana comeou a chorar. Sentia, naquele momento, que, se quisesse salvar 
a vida da filha, teria mesmo de obedecer." 
"Sentia um profundo vazio no corao. Aquelas duas pessoas que amava, 
sempre a odiaram, tramaram contra ela. Mataram Renato e no hesitariam 
um momento para matar Helena, sem se preocupar se ela era ainda uma 
criana. Olhou para os dois e, chorando, tentou mais uma vez: 


 No entendo por que tanto dio... se for dinheiro que querem, se  me ver 
na misria, no ser preciso matar a mim ou  minha filha. Passarei amanh 
mesmo tudo o que  meu para o nome de vocs e desaparecerei daqui para 
sempre. No preciso de muito dinheiro para viver. Deem-me uma quantia 
para que eu possa chegar  cidade, me instalar e arrumar um emprego 
qualquer. 
 Emprego? Emprego de qu? Sempre foi a filhinha do papai e, depois, a 
esposa amada. Nada sabe fazer! 
 Encontrarei uma maneira, Virgnia. 
 Sei bem qual ser essa maneira. Ir direto para a polcia e contar tudo o 
que acabamos de falar. 
 No, no farei isso, prometo. S quero salvar minha vida e a de Helena. 
Desaparecerei e nunca mais sabero de mim. 
Virgnia olhou para Cssio e, com ironia, perguntou: 
 Acredita no que ela est dizendo? 
 No. E voc? 
 Tambm no.  melhor seguirmos nosso plano original, assim no 
corremos riscos. No vamos perder mais tempo. Juliana pegue este papel e 
escreva o que eu ditar. 
 No vou escrever o que quer nem outra coisa qualquer! Virgnia pegou o 
copo que estava sobre a cmoda e falou: 
 Tudo bem. Cssio amarre-a e amordace-a. V para o quarto de Helena e 
faa com que tome o leite. 
Juliana, ao perceber que no existia outra sada, chorando, falou: 
 Est bem. Fao tudo que quiserem, mas deixem minha filha em paz... 
Pegou uma folha de papel e um lpis que estavam na gaveta de seu criado-
mudo e olhou para os dois. Com os olhos faiscando, ao mesmo tempo de 
dio e de medo, disse para Virgnia: 
 Pode ditar. O que quer que eu escreva? 
#
 Muito bem, menina,  assim que se faz. Como sempre, tomou a atitude 
mais certa. Escreva... 
Juliana tremia, quase no conseguia segurar o lpis. Virgnia ficou furiosa:" 
" Se insistir em no segurar o lpis e escrever, vou agora mesmo para o 
quarto de Helena. 
 No! No v! vou escrever! 
 Est bem. Vamos comear. 
Querido amigo Rogrio 
Estou lhe escrevendo porque tomei uma deciso. Depois do que aconteceu 
conosco, e refletindo melhor, cheguei  concluso de que no o amo, mas 
sim a meu marido. No posso me perdoar por t-lo trado, atendendo ao 
desejo de um momento. Tra sua memria e o grande amor que sentia e 
ainda sinto por ele. Por isso, estou tomando uma deciso drstica. Vou 
morrer e assim encontra-lo para lhe pedir perdo e pedir que me aceite 
novamente como sua esposa. Espero que, com esta atitude, possamos ficar 
juntos eternamente. No me odeie e procure compreender meus 
sentimentos. Continue sua vida e seja feliz. 
Juliana 
Juliana terminou de escrever e estendeu o papel para que Virgnia o lesse. 
Sua mo e todo o seu corpo tremiam. Sentia muito medo do que viria a 
seguir, mas estava aliviada. Sabia que a sua vida estava sendo trocada pela 
da filha. Virgnia terminou de ler. 
 Acredito que tenha ficado bom, foi bem convincente. Agora pode se deitar 
e beber o leite. 
Juliana, chorando, deitou-se. Cssio passou-lhe o copo, e ela, tremendo, no 
conseguia coloc-lo na boca. Cssio segurou-a e Virgnia fez com que 
bebesse. Ela sentiu uma leve tontura, percebeu que seu corpo ficava cada 
vez mais pesado e fechou os olhos. Conseguiu ouvir Cssio dizendo: 
 Est feito. Vamos agora fazer com que Helena beba o outro. 
Ao ouvir aquilo, Juliana entrou em desespero. Tentou se levantar, mas foi em 
vo. Seu esprito em poucos instantes estava livre da carne que o prendia. 
Seu pai, Renato e alguns amigos estavam esperando por ela. 
Ela, quando viu o pai e Renato, to desesperada estava que no se deu 
conta de estar morta, apenas gritou:" 
#
" Papai! Renato! Eles vo matar Helena! Temos de impedir! 
Saiu correndo em direo ao quarto de Helena. Chegou ao momento em que 
a menina tomava o ltimo gole de leite. Jogou-se sobre os dois e comeou a 
bater com toda a fora que possua. Logo depois, percebeu o esprito de 
Helena saindo de seu corpinho. Fraca ainda por tudo que havia passado, 
Juliana desmaiou. 
Renato segurou a filha carinhosamente em seus braos. A menina abriu os 
olhos, viu seu pai, apenas sorriu e continuou dormindo. O pai de Juliana 
tambm a pegou nos braos e seguiram a longa caminhada da volta. 

#
A verdade sempre aparece 

"Farias, que at agora permanecia calado, sentiu que lgrimas caam de 
seus olhos. Nervoso, comeou a gritar: 

 Damio! O que  isso? Que maldade to grande esses dois fizeram? 
Como tiveram coragem de cometer dois crimes to horrveis como esses? 
Juliana era uma moa to boa e meiga... e a menina era ainda apenas uma 
criana! No posso acreditar que isso tenha mesmo acontecido. Deve ser s 
um filme! 
Damio tambm enxugava uma lgrima, porque aquela cena havia sido 
muito violenta, at para um esprito experimentado como ele. 
 Infelizmente, meu irmo, no  apenas um filme. Aconteceu realmente. 
Por isso estamos aqui hoje. Para julgarmos esses fatos. Precisamos dar a 
sentena que a Lei exige. 
 Se a Lei realmente existe, eles tm de pagar com os piores castigos que 
possam existir! 
 Que castigo sugere? 
 No sei. Por mais que pense, no consigo encontrar um que realmente 
faa justia. Ah... J sei! Deveriam ser mandados para aquele vale, quase 
um inferno, para onde fui mandado! Eles merecem! Eu, por muito menos, fui 
jogado ali. 
 A Lei existe e ela mesma se encarregar de dar a sentena. Vamos 
confiar em sua justia e continuar assistindo? 
 Vamos, sim. Quero ver o que aconteceu com aquela pobre moa. Ainda 
no acredito que tiveram coragem de fazer tanta maldade. Como algum 
consegue ser to cruel? No entendo... 
 Vamos continuar assistindo. At o fim, talvez encontremos as respostas. 
S ento poderemos dar a sentena final. 
 Para o que fizeram no h justificativa nem perdo. So uns monstros!" 
"Com a interrupo de Farias, a tela parou no momento em que os espritos 
seguiam viagem. A um sinal de Damio, as imagens voltaram a se 
movimentar. Apareceram Virgnia e Cssio no quarto de Helena, no momento 
em que ela acabava de morrer. Cssio pegou o corpinho e carregou-o para o 
quarto de Juliana, que ali jazia. Colocou a menina deitada na cama, a seu 
lado. Virgnia trouxe consigo os dois copos que continham veneno e colocou
#
os no cho, dando a impresso de que haviam cado. Sobre o corpo de 
Juliana colocou a carta. Saram os dois abraados, dando ainda uma ltima 
olhada para ver se tudo estava no lugar. Foram para seu quarto e deitaram-
se. 
No dia seguinte pela manh, Elvira acordou com muita dor de cabea. No 
estranhou, porque costumava acordar assim. Como sempre, foi para a 
cozinha preparar o caf. Estava feliz por ver a felicidade de Juliana. Colocou 
a mesa. Cssio e Virgnia chegaram como de hbito, abraados e felizes. 
Sentaram-se e comearam a comer. Elvira estranhou que Helena no viera 
para tomar caf. Juliana sempre acordava um pouco mais tarde, mas 
Helena, no, ela acordava cedo e quase sempre tomava caf na cozinha 
com ela. Terminou de servir e foi para o quarto de Helena. Abriu a porta e 
no a encontrou. Sorriu, pensando: 
Deve estar dormindo com a me. 
Foi para o quarto de Juliana. Ao abrir a porta, percebeu que algo estranho 
havia acontecido ali. Comeou a gritar. Cssio e Virgnia correram para ver o 
que estava acontecendo. Pararam na porta do quarto e ficaram olhando 
Elvira, que tentava reanimar Juliana. 

 Menina, acorde. No pode estar morta. No agora... Virgnia pegou o 
papel que estava sobre a cama e comeou a l-lo em voz alta. Elvira parou 
de falar com Juliana para poder ouvi-la. Quando Virgnia, chorando, terminou 
de ler, Elvira no suportou e comeou a gritar:" 
" No pode ser! Ela no faria isso. Estava feliz depois de muito tempo. No 
pode ser! No faria isso, muito menos mataria Helena. Ela amava a filha. 
No posso acreditar! 
Cssio aproximou-se, pegou no pulso de Juliana, fingindo ver se estava 
morta mesmo. Virgnia, chorando, abraou Elvira e tirou-a do quarto. 
Elvira no se conformava. Cssio mandou chamar Andr para que este 
avisasse as autoridades. Aps um exame superficial, no restava dvida, e 
todos acreditaram que Juliana cometera mesmo o suicdio e levara a filha 
junto. 
A notcia correu rpido. Muitos amigos, vizinhos e curiosos vieram para ver 
os dois corpos que foram velados na mesma sala em que tempos atrs 
Renato tambm fora. Todos estavam consternados, no entendiam como 
Juliana, que sempre fora to ajuizada, pudesse, de uma hora para outra, 
#
cometer uma loucura como aquela, mas os fatos no deixavam dvidas. 
Aps os corpos serem sepultados, Virgnia e Cssio despediram-se dos 
amigos, mostrando no rosto muita dor e sofrimento. Elvira, que acompanhou 
tudo, ainda no se conformava e chorava muito. Afinal, ela fora, na realidade, 
a verdadeira me para aquelas duas meninas. 
Juliana no pode ter feito isso. No posso acreditar. Ela estava feliz. 
Encontrara finalmente um motivo para viver. Ia se casar e seria muito feliz. 
No pode ter feito isso. 
Virgnia abraava-a e consolava-a com palavras afetuosas. As pessoas 
admiravam-se da ternura que Virgnia sentia por aquela velha empregada. 
Como previsto por Cssio e Virgnia, tudo deu certo. Cssio escreveu uma 
carta para Rogrio, contando todo o acontecido e transcrevendo a 
mensagem de Juliana, que ficaria guardada para que, no dia em que ele 
voltasse, pudesse ler e confirmar o acontecido. Pelas contas de Cssio, 
Rogrio estaria recebendo a carta um pouco depois de sua chegada a 
Portugal." 
"Um ms se passou. Aps a missa de trinta dias, realizada na cidade, 
Cssio, acompanhado por Virgnia, atendendo a um chamado do advogado, 
foi at seu escritrio. L, na presena dos dois, foi lhes entregue o 
testamento do pai de Juliana. Por ele, aps a morte da filha e da neta, sua 
herdeira seria Virgnia. 
J em casa e em seu quarto, Virgnia segurava em suas mos os papis que 


o advogado tinha dado. Feliz, pensava: 
Finalmente, consegui! Agora  tudo meu. Poderei fazer o que quiser nada 
me impedir. Finalmente, irei ocupar o meu luar nesta casa! 
Cssio chegou logo depois. Antes de entrar, parou na porta. Ficou 
observando a expresso de felicidade com que Virgnia segurava os papis. 
Aps alguns segundos, disse: 
 Vejo que est feliz. Conseguiu finalmente o que queria. Agora, me d 
esses papis, preciso guardar tudo muito bem. 
 Por tudo que vi nestes papis, alm da fazenda e das terras, tenho muito 
dinheiro guardado. Poderei, agora, realizar todos os meus sonhos... 
 Tem, sim. A fortuna que o pai de Juliana conseguiu  muito grande. 
Poder realizar todos os seus sonhos e os meus tambm. Mas no se 
preocupe com nada, vou cuidar de tudo. 
#
Ele se abaixou sobre a cama em que ela estava deitada, para pegar os 
papis. Virgnia empurrou sua mo, dizendo: 

 Obrigada, mas quem vai cuidar de tudo sou eu. 
 Como assim? Por que est dizendo isso? 
 Porque no confio em voc, meu amor... tenho medo de que tente me 
roubar, como pretendeu e fez com Juliana... 
 Que  isso? Sempre estivemos juntos. Nunca pensaria em roub-la! Esse 
dinheiro todo agora  nosso. Conseguimos juntos. 
 Sei disso, mas prefiro eu mesma tomar conta de tudo. 
Furioso, Cssio saiu do quarto sem nada dizer. Montou o cavalo e afastou-se 
galopando. 
Enquanto isso, Juliana despertara. A seu lado estava Renato, segurando sua 
mo. Ela abriu os olhos e comeou a gritar: 
 Renato, eles vo matar Helena! Temos de impedir. A porta se abriu e 
Helena entrou, sorrindo: 
" Mame, que bom que acordou. Papai avisou-me que seria hoje. Juliana 
abraou a filha com muita fora. S ento percebeu que Renato estava a seu 
lado. Uma senhora entrou no quarto, falando para Helena: 
 Agora que viu mame acordada,  preciso deix-la falar com seu pai, por 
isso, voc, agora, vem comigo. 
 No quero ir. Quero ficar com mame e papai. 
 Ter muito tempo para ficar com eles, mas agora precisa ir. Papai e 
mame tm muito para conversar. 
Juliana beijou e abraou novamente sua filha, dizendo: 
 V, minha filha. Est tudo bem, mas preciso falar com papai. Depois irei 
ter com voc. 
 Mame, onde esto titio Cssio e titia Virgnia? Que lugar  este? No os 
vi por aqui. 
 No sei bem que lugar  este, mas vou descobrir e descobrirei tambm 
onde esto seus tios. Quando isso acontecer, lhe contarei. Est bem assim? 
A menina sorriu, beijou o pai e a me e saiu. Enquanto Helena saa, Juliana 
olhava para Renato como se s agora o estivesse vendo. 
 Renato, como est aqui? Como fez para nos salvar? Ele a beijou 
suavemente. 
 Fique calma, agora est tudo bem. Estamos juntos novamente. Nada 
#
mais vai atingi-la. 

 No posso ficar calma! No est tudo bem! Nada est bem! Eles me 
enganaram. Tentaram matar a mim e a Helena tambm. Vou voltar e 
denunci-los s autoridades! Eles tero de ser presos. Tero de pagar por 
todo mal que nos fizeram! 
 Nada precisa fazer. Existe uma Lei maior que a tudo julga. Eles tero tudo 
que merecem. Agora, s precisa ficar bem para continuar sua vida. 
 No posso! Tramaram contra mim. Enganaram-me. Mentiram. Eu os 
amava. Confiava neles. Considerava-os irmos! 
 Sei disso, mas por enquanto nada pode fazer. Estamos juntos e por isso 
volto a lhe dizer que est tudo bem." 
" No est tudo bem. No consigo aceitar. 
Juliana parou de falar bruscamente. Olhou para Renato como quem no 
estava entendendo: 
 Espere... como voc voltou? Que lugar  este? Onde estou? 
 No fui eu quem voltou. Foi voc quem veio at aqui. Esta  uma casa de 
recuperao. Ficar aqui at que se sinta bem. Depois, iremos juntos para 
minha casa. Tudo voltar ao normal, como era antes. Ns trs, juntos, 
viveremos por um bom tempo em paz. 
Surpresa, Juliana continuou olhando-o. Arregalou os olhos como quem se 
recusasse a aceitar o que estava imaginando. 
 Como foi que cheguei at aqui? Como consegui encontra-lo? 
 Voc no me encontrou. Eu fui busc-la. Estava sozinha e precisando de 
ajuda. Seu pai e mais alguns amigos foram comigo. Agora, tudo vai ficar 
bem. 
Juliana, de um pulo, levantou-se da cama. 
 No estou entendendo. Ou melhor, no quero entender... para que eu 
possa ter vindo at aqui, para estar vendo-o e conversando com voc... est 
tentando me dizer que morri? Est me dizendo que aqueles dois canalhas 
conseguiram? Se Helena est aqui,  porque eles a mataram tambm? 
 Foi isso mesmo que aconteceu. Mas no se preocupe mais. Agora, j 
passou. Tudo ficar bem. 
 Como no me preocupar? Como poderei deixar que sigam sem castigo? 
No estou entendendo. Se morri como estou me sentindo viva? Como estou 
com meu prprio corpo? 
#
Sorrindo, Renato abraou-a. 

 Est sentindo-se viva porque realmente est. A morte no existe para o 
esprito. Ele  eterno. Somos eternos. Como todas as pessoas que vivem na 
Terra, voc pensa que, ao morrermos, ns nos tornamos fantasmas, no 
temos mais corpos. No  a verdade, assim como muitas outras coisas que 
aprendeu. Aos poucos, ficar conhecendo tudo por aqui. Garanto que vai 
gostar muito." 
" No entendo como pode estar calmo assim. Eles o mataram. Separaram-
no de mim e de Helena. Destruram-nos! 
 No princpio, assim que aqui cheguei, tambm fiquei revoltado, mas, aos 
poucos, amigos convenceram-me de que o que estava feito no tinha mais 
remdio, que eu deveria confiar na justia divina e continuar minha 
caminhada para o conhecimento. Poderia ver voc e Helena sempre que 
quisesse. Foi o que fiz. Aceitei os desgnios de Deus. Aprendi muito. Sempre 
que voc precisou, estive a seu lado. Por isso que, quando morreu, 
estvamos l para ajud-la a se desprender do corpo e vir em segurana 
para c. Agora est aqui e tudo est bem. O que tem de fazer  descansar. 
Logo se sentir melhor. 
 Pare de dizer que tudo est bem! Nada est bem! No me sentirei bem 
enquanto no fizer com que aqueles dois paguem por todo o mal que nos 
fizeram! 
Renato abriu os braos, levantou-os e fez urna prece: 
 Senhor, meu Pai.  preciso que entenda o que ela est sentindo agora. 
Envie para ela Sua luz consoladora de paz, para que aceite tudo sem 
reclamar. Para que aceite que existe uma Lei maior que um dia a todos 
atinge: a Lei do amor e do perdo. 
Enquanto Renato fazia essa orao, uma luz intensa desceu sobre a cabea 
de Juliana, e aos poucos ela foi se deixando cair. 
Renato segurou-a e, abraando-a, colocou-a novamente na cama. Depois de 
acomod-la, fez outra orao de agradecimento e permaneceu a seu lado. 
A porta se abriu. Urna senhora entrou, foi at a cama e colocou a mo sobre 
a cabea de Juliana. Renato, ao v-la, sorriu e falou baixinho. 
 Marina, que bom que veio at aqui. Ela est muito revoltada, no sei mais 
o que fazer para amenizar todo o dio que est sentindo. 
 Meu querido,  fcil entender o que ela est sentindo. Vamos orar e pedir 
#
a Deus que ela aceite e entregue tudo  Lei e  Justia Divina, mas voc 
sabe que, se ela no entender nem aceitar, nada poderemos fazer. Ela tem 
seu livre-arbtrio. Vamos esperar e ver o que acontece." 
"Renato olhou para Juliana e disse baixinho: 


 Espero minha querida, que aceite. Para seu prprio bem. 
Quando Juliana acordou, Renato ainda permanecia a seu lado. Ela olhou 
para ele e para todo o ambiente e sorriu. 
 No foi um sonho? Voc est mesmo aqui? Ento eu morri mesmo? 
Estou morta? 
 Sim. Estou aqui, e estarei para sempre a seu lado, mas parece que est 
melhor. Parece que est aceitando sua condio. Agora, acredito que 
possamos conversar. 
 Podemos, sim. No tenho mais dvidas de que eles conseguiram. S no 
entendo como pode estar to calmo aps ter sido assassinado por aqueles 
dois. No entendo como consegue perdoar tanta maldade. Por mais que 
tente, acredito que nunca conseguirei perdoar todo o mal que nos fizeram. 
 Para tudo sempre h uma hora certa. Tudo acontece como tem de ser. 
Quando voltamos para a Terra, levamos misses para serem cumpridas. 
Cabe a ns cumpri-las ou no. Ns fizemos nossa parte. Eles, no. 
Perderam a oportunidade divina que Deus lhes deu. Agora, nada mais nos 
resta a fazer, a no ser esperar que a Lei seja cumprida. 
 Ainda no entendo. Como pode estar to calmo? Que Lei  essa? 
 Estou calmo porque entendi que a Lei de Deus  para todos. A Lei do 
amor, do perdo e do retorno. Quando voltamos para a Terra, temos a 
liberdade de agir como quisermos. Podemos escolher entre o bem e o mal. 
Dessa escolha depender nosso futuro. Agora, s nos resta perdoar e 
aguardar. 
 Eu no escolhi o mal. Ele se voltou contra mim e minha famlia. A 
maldade, a ganncia e a inveja nos destruram. Mataram Helena, sem se 
preocupar se ela era ainda uma menina, com a vida toda pela frente. Como 
posso perdoar isso? Posso nascer e renascer mil vezes, mas nunca os 
perdoarei! 
 Peo a Deus que entenda para seu prprio bem. Se j est se sentindo 
melhor, se for para seu bem, posso falar com Marina e, talvez, possamos 
voltar para a fazenda. Ver com seus prprios olhos a Lei sendo cumprida. 
#
Quer voltar? 
Juliana pensou um pouco, depois perguntou:" 
" A Lei j est sendo cumprida? 


 Est, sim, ela  implacvel. Quer ir at l? 
 Quero. Preciso ver com meus prprios olhos. Eu os odeio e quero que 
paguem no fogo do inferno todo o mal que nos causaram! 
 Posso tentar lev-la at l, mas ter de prometer fazer o possvel para 
tentar ajud-los. 
 Ajud-los? Nunca! S se for para conden-los! 
 Voc tambm agora est tendo a oportunidade de praticar o perdo e 
reconhecer que a Lei de Deus  divina e poderosa. No sei como foi nosso 
passado junto a eles, s sei que devemos nos ajudar mutuamente para 
nosso aprimoramento. O nico caminho para se chegar a Deus  atravs do 
perdo e do amor. 
 Mas eles nos assassinaram. E tambm Helena, uma inocente. Como 
perdoar? 
 Aprendi aqui que no existe ningum inocente, apenas espritos 
caminhando para a perfeio, como somos todos. 
 No consigo entender e aceitar, mas vou me esforar. Vamos at l? 
 Se for para seu entendimento, vamos, sim, Juliana. Vou pedir autorizao 
e solicitar a alguns amigos que nos acompanhem. A viagem  longa e 
perigosa, no podemos ir sozinhos. 
Renato fechou os olhos. Pouco depois, a porta se abriu, Marina entrou e 
disse com um sorriso. 
 Renato, voc me chamou? Vejo que nossa menina est acordada e bem. 
Juliana olhou para aquela mulher que tinha um olhar meigo e amoroso. 
 Quem  a senhora? 
 Uma amiga de longa data. Fiquei feliz quando a vi de volta. Mais feliz 
agora, por v-la mais calma. Como est se sentindo? 
 Mais calma, sim; mas conformada com o que nos aconteceu, isso no. 
Ainda no consigo entender, muito menos perdoar, como Renato quer. 
 Tudo h seu tempo. S essa sua predisposio em entender j  um 
comeo. Renato, o que deseja fazer? 
Antes que Renato respondesse, Farias voltou a gritar, fazendo com que a 
tela se congelasse novamente. 
#
 Damio, eles no podem querer que ela perdoe! Como pode perdoar? Foi 
trada, enganada e humilhada. Alm de a matarem, mataram tambm seu 
marido e sua filha! Como perdoar?" 
"Damio, com sua habitual calma, respondeu: 
 Voc ainda no aprendeu, mas aprender que o nico caminho para um 
esprito est no perdo. Peamos a Deus que tambm entenda isso. 
 No aprendi e acredito que nunca aprenderei. Como podem ser assim? 
Vocs no tm amor-prprio? No tm sangue no corpo? 
Damio e Duarte comearam a rir. Foi Duarte quem respondeu: 
 Amor-prprio no passa de vaidade humana. Quanto ao sangue, 
realmente no temos. Vamos voltar para o filme? 
Farias, meio sem graa, foi obrigado a sorrir tambm, pois novamente 
esquecera que no possua mais corpo. Apenas disse que sim com a cabea 
e as imagens na tela comearam a se movimentar. Renato respondeu: 
 Marina, queria levar Juliana de volta  fazenda para que veja o que est 
acontecendo por l, mas no sei se terei permisso. E, mesmo que consiga, 
no poderemos ir sozinhos, precisaremos de companhia. 
 Est bem, voc tem a permisso. Sei que far bem a Juliana. Pedirei que 
mais alguns amigos nos acompanhem e iremos todos juntos. 
 Voc ir conosco? 
 Claro que sim! No os deixaria em um momento importante como este. 
Enquanto isso devem fazer uma orao agradecendo Nosso Pai Divino por 
mais esta oportunidade. 
 Sempre soube que nos ajudaria, mas nunca pensei que fosse dessa 
maneira. S posso lhe agradecer. Faremos, sim, uma orao. Tenho certeza 
de que esta viagem far muito bem a Juliana. 
Com um sorriso, Marina saiu do quarto. Renato beijou Juliana, que se 
levantou. Estava vestida com uma camisola branca. Ele olhou para ela, 
dizendo: 
 No pode fazer a viagem com essas roupas, Juliana.  preciso troc-las. 
Ali no armrio existem muitas outras. 
Juliana admirou-se por tudo continuar como se ainda estivesse viva. Abriu o 
armrio e mais surpresa ficou." 
" Minhas roupas esto todas aqui? Como pode ser? 
 Com o tempo, aprender a se vestir sozinha, com as roupas que quiser, 
#
mas por enquanto usar as suas prprias. 

 Estranho. Nunca pensei que fosse assim. Sei que estou morta, mas sinto 
todos os desejos de antes. Estou agora precisando de um banho. 
  assim mesmo. Ainda est sentindo a sensao do corpo? No ouviu 
dizer que, quando algum tem um membro extirpado, por muito tempo ainda 
acredita possu-lo?  isso que acontece com nosso corpo. Levar algum 
tempo para no o sentir mais. O banheiro  logo ali. Poder tomar o banho 
como se estivesse na Terra. Alis, bem melhor que l. -Renato disse, 
sorrindo. 
Juliana seguiu com os olhos a direo que ele lhe apontava. Viu uma porta, 
abriu e entrou. L dentro, viu um banheiro completo. Havia uma pia, e um 
espelho, o vaso sanitrio e uma banheira como nunca havia visto antes. Viu 
uma torneira, no sabia para que servia, mas por curiosidade, a abriu e a 
gua jorrou com muita fora. Ela se assustou, mas, em seguida, comeou a 
rir. Na fazenda, a gua vinha de um poo e a banheira era cheia com gua 
aquecida no fogo a lenha. Por isso, nunca havia visto uma torneira. Do lado 
da banheira, ela viu um sabonete, que tambm no conhecia, mas, mesmo 
assim o pegou, cheirou e sentiu um suave perfume que a agradou muito. 
Feliz, pensou: 
No consigo acreditar que tudo isto esteja acontecendo. Como pode ser? 
Estou morta, mas sinto desejo de um banho. Sinto o perfume deste sabo... 
Como pode ser? 
Tomou um banho demorado. Vestiu-se e voltou para o quarto. Renato sorria, 
compreendendo seu espanto. 
 Est admirada, no ? 
 Estou. Nunca pude imaginar que aps a morte seria assim. Sempre 
acreditei que existisse um cu e um inferno, mas nunca isto que encontrei 
aqui..." 
" Vai se admirar muito mais. Aqui  o nosso verdadeiro lar. Renascemos 
em vrios lugares para nos aperfeioar e progredir no aprendizado da Lei 
maior. A cada renascimento, aprendemos mais e chegar um dia em que no 
precisaremos mais renascer. Mas isso, para ns, ainda vai demorar muito. 
Ao ouvi-lo falando daquela maneira, percebeu o quanto o amara e amava 
ainda. Agora, tinha certeza que ele fora o nico amor de sua vida. 
Aproximou-se, segurou suas mos e disse: 
#
 Renato, preciso lhe falar sobre Rogrio. 
 No precisa falar nada. Sei de tudo. Sou eu quem tem de lhe falar a 
respeito. Cssio e Virgnia apenas adiantaram o tempo. Logo eu voltaria para 
c. Voc encontraria Rogrio, porque tem com ele, um compromisso de 
resgate. Infelizmente, no por sua culpa ou dele, isso ter de ser adiado. 
 No estou entendendo. Est querendo dizer que ainda no era meu 
tempo para voltar? Est dizendo que deixei de cumprir algo? Por culpa 
daqueles dois? 
 Isso mesmo. Mas no se preocupe, ter outras oportunidades. 
 Agora que estou a seu lado novamente, sinto o quanto o amo e o quanto 
sempre o amei. O que senti por Rogrio foi algo totalmente diferente. 
 Sei disso, meu amor. Tambm a amo e sinto que a amarei eternamente, 
mas temos ainda uma longa caminhada de aprendizado e resgates para que 
um dia possamos ficar juntos para sempre. Tenha certeza de que esse dia 
chegar, e ento seremos felizes eternamente. Termine de se aprontar. Logo 
nossos amigos chegaro. 
Em poucos minutos, ela se aprontou. Vestiu uma roupa simples, daquelas 
que usava diariamente. 
 Estou bem assim? 
Renato olhou-a com muito amor e carinho. 
 Claro que est. Voc sempre est bem.  a mulher a quem amo e sempre 
amarei. A viagem ser longa, mas no se preocupe com nada que acontecer 
durante o caminho. Estaremos muito bem acompanhados e no temos o que 
temer." 
"A porta se abriu novamente. Marina entrou por ela, sorridente. 
 Esto prontos? Est na hora. 
 Estamos, sim, embora Juliana ainda esteja muito admirada com tudo o 
que est vendo. 
 Isso mesmo. A cada minuto me espanto mais. Que bom seria se as 
pessoas na Terra soubessem de tudo que acontece aps a morte. Com 
certeza, muitas coisas seriam evitadas. 
 Tem razo, mas no seriam elas mesmas. Seriam como robs, apenas 
fazendo tudo certo, sem crescer realmente. No ouviu dizer que  errando 
que se aprende? Deus  sbio, d a todos ns o direito da escolha entre o 
bem e o mal. Apesar de todas as religies serem diferentes entre si, todas 
#
ensinam o caminho do bem, por isso, no ntimo, todos acreditamos que 
exista uma vida melhor aps a morte. S que, envolvidos com nossas 
prprias vidas, no damos muita ateno a isso, at que o dia finalmente 
chega e deparamos com a realidade, que, para alguns,  muito triste, mas j 
estamos atrasados. Vamos agora? 

 Vamos, sim. Mas onde esto meu pai e Helena? No os vi mais. 
 Seu pai faz parte de uma equipe que d assistncia queles que esto 
desencarnando. Ficou por aqui at saber que voc estava bem. Agora, ele 
est de volta  sua misso. Helena est na escola. No se preocupe com 
eles. Precisa somente entender, aceitar e perdoar os erros de seus irmos. 
 Perdoar Cssio e Virgnia? Nunca! Nunca poderei. 
 Nunca  muito tempo. Logo entender que Deus  sbio. Sabe que, por 
pior que pareamos ou tentemos ser, todos temos dentro de ns o amor 
sincero que um dia ser libertado. Ele no tem pressa, sabe tambm que 
todos, um dia, chegaremos at Ele. Por isso, todos aprendemos, atravs de 
muitas reencarnaes, que o nico caminho para chegar at Ele  pelo 
perdo. Isso tudo voc aprender, mas por enquanto vamos nos preocupar 
apenas com nossa viagem. Tudo vir a seu tempo." 
"Juliana colocou um leno na cabea para segurar seus longos cabelos. 
Saram. Assim que a porta se abriu, surgiu em sua frente um longo corredor 
com vrias portas. Novamente, falou admirada: 
 Renato, isto aqui  um hospital? 
 Pode-se dizer que sim. Quando as pessoas desencarnam, so trazidas 
para c. Quando acordam, pensam estar em um hospital, e aos poucos vo 
sendo inteiradas de sua verdadeira situao. 
 Parece mesmo que aqui tudo  perfeito. 
  tudo muito bem organizado. Para que tudo caminhe bem, muitos 
trabalham. 
 Trabalham? Quer dizer que aquilo que se diz na Terra, morrer para 
descansar, no existe? 
 Como tudo aqui  perfeito, no se pode obrigar ningum a nada que no 
queira fazer. S trabalha quem quer. Aquele que no quiser, poder ficar sem 
fazer nada. Depende de cada um. 
 Custa-me muito acreditar em tudo isso. 
 Ter muitas outras coisas em que vai custar a acreditar; todavia, com o 
#
tempo, se acostumar. 
Chegaram ao fim do corredor. Uma grande sala surgiu. Quatro rapazes 
sorriram quando eles apareceram. Marina foi ao encontro deles. 


 Juliana, estes so Fernando, Joo, Paulo e Carlos. Eles nos 
acompanharo durante a viagem. 
Fernando, o que parecia ser mais jovem, abriu ainda mais seu sorriso e 
estendeu a mo para Juliana. 
 Muito prazer. Estamos prontos. Espero que goste da viagem. Faremos o 
possvel para que tudo d certo. 
 Muito prazer. No preciso falar de meu espanto perante tudo o que est 
me acontecendo. 
 No precisa mesmo. Sabemos muito bem, porque passamos por tudo 
isso tambm. Vamos? 
Juntos se encaminharam para fora. Juliana ainda se admirava: 
 No posso acreditar que esteja morta. No posso acreditar que no esteja 
em uma cidade da Terra. 
Realmente, ao sair daquele edifcio, notou que havia ruas, casas e uma linda 
praa defronte ao hospital. Marina falou:" 
"  exatamente do mesmo modo. As pessoas vivem em suas casas. S 
existe uma diferena em relao  Terra: aqui a lei que impera  a do amor. 
Quando voltarmos, voc ir para a casa onde vivem seu pai e Renato. Ali 
vivero juntos. 
 Minha me, onde est? 
 Ela voltou  Terra j h algum tempo.  agora uma linda menina. Voc 
encontrar ainda muitos amigos de outros tempos, dos quais no se lembra 
agora. Logo perceber que tudo continua como sempre. Ter a sensao de 
estar apenas vivendo em outro lugar, como se tivesse feito apenas uma 
viagem. Renato abrace-a e segure-a de um lado, eu farei o mesmo do outro. 
Juliana, agora vai se admirar novamente, no se assuste. Por enquanto 
ainda vai ter de ser ajudada, mas com o tempo aprender como se faz. 
Renato abraou-a pela cintura, o mesmo fazendo Marina. Ela percebeu que 
seus ps aos poucos foram se levantando do cho. Em pouco tempo, se 
sentiu voando. 
 No posso acreditar! Isto no est acontecendo. Devo estar sonhando. 
Estou voando? 
#
Os companheiros, que tambm voavam, apenas sorriram. 
Depois de algum tempo, ela no sabia precisar quanto, viu ao longe a 
fazenda que to bem conhecia. Chegaram e entraram no quarto onde 
Virgnia, feliz sobre a cama, olhava para os papis que davam a ela tudo que 
um dia pertencera a Juliana. 
Ao v-la feliz daquela forma, Juliana soltou-se dos braos de Marina e 
Renato e atirou-se sobre ela. Comeou a bater em seu rosto. Renato puxou-
a para si, dizendo: 

 No faa isso! Voc tem de se conter, seno teremos de lev-la embora. 
Chorando, desesperada, Juliana gritava: 
 Como no fazer isso? Olhe como est feliz, sem um pingo de remorso por 
ter matado voc, a mim e a Helena! 
 Meu amor, o que est feito, est feito. Voc no pode e no deve fazer 
justia por si mesma. Tem de confiar na sabedoria e na justia de Deus.  
para isso mesmo que estamos aqui." 
"Chorando, ela se abraou a ele, dizendo: 
 No consigo acreditar que sempre a considerei uma irm. Como poderei 
confiar novamente em outra pessoa? Como poderei ser a mesma Juliana de 
antes, ingnua e confiante? Como poderei perdoar tanta maldade? Sinto 
muito, meu amor, mas no conseguirei. Nunca, entendeu? Nunca! 
Ele continuou abraando-a: 
 Sei que  difcil, mas devemos confiar na bondade de Deus. Ele far 
brotar em seu corao o sentimento do perdo. Deus  soberano e pode 
tudo. 
Nesse momento, a porta do quarto se abriu. Cssio, sorridente, entrou por 
ela. Mais uma vez, Juliana no se conteve e quis se atirar sobre ele. Mais 
uma vez, Renato segurou-a. 
 No faa isso! Confie na justia de Deus. 
 No consigo. Eles nos destruram! Acabaram com nossa famlia e nossa 
felicidade! Mataram Helena, ainda uma menina... no consigo, nem por um 
momento, pensar em perdoar... 
Renato beijou seus cabelos. Virgnia e Cssio comearam a discutir sobre 
quem cuidaria do dinheiro. Juliana parou e ficou observando. Depois de 
discutirem e Cssio perceber que nunca tocaria em um centavo sequer, saiu 
do quarto e foi para a varanda. Juliana puxou Renato, e os dois foram atrs 
#
dele. L fora, Cssio, muito nervoso, olhando para a imensido de terras que 
via  sua frente, pensava: 
Sempre quis tudo isso. Para tanto, cometi trs crimes imperdoveis. O tempo 
est passando, tenho de conseguir o dinheiro para livrar minha fazenda da 
hipoteca. Mas como farei? Se Virgnia insistir em cuidar das finanas, como 
farei? No posso contar a ela sobre essa minha dvida. A, sim,  que no 
me dar um tosto. Tenho de pensar em um modo de convenc-la a deixar 
que eu cuide de tudo. Assim, poderei desviar o dinheiro sem que ela tome 
conhecimento. Mas como convence-la? Como? Por que no confiei e aceitei 
a ajuda que Juliana me ofereceu? Por que me deixei envolver pelas palavras 
de Virgnia, que durante todo o tempo me envenenou contra ela? 
Juliana, abismada, olhou para Renato." 
" Que est acontecendo aqui? Esto se tornando inimigos? 

 Parece que sim. No lhe disse que a justia de Deus  sbia e 
implacvel? Por isso no deve se preocupar. Acredito que, agora que viu 
como tudo est por aqui, podemos ir embora. 
 Que faro para resolver essa situao? Como Cssio pagar suas dvidas 
e ter sua fazenda de volta? 
 No sei. Os dois esto juntos no crime. Esto, agora, por suas prprias 
contas. Ningum poder interferir na deciso que tomarem. Tero de usar o 
livre-arbtrio que Deus d para todos. 
Enquanto isso, Marina e os outros continuavam no quarto de Virgnia. 
Renato e Juliana voltaram para junto deles. Assim que Cssio saiu, Virgnia 
comeou a pensar: 
No posso confiar nele. No posso permitir que coloque a mo em meu 
dinheiro. Sei que  muito ganancioso e que far tudo para me roubar. Depois 
de tudo que fiz, no vou permitir que me tire um centavo sequer. 
Ao ouvir aquilo, Juliana olhou feliz para Marina. 
 Marina, eles mesmos se destruiro? 
 No sei. Mas agora tero de lutar contra seus prprios fantasmas. S 
Deus  quem sabe o que acontecer. 
Enquanto Virgnia pensava, eles notaram que alguns vultos pretos se 
aproximaram dela. Um deles falava em seu ouvido: 
 Isso mesmo! No pode confiar nele. No viu o que fez com Juliana, 
Renato e at com Helena? Pobre menina... 
#
Virgnia, como se realmente ouvisse, comeou a pensar: No vou deixar 
nada com ele. Juntos, cometemos aqueles crimes. Quem me garante que 
no far o mesmo comigo? 
Helena... s vezes penso que no precisava ter feito aquilo com ela 
tambm... eu a amava. Era como se fosse minha filha... poderia ter deixado 
que ela vivesse. Eu seria sua tutora, tomaria conta de todo o dinheiro. No! 
Se continuasse viva, seria a herdeira. Ela tambm precisava morrer. 
Outra vez, ao ouvir aquilo, Juliana no se conteve e tentou se atirar sobre 
ela. Dessa vez, quem a impediu foi Marina." 
" No faa isso, Juliana! Procure encontrar dentro de voc o perdo. Deixe 
que Deus faa Sua justia. Virgnia agora tem companhia. Alis, essas 
companhias j esto a seu lado h muito tempo. Com sua ganncia, cime e 
dio, ela as atraiu. Nada mais temos para fazer aqui, podemos voltar. 
Renato novamente abraou Juliana, falando: 

 Marina tem razo, meu amor. Procure abater todo esse dio que est 
sentindo, para que no atraia figuras como essas que esto acompanhando 
Virgnia. Vamos embora, nada mais temos para fazer aqui. 
 No, no vou embora! Quero ficar aqui e ver a destruio deles com meus 
prprios olhos! S descansarei em paz quando isso acontecer. At l, no 
poderei continuar vivendo como se nada houvesse acontecido! 
Com expresso muito sria, Renato disse: 
 Juliana, para seu prprio bem,  melhor que nos acompanhe. Vamos 
embora. Nada mais poder fazer a no ser se complicar e perder a 
oportunidade de continuar comigo e com Helena. Se insistir em ficar aqui, eu 
e nossos amigos teremos de ir embora e talvez voc nunca mais encontre o 
caminho de volta para estar conosco. Pense bem, meu amor. No posso 
interferir em sua deciso. Ela  s sua. 
Juliana ficou pensando no que faria. A deciso era difcil. Seu corao estava 
dividido entre ir embora com Renato e permanecer ali para se vingar. Todos 
a olharam, esperando sua resposta. Pensou por alguns momentos, sorriu e 
disse: 
 Renato, eu o amo e nunca mais quero me separar de voc ou de Helena. 
Por tudo que vi aqui, percebo que a Lei est seguindo seu curso. Vou confiar. 
Vamos embora. Estou pronta. 
Farias nervoso, mais uma vez interrompeu a projeo:" 
#
" Damio, ela no pode fazer isso. Ela tem de continuar ali, como fiquei ao 
lado de Mrcia, para lev-los  loucura. Eles merecem. Ela no pode, 
simplesmente, desistir. 

 Talvez tenha razo, meu irmo, mas essa deciso  s dela. Se optou por 
ficar ao lado daqueles que ama,  um direito dela, no podemos interferir. 
Vamos continuar assistindo? 
Farias percebeu que havia falado em hora errada. Balanou a cabea, 
aceitando a sugesto de Damio. 
A tela voltou a se iluminar. A figura de Cssio apareceu novamente. Ele, 
agora, estava parado, montado em um cavalo. Sua cabea fervilhava em 
pensamentos desencontrados. 
Preciso encontrar um meio. O tempo est passando. J faz quase quatro 
meses desde a morte de Juliana. O dia de pagar a dvida est chegando. 
Virgnia deixou claro que no permitir que eu cuide de seu dinheiro. Como 
vou fazer? Preciso afast-la de meu caminho. Tenho de encontrar um meio 
para isso. Preciso fazer com que morra, mas como? Ela  esperta, no vai 
se deixar matar sem reagir. Precisa ser de um modo que no desperte 
suspeitas. Talvez eu devesse conversar com ela e contar tudo. Ela 
entender, sabe tudo que fiz para conseguir ficar com o dinheiro de Juliana. 
Colocou o cavalo em movimento e saiu cavalgando sem destino, 
percorrendo aquelas terras que haviam sido o motivo de seus crimes. 
Virgnia, em seu quarto, mais uma vez com os papis nas mos, ainda 
saboreava a felicidade de ter conseguido tudo que acreditava ser seu por 
direito. 
Finalmente! Embora esteja com estes papis em minhas mos, custa-me 
acreditar que tudo deu certo. Estou me lembrando agora de quando, ainda 
muito criana, cheguei a esta casa. A princpio, pensei ser tambm uma 
pessoa que pertencia  famlia. Minha me havia se casado com o pai de 
Juliana. Ela o conheceu na cidade, quando ele foi at l fazer compras. Ela 
trabalhava de balconista em uma loja. No sei os detalhes do que 
aconteceu, mas, depois de alguns dias, ela se aproximou me pegou no colo 
e disse:" 
" Filhinha, voc  ainda muito pequena, tem apenas seis anos, e sei que 
sofremos muito desde que papai foi para o cu, mas de agora em diante vai 
ser diferente: vou me casar e iremos viver em uma fazenda muito grande e 
#
bonita. Voc ter um novo pai e uma irm que vai lhe querer muito bem. 
Sinto que seremos felizes. 
Em seguida, ele tambm se aproximou e me pegou no colo. 


 Sua me tem razo. Iremos para minha casa. Tive at agora s uma filha, 
mas daqui para frente terei duas. Minha filha se chama Juliana, tem cinco 
anos. Ela ser sua amiga e viveremos felizes para sempre. As duas sero 
iguais para mim, amadas da mesma forma. 
Mentiroso! Mentiroso! Desde o dia em que aqui cheguei, senti a diferena 
que existia entre mim e Juliana! Mais nova que eu, ela estava sempre em 
seu colo, e ele a abraava com muito carinho. Comigo, falava somente o 
necessrio! Quando viajava, os melhores presentes que trazia eram sempre 
os dela. Nunca nos tratou da mesma forma! Nunca fui considerada uma filha. 
Mame dizia que ele era muito bom para ns duas, mas eu no sentia o 
mesmo. Nunca os vi brigando, mas, mesmo assim, eu era tratada com uma 
enorme diferena. J maiores, eu estava com doze anos quando 
conhecemos Cssio. Mais tarde, apaixonei-me por ele, mas nada! Ele 
tambm s tinha olhos para Juliana, a meiga! A bonita! Sempre estive em 
segundo lugar! Mais tarde, quando Renato chegou acompanhado por 
Cssio, novamente meu corao comeou a bater mais forte. Ele era bonito 
e agradvel, mas outra vez Juliana foi  notada. Eles se apaixonaram e se 
casaram. No dia do casamento, outra vez, tive que demonstrar uma 
felicidade que no sentia. Quando ela soube que esperava um filho, ficaram 
todos radiantes, e novamente tive de demonstrar uma felicidade inexistente. 
Helena nasceu, era uma criana linda. Eu no conseguia odi-la e como 
desejava que fosse minha... " 
"Mas no... era de Juliana! Tudo era e sempre foi de Juliana! Eu sempre fui a 
inteligente, a bem organizada. Apenas isso. O testamento foi o que me tirou 
toda a esperana de um dia ter sido considerada como filha. Passei a odiar 
Juliana ainda mais! Foi nessa poca que comecei a elaborar um plano para 
faz-la sofrer! Finalmente, consegui! No s faz-la sofrer, mas tambm tirla 
de meu caminho para sempre! Daqui para frente, vou usufruir de tudo de 
que por direito sempre foi meu! S preciso tomar cuidado com Cssio, ele  
muito perigoso. 
Levantou-se da cama, na qual permanecia sentada, segurando os papis, e 
dirigiu-se at a uma cmoda que havia no canto do quarto. Abriu uma gaveta 
#
e guardou os documentos. Olhou para o espelho, pensando: 
Sou uma mulher muito bonita. Com todo esse dinheiro que possuo agora, 
finalmente poderei viver. Vou viajar conhecer o mundo e, talvez, encontrar 
um amor verdadeiro... 
Ela realmente era muito bonita. Embora seus cabelos fossem pretos, seus 
olhos eram claros. Em seu pescoo, havia um pequeno camafeu com o 
retrato de sua me. Ao v-lo, falou em voz alta: 


 Est vendo, mame? Sua filha, agora sim, ser feliz! No dia em que me 
chamou para dizer que teria de partir para encontrar papai, pediu-me para 
proteger Juliana, porque ela era minha irm. Eu fiz o que me pediu, protegi-a 
tanto que hoje ela est, com certeza, no inferno! 
Passou as mos pelos cabelos para coloc-los no lugar alguns fios que 
estavam soltos. Olhou mais uma vez para o retrato da me. Sorriu e saiu do 
quarto. No corredor, ouviu uma espcie de gemido no quarto de Juliana. 
Abriu a porta com violncia. L dentro, Elvira, sentada na cama, chorava 
copiosamente. 
 Minha menina Juliana, no consigo acreditar que tenha feito aquilo. Voc 
estava muito feliz... disse-me que iria recomear sua vida... no consigo 
acreditar... no faria nenhum mal para Helena. No faria mesmo... 
Ao ouvir aquilo, Virgnia ficou furiosa:" 
" Que est fazendo aqui, Elvira? 
 Desculpe menina, sabe o quanto amo vocs duas. Praticamente fui eu 
quem as criou. Sua me, logo aps o casamento, ficou doente e tinha 
dificuldades, por isso me confiou sua educao. Eu j cuidava de Juliana e 
fiquei muito feliz por poder cuidar de voc tambm. Cresceram a meu lado. 
Eu ficava cada vez mais apaixonada pelas duas. So para mim como se 
fossem duas filhas muito queridas. Conhecia muito bem Juliana. Sabia o que 
pensava a respeito da vida e da morte. Sei o que pensava a respeito do 
suicdio, o quanto era grave perante Deus. Por isso, no posso acreditar que 
tenha cometido um ato to condenvel por ela mesma. No suporto a ideia 
de pensar em minha menina fazendo aquilo. Estou sentindo muita falta dela 
e da pequena Helena. 
Virgnia percebeu que ela representava um perigo. Se insistisse em falar 
aquilo, poderia ser ouvida e levantar alguma suspeita. Aproximou-se dela, 
abraou-a e disse: 
#
 Sei o que est sentindo, porque sinto a mesma coisa.  difcil acreditar, 
mas aconteceu. Infelizmente, ela deve ter sido tomada por alguma coisa m 
que a levou a cometer aquela loucura, mas no adianta ficar chorando, 
vamos entregar esse caso nas mos de Deus. Sabe que precisamos 
continuar vivendo, no sabe? Sabe tambm que tanto eu quanto Cssio 
precisamos muito de voc. 
 Sei menina. Sei que tudo que est dizendo  a verdade, mas no consigo 
me conformar. No acha que deveramos falar com o delegado para que 
investigasse mais a fundo? Quem sabe ele descobre alguma coisa? 
 Sei o quanto gostou e gosta de mim. Tambm sinto a mesma coisa por 
voc. Sei que  difcil acreditar, mas realmente aconteceu. Tambm no 
consigo entender o motivo, mas aconteceu. Ela realmente fez aquilo. Nada 
mais podemos fazer. O delegado j encerrou as investigaes. No restou 
dvida alguma." 
" No entendo por que dormi aquela noite to profundamente. Tenho o 
sono muito leve, com qualquer rudo eu acordo. Levanto vrias vezes 
durante a noite, mas naquela noite dormi sem acordar uma vez sequer.  
isso que me est deixando preocupada. Por que no acordei? 
 Isso no posso responder, porque, como sabe, eu durmo muito bem, e 
tambm no acordei. 
Cssio, como fazia ultimamente, depois de cavalgar muito, resolveu voltar 
para casa. Estava cada vez mais transtornado. 
No h outro meio, vou falar mais uma vez com Virgnia. Terei de contar toda 
a verdade sobre minha situao. Preciso ter o dinheiro para pagar a 
hipoteca, seno perderei minha fazenda. 
Entrou em casa e dirigiu-se para seu quarto, onde havia deixado Virgnia 
poucas horas atrs. Ao passar pelo corredor, ouviu vozes. Parou, percebeu 
que Elvira e Virgnia conversavam. Chegou at a porta, que estava aberta. 
Viu Virgnia abraada a Elvira, que chorava muito. 
 Posso saber o que est acontecendo? 
As duas se voltaram, e Virgnia falou: 
 Elvira est muito nervosa e com saudade de Juliana e Helena. Est 
preocupada porque naquela noite no acordou. Quer falar com o delegado 
para que ele investigue melhor o acontecido. 
Cssio sentiu um frio correr pela sua espinha. Virgnia percebeu e continuou: 
#
 Estou dizendo a ela que tambm sinto falta de Juliana e de Helena, mas 
que, infelizmente, tudo aconteceu mesmo. Agora ela j est mais calma. 
Cssio, um pouco assustado, disse: 
 Todos sentimos saudade. ramos muito amigos, mas, como voc diz, 
infelizmente aconteceu, no h mais nada que se possa fazer. Vou para o 
quarto. 
Com as pernas ainda trmulas, saiu em direo ao quarto. Virgnia percebeu 
que ele estava muito nervoso e voltou-se para Elvira:" 
" Elvira, tambm estou triste e, vendo este quarto igual ao que era antes, 
acredito que a tristeza seja sempre maior. O melhor que temos para fazer  
tirar tudo daqui e do quarto de Helena. Vamos dar os mveis para algum e 
colocar outra moblia. Podemos transformar esses quartos em salas de estar. 
Providencie isso. 
 Menina! No posso fazer isso! Este quarto  a presena constante de 
Juliana nesta casa. 
 Por isso mesmo precisa ser modificado. Ser melhor para voc e para 
ns todos. Juliana no est mais aqui. Voc precisa se conformar. 
 No posso fazer isso... 
Virgnia olhou para ela e, com firmeza, disse: 
 No estou pedindo, Elvira. Estou ordenando! 
Saiu do quarto, deixando Elvira chorando e olhando tudo. Virgnia notou que 
Cssio estava muito nervoso. Achou melhor ir falar com ele para descobrir o 
que estava acontecendo. Foi para seu quarto. Abriu a porta, e Cssio estava 
sentado com as costas apoiadas na cabeceira da cama. Ela percebeu, pela 
expresso de seu rosto, que ele estava realmente nervoso. Aproximou-se e 
sentou-se do lado da cama. 
 Voc parece que est muito nervoso. Se for por causa de Elvira, no 
precisa se preocupar: sei como lidar com ela. 
 Estou realmente muito preocupado. Com isso tambm. A qualquer 
momento ela poder falar demais e levantar suspeitas. 
 No se preocupe. Ela gosta muito de ns dois. Sabe o quanto ramos 
amigos de Juliana, jamais suspeitar de qualquer coisa. 
 Talvez tenha razo, mas no  s isso o que est me preocupando; estou 
com um problema muito grande. 
 Problema? Voc com problemas? No consigo imaginar que problema 
#
poderia ter. Posso ajud-lo a resolver? Afinal de contas, embora no nos 
amemos, somos casados. 
Cssio percebeu em sua voz uma maciez, uma ternura como nunca havia 
visto antes. Ela sorria ternamente. Ele ficou fitando-a profundamente para 
assegurar-se de que ela no estava mentindo. Depois de alguns segundos, 
disse:" 
" Conheo-a o suficiente para saber que  algum em quem no se pode 
confiar, mas voc  a nica pessoa que pode me ajudar neste momento. 
Estou precisando de dinheiro. Preciso pagar uma dvida e, se no o fizer, 
perderei minha fazenda. 


 No estou entendendo. Como conseguiu fazer uma dvida to grande? 
Sim, porque deve ser grande para ter colocado sua fazenda em risco. Qual  
a quantia? 
 A quantia  muito grande. Eu me envolvi com ms companhias e perdi 
tudo no jogo. Em uma cartada final, no tendo mais dinheiro, dei a fazenda 
como garantia. Tenho agora s at a semana que vem para pagar. Se no 
conseguir, perderei a fazenda. Estou desesperado. Voc pode me ajudar. O 
dinheiro que recebeu de Juliana  muito mais do que preciso. Juliana 
descobriu tudo e se ofereceu para me ajudar. 
 No posso acreditar que tenha cometido uma idiotice dessas. O dinheiro 
no  mais de Juliana. Agora  meu. No vou dar a voc para que perca 
tudo no jogo. Com ele vou viajar, conhecer o mundo e comprar tudo o que 
sempre quis. Sinto muito, mas no lhe darei dinheiro algum. 
 Voc no pode fazer isso. Somos casados e cmplices, temos o mesmo 
direito. 
 Somos casados, mas a herdeira sou eu. Enquanto viver, esse dinheiro 
ser s meu. No posso confiar em um jogador irresponsvel como voc! 
Cssio ficou irritado. Atirou-se sobre ela, colocou as mos em seu pescoo, 
querendo enforc-la. Virgnia conseguiu se libertar. Empurrou-o e exigiu que 
sasse. Ele, transtornado pela atitude que havia tomado, saiu correndo. Foi 
para fora, montou em seu cavalo e saiu cavalgando em disparada. Elvira, 
que ainda estava no quarto de Juliana, percebeu que brigavam, mas no 
conseguiu entender por qu." 
"Virgnia, diante de um espelho, colocava seus cabelos no lugar e ajeitava a 
roupa. Seu rosto estava enrubescido. 
#
Ele est completamente louco! No vou arriscar e dar meu dinheiro para que 
perca tudo no jogo! Por sua atitude de hoje, tenho de ficar atenta. Ele  
perigoso e poder tentar tudo para conseguir o dinheiro. 
Na estrada, enquanto cavalgava, Cssio ia pensando: Deveria saber que ela 
no me daria o dinheiro.  gananciosa demais para isso. Preciso encontrar 
um modo. Ela no me considera seu marido. Pensa ser a nica herdeira. 
Espere herdeira! Se ela morrer, eu serei o herdeiro. Preciso pensar em um 
modo de mat-la sem levantar suspeitas. Ser a nica soluo. Ela no me 
deixou escolha. Tenho de pensar muito bem,  esperta e no se deixar 
matar. No  como Juliana, confiante e ingnua. Terei de planejar muito bem. 
Continuou cavalgando. Em dado momento, parou naquele mesmo lugar em 
que surgiu na tela no princpio. Dali podia ver a imensido de terra e a casa 
de Virgnia do outro lado do vale e sua prpria fazenda, que, embora fosse 
tambm grande, no tinha nem a metade do tamanho da de Virgnia. Ficou 
olhando, parado sobre o cavalo. 
O rosto de Juliana surgiu  sua frente. Ele a viu correndo para encontr-lo, 
como sempre fazia. Acompanhando-a, vinha Helena. De repente, Juliana 
transformava-se naquela mulher assustada que, chorando, pedia por sua 
vida e pela da filha. O pensamento foi to forte e real que ele quase caiu do 
cavalo. Sem saber por que, comeou a chorar. 
Farias, agora, interrompeu, mas com delicadeza: 

 Damio, acredita que ele possa realmente estar arrependido? Acredita 
que ele possa ser perdoado? Embora ele esteja neste momento se deixando 
levar pelas emoes, no acredito que possa se arrepender realmente." 
" Entendo o que est pensando, mas ainda no sei o que lhe responder. 
Meu irmo, a Lei  justa e  para todos. Imagine um pai da Terra, sendo um 
esprito imperfeito, quando descobre um erro de seu filho, ele fica bravo, d 
um castigo, mas em seguida perdoa, e, se o filho quiser, ele sempre lhe dar 
uma nova chance. Depois de imaginar isso, pense em Deus como o Pai 
supremo. Aquele Pai amoroso, carinhoso e justo, que quer s o bem para 
seus filhos. Ele poder at castigar, mas sempre dar uma nova chance. O 
Pai no nos abandona nunca. Um pai da Terra sempre visita seu filho, 
embora ele possa estar em uma priso. Deus, da mesma forma, est sempre 
ao nosso lado. Essa  a beleza da Lei. Por isso, temos de confiar sempre 
nela. Mas podemos continuar? 
#
Na tela, o cavalo recomeou a se movimentar. Cssio agora se dirigia de 
volta para casa. A imagem de Juliana no saa de sua cabea. No queria 
pensar nisso, mas era mais forte que ele. Enquanto cavalgava, agora mais 
devagar, ia pensando: 
Por que fiz aquilo? Se Juliana estivesse viva, com certeza me ajudaria. Ela 
era boa, entenderia minha situao. 
Virgnia, depois de se arrumar, saiu do quarto. No corredor, ao passar pelo 
quarto de Juliana, no olhou para seu interior. Continuou andando e chegou 
a frente ao quarto de Helena. A porta estava aberta. Ela parou, olhou para 
dentro e viu que a cama estava perfeitamente arrumada. Entrou. Os 
brinquedos de Helena estavam no mesmo lugar de sempre. O pequeno rosto 
da menina surgiu em seu pensamento. Quase chegou a sentir sua presena. 
Relembrou aquela noite em que a havia assassinado. 
No precisava fazer aquilo com ela. Eu a amava. Mas, se no o tivesse feito, 
hoje ela seria a herdeira, o dinheiro seria todo seu. A culpa no foi minha. Foi 
do pai de Juliana, que no foi justo na diviso. Agora, j est feito, no h 
como voltar atrs. 
Com a garganta embargada, saiu do quarto." 
"Definitivamente, tenho de mandar tirar tudo daqui. Preciso afastar qualquer 
lembrana. Vou recomear a viver minha vida, usufruindo do dinheiro que 
por direito sempre foi meu. 
J era tarde da noite quando Cssio voltou. Ao entrar, Virgnia no se 
encontrava na sala. Ele estava com fome, pois passara a tarde toda sem se 
alimentar. 
Foi para a cozinha. Elvira estava terminando de lavar a loua do jantar. Era 
muito organizada, tinha por norma deixar a cozinha arrumada para a manh 
seguinte. 

 Boa-noite, Elvira. Tem algo para eu comer? 
 Boa-noite, menino. Tenho, sim. Mas por que no veio para o jantar? 
 Tive alguns problemas para resolver, mas agora estou com muita fome. 
 Quer que eu leve para a sala de jantar? 
 No precisa, comerei aqui mesmo. 
Cssio sentou-se. Enquanto preparava o jantar, Elvira disse: 
 Por que voc e a menina Virgnia brigaram hoje? 
 Tivemos uma pequena discusso, mas no foi grave, logo estar tudo 
#
bem. 

 Prefiro ver vocs felizes. Sabe o quanto os amo. Ainda posso ver voc, 
Virgnia e Juliana correndo, brincando por esses campos. Nossa Juliana se 
foi, mas vocs esto aqui e desejo, do fundo do meu corao, que sejam 
muito felizes. 
Colocou a comida sobre a mesa. Cssio, enquanto se servia, falou: 
 No se preocupe Elvira, est tudo bem. O que viu hoje foi apenas uma 
pequena briga entre marido e mulher. Apesar de casados hoje, sempre 
fomos muito amigos. 
Elvira sorriu. Aqueceu leite e colocou-o em um copo. 
 Espero que seja assim mesmo. Enquanto janta, vou levar o leite para 
Virgnia. 
Cssio apenas sorriu para ela que saiu levando em suas mos o copo. Ele 
ficou observando-a. Imediatamente uma ideia surgiu em sua mente. Comeu 
um pouco, mas a ideia no saa de sua cabea. Levantou-se e dirigiu-se 
para seu quarto. Virgnia tomava o leite, enquanto Elvira falava: 
 Cssio est na cozinha comendo. Parece que est com algum problema, 
menina, no brigue com ele. Tenha pacincia. 
 Terei, pode ficar tranqila. Tudo ficar bem. 
Cssio entrou e, sorrindo, falou:" 
" Boa-noite, Virgnia. Estive conversando com Elvira. Ela est preocupada 
com a briga que tivemos esta tarde. Disse a ela que no foi briga, mas sim, 
apenas uma discusso. Aqui na frente dela, quero lhe pedir desculpas. 
 Est bem. J esqueci, venha se deitar. 
Cssio aproximou-se e beijou sua testa. Elvira, sorrindo, saiu do quarto, 
levando o copo. Cssio, tambm sorrindo, preparou-se para se deitar. 
Virgnia estranhou seu comportamento: 
 Voc est calmo... resolveu seu problema? 
 Resolvi. Consegui um parcelamento para a dvida. Vou esperar a colheita 
do caf e s ento darei uma parte do dinheiro. 
 Melhor assim. Sabia que encontraria uma soluo. Vamos dormir? 
Ele se deitou, deu outro beijo em sua testa, virou-se e fechou os olhos. 
Virgnia fez o mesmo. 
No dia seguinte, ele acordou cedo, tomou um rpido caf e saiu para 
percorrer as fazendas. Quando Virgnia se levantou, j fazia muito tempo que 
#
ele havia sado. Tomou seu caf e mandou chamar Andr. Ele chegou  
seguida: 

 A senhora mandou me chamar? 
 Mandei, sim. Depois do almoo, quero ir at a cidade comprar algumas 
coisas. Preciso que prepare a charrete. 
 Est bem, vou mandar preparar e depois do almoo estarei aqui na frente 
com tudo preparado. A senhora quer que eu v junto? 
 No precisa Andr. Elvira ir comigo. S necessito mesmo da charrete. 
Ele saiu. Virgnia foi at a cozinha falar com Elvira. 
 Elvira, vou at a cidade e queria que fosse comigo. Preciso levar alguns 
documentos para o Dr. Antnio. 
 Claro que vou, no deixaria a menina ir sozinha. 
Algumas horas mais tarde, Cssio chegou para o almoo e parecia estar 
muito bem. Comeram com tranqilidade. Elvira sorria ao ver os dois bem 
novamente. Depois do almoo, Andr chegou com a charrete. Virgnia 
comunicou a Cssio sua necessidade de ir  cidade. Ele no perguntou e ela 
no disse o que iria fazer." 
"Na cidade, Virgnia pediu a Elvira que fosse at o armazm comprar 
algumas coisas enquanto ela ia conversar com o advogado. Encontraram-se 
meia hora depois. Quando retornaram  fazenda, j comeava a escurecer. 
Cssio estava na varanda tomando um copo de caf. Ao ver Virgnia parando 
a charrete, ele desceu as escadas e ajudou-a a descer. Quem visse os dois 
no poderia imaginar, por um momento, que no dia anterior haviam tido uma 
discusso to violenta. Vibrando de felicidade, Elvira dirigiu-se para a 
cozinha, estava atrasada para preparar o jantar. Virgnia foi para seu quarto 
trocar de roupas, que estavam empoeiradas por causa da viagem. Cssio 
permaneceu na varanda, tomando seu caf. Quem visse, pensaria que, 
naquela casa, a paz era profunda. 
Elvira preparou um jantar rpido. Serviu a mesa, e os dois jantaram 
tranqilamente. Aps o jantar, conversaram um pouco na varanda. Como 
ocorria naquela estao do ano, a noite estava clara, iluminada pela lua e 
por muitas estrelas. Aps um bom tempo, Virgnia falou: 
 Vou me deitar. Estou cansada, a viagem at a cidade foi muito cansativa. 
Ele se levantou e beijou-a, dizendo: 
 V. Vou ficar mais um pouco apreciando este luar. 
#
Ela no respondeu, apenas sorriu e se retirou. Ele permaneceu ali, sentado, 
olhando a lua. Pelo barulho que vinha da cozinha, percebeu quando Elvira 
terminou de arrumar tudo. Foi at l. Chegou ao exato momento em que ela 
terminava de colocar o leite de Virgnia no copo. Aproximou-se, dizendo: 

 Elvira, ser que aquelas laranjas que guardou l nos fundos j esto 
maduras? 
 No sei, por qu? 
 Est muito calor. Se elas estiverem maduras, gostaria de tomar um suco. 
 Espere um pouco, vou at l ver." 
"Ela saiu da cozinha. Ele, rapidamente, tirou do bolso um vidrinho, despejou 
o contedo no copo de leite de Virgnia, sentou-se em uma cadeira distante 
do copo e ficou aguardando a volta de Elvira. Aps alguns minutos, ela 
voltou, trazendo nas mos algumas laranjas maduras. 
 Estas esto boas. Espere um momento. Vou levar o leite para Virgnia e 
virei em seguida preparar seu suco. 
 No se preocupe, pode ir. Eu mesmo preparo o suco. 
Como fazia todas as noites, Elvira pegou o copo de leite e dirigiu-se ao 
quarto de Virgnia. Cssio, com os olhos presos na porta em que Elvira saiu, 
pegou uma laranja e comeou a cort-la ao meio para preparar o suco. 
Quando Elvira voltou, ele j estava com todas cortadas. Elvira fez com que 
ele se sentasse e ela mesma continuou a tarefa. 
 Vou lhe preparar um suco bem gostoso. A noite est realmente muito 
quente. Vou acompanh-lo. Sabe menino, Virgnia mandou que eu 
desmanchasse os quartos de Juliana e Helena. Disse que do modo que 
esto trazem muitas recordaes. Penso ao contrrio: deixando do modo 
que esto, tenho a impresso de que nada daquilo aconteceu e que a 
qualquer momento elas retornaro. Sinceramente, no queria mudar, mas 
tenho de cumprir ordens. 
 No deve se preocupar com isso. Virgnia sentiu muito a perda das duas e 
a maneira como tudo aconteceu. Vou falar com ela e ver se a fao mudar de 
ideia. Este suco, como tudo que faz, est uma delcia. 
 Tente, por favor, fazer com que ela mude de ideia. 
 Pode deixar comigo. Agora vou dormir. Amanh, logo cedo, durante o 
caf, falarei com ela. Boa-noite, Elvira. 
 Boa-noite, menino. Durma com os anjos e que Deus o abenoe. 
#
Cssio sorriu e dirigiu-se a seu quarto. Ao entrar, percebeu que Virgnia 
dormia profundamente. " 
"Trocou de roupa, colocando um pijama, e deitou-se. Esperou um pouco, 
depois levantou-se e foi at a cozinha para ver se Elvira j havia ido se 
deitar. Ainda do corredor, viu que as velas que iluminavam a casa estavam 
todas apagadas, mas mesmo assim percorreu todo o lugar. O silncio era 
total, s se podia ouvir o som natural da noite. Voltou para seu quarto. 
Virgnia continuava dormindo profundamente. Reclinou-se sobre ela e 
chamou-a, mas nada. Ela tentou abrir os olhos, mas no conseguiu. Estava 
deitada sobre o brao esquerdo com o rosto virado para o centro da cama. 
Ele a descobriu e devagar a desvirou, fazendo com que o rosto ficasse 
virado para cima. Pegou seu travesseiro, colocou o sobre o rosto dela e ficou 
segurando firmemente. Ela se debateu por um segundo, mas no conseguiu 
tirar o travesseiro de cima de seu rosto. O sonfero que ela ingerira era muito 
forte, o mesmo que deram a Elvira naquela noite. Ele, com uma expresso 
de pedra no rosto, continuou apertando. Mesmo depois que ela parou de se 
debater, continuou por mais alguns minutos e, em seguida, retirou o 
travesseiro. Ela estava muito branca, como se no houvesse uma gota de 
sangue em seu corpo. Ele colocou a mo em sua garganta; depois, pegou 
um espelho e colocou-o sob seu nariz. Constatou que ela estava realmente 
morta. Seus olhos brilharam. Sorriu, no podendo esconder a enorme 
felicidade que sentia. 
Agora, sim: trabalho completo! Estou salvo. Tudo que pertencia a Juliana vir 
para mim. Poderei falar com aquele canalha e dizer que espere at que o 
testamento seja aberto. Estou salvo e meu segredo estar protegido para 
sempre. Essa megera dever ir direto para o inferno. 
Pegou o corpo de Virgnia e virou-o novamente, desta vez deitando-a sobre o 
lado direito, fazendo com que seu rosto ficasse para fora da cama. Apagou 
as velas, deitou-se e cobriu-se. Com os olhos abertos, comeou a pensar: 
Depois que tudo estiver terminado, depois que ela for enterrada ao lado de 
Juliana, Helena e Renato, falarei com ele. Pagarei e estarei livre para 
sempre." 
"No conseguiu dormir a noite toda. Estava ansioso para que o sol raiasse e 
ele pudesse sair daquele quarto. Por vrias vezes colocou a mo sobre o 
rosto de Virgnia para ter certeza de que estava mesmo morta. 

#
Finalmente, percebeu, pela fresta da janela, que estava amanhecendo. 
Ouviu quando Elvira passou pelo corredor, dirigindo-se  cozinha. Esperou 
mais um pouco, levantou-se, trocou de roupa e saiu do quarto. Na cozinha, 
Elvira j havia terminado de passar o caf. 

 Bom-dia, Elvira. O caf j est pronto? 
 Bom-dia. Est quase pronto, j vou servir, pode ir para a mesa. 
A rotina diria era sempre a mesma. Ele acordava, ia para a cozinha, 
cumprimentava Elvira e voltava para a sala. Em seguida, ela trazia o caf da 
manh. Virgnia quase nunca se levantava junto com ele. Por isso, naquela 
manh, Elvira no estranhou. 
 Elvira, pedi a Juca que viesse at aqui para cortar o mato que est 
crescendo em volta da casa. Ele deve estar chegando. Sei que no preciso 
dizer isso, mas, assim que chegar, antes de comear a trabalhar, oferea-lhe 
um caf. 
 Claro! Darei caf e algo para comer tambm. 
Cssio tomou o caf, despediu-se e saiu para percorrer as fazendas. 
Embora por fora estivesse calmo, por dentro sentia o corao bater muito 
forte. Elvira recolheu a loua do caf e foi para a cozinha comear a preparar 
o almoo. Tudo normal, como sempre. 
Cssio calmamente montou no cavalo e saiu. J distante da casa, ele parou. 
Estava ansioso e com medo de que seu plano no funcionasse, embora 
tivesse certeza de ter feito tudo perfeitamente. Chegou  lavoura e comeou 
a falar com seus empregados, dando ordens, tudo como sempre fazia. A 
todo instante olhava em direo a casa, esperando que algum o viesse 
chamar. Para ele, parecia que o tempo havia parado. A ansiedade era cada 
vez maior. Olhava para l, mas nada acontecia. Montava e desmontava do 
cavalo, conversava com todos. Em determinado momento, Andr aproximou-
se, nervoso:" 
" Senhor Cssio, o senhor precisa vir comigo at o cafezal. Parece que 
alguma praga est tomando conta dos ps. 
 Praga? Que praga? 
 No sei, nunca vi igual. 
 Est bem, vamos at l. 
Os dois montaram nos cavalos. Estavam se dirigindo  plantao quando 
ouviram algum chamando. Voltaram-se e viram Juca, que vinha em 
#
disparada montado em um cavalo. Chegou perto dos dois muito nervoso, 
quase sem flego, gritando: 

 Senhor Cssio! Dona Virgnia! Dona Virgnia! 
Cssio, embora soubesse o que ele iria dizer, mostrou-se assustado e gritou: 
 Fique calmo. Que aconteceu? Que tem dona Virgnia? 
 No sei. Elvira pediu para eu vir chamar o senhor, dizendo que dona 
Virgnia est muito mal. 
 Que ela tem? 
 No sei. Elvira me mandou cham-lo. Pediu para o senhor Andr ir 
tambm. 
Cssio olhou para Andr, que, assustado, falou: 
 Deve ter acontecido algo muito grave. Vamos at l. 
Os trs saram em disparada. Os outros empregados ficaram assustados. 
Quando chegaram a casa, encontraram Elvira, que chorava sem parar: 
 Menino! Ela est l no quarto. No sei o que aconteceu. Demorou muito 
para se levantar, fui at l e a encontrei daquele jeito. 
Demonstrando um nervosismo que no sentia, ele disse: 
 De que jeito, Elvira? Que aconteceu? 
 Acho que ela est morta! 
 Morta? Deve estar louca! Ela no pode ter morrido, ontem estava muito 
bem. 
Entrou correndo na casa e, acompanhado por Andr, foi at o quarto. L 
dentro, Virgnia continuava na mesma posio que ele a havia deixado. Ele 
correu para ela e, chorando, comeou a mexer em seu rosto, dizendo: 
 Virgnia, meu amor, acorde! Que aconteceu? 
Andr, pela cor do rosto dela, percebeu que estava morta. Segurou Cssio 
pelos ombros, falando:" 
" Senhor Cssio, no adianta chamar. Ela est morta mesmo... 
 No pode ser! No pode ser! 
 Vamos l para fora, vou mandar algum chamar o mdico. Cssio, 
chorando desesperado, saiu do quarto apoiado em Andr, que refletia em 
seu rosto toda a dor que estava sentindo. Elvira continuava desesperada: 
 Que maldade foi essa que se abateu sobre esta famlia? Todos esto 
partindo. Por que, meu Deus? Por qu? 
Cssio mostrou-se impotente e pediu a Andr que fosse chamar o mdico. O 
#
doutor chegou e, aps um exame superficial, constatou que Virgnia havia 
morrido de um ataque do corao. Cssio, inconformado, chorava muito. 
Amigos e vizinhos consolaram-no o tempo todo. Durante o velrio, todos 
sentiam muita pena daquele homem que em to pouco tempo havia perdido 

o amigo, a esposa e filha deste, e agora a esposa. Todos transmitiam suas 
reais condolncias. A cada abrao, a cada aperto de mo, mais ele se 
desesperava e chorava. Sua barba por fazer e seu desespero convenceram 
a todos do quanto estava sofrendo. Como tantos outros, um homem se 
aproximou. Era um desconhecido, mas, no meio de tantos, no foi notado. 
 Senhor Cssio, estou aqui para lhe desejar minhas sinceras condolncias, 
mas no posso deixar de lembrar-lhe que seu tempo est passando. Faltam 
apenas poucos dias. 
Cssio olhou para aquele homem, estampando um profundo desespero: 
 O senhor no precisa me lembrar. Sempre cumpri com minhas obrigaes 
e no pretendo que, agora, seja diferente. Talvez demore uns dias a mais, 
mas em breve tudo que devo ser pago. Por favor, espere um pouco mais e 
permita que hoje eu s chore a morte de uma pessoa que muito amei. 
Com um sorriso, o homem cumprimentou-o com a cabea e afastou-se." 
"O corpo de Virgnia foi enterrado ao lado do de Renato, Juliana e Helena. 
Depois disso, Cssio, para desespero de Elvira, trancou-se em seu quarto e 
por vrios dias no saiu. A muito custo ela conseguia fazer com que ele se 
alimentasse. A cada apario de Elvira, ele se punha a chorar 
desesperadamente. 
 No sei o que vai ser de minha vida sem aqueles que tanto amei. No 
tenho mais vontade de viver. Quero morrer tambm. 
Elvira tentava consol-lo. 
 No fale assim, menino. Deus  bom e no vai abandon-lo. Voc  muito 
jovem. Tem a vida toda pela frente. 
 Que vida? Como posso ter vida ou continuar vivendo sem as pessoas que 
amo? Deus no podia ter feito isso comigo. No devia. Quero que Deus me 
mande a morte. Tenho vontade de me matar e assim ficar ao lado deles. 
 No diga isso, meu filho. Nunca devemos desacreditar da bondade e 
justia de Deus. Ele est sempre conosco, no nos abandona nunca. 
 Ele me abandonou. No sei o que vou fazer. 
 Por enquanto, nada deve fazer. Deus lhe mostrar o caminho que tem 
#
para seguir. Confie em Sua bondade infinita. 
Cssio no disse mais nada, apenas chorava sem parar. Elvira, amargurada, 
desanimada e preocupada por ver seu menino to triste, saiu do quarto, 
pedindo a Deus que o protegesse. 
O tempo passou, fazia sete dias que Virgnia morrera. Uma missa foi 
encomendada na igreja matriz da cidade. A famlia de Juliana e a de Cssio 
eram conhecidas em toda parte. Vestido de preto e com a barba por fazer, 
Cssio compareceu com Elvira e outros empregados da fazenda. Quem 
visse aquele homem naquele estado no podia deixar de sentir pena. Ele 
sofria muito. Os comentrios foram muitos. Durante a missa, Cssio viu, no 
fundo da igreja, aquele homem que o olhava sem parar. Ficou preocupado e 
com medo de que ele, ali, no meio de todos, o cobrasse. Antes que a missa 
terminasse, ele comeou a chorar desolado. Chorou tanto que Elvira e 
alguns amigos o levaram para fora. " 
"Em frente  igreja, havia uma praa com vrios bancos, e em um deles ele 
se sentou. Elvira e os outros o consolavam da maneira que podiam. Ele, 
ainda chorando, abriu os olhos, olhou para a porta da igreja e viu que o 
homem estava ali, parado, observando-o  distncia. Voltou a fechar os 
olhos e, chorando, disse: 

 Elvira, muito obrigada por tudo. Estou bem, pode voltar com os outros 
para dentro da igreja. No se preocupe comigo, irei em seguida. 
Elvira quis resistir, mas ele insistiu. Ela e os outros acharam melhor atender 
a seu pedido. Entraram. Assim que desapareceram pela porta, Cssio viu 
que o homem se aproximava dele. Quando chegou a seu lado o homem 
falou: 
 Sei que est sofrendo muito. Estou aqui para lhe dizer que, embora eu 
seja um homem de negcios, no sou insensvel a sua dor. Pode ficar 
tranquilo: vou esperar mais dois meses. Acredio ser o tempo necessrio para 
que consiga o dinheiro. Mas vou avis-lo de que, passado esse tempo, no 
esperarei nem mais um dia. 
Cssio no acreditou no que estava ouvindo. S pde responder: 
 No sei como agradecer. Pode ficar tranquilo, que antes desse dia eu o 
estarei procurando. 
O homem sorriu e se afastou, no voltando  igreja. Depois de algum tempo, 
Cssio, com os olhos vermelhos, retornou para junto de seus amigos e 
#
assistiu  missa at o fim. 
Nas despedidas, todos o consolaram. Acompanhado por Elvira, voltou para 
casa. L, novamente, entrou no quarto e s saa alguns minutos por dias. 
Assim permaneceu por mais quinze dias. 
Em uma manh, chegou um mensageiro da cidade, com uma carta para 
Cssio. Elvira recebeu-a e bateu  porta do quarto dele. 


 Menino, tenho aqui uma carta que chegou. Posso entrar? 
Cssio, que lia um livro tranquilamente, escondeu-o, estampou no rosto 
novamente aquela expresso de dor e respondeu: 
 Pode entrar. 
Elvira entrou e no pde esconder a enorme preocupao que sentia ao ver 
Cssio naquele estado." 
" Menino, voc no pode continuar assim. Tem de sair desse quarto e 
voltar a cuidar das fazendas. J faz quase um ms que a menina Virgnia foi 
para junto de Deus. Voc tem de reagir. O tempo  bom companheiro e o 
trabalho  o melhor remdio para tudo. Chegou esta carta. Parece ser do 
doutor Antnio. 
Cssio sorriu, dizendo: 
 J estou me sentindo melhor, no precisa se preocupar. Entendi que no 
adianta continuar aqui sofrendo. Amanh mesmo, voltarei ao meu trabalho, 
mas me d essa carta. Que ser que ele quer comigo? 
 No sei, mas talvez seja a respeito do testamento. 
 Pode ser. Obrigado. Se for isso, no quero nem saber. No me interesso 
por esse testamento. S queria ter todos comigo. 
 Sei que no se importa com o dinheiro, mas no poder fugir disso. Se 
ele estiver chamando-o para tratar disso, tem de ir, no pode se furtar. 
 Est bem, vou ver o que ele quer comigo. 
Elvira ficou feliz por v-lo mais calmo e disposto a recomear a vida. Saiu do 
quarto aliviada. Assim que ela saiu, ele rapidamente abriu a carta. Era s um 
convite para que fosse at o escritrio do advogado tratar de assuntos de 
seu interesse. Ele, sorrindo, pensou: 
At que enfim vou tomar posse de tudo, pagar minha dvida e usufruir de 
todo o dinheiro. Virgnia me deu uma boa ideia: vou viajar e conhecer o 
mundo. 
Naquele dia, ainda permaneceu no quarto, s saindo para as refeies. No 
#
dia seguinte, logo pela manh, entrou na cozinha com a barba feita e 
arrumado para sair: 

 Bom-dia, Elvira. Atendendo a seu pedido, hoje me levantei disposto a 
retomar minha vida. Voc tem razo: no adianta ficar da maneira como eu 
estava. Deus sabe o que faz; se foi Sua vontade me deixar sozinho, que 
assim seja. Vou at a cidade conversar com o doutor Antnio, vou saber o 
que ele quer comigo. 
 Menino, no sabe como estou feliz por v-lo bem novamente. Deus seja 
louvado. Sabe o quanto gosto de voc e no imagina como fiquei 
preocupada por v-lo sofrer daquela maneira." 
"Cssio sorriu. Em seu pensamento, estava triunfante por tudo ter dado 
certo, exatamente como planejara. 
Preciso continuar com essa minha cara de tristeza por mais alguns dias, 
depois voltarei ao normal, receberei tudo a que tenho direito e comearei a 
viver realmente. 
Elvira, radiante, serviu o caf. Ele comeu como h muito tempo no fazia. 
Aps o caf, montou no cavalo e saiu para encontrar-se com seu destino. 
Na cidade, foi cumprimentado por muitas pessoas que compartilhavam sua 
dor. A todos recebia com um sorriso e agradecia. Depois de muito tempo 
cumprimentando as pessoas, conseguiu finalmente chegar ao escritrio do 
doutor Antnio. Este o recebeu com um largo sorriso: 
 Senhor Cssio, fico feliz por v-lo to bem disposto. 
 Estou um pouco melhor. E ansioso por saber o motivo de seu chamado. 
 Como sabe o senhor agora  o nico herdeiro de todos os bens de sua 
falecida esposa. Tenho em minhas mos alguns documentos que precisa 
assinar. 
 Estou  sua inteira disposio, embora no esteja ainda preocupado com 
isso. Sinto muita falta de Virgnia, mas, como diz Elvira, preciso continuar. 
 Isso mesmo, ela tem razo. Mas sente-se e aguarde um momento; vou 
pegar as pastas. 
O advogado saiu. Cssio teve de fazer um esforo tremendo para no 
demonstrar a alegria que estava sentindo. 
Pouco depois, o advogado voltou, trazendo em suas mos algumas pastas. 
Sentou-se em sua cadeira, que ficava do lado oposto  que Cssio se 
encontrava. Abriu uma pasta e de dentro dela retirou um papel que estava 
#
lacrado: 

 Este  o testamento deixado pela senhora Virgnia. 
Cssio se admirou: 
 No sabia que ela havia feito um testamento. 
 Fez, sim. Ela o fez na frente de um tabelio. Mas, antes de ir para o 
testamento, tenho instrues de ler esta carta." 
" Que carta  essa? 
 No sei, ela apenas me disse que, em caso de sua morte, deveria ler esta 
carta na presena do delegado. Por isso ele j deve estar chegando. 
 No estou entendendo. Por que faria isso? 
 Tambm no entendi, mas preciso atender a um pedido de minha cliente. 
Cssio comeou a suar frio. Pressentia que algo muito grave estava para 
acontecer, pensou um pouco e, com um esforo enorme, falou: 
 O senhor tem razo. Devemos atender a um pedido de Virgnia. Logo 
veremos do que se trata. 
Embora demonstrasse calma, sentia que estava perto de ver tudo com que 
sonhara perdido para sempre. Logo depois, o delegado chegou: 
 Bom-dia, doutor. 
 Bom-dia, delegado. 
 Posso saber por que me mandou chamar? 
 Sente-se, delegado. Preciso abrir um envelope que a senhora Virgnia 
deixou, mas tem de ser aberto na sua presena. 
 Por que isso? 
 No sei. Na tarde anterior ao dia em que morreu, ela esteve aqui e me 
deu estas instrues, que preciso cumprir  risca. 
Cssio queria sair dali. Disfarando, pensava: No dia anterior? Foi na tarde 
em que saiu acompanhada por Elvira. Tenho certeza de que foi logo depois 
de saber de minha situao. O que ela ter planejado? 
O advogado abriu o envelope e comeou a ler: Prezado doutor Antnio, se 
estiver lendo esta carta,  porque estou morta. H alguns dias, tomei 
conhecimento da situao financeira de meu marido, por isso vou contar 
uma histria. 
Antes que o advogado terminasse de ler, Cssio levantou-se: 
 O que tudo isso significa? O que o senhor est fazendo comigo? 
 No sei, estou apenas seguindo instrues de minha cliente. Mas por que 
#
est to nervoso? 
Antes que Cssio respondesse, o delegado falou: 


 Senhor, acredito ser melhor que volte a se sentar e juntos veremos do que 
se trata. 
No havendo alternativa, Cssio voltou a se sentar. O advogado continuou a 
ler a carta. Nela, Virgnia contava tudo o que, juntos, fizeram, desde a morte 
de Renato, depois a de Juliana e da pequena Helena. " 
"Cssio, enquanto ouvia o advogado, ficava cada vez mais nervoso. Olhou 
para o delegado e percebeu que ele estava com o rosto crivado e 
impassvel. Antes que o advogado terminasse de ler, Cssio levantou-se e, 
sem que o delegado pudesse impedir, saiu correndo do escritrio, montou no 
cavalo e foi embora em disparada. 
Aps o susto, o delegado saiu e foi em sua captura. 
Enquanto cavalgava, desesperado, Cssio ia falando em voz alta: 
 Aquela miservel! Como pude acreditar que seria fcil me livrar dela? 
Como pude acreditar que ela, esperta como sempre foi se deixaria matar 
sem nada fazer? 
Desesperado, chegou a casa, entrou correndo e passou por Elvira que, ao 
ouvir o tropel do cavalo, foi at a varanda esper-lo. Sem nada dizer, mas 
mostrando o quanto estava desesperado, gritou: 
 Saia de minha frente, Elvira! 
Ela ainda quis falar, mas ele no lhe deu tempo. Entrou correndo em seu 
quarto e fechou a porta. Ela ficou batendo, desesperada. 
 Menino, abra essa porta. Que est acontecendo? 
Ele no respondeu, e ela saiu para chamar algum para ajud-la. Viu que, ao 
longe, um cavaleiro chegava. Pressentia que algo muito grave estava 
acontecendo, mas no imaginava o que poderia ser. Ao chegar, o cavaleiro 
desmontou, falando muito nervoso: 
 O Senhor Cssio est a? 
Elvira reconheceu o delegado e ficou sem saber o que dizer. Ele percebeu 
seu nervosismo e falou: 
 Sei que sabe onde ele est. Preciso encontr-lo e prende-lo. Ele matou 
muitas pessoas. 
 No posso acreditar! O senhor est mentindo, ele jamais faria isso. 
 Posso imaginar o que est sentindo, mas, infelizmente,  a verdade, ele 
#
matou seus patres e a menina Helena. Desconfio que tenha matado a 
senhora Virgnia tambm. 
Elvira ficou paralisada. O que aquele homem estava falando no podia ser 
verdade, mas, pela expresso do rosto do delegado, percebeu que ele no 
estava mentindo. Um sbito dio tomou conta dela: 

 Ele chegou correndo e trancou-se no quarto. Por favor, senhor, diga que 
no est falando a verdade... 
O delegado, muito nervoso, disse:" 
" Por favor, minha senhora... Estou dizendo a verdade. Onde  o quarto? 
Elvira levou-o at a entrada do quarto de Cssio. Batendo  porta, o 
delegado gritou: 
 Senhor Cssio, abra essa porta! No adianta ficar escondido a. Vai ter de 
enfrentar a situao. 
Cssio no respondeu nem abriu a porta. Alguns empregados da fazenda, 
ao verem o modo como o patro havia chegado e logo em seguida o 
delegado, correram l para ver o que estava acontecendo. O delegado, 
vendo ser intil continuar chamando, resolveu sair da casa. Vendo os 
homens parados, pediu a alguns que o viessem ajudar. Entraram e, juntos, 
conseguiram abrir a porta. L dentro, Cssio estava deitado e, pela cor de 
sua pele, pde-se notar que ele estava morto. 
A seu lado, no cho, havia um vidrinho, que mais tarde se constatou ser um 
veneno muito poderoso, provavelmente o mesmo usado para matar Juliana e 
Helena. 
Novamente, a notcia correu por toda a cidade. As pessoas, agora, 
entendiam o motivo de toda a desgraa ocorrida com aquela famlia. Todos 
se condoam pelo destino que tiveram Renato, Juliana e Helena nas mos 
daqueles assassinos. No enterro de Cssio, os amigos no compareceram 
s alguns poucos empregados. 
Em seu testamento, Virgnia passou todos os seus bens para Elvira 
enquanto esta vivesse. Aps sua morte, tudo passaria para a igreja. Julgava 
que, assim fazendo, estaria comprando seu pedao no cu. 
#
A reao de Farias 

Enquanto isso, Juliana, alheia a todos esses acontecimentos, continuava 
junto de Renato e Helena. Estava pensativa, quando Renato se aproximou. 

 Ol, Renato, estava aqui pensando em Virgnia e Cssio. No os odeio 
mais, nem quero vingana, s sinto que eles destruram dentro de meu 
corao algo muito importante: a f, a confiana na amizade. Acredito que 
nunca mais poderei confiar em algum novamente. Eu os amei como irmos, 
confiava neles. Mesmo assim, foram capazes de tramar contra nossas vidas 
e a de nossa filha, que era ainda uma criana. 
 De longe, percebi que nuvens negras passavam por sua cabea. Est 
relembrando? 
 No posso evitar. Por mais que me esforce, as lembranas insistem em 
voltar. Tento esquecer, deixar de pensar e de sofrer pela atitude deles, mas 
no consigo. Hoje, devem estar felizes, usufruindo daquilo que foi meu. No 
consigo me conformar com tanta maldade. 
 Sei e entendo o que est sentindo, mas sei tambm que voc, com o 
tempo, conseguir esquecer e perdoar. 
 No sei h quanto tempo estou aqui, mas sinto que preciso fazer algo 
para preencher meu tempo. Vejo os outros indo e vindo, todos trabalhando 
em algo. Eu, pelo contrrio, fico aqui parada sem ter o que fazer, e isso faz 
com que eu tenha muitos pensamentos ruins. 
 Gostaria de fazer algum tipo de trabalho? 
 Claro que gostaria! Ser que poderia arrumar? 
 Posso e vou providenciar. Vou falar com Marina. Ela, com certeza, 
encontrar algo em que possa trabalhar. 
Antes que Juliana dissesse algo, como se os estivesse ouvindo Marina veio 
se aproximando deles. Quando chegou perto, com um largo sorriso, disse: 
 Juliana, vejo que agora est muito bem. Isso s pode trazer felicidade ao 
corao de todos que esto aqui e a amam." 
" Estou muito feliz tambm. Ai! Ai, que dor! Renato, que dor  esta? 
Rogrio... Estou pensando muito em Rogrio. Vejo seu rosto. Parece que 
est sofrendo. 
Renato, muito assustado, abraou Juliana e, olhando para Marina, 
perguntou: 
#
 O que est acontecendo? Por que ela est sentindo essa dor? 
 Provavelmente, Rogrio est, neste momento, pensando nela, com muita 
dor e desespero. Seu pensamento a atingiu. Ela est sentindo o mesmo 
sofrimento que ele. 
Juliana, ainda com muita dor, disse: 
 Ento, ele deve estar sofrendo muito, porque a dor  imensa. O que 
poderemos fazer para ajud-lo? 
 Vamos nos dar as mos, fechar os olhos e juntos pensarmos em Rogrio. 
Nosso pensamento nos levar at ele. 
Renato e Juliana seguraram forte nas mos que Marina estendia. Fecharam 
os olhos. Ficaram assim com o pensamento forte, pensando naquele amigo 
muito querido. Quando abriram os olhos, estavam na casa de Rogrio em 
Portugal, no momento exato em que um senhor terminava de ler uma carta. 
Rogrio chorava desesperado: 
 No acredito! Ela no faria isso. Amava-me, tenho certeza, amos nos 
casar, ela estava feliz. Meu pai, no pode ser verdade. Preciso voltar para l 
o mais rpido possvel. Preciso saber o que aconteceu realmente. 
 Filho, posso imaginar o que est sentindo, mas infelizmente deve ser 
verdade. Seu primo no brincaria com um assunto como este. Voc conviveu 
com essa moa por poucos dias, no teve tempo de conhec-la realmente. 
 No, meu pai! Conheci-a o suficiente para saber que ela no faria algo 
assim, muito menos com a filha. Ela amava aquela menina. Ela estava muito 
feliz a meu lado. No posso aceitar. 
Ao v-lo naquele estado, Juliana ficou tambm com lgrimas nos olhos. 
Olhou para Renato, que, sorrindo, consentiu com a cabea. Juliana 
aproximou-se de Rogrio e abraou-o carinhosamente." 
" Meu querido, sei a dor que est sentindo, mas no deve ficar assim. 
Estou muito bem. Realmente, no fiz aquilo. Foram eles que nos destruram. 
Eu os odeio! Voc deve ir at l, sim. Deve descobrir tudo e coloc-los na 
priso! 
Novamente, voltara todo o dio que sentia por eles. Renato assustou-se por 
v-la to transtornada. 
 Juliana, tente se controlar! Agindo assim, no vai ajud-lo. S vai fazer 
com que fique mais desesperado ainda. Lembre-se da Lei e do amor. 
 Que Lei? Que amor? Rogrio est sofrendo, e a culpa  daqueles dois. 
#
Como posso no odi-los por isso? 

 Neste momento, a nica coisa que pode fazer  deixar que o amor flua 
em seu corao. Envolva Rogrio com muito carinho e amor.  disso que ele 
precisa no de seu dio. 
Juliana comeou a chorar. 
 Sei que preciso me acalmar, mas  mais forte que eu. No consigo me 
controlar. Como demonstrar um sentimento que no sinto? Neste momento, 
estou sentindo um dio muito grande. O que quer que eu faa? Quer que eu 
minta? 
Marina interrompeu-os: 
 Entendemos o que est sentindo.  normal que isso acontea no se 
preocupe. Voc no est suportando ver mais uma pessoa que ama 
sofrendo por uma maldade de outros. Sente dio. Sente desejo de vingana. 
Sinta tudo isso, mas por pouco tempo. Depois, retorne para a Lei. Entenda 
que ela  sbia, que tudo v. E a tudo d a devida ateno. Confie nela. 
Acredite que tudo est certo. 
Ao ouvi-la, Juliana sentiu um bem-estar enorme. Sentiu que todo aquele 
dio, como por encanto, havia passado. 
 Obrigada, Marina, e perdoe-me por este momento. Durante todo este 
tempo, aprendi que a Lei  maior que tudo. Mas no consigo aceitar o que 
eles nos fizeram sofrer e que agora desfrutem de tudo, como se nada 
houvesse acontecido... 
 Neste momento, no deve se preocupar com isso. Deve apenas ajudar 
Rogrio para que ele no sofra tanto." 
"Enquanto Marina conversava com Juliana, Renato estava perto de Rogrio 
e, com as mos, lanava sobre ele raios de luz. Ele ainda chorava, mas 
agora com mais tranqilidade. 
Seu pai, muito emocionado, tambm o abraava. Marina aproximou-se do 
velho senhor e colocou as mos em sua cabea, sobre a qual agora caam 
luzes coloridas. Ele comeou a dizer: 
 Meu filho, este momento est sendo difcil, mas pense bem: o que 
adiantaria ir at l s para descobrir o que aconteceu realmente? Isso agora 
no tem mais importncia. Precisa continuar a vida. Deus  nosso pai. Ele  
quem sabe de tudo. Confiemos em sua bondade. 
Marina acompanhava, sorrindo, as palavras que ele dizia. Juliana percebeu 
#
que Rogrio, aos poucos, parava de chorar. Ela tambm se aproximou e o 
abraou com muito carinho. Ele, ao sentir aquele abrao, lembrou de seu 
rosto sorrindo e dizendo o quanto ele a havia feito feliz. Marina, sorrindo, 
disse: 

 Juliana, percebeu o poder do amor? Se quiser ver Rogrio realmente 
bem, ter de fazer sempre isso: enviar-lhe pensamentos de amor e de 
carinho. Vocs tero outras chances de ficar juntos. Isso precisa acontecer, 
porque os dois tero de cumprir uma misso que agora foi interrompida. No 
esquea nunca que a Lei  sbia. 
Renato abraou-a e deu-lhe um suave beijo. Ela correspondeu, sabendo 
agora que ele havia sido o verdadeiro amor de sua vida. Por Rogrio, sentia 
um profundo carinho, mas sabia que no era amor. 
Rogrio, com a voz mais calma, respondeu a seu pai: 
 Talvez o senhor tenha razo, mas preciso voltar ir at seu tmulo, para 
poder, finalmente, aceitar que toda essa desgraa tenha se abatido sobre 
ns." 
" Se acredita que isso seja necessrio, ter todo o meu apoio. Sabe muito 
bem que a nica coisa que me importa nesta vida  ver voc e seus irmos 
bem. 
 Obrigado, meu pai, por entender o que estou sentindo. Irei o mais cedo 
possvel. 
Juliana sorriu ao ver a atitude que ele tomara. Olhou para Marina, 
perguntando: 
 Que faremos agora? 
 Voltaremos para nosso lugar. Ele agora est melhor e voc tambm. No 
esto mais sentindo aquela dor de antes. 
  mesmo. Havia me esquecido da dor. Como pode? 
 Neste momento, ele est pensando em voc com carinho e amor, por isso 
as vibraes dele lhe chegam como um suave alento. 
 Quer dizer que eu sentia a mesma dor que ele? Quer dizer que seu 
sofrimento tambm me fazia sofrer? 
 Isso mesmo. Acontece sempre quando algum, na Terra, no se conforma 
com a partida de um ente querido. A dor de um se transforma na dor dos 
dois. E, ao contrrio, quando da Terra  enviado um pensamento de amor, 
carinho e saudade, isso faz bem aos dois. Podemos voltar agora? 
#
 Mas e Rogrio? Ficar sozinho? 
 Nunca estamos sozinhos, por piores que formos. Ele ter toda a ajuda 
necessria, s que no poder ser a sua. Voc ainda no est em condies 
de ajud-lo. Sua presena poder lhe causar muito mal, por isso ser melhor 
irmos embora. 
 Se no h alternativa, s posso concordar, mas, antes, no podamos 
passar na fazenda? Gostaria de saber como tudo est caminhando por l. 
 Se acredita que lhe far bem, podemos ir desde que prometa se 
comportar e no interferir no livre-arbtrio de Cssio ou de Virgnia. 
 Farei o possvel, mas na realidade estou com muita saudade de Elvira. 
Ela deve estar sofrendo muito com nossa partida. 
 Elvira  um esprito amigo que a acompanha j h muito tempo. Ela sofre 
muito, sim, mas tem muita proteo. Vamos at l, voc precisa saber o que 
est acontecendo." 
"Juliana deu um ltimo olhar para Rogrio, que agora, aps chorar e se 
desesperar, pensava nela com muito amor e carinho. Ela se aproximou e 
com um sorriso, beijou sua testa. Em seguida, dando-se as mos 
novamente, ela, Renato e Marina fecharam os olhos. 
Chegaram  casa-grande da fazenda, exatamente no momento em que 
Cssio, desesperado, se preparava para morrer. Sem que Juliana 
conseguisse evitar, ao ver aquela cena, embora no quisesse, em seus 
olhos surgiu um brilho de felicidade. No sabia o que estava acontecendo, 
mas percebeu que deveria ser algo muito grave. 
Marina tentou se aproximar de Cssio para evitar que ele tomasse aquela 
atitude drstica, mas Virgnia e alguns vultos negros estavam em volta dele e 
no permitiram. 
Juliana gritou: 
 Marina, perdoe-me, mas voc no pode fazer isso! Se eu no posso 
interferir no livre-arbtrio, voc tambm no pode! Ele tem de fazer isso. 
Precisa pagar por todo o mal que nos fez! 
Marina, com lgrimas nos olhos, disse: 
 Tem razo. Embora tenha vontade de ajud-lo, mesmo que quisesse no 
poderia. Ele est protegido por espritos que atraiu para si, nada poderei 
fazer. A Lei tem de ser cumprida. A Lei do livre-arbtrio  soberana. 
Virgnia no podia ver os vultos negros. Ela envolvia o corpo de Cssio, 
#
dizendo: 

 Voc tem de fazer isso. No h outra sada. Precisa vir para minha 
companhia. Estou esperando-o. 
Farias, quando ouviu Juliana, falou: 
 Damio, ela tem razo. Ele tem de concretizar o que est pensando. Ele 
tem de se matar. Precisa pagar por tudo o que fez. Tem de ir para o vale. 
A tela novamente se congelou. Damio olhou para ele e, sorrindo, disse: 
 Tem certeza de que isso  o que deve acontecer? 
 Claro que tenho! Se a Lei existe, ela tem de ser cumprida. Ele merece 
todo o sofrimento do mundo. 
 Se acredita nisso, vamos fazer com que se cumpra a Lei. Fez um sinal 
para Duarte. Na tela, estavam os rostos de Cssio, Virgnia e Juliana. Aos 
poucos, eles foram se transformando. Ao ver aquilo, Farias gritou:" 
" Que  isso? Que est acontecendo? No pode ser... No acredito!  uma 
Mentira! 
Realmente, ele tinha de estar assustado. Os rostos na tela se 
transformaram. O de Virgnia transformou-se no rosto de Marlene. O de 
Juliana, no rosto de Mrcia, e o de Cssio, no rosto dele prprio. Farias, com 
os olhos arregalados, dizia: 
 No pode ser! Eu no fiz todas essas maldades. Aquele no sou eu. 
Damio colocou a mo em seu ombro, dizendo: 
 Sim, meu irmo,  voc mesmo. Foi voc quem cometeu todo o mal na 
vida da Juliana de ontem, aquela mesma que hoje  Mrcia, a quem voc 
tanto odeia. A mesma contra quem exige que a Lei seja cumprida. Voc. S 
voc, por se julgar injustiado, poder dar a ela a sentena que julgar 
merecida. 
Naquele instante, no pensamento de Juliana, surgiram os rostos de Helena e 
Rogrio. Apareceram por um instante e foram se transformando nos rostos 
de Lenita e Ronaldo. 
Farias ficou mais desesperado ainda. Quis se levantar da poltrona para 
poder fugir, mas uma fora maior o prendeu. Olhava desesperado para a tela 
e para Damio. Este, com o rosto srio, disse: 
 No adianta querer fugir, no vai conseguir. Estamos aqui por voc. Exigiu 
que a Lei fosse cumprida. Precisamos agora ir at o fim. Qual  a sentena? 
O que acredita que deve ser feito com Cssio? 
#
Farias, agora, chorava muito: 

 No sei. No sei. No sei... 
 E com Mrcia? Qual deveria ser a sentena? O que acha que ela 
merece? 
 No sei. No sei. No sei... 
 Entendeu, agora, meu irmo, por que tantas vezes pedi a voc que 
deixasse a Lei maior ser cumprida, por meio do perdo e do amor? 
No auge do desespero, Farias gritou: 
 Damio, por favor, ajude Cssio! No permita que ele faa o que 
pretende! 
 No posso. Ele teve ontem seu livre-arbtrio, como voc teve hoje o seu. 
Ontem, ele cometeu suicdio; hoje, como Farias voc tambm se suicidou. 
Damio levantou-se e estendeu as mos sobre a cabea de Farias, que 
chorava muito. Aos poucos, ele foi se acalmando." 
" Sou obrigado a reconhecer que mereo tudo que me aconteceu, Damio. 
Fui um canalha. Mas como uma moa doce como Juliana pode ter se 
transformado em um monstro como Mrcia? 
 A culpa tambm foi sua. Voc a traiu, enganou e mentiu. Nesta 
encarnao, ela veio prevenida contra tudo que passou na anterior. No quer 
saber o que aconteceu com Cssio e Virgnia? 
 Quero claro que quero. Como Virgnia se transformou em Marlene, que vi 
cercada de tanta luz? 
Continuemos assistindo. 
A imagem na tela voltou a se movimentar. Juliana estava ali novamente, 
diante de seus inimigos e ao lado de Rogrio e Helena. Tentou conversar 
com eles, mas no conseguiu. Rogrio e Helena estavam com a imagem 
congelada. Pensou: 
Vendo Virgnia e Cssio em minha frente, no posso deixar de pensar que, 
por culpa deles, fui obrigada a me afastar de Rogrio, um homem to gentil e 
amvel Marina e Renato dizem que tenho de perdoar, mas como posso fazer 
isso? Eles foram maus e mesquinhos, no tiveram compaixo de mim, de 
Renato e, principalmente, de Helena. Sei que, um dia, talvez, eu os perdoe, 
mas por enquanto no pode ser. 
Ficou ali olhando Virgnia, que, pairando sobre Cssio, continuava dizendo: 
 Voc no pode parar. Tem de ser agora. O delegado est chegando. 
#
S naquele momento Juliana percebeu que Virgnia no estava mais viva. 

 Renato, ela est morta? Ela morreu? Como aconteceu? 
 Foi vtima de seus prprios atos. Durante toda a vida ela se cercou de 
companhias que a envolveram, lhe deram ideias e a ajudaram a praticar 
todas aquelas maldades. Aps seu assassinato e o de Helena, ela se voltou 
contra Cssio e ele a matou. 
Juliana comeou a rir. 
 Est me dizendo que eles brigaram? Ele a matou? 
 Sim, por isso ela est agora a seu lado, esperando que ele cometa esse 
ato, para poder lev-lo com ela. Mas voc no deveria ficar feliz. Cssio  
um irmo que mais uma vez no conseguiu vencer e est prestes a cometer 
um erro novamente. 
 Novamente? Ele j se suicidou antes?" 
" Sim, pelo mesmo motivo: covardia. 
Farias agora estava quase deitado na poltrona, envergonhado, querendo se 
esconder. Damio apenas olhou, mas ficou calado. Na tela, finalmente 
Cssio tomou de uma s vez todo o veneno no prprio vidrinho. 
No mesmo instante, sentiu que era arrancado violentamente do corpo. Viu os 
vultos que o esperavam. Sentindo-se livre, quis fugir, mas no conseguiu. 
Saiu correndo e eles foram atrs. Desesperado e com muito medo, 
desmaiou. 
Marina, com os olhos tristes, disse: 
 Vamos embora, nada mais temos para fazer aqui. Agora, ele est 
entregue  sua prpria sorte. 
Juliana, apesar do dio que julgava sentir por eles, ficou horrorizada com 
tudo o que acabara de ver. Disse: 
 Vamos embora, sim. Acredito que a Lei realmente existe. Vamos deixar 
que ela siga seu curso. 
Foram embora, abraados. Assim que retornaram, Juliana correu para junto 
de Helena, que brincava com outras crianas. 
Aproximou-se, abraou-a e, com o rosto por trs dos cabelos da menina, 
chorou muito. No dizia o que estava pensando, apenas abraava a filha 
com muito carinho, enquanto seus pensamentos fervilhavam: 
Meu Deus, obrigada por ter me livrado de tudo aquilo que vi. Obrigada por 
ter permitido que, quando deixei a Terra, tivesse Renato e meu pai  minha 
#
espera. Perdo por todas as coisas que disse. Confio hoje na Lei. Sei que 
ela existe e que  implacvel. 
Beijou Helena, deixou-a brincando e foi procurar Renato. Quando o 
encontrou, ele estava conversando com outras pessoas. Discutiam sobre o 
que fariam  noite, quando teriam uma reunio. Ela se aproximou. Ao v-la, 
ele, sorrindo, perguntou: 


 Como est, meu amor? Esteve com Helena? 
 Estou bem. Sim, estive com ela, parece que est muito bem. 
Preciso falar com voc a respeito do trabalho que Marina disse que 
encontraria para que eu fizesse. 
 Vamos falar com ela?" 
" Gostaria muito. Sinto que preciso fazer algo para preencher meu tempo. 
Despediram-se das pessoas com quem Renato conversava e foram em 
busca de Marina. Ela os recebeu com um largo sorriso: 
 Como esto? Que bom v-los juntos. Esto precisando de alguma coisa? 
 Estou sim. Lembra-se do dia em que disse que iria arrumar algo para eu 
fazer? Queria saber se j pensou a respeito. 
 Estou amadurecendo uma ideia, Juliana. D-me mais alguns dias. 
Acredito que vai gostar muito, tenha s mais um pouco de pacincia. 
Juliana sorriu e afastou-se, acompanhada por Renato. Ele disse: 
 Tenho de continuar aquela conversa que estava tendo. Esta noite ser 
muito especial. Quer ficar junto? 
 No. No entendo ainda desses assuntos e vou andar um pouco pelo 
jardim. 
Ele a beijou e se afastou. Ela foi para o jardim. Andou um pouco, sentou-se 
em um banco e olhou  sua volta, pensando: 
Aqui tudo  to bonito... Respira-se muita paz. Todas as pessoas que aqui 
esto parecem muito felizes. Que bom seria se as pessoas na Terra 
soubessem como  a vida aps a morte. Talvez no sofressem tanto quando 
um ente querido partisse. 
Estava assim, presa em seus pensamentos, quando uma senhora se 
aproximou e se sentou a seu lado, dizendo: 
 Tambm est esperando algum? Juliana olhou para ela e respondeu 
sorrindo: 
 No. Estou apenas apreciando tudo. 
#
 Estou j h muito tempo esperando um de meus filhos. Eles me 
colocaram aqui neste hospital e nunca mais vieram me visitar. No sei o que 
aconteceu. Em todos os outros hospitais em que estive eles sempre vinham, 
mas neste est sendo diferente. 
Juliana percebeu que ela no sabia de sua condio. Notou que aquela 
senhora estava muito triste, mas no sabia o que falar para ajud-la. Tentou: 
 A senhora no deve se preocupar com isso. Eles podem estar com algum 
problema, mas a senhora me parece muito bem, s est um pouco ansiosa. 
Precisa fazer algo para tomar seu tempo. J sei! Venha comigo." 
"Levantou-se e levou a velha senhora at o pavilho onde se encontravam 
as crianas. Ali chegando, encaminhou-se em direo a uma moa que 
parecia ser a coordenadora do local: 
 Ol, Paula, posso falar com voc? 
 Ol, Juliana, claro que sim. Est precisando de alguma coisa? 
 Estou. E acho que pode me ajudar. Esta senhora est esperando que os 
filhos a venham visitar. Disse a ela que eles devem estar muito ocupados, 
mas que ela precisava preencher seu tempo para no ficar to ansiosa. 
Poderia nos ajudar? 
Paula entendeu o que Juliana queria fazer. Pensou por um instante e disse: 
 Estou precisando exatamente de algum como  senhora. Algumas de 
nossas crianas esto muito tristes, talvez a senhora possa nos ajudar a 
fazer com que fiquem mais alegres. 
 Eu? No sei como faria isso. J estou muito velha. 
 Isso no importa. A senhora deve conhecer muitas histrias e brincadeiras 
de seu tempo. Poder contar histrias e ensinar as brincadeiras. 
A mulher pensou por um minuto. Seus olhos brilharam. 
 Sim, conheo muitas histrias e brincadeiras. Ser que as crianas 
gostariam mesmo? 
Paula olhou para Juliana e, sorrindo, disse: 
 Gostaro, sim, tenho certeza. Obrigada, Juliana, agora ela ficar bem. 
Juliana saiu aliviada, deixando Paula acompanhar a mulher. Estava saindo, 
quando encontrou Marina, que vinha entrando. Ao ver Juliana, disse: 
 Est gostando de seu trabalho? 
 Trabalho? Que trabalho? 
 Voc acabou de encontrar uma soluo para nossa irm Sara. Ela j est 
#
aqui h muito tempo, mas at hoje no conseguimos fazer com que 
realizasse algo. Era muito apegada aos filhos, exercia sobre eles total 
controle. Desde que aqui chegou, no aceita que eles no a venham visitar. 
Sofre muito por isso. O apego em demasia a qualquer coisa traz muito 
sofrimento. Hoje, voc conseguiu fazer com que ela se interessasse por 
algo. Parabns. 
Juliana olhou para ela, tentando acompanhar o que dizia:" 
" Est dizendo que fiz um trabalho? 


 Sim, e muito importante. Percebi que voc tem muito jeito com pessoas 
idosas. De hoje em diante, ficar responsvel por todas que aqui chegarem. 
Que acha? 
Juliana lembrou-se de Elvira, de como era boa e carinhosa Respondeu: 
 Ficarei muito feliz se conseguir ajudar. 
Marina saiu, sorrindo. Juliana ficou olhando para Sara, que agora estava 
rodeada de crianas. Percebeu que ela falava com muito entusiasmo. No 
ouvia o que estava dizendo, mas, pela expresso das crianas, percebeu 
que a velha senhora havia encontrado um motivo para ser til, e ela tambm. 
Daquele dia em diante, ficou encarregada de dar boas-vindas a todos os 
recm-chegados. Aquele trabalho lhe fez muito bem. 
Enquanto isso, Cssio, que desmaiara de tanto horror, abriu os olhos, olhou 
 sua volta e viu Virgnia a seu lado, rindo, vitoriosa: 
 Finalmente, voc acordou. Estive esperando-o neste lugar imundo por 
muito tempo. Sabia que chegaria a qualquer momento. Fiquei esperando 
ansiosa. Voc sempre foi um idiota! Acreditou que poderia me enganar? 
Acreditou ser mais esperto que eu? Pois no era e nunca foi! Estou aqui e 
ficarei para sempre a seu lado. Vou fazer voc pagar por ter tirado minha 
vida. 
 No pode ser voc. Est morta! 
 E voc tambm! Estamos os dois juntos na mesma jornada, somos 
cmplices dos mesmos crimes e, por isso, estaremos ligados por muito 
tempo. 
Cssio no queria acreditar. Fechou e abriu os olhos, vrias vezes, para 
certificar-se de que no estava sonhando. Virgnia ria s gargalhadas, 
demonstrando, assim, sua situao quase de demncia: 
 No adianta. Est mesmo morto e estarei a seu lado, atormentando-o 
#
para sempre. Juliana, Renato e Helena tambm esto aqui. Voc vai revlos, 
a todo o momento, como acontece comigo desde que aqui cheguei. Eles 
no me deixam em paz... 
Cssio olhou ao redor novamente e percebeu que o lugar era horrvel. 
Escuro e lamacento. Ouviu gritos de dor, mas no conseguia ver de onde 
vinham. Sentiu muito medo." 
" Que lugar  este? No quero ficar aqui. Preciso encontrar uma sada. 


 No existem sadas. J procurei. Estamos presos aqui para todo o 
sempre, ou melhor, por toda a eternidade. 
 Voc est mentindo! No estou morto. Apesar do veneno, continuo vivo e 
bem vivo! 
 Tambm tive essa impresso quando aqui cheguei, mas aos poucos 
percebi que havia morrido mesmo. Olhe meu rosto. 
Ela virou o rosto para uma pequena fresta de luz e aproximou-se de Cssio, 
que gritou horrorizado ao ver o rosto de Virgnia descarnado e apodrecido. 
Saiu correndo e gritando. Depois de ter dado alguns passos, tropeou e caiu. 
 sua frente, apareceram Renato, Juliana e Helena querendo peg-lo. Ele se 
levantou e continuou correndo, na esperana de fugir daquelas figuras que o 
faziam lembrar-se dos crimes que cometera. 
Correu, correu muito. Enquanto corria, encontrava seres feios e horrendos 
que o queriam pegar tambm. Correu, gritou e tentou se esconder, mas no 
havia para onde ir. Virgnia seguia-o rindo de todo aquele desespero. Deixou 
que ele tentasse, at se cansar. Ela estava feliz: ele, tanto quanto ela 
merecia tudo o que estava passando. 
Depois de muito correr e perceber que no adiantava, ele se atirou ao cho e 
comeou a chorar sem parar. Seu estmago doa, no sabia se de fome ou 
por causa do veneno que havia tomado. 
 No posso acreditar que esteja morto. Sinto tantas dores e tanta fome. 
  assim mesmo. Sentir que seu corpo precisa das mesmas coisas que 
antes, s que no ter como saci-lo. E isso durar por toda a eternidade. 
 No! Voc est mentindo! No estou morto. Tudo isto  s um sonho! 
Ouviram um estrondo, e uma fumaa espessa tomou conta dos dois. Do 
meio dela surgiu a imagem de suas vtimas, que se lanavam sobre eles 
com os rostos crispados de dio. 
Eles comearam novamente a correr para tentar se esconder, mas no 
#
conseguiam encontrar um lugar. O horror tomou conta dos dois. A fumaa 
desapareceu, e com ela as imagens. Apavorada, Virgnia chorava muito:" 
" Durante o tempo em que estive sozinha, eles nunca apareceram dessa 
forma. Meu Deus, isso vai durar at quando? 
Assustado, Cssio escondia os olhos com as mos. 


 Deve existir uma sada. No posso agentar todo esse horror. 
Aquele lugar era sempre escuro, por isso eles no viam o tempo passar, no 
sabiam se era dia ou noite. 
Eles viam a todo instante a imagem de Juliana, que sempre surgia chorando 
e implorando por sua vida e a da filha. Eles escondiam o rosto, horrorizados. 
O remorso, aos poucos, foi tomando conta de seus pensamentos. Aquela 
imagem que, a princpio, fazia com que eles sentissem medo, agora os fazia 
sofrer ainda mais, por entenderem, finalmente, os crimes cometidos. Um 
acusava o outro 
Por tudo. No conseguiam ficar separados. Quando tentavam se afastar, 
figuras horrendas apareciam, obrigando-os a ficar juntos. Sentiam fome, e se 
desesperavam ao ver os corpos se descarnando. Os gritos de agonia no 
paravam. Mais uma vez, as imagens apareceram. Juliana chorava: 
 No faam isso! No quero morrer. Vou ser feliz novamente. Deixem 
minha filha em paz! Ela  s uma criana. Fao tudo o que quiserem. Dou 
tudo que  meu, mas no faam mal para minha filha! 
Horrorizados, os cmplices se abraavam e choravam. Tentavam fugir, mas 
no adiantava: para onde iam, as imagens os perseguiam. 
Enquanto isso, na fazenda, Elvira agora era a dona de tudo. Desde que 
tomara conhecimento disso, ficou sem saber o que fazer. No entendia nada 
de lavoura. Sempre fora apenas uma empregada. Criara Juliana e Virgnia, 
apenas isso. Mandou chamar Andr, e ele prontamente atendeu seu pedido: 
 A senhora me chamou? 
 Sim. Preciso de sua ajuda. Sei que sempre foi o homem de confiana do 
pai de Juliana, de Renato e, por fim, de Cssio. Com a morte de todos, a 
fazenda ficou em meu nome. Sabe muito bem que no entendo nada do 
assunto, por isso preciso de sua ajuda. 
 No se preocupe: farei o possvel para que nada mude. Pode confiar. 
Tudo dar certo." 
#
"Realmente tudo deu certo. Ele continuou cuidando da fazenda com muita 
competncia, como sempre fizera. 
Elvira, porm, apesar de ser dona de tudo, vivia sempre muito triste. 
Enquanto eu viver, serei dona desta fazenda e de tudo o mais. O que adianta 
tudo isso? No tenho mais minhas crianas. Por causa disto tudo, crimes 
aconteceram. Para qu? Para qu? 
Estava assim na varanda pensando, quando viu uma carruagem na estrada 
de acesso  fazenda. Curiosa, ficou olhando. A carruagem se aproximou, 
parou em frente  escadaria e dela desceu Rogrio. Ao v-lo, ela deu um 
grito: 


 Senhor Rogrio! Senhor Rogrio! Que bom que veio! 
Ele, muito nervoso, subiu as escadas correndo e abraou Elvira, que agora 
chorava muito. 
 Como estou feliz por v-lo aqui! Quanto pensei no senhor durante todo 
esse tempo. 
 Vim assim que recebi a carta. No consigo acreditar que Juliana fez 
aquilo. Por favor, diga que ela no o fez. Onde esto Virgnia e meu primo? 
Ela percebeu que ele no sabia o que havia acontecido. 
 No, meu filho, ela no o fez. Ela o amava muito, estava feliz esperando 
sua volta. Assim como voc, nunca acreditei em seu suicdio. Vamos entrar, 
temos muito para conversar. 
Ele, mais tranqilo por saber que Juliana no era culpada, acompanhou 
Elvira. Sentaram-se  mesa que havia na sala. Ela, chorando, contou tudo. 
Ele a ouvia sem acreditar. Seu primo sempre foi para ele um exemplo de 
bom carter. Por isso, ele o respeitava muito. 
 Elvira, no pode ser. Cssio no faria isso. No consigo acreditar no que 
diz. 
 Sei o quanto custa acreditar, mas, infelizmente, aconteceu tudo do modo 
como lhe contei. Ele e Virgnia tramaram contra a vida de Renato, de Juliana 
e de Helena, tudo por ganncia. De que adiantou? Eles foram embora e tudo 
continua aqui do mesmo modo. 
Os sentimentos de Rogrio eram desencontrados. Ele sentia muito amor e 
saudade de Juliana; ao mesmo tempo, dio, desiluso e muita decepo em 
relao a seu primo." 
#
" Elvira, diga-me que nada disso aconteceu. Por favor, faa isso. No 
quero que seja verdade. 
Ela se levantou e o abraou. Ele chorava violentamente. 


 Infelizmente, no posso fazer isso. Queria do fundo do meu corao, dizer 
o que me pede. Mas no posso. Aconteceu, realmente. Minhas crianas 
foram embora. Voltaram para Deus. 
Ele continuou ali chorando por muito tempo. Depois se levantou e foi para o 
quarto de Juliana. Entrou. Olhou para tudo. Olhou para a cama, onde haviam 
sido to felizes. Deitou-se sobre ela e chorou, chorou por muito tempo. 
Novamente, Juliana se lembrou dele e sentiu aquela dor que j havia sentido 
uma vez. Correu para falar com Renato. Encontrou o e contou-lhe o que 
estava acontecendo. A dor no passava e ficava cada vez mais forte. Foram 
juntos falar com Marina. Ela ouviu o que Juliana tinha para contar. Depois, 
disse: 
 Ele est novamente pensando em voc com muita dor. Precisamos ajudlo, 
para que voc mesma no sofra. Vamos at ele. Deem-me suas mos, 
fechemos os olhos e faamos uma orao, pedindo ajuda. 
Assim fizeram. Em poucos segundos, estavam na fazenda, dentro do quarto, 
onde Rogrio chorava. Juliana aproximou-se, colocou a mo no rosto dele e 
beijou sua testa. Marina e Renato colocaram as mos sobre a cabea dos 
dois. Uma luz branca saiu de suas mos e os envolveu. Juliana dizia: 
 Rogrio, meu querido, no precisa sofrer assim. Estou muito bem. Voc 
tambm dever ficar. Somos filhos de um Deus maior que est sempre ao 
nosso lado, dando-nos todo o amor que tem e que  imenso. Continue sua 
vida. Voc  bom, por isso nada deve temer... 
Ele, que chorava muito, deitado sobre a cama, aos poucos foi se acalmando. 
Via diante de si o rosto de Juliana sorrindo e falando da felicidade que sentia 
por t-lo encontrado. Sabia agora de toda a maldade que havia sofrido. Foi 
se acalmando, levantou-se e voltou para a sala acompanhado pelos trs 
amigos espirituais. " 
"Encontrou EIvira, que, ainda sentada  mesa, continuava chorando. Ao vla, 
Juliana correu para ela e abraou-a com muito carinho. 
 Querida EIvira, como estou feliz por rev-la. Voc foi  me que no tive. 
Criou-me e cuidou de mim sempre com tanto carinho. No chore. No sofra. 
Estamos, agora, eu e Helena muito bem. Ajude Rogrio. Ele, sim, precisa de 
#
suas palavras de consolo. 
EIvira viu Rogrio se aproximando. Levantou-se e disse, sorrindo: 


 Parece que, agora, est melhor, mais calmo. No sei meu filho, mas tenho 
a sensao de que Juliana e Helena esto muito bem e felizes. Precisamos 
nos lembrar delas com carinho, mas nunca com dor. Demorei muito para 
entender isso, mas agora, no sei por que, estou sentindo que deve ser 
assim. 
 Eu amei e amo Juliana com todo o meu corao. Pela primeira vez em 
minha vida acreditei que seria feliz, mas nada disso aconteceu. Por maldade, 
estamos, hoje, separados e de uma maneira sem volta. Como posso aceitar 
sem me revoltar? 
 Devemos confiar na vontade de Deus. Estou feliz que tenha voltado. 
Enquanto eu viver, serei a nica dona de tudo que pertenceu  menina 
Juliana. Depois, tudo passar para a igreja. Infelizmente, suas posses foram 
o motivo de tanta ganncia. No sei como cuidar disso. Andr est tomando 
conta, e muito bem, mas voc  a nica famlia de Cssio, por isso acredito 
que seja quem tem o direito de tomar conta de tudo. Estou velha e logo mais 
irei me encontrar com minhas crianas. 
 No estou entendendo onde est querendo chegar. 
 Estou pedindo que fique aqui conosco, que cuide de tudo. Rogrio no 
respondeu no mesmo instante. Saiu da sala, foi at a varanda. Em seu 
pensamento, a imagem de Juliana voltou a surgir. Reviu-a no dia em que 
chegou: ele embaixo, descendo da carruagem; ela no alto, naquele mesmo 
lugar em que ele estava agora. " 
"Quando a viu, sentiu que ela era a mulher de sua vida. Fechou os olhos. 
Marina, a seu lado, jogava sobre sua cabea luzes coloridas. Juliana ficou 
encantada com a beleza daquelas luzes. Com um sinal feito com as mos, 
Marina fez com que ela tambm estendesse as mos. Juliana obedeceu e, 
de suas mos, tambm comearam a sair luzes. Ela no acreditava e 
comeou a rir. Renato fez o mesmo gesto. Rogrio ficou totalmente 
envolvido por aquelas luzes. Sentindo um bem-estar profundo, voltou para a 
sala. Chegou junto de Elvira, que o olhava ansiosa para saber sua resposta. 
Ele se sentou em uma cadeira  sua frente e disse: 
 Pensei bem, e estou sentindo como se Juliana estivesse aqui, agora, ao 
nosso lado. Sinto que ela quer que eu permanea aqui. Assim farei. Ficarei e 
#
no deixarei que nada se destrua. Continuarei vivendo com a certeza de que 
um dia estarei a seu lado. 

 Obrigada, meu filho.  isso mesmo o que estou sentindo. Ela est aqui... 
Juliana olhou para Marina, que sorriu e disse: 
 Agora est tudo bem. A vida continuar para eles. Os problemas normais 
da vida surgiro, o que far com que aos poucos se envolvam com outros 
assuntos e lembrem-se cada vez menos de tudo que aconteceu, mas, 
quando se lembrarem, ser uma saudade boa. 
Juliana, abraada a Elvira, disse: 
 Como posso perdoar aqueles dois que, alm de fazerem tanto mal  
minha famlia, atingiram tambm estes meus dois queridos? No precisavam 
estar sofrendo assim. Nunca poderei perdoar. 
Marina apenas sorriu. 
 Agora que tudo est bem por aqui, podemos voltar Temos muito trabalho. 
Vamos embora? 
Abraaram-se e pouco depois estavam de volta a seu lar atual. 
O tempo passou. Juliana e Renato estavam cada vez mais juntos, porm 
Cssio e Virgnia continuavam vivendo o horror que eles mesmos haviam 
criado para si. Continuavam correndo, escondendo-se, sempre juntos, 
porque tinham medo de ficar sozinhos. " 
"Brigavam muito, trocando acusaes e responsabilizando-se um ao outro 
por toda aquela situao. 
Corriam de um lado para outro. Sentiam fome, frio. Aos poucos, foram 
entendendo por que estavam ali. Choravam muito e, nessas horas, se 
abraavam. Em determinado momento, Virgnia falou, quase gritando: 
 Cssio, que foi que fizemos? Ns destrumos trs vidas... Por qu? Para 
qu? 
Cssio a ouviu e tambm comeou a chorar, pois percebia agora a 
inutilidade de tudo. 
 Tem razo. Nossa ganncia, nossa covardia nos conduziu at aqui. A 
fazenda, o dinheiro esto l, no mesmo lugar. Tem razo. O que fizemos? 
Para qu? 
Mais uma vez os cmplices se uniram e se abraaram s que desta vez 
estavam unidos na dor e no arrependimento. 
Muito tempo se passou. Cssio e Virgnia no sabiam precisar quanto. 
#
Viviam escondidos e protegendo-se mutuamente. A inimizade que a princpio 
existia entre os dois foi se tornando, com o tempo, uma necessidade 
imperiosa de ficarem juntos. Desesperada, Virgnia disse: 

 Cssio, deve existir um meio de repararmos todo o mal que fizemos. 
Minha me sempre dizia que h um Deus bom e generoso que nunca nos 
abandona e nos perdoa sempre. Se for verdade, ele deve estar nos vendo 
agora. Deve estar vendo o quanto me arrependo de todo o mal que fiz. 
#
Perdidos no vale 


Cssio estranhou as palavras de Virgnia. Sentia que ela estava diferente. 

 O que est dizendo? Parece outra pessoa. Virgnia agora chorava 
desesperada: 
 Talvez eu seja mesmo. Sinto muito arrependimento por tudo o que fiz. Se 
minha me tinha razo, deve existir um Deus. Meu Deus, perdo por todo o 
mal que pratiquei. Hoje, entendo a inutilidade de tudo. Juliana, onde voc 
est? Onde estiver, oua-me, por favor. Perdo... perdo! 
Juliana, embora continuasse trabalhando, s vezes se lembrava dos dois 
traidores. Nesses momentos, fazia um esforo enorme para no sentir dio, 
mas, na maioria das vezes no conseguia. Naquele dia, conversava com 
Renato, quando a lembrana de Virgnia chegou com muita fora. Ficou 
refletindo por um instante e disse: 
 Renato, estou pensando muito em Virgnia. Como ser que ela est? 
Renato fechou os olhos. Aps alguns minutos, disse: 
 No sei, mas se quiser poderemos tentar encontr-la. Voc quer? 
 No sei por que, mas hoje estou pensando muito nela e em Cssio 
tambm. Acredita que possamos realmente ir at eles? 
 Iremos descobrir agora mesmo. Venha. 
Foram procurar Marina e a encontraram em sua sala, trabalhando, como 
sempre. Juliana contou a ela o que estava sentindo. Aps ouvi-los, falou 
calmamente: 
 Est bem. Vou falar com alguns amigos e iremos procur-los. Com uma 
nica condio: no podemos interferir. Apenas veremos como esto. Est 
bem assim? 
Concordaram e saram da sala. Juliana via diante de si Virgnia, no quela 
que lhe disse todas aquelas coisas horrveis na noite em que a assassinou, 
mas sim a do tempo em que eram crianas e ela estava sempre a seu lado, 
protegendo-a e ajudando-a. 
Aps alguns dias, Marina chamou-os: 
 Podemos ir agora, estamos prontos. Vocs tambm esto? Responderam 
juntos: 
 Sim, quando iremos?" 
#
" Agora mesmo. Alguns amigos nos acompanharo. Eles devem chegar 
dentro de alguns minutos. 
Pouco depois, entraram na sala quatro pessoas. Marina os recebeu com um 
sorriso, dizendo: 


 Sejam bem-vindos. Sabem que nossa jornada ser difcil, para isso temos 
de nos preparar. Vamos dar as mos e pedir ajuda a Deus nosso Pai. 
Deram-se as mos, fecharam os olhos, e ela comeou a falar: 
 Senhor, meu Pai. Estamos aqui, neste momento, iniciando uma viagem 
em busca de conhecimento e de nossos irmos, Virgnia e Cssio. Sabemos 
que ela  longa e perigosa. Colocamo-nos em Suas mos, sabendo que nos 
proteger de todo o mal. Permita Senhor, que, se for possvel, possamos 
trazer de volta aqueles seus filhos prdigos. 
Saram e dirigiram-se ao vale. Quando chegaram, Virgnia e Cssio estavam 
abraados, ajoelhados. Virgnia dizia: 
 Pai de infinita bondade, nunca acreditei muito em sua existncia, mas 
hoje acredito e sei que  o nico que poder nos perdoar e nos dar uma 
nova chance. Hoje, entendemos toda a extenso de nossos erros. Sabemos 
da inutilidade de todo o mal que praticamos. No sabemos se poderemos um 
dia corrigir tudo. Mas, Pai, a nica coisa que podemos fazer neste momento 
 do fundo de nosso corao, pedir perdo. Perdo e perdo. Juliana... 
Renato... sabemos, tambm, que devem estar em um lugar muito bom, pois 
foram apenas vtimas em nossas mos. Perdo... perdo... perdo... 
Ao ouvir aquilo, Juliana gritou: 
  mentira! Ela como sempre, est mentindo! Nunca vou perdoar. Nunca. 
Nunca! 
Marina a abraou: 
 Entendo o que est sentindo, mas ela no est mentindo. Se assim fosse, 
no estaramos aqui com ela. Cristo, quando esteve na Terra, nos ensinou 
que devemos perdoar setenta vezes sete. Quando rezamos o pai-nosso, 
dizemos: "Perdoai nossas dvidas como perdoamos a nossos devedores". 
Pense bem. Em suas mos esto esses dois irmos que caram, mas que 
agora buscam, atravs de um arrependimento sincero, um modo de se 
redimir de todo o mal que praticaram. 
Juliana chorava, abraada a Renato, que disse:" 
#
"  isso mesmo, meu amor. Est em nossas mos. Apesar de tudo, hoje, 
somos felizes. Estamos juntos, trabalhando para nossa evoluo. Eles, ao 
contrrio, perderam uma chance imensa de aproveitar a vida que tiveram 
para aprender e crescer. Para que continuarmos odiando? 

 No sei o que fazer Renato. Eles nos fizeram tanto mal. Mas acredito que 
tenha razo. Estamos juntos e felizes... 
No instante em que Juliana se desarmou, uma luz os envolveu e todos 
ficaram visveis. Virgnia e Cssio, ao v-los, comearam a chorar, agora 
com muito mais fora. 
 Juliana! Renato! Vocs esto aqui. Obrigada, meu Deus. Perdo... 
perdo... perdo... 
Dessa vez, Juliana ficou realmente emocionada.  sua frente, estavam 
aqueles dois h quem um dia ela muito amou. No eram nem sombra do que 
haviam sido. Sujos e rasgados, com o rosto descarnado. Ela, por um 
momento, esqueceu o mal que lhe fizeram, lembrou-se apenas da grande 
amizade que os unia. Aproximou-se, os abraou e disse: 
 Eu perdoo, acredito que j tenham sofrido muito. Venham conosco, vamos 
tir-los deste lugar horrvel. Ficaro muito bem. Aprendi que tudo est 
sempre certo. Quem sou eu para julgar? Vamos embora. 
Eles choravam muito. Juliana os levantou e olhou para Renato, que, 
juntamente com os outros, sorria. Uma imensa luz iluminou o caminho por 
onde todos regressaram. 
Farias permanecia sentado, quase caindo da poltrona. Nesse instante, 
enquanto na tela Juliana levantava os dois, ele, baixinho, com a voz 
embargada e com lgrimas que insistiam em cair, disse: 
 Damio, como ela conseguiu nos perdoar? Ns no merecamos perdo. 
O que fizemos foi terrvel. 
Damio fez novamente com que a tela congelasse. Olhou para Farias, 
dizendo: 
 Deus, nosso Pai,  justo e maravilhoso. Concede a todos, pecadores ou 
no, o direito ao perdo. Abenoa-nos sempre. Sua Lei  implacvel, mas 
tambm magnnima. Ele fica feliz quando v um filho retornando para o 
caminho do bem, Farias. 
 Neste momento, s posso agradecer a Juliana, e muito, muito a Deus e  
Sua Lei maravilhosa." 
#
"Damio olhou para Duarte, que permanecia sentado ao lado. Os dois 
sorriram e a imagem na tela voltou a se movimentar. 
Cssio e Virgnia foram levados para o hospital. Estavam como que 
alucinados. Mesmo ali, naquele lugar acolhedor, por muitas vezes 
lembravam ou viam aquelas figuras horrendas que os perseguiram durante 
tanto tempo. Nesses momentos, gritavam e queriam fugir. Juliana, 
pacientemente, conversava e acalmava os dois. 
Nesse instante, a tela novamente parou, mas desta vez por ordem de 
Damio. Farias permanecia calado. Damio disse: 

 Est tudo terminado, podemos voltar. Sei que agora voc est preparado 
para dar sua sentena. Aprendeu a usar a Lei. Ela est a para isso mesmo. 
 Mas ainda no entendi como Juliana pde se transformar na Mrcia m e 
mesquinha de hoje. Nem como Virgnia se tornou aquela mulher iluminada. 
 Se  assim que deseja, continuemos assistindo. 
As imagens recomearam. Farias, agora, olhava tudo com mais ateno. Na 
tela, apareceu Juliana conversando com Virgnia e Cssio. Ela dizia: 
 Estou muito feliz por ver que esto muito bem. Tudo aquilo terminou. 
Cssio pegou sua mo e a beijou: 
 Devemos tudo isso a seu perdo e amor. Sabemos, agora, que sempre 
nos amou. Esse amor foi mais forte que o dio, por isso conseguiu esquecer 
o que lhe fizemos e nos perdoou. Voc nunca mudaria. Sempre foi boa e 
generosa. 
 Engana-se. Apesar do perdo que lhes dei, e foi sincero, sinto que nunca 
mais serei a mesma. Sinto que nunca mais poderei confiar em algum. 
Venham comigo. 
Ela os levou at um grande ptio, onde Helena brincava com outras 
crianas. Ao v-la, Virgnia e Cssio pararam. No tiveram coragem de se 
aproximar. Juliana pegou-os pela mo e levou-os at ela. Ao v-los, Helena 
correu com os braos abertos: 
 Tia Virgnia! Tio Cssio! Que bom que vieram! Estava com muita saudade. 
Virgnia no suportou. Abraou-se  menina e, chorando, beijou-a com muito 
carinho, enquanto dizia:" 
" Minha menina! Como est bonita! Tambm pensei muito em voc. 
Tambm senti muita saudade. Perdo, minha querida... perdo... 
 Perdo por qu? Juliana interferiu: 
#
 Titia est pedindo perdo por causa do longo tempo que nos abandonou. 
 Isso no faz mal. Agora ela est aqui. E no vai mais embora, no , 
Virgnia? 
 Sim. Vou ficar aqui at quando for possvel. 
Cssio tambm se abaixou e a beijou. No pediu perdo em voz alta, mas 
em pensamento: 
Perdo, minha querida, perdo.  s isso que posso dizer no momento. 
Helena os apresentou s outras crianas que se aproximaram e dizia com 
orgulho: 
 Estes so meus tios. Vieram me visitar. 
Virgnia, em poucos minutos, estava contando histrias para as crianas. 
Juliana pegou na mo de Cssio e se afastaram. Ela disse: 
 Agora, ela ficar melhor do que j estava. As crianas tm muito para nos 
ensinar. 
 O que me deixa admirado  ver tantas crianas por aqui, Juliana. 
Sabemos que o esprito no tem idade, que todos estamos crescendo 
espiritualmente j h muito tempo. O certo seria que as crianas, assim que 
deixassem o corpo, voltassem a ser adultos. 
 No sei responder a isso. Para ser sincera, nunca pensei a respeito. 
Estou feliz por Helena continuar sendo minha menina. Quando encontrar 
Marina, vou perguntar. Talvez ela possa nos esclarecer, mas isso no tem 
muita importncia. 
Iam saindo, quando encontraram Renato: 
 Estava procurando-os. Marina quer lhes falar. Cssio, voc est muito 
bem. Mas Virgnia, onde est? 
Juliana, sorrindo, apontou para Virgnia ao lado de Helena e das outras 
crianas. Renato sorriu: 
 Ela tambm parece que est muito bem. 
 Est sim. Ter, agora, a oportunidade de ficar ao lado de Helena e 
recompensar com seu carinho todo o mal que lhe fez." 
" Fico feliz por isso, mas, agora, vamos conversar com Marina? 
Foram at ela, que, como sempre, os recebeu, sorrindo: 
 Que bom que vieram! Precisamos conversar a respeito de como esto se 
sentindo aqui. Juliana, j sei que est muito bem. Preciso saber de voc, 
Cssio. Como est se sentindo? 
#
 Nem sei como dizer. Nunca estive to bem! Sei hoje todo o mal que fiz. 
Mas sei tambm que Deus  nosso Pai e que me dar uma chance de 
consertar todo o mal que pratiquei. Preciso compensar Juliana, Renato e 
Helena. S no sei como. 
 No se preocupe com isso, tudo tem seu tempo, Cssio. Por enquanto, 
procure apenas aprender o mximo que puder sobre a Lei. 
 Assim farei Marina... 
Marina sorriu. Estava se despedindo, quando Juliana disse: 
 Marina, antes de irmos embora, queria lhe fazer uma pergunta. Posso? 
 Claro que sim. O que quer saber? 
 Cssio chamou minha ateno para algo que nunca havia pensado antes. 
Se todos ns somos espritos antigos, seja renascemos muitas vezes, como 
podem existir tantas crianas aqui? 
Com sua tranqilidade de sempre, Marina sorriu, respondendo: 
 Tambm estranhei quando aqui cheguei, mas aprendi que a Lei  sbia. 
Imaginem se, ao acordar aqui, vocs olhassem para um espelho e fossem 
uma outra pessoa. O que sentiriam? 
Juliana e Cssio se olharam. 
 Muito medo  respondeu Juliana. 
 Exatamente. Sentiriam muito medo e no aceitariam a realidade. Por isso, 
quando regressamos, mantemos sempre a mesma aparncia da ltima 
encarnao. Aps algum tempo, aps entendermos e at relembrarmos de 
existncias passadas, podemos apresentar a imagem que quisermos. Muitos 
usam as de outra encarnao, ou continuam com a ltima. Algumas das 
crianas que vieram, assim como Helena, so recm-chegadas. Outras 
preferiram continuar sendo crianas. Continuaro assim at que queiram 
mudar. " 
"A maioria diz que os pais que esto na Terra sempre se lembram delas 
como crianas, e assim elas recebem com mais facilidade os pensamentos 
de carinho que eles lhes mandam. 
 Mas, dessa, maneira, elas tambm recebem com mais facilidade os 
pensamentos de dor e sofrimento. 
 Sim, Juliana. Infelizmente, isso acontece muitas vezes, mas, com o 
tempo, esses pensamentos de dor e sofrimento vo ficando cada vez mais 
raros e se transformam em pensamentos de amor e saudade, o que faz 
#
muito bem a todos, mas, principalmente, s crianas. 

 ... a Lei  realmente sbia... mas agora vamos deix-la, sabemos que 
tem muito trabalho. Vamos? 
Despediram-se e saram felizes por mais aquele aprendizado. 
O tempo foi passando. Cada um comeou a trabalhar em algo que lhe 
agradava. Virgnia dividia seu tempo entre as crianas e os estudos. Ela se 
modificou completamente. Tinha conscincia do imenso mal que havia feito, 
sabia ter sido a responsvel pelas mortes de Renato, Juliana, Helena. Sabia 
que, por sua culpa, eles foram obrigados a interromper aquilo que estava 
programado. Sabia que eles teriam de recomear. A todo instante, pedia 
perdo a Deus e implorava por uma nova oportunidade. 
Cssio agora fazia parte de uma equipe de socorro para aqueles que 
regressavam aps terem cometido o suicdio e ficado muito tempo nos vales 
de sofrimentos. 
Juliana trabalhava no hospital, estando sempre ao lado de todos quando 
acordassem, dando a eles as primeiras palavras de amor e respondendo s 
muitas perguntas que eles faziam. 
Em uma manh, ela entrou em um quarto onde sabia que algum havia 
chegado durante a noite. Abriu a porta e entrou lentamente, para no acordar 
o paciente que ali estava. Assim que se aproximou, quase soltou um grito. 
Muito feliz, conteve-se. A senhora que ali estava aos poucos, foi abrindo os 
olhos e, assim que viu Juliana, gritou: 
 Minha menina! Finalmente a reencontrei. Como estou feliz! Juliana a 
abraou e beijou seu rosto. Lgrimas corriam s que agora de felicidade." 
" Querida Elvira! Tambm estou muito feliz por rev-la. Senti tanta 
saudade! 
Ficaram assim abraadas por muito tempo. A porta se abriu e por ela 
entraram Renato e Helena. Ao v-los, Elvira correu para abra-los. O 
reencontro foi s de felicidade e muita saudade, pois, enfim, estavam juntos 
novamente. 
Para Elvira no foi difcil entender e aceitar sua nova situao, j que estava 
feliz por se ver novamente ao lado daqueles que amara. Aps alguns 
instantes, uma sombra passou por seus olhos: 
 Menina Juliana, onde esto  menina Virgnia e o menino Cssio? 
Antes que Juliana respondesse, da porta ouviu-se uma voz: 
#
 Estamos aqui. Eu e Cssio, graas  bondade de nossas vtimas, 
estamos aqui e felizes por rev-la. 
Elvira abriu os braos. Os dois correram para ela, que os abraou com muito 
carinho. 
 Obrigada, meu Deus, por tanta felicidade. Obrigada por trazer meus 
meninos de volta para Sua companhia. 
Agora, estavam todos juntos. Elvira contou a todos o que havia acontecido 
com a fazenda. Contou do sofrimento de Rogrio, e que agora ele estava 
bem: casara-se com uma boa moa e tinha trs filhos, que muito amava. 
Elvira foi sempre muito bem tratada por todos. Ficou doente por vrios anos, 
at que dormiu e, quando acordou, estava em frente  Juliana. 
O reencontro foi feliz para eles ao retornarem. Alguns com sua misso 
cumprida, como Renato e Elvira. Juliana e Helena deixaram de cumprir seu 
tempo previsto. Virgnia e Cssio fracassaram, mas teriam uma nova chance. 
Aps a felicidade do reencontro, todos voltaram para suas obrigaes. O 
trabalho continuou. 
Certo dia foram avisados que Rogrio estava prestes a retornar. E assim 
aconteceu. Ele voltou e foi recebido por todos. Ao ver Juliana, no suportou e 
comeou a chorar. 
 Juliana, voc est viva? Como pode ser? Mas isso no importa, estou 
feliz por v-la. 
 Estou viva, sim. E esperei-o durante todo esse tempo. Seja bem-vindo. 
Novamente, a felicidade chegou queles coraes. Rogrio tomou 
conhecimento de tudo. Cssio aproximou-se:" 
" Rogrio, meu primo, no sei como lhe pedir perdo. Entendo, hoje, a 
imensa responsabilidade que tenho, tanto para com voc quanto para com 
Juliana e Helena. Peo a Deus todos os dias a chance de me redimir desse 
erro. 
Rogrio, a princpio, sentiu muito dio daquele que havia destrudo sua vida. 
Olhou para Juliana e Renato, e eles apenas sorriram. Ele entendeu. 
 Est bem, meu primo. Todos somos passveis de erros. Se Juliana o 
perdoou, quem sou eu para ir contra sua vontade? 
Agora, sim, todos haviam retornado da Terra. A vida continuou. Trabalhavam, 
estudavam e se preparavam para uma nova chance de aprendizado. 
Certo dia, Marina mandou chamar todos, inclusive Helena. 
#
 J que todos esto aqui, preciso comunicar-lhes que uma nova chance 
ser dada a todos. Voltaro para a Terra e novamente se encontraro. Aqui, 
esto vivendo em um ambiente de amor, perdoaram-se entre si, mas l  
diferente. Com o peso do corpo fsico, o esprito algumas vezes volta a ter 
sentimentos de vingana. Tero de conseguir se perdoar ali tambm. No 
ser uma tarefa fcil, mas tero todo o auxlio necessrio para que 
consigam. 
Fez uma pequena pausa e continuou: 
 Primeiro, ir Elvira. Ela tem ainda um acerto de contas com o passado, 
por isso ter marido e filhos. Ter a oportunidade de ajudar Juliana. Os 
prximos sero Virgnia e Cssio. Tero a oportunidade de ajudar, proteger e 
dar a Juliana a condio de perdoar-lhes. Cssio ter novamente de lutar 
contra o suicdio. Por vrias vezes fracassou, vamos torcer para que desta 
vez consiga. Virgnia ter uma vida difcil, bem diferente da que teve na 
ltima encarnao. Ter de proteger, amar e ajudar Juliana e Helena. Juliana 
e Rogrio se reencontraro e comearo do momento em que pararam. 
Helena voltar para Juliana, a quem amar muito. Entenderam? Alguma 
pergunta? 
Juliana olhou para Renato e para Marina. Perguntou: 
 E Renato? No voltar?" 
" No. Ele tem um trabalho muito importante que no pode ser 
interrompido. Mas estar o tempo todo a seu lado. Sempre que precisar, 
estar ali. 
 Renato, estou com medo. No quero me separar de voc novamente. -
Juliana disse suplicante. 
 Sei meu amor, mas  preciso. Voc ter o livre-arbtrio para usar da 
maneira mais certa. Eu ficarei aqui, ajudando-a em tudo que puder. O 
trabalho que estou fazendo agora  muito importante para minha evoluo. 
Preciso ajudar um esprito amigo que, em uma de minhas encarnaes, foi 
minha me, h quem muito amo. No se preocupe, estou aqui e estarei a 
seu lado sempre. Eu a amo. Vamos pedir a Deus que voc consiga voltar 
vitoriosa e eu consiga ajudar minha me. Assim, seguiremos juntos por toda 
a eternidade. 
Ela sabia que ele estava com a razo. Sabia que precisava voltar para 
encontrar Rogrio e Helena e da seguir ao lado deles para que o 
#
programado e interrompido fosse cumprido, mas sentia muito medo. Olhou 
suplicante para Marina. 

 Preciso mesmo ir? 
Marina sorriu. 
 No se preocupe. Nunca estar sozinha. Tenho certeza de que voltar 
vitoriosa. 
A tela ficou toda branca. A sala se iluminou. Damio olhou para Farias, 
dizendo: 
 O resto voc j sabe, Farias. Agora est em suas mos  sentena que 
deve ser dada a Mrcia. 
#
A sentena de Farias 

Mrcia continuava adormecida. Marlene ficou o tempo todo sentada em uma 
poltrona que havia perto da cama. Seguia todos os movimentos da filha. 
Percebendo que ela agora estava calma, saiu do quarto e foi para a sala 
conversar com Luciana e Marluce. Elas estavam caladas, abismadas e sem 
entender o que haviam presenciado, mas ansiosas para saberem o que 
estava acontecendo dentro daquele quarto. Assim que viram Marlene se 
aproximando, correram em sua direo. 

 Marlene, como ela est? Que histria foi aquela de ela dizer que  sua 
filha? 
Marlene sorriu. 
 Dona Luciana, a senhora pode ficar tranqila: ela agora est muito bem. 
Est dormindo. Quanto quela histria, precisamos entender que ela estava 
sob efeito do lcool. Mas agora ela parece estar bem. Vocs podem ir 
embora. Ficarei aqui com ela e sei que, quando acordar, tudo j ter 
terminado. Confio em Deus. Ele  nosso Pai e nunca deixa sozinho, um filho 
Seu. 
 Est bem. Estou percebendo que voc no quer falar sobre esse assunto. 
Eu respeito. Vou embora tranqila, porque sei que minha amiga est agora 
em boas mos. Se precisar de alguma coisa, basta telefonar e virei em 
seguida. 
 Ela no est em minhas mos. Est nas mos de Deus nosso Pai, que 
nunca abandona a gente, pecadores ou no. Pode ir tranqila obrigada por 
tudo e, se precisar, eu telefono, sim. Voc tambm, Marluce, v  paz e 
obrigada por tudo que tem feito por ela at hoje. 
Elas saram e Marlene voltou para o quarto. Mrcia continuava dormindo. A 
seu lado, Lenita estava deitada com os bracinhos sobre ela. Ao v-las 
daquela maneira, Marlene pensou: 
O que deve ter acontecido no passado com elas, para que hoje sintam uma 
pela outra tanto amor? 
Voltou a se sentar na poltrona. Durante o tempo todo, permaneceu em 
viglia. Percebeu que Farias e Gervsio no estavam mais ali. Olhava para a 
filha, que lhe parecia to frgil, e orava." 
#
"Meu Deus, Pai supremo de bondade e amor. No sei por que tudo isso est 
acontecendo com minha filha. No sei por que tenho levado uma vida de 
tanta misria e sofrimento. S sei que  meu Pai muito amado e que nunca 
me abandonou. Permita meu Pai, que minha filha encontre o caminho da paz 
e da tranqilidade, nem que para isso eu precise continuar longe dela. Em 
Suas mos, entrego nossas vidas. 
Mrcia dormia tranqila. Ela se via novamente naquele lugar cheio de luz e 
felicidade. Sonhou com dona Leonor. Ao v-la, Mrcia correu para seus 
braos. Ela a recebeu e carinhosamente disse: 

 Minha menina! Estou muito feliz por v-la agora protegida. Entendo que 
cometeu desatinos, mas sei que sempre foi muito boa e que essa bondade, 
com as graas de Deus, vai aflorar. A Lei  justa e soberana. Estou daqui 
torcendo para que consiga vencer. 
Marlene, que seguia todos os movimentos de Mrcia, olhava agora para 
aquele rosto bonito. Percebeu que ela sonhava e sorria. Teve a certeza de 
que Deus a estava protegendo. 
Mrcia abriu os olhos e viu a seu lado quela senhora envelhecida e 
humilde. Quis dizer algo, mas no conseguiu. Fraca, pois h muito no se 
alimentava, e por toda a bebida que havia ingerido, fechou os olhos 
novamente e voltou a dormir. 
Abraada a Mrcia, Lenita tambm dormia. As duas se encontraram em 
sonhos. Corriam uma para os braos da outra.  medida que se 
aproximavam, os rostos e as roupas iam se alternando. Viam ora Mrcia e 
Lenita, ora Juliana e Helena. No importava qual aparncia possuam, 
estavam muito felizes. Encontraram-se e o abrao foi imenso e carinhoso. 
Na sala de projeo, Farias chorava muito. O arrependimento que sentia por 
tudo o que havia feito como Cssio fazia com que sofresse muito. Damio e 
Duarte permaneceram calados, sabiam o que ele estava sentindo. Ele havia 
exigido o cumprimento da Lei e agora teria de dar a sentena. Esperaram 
calados, mas os dois pediam a Deus, com sinceridade, para que aquele 
irmo fosse iluminado com sua luz." 
"Aps ter chorado muito, com lgrimas ainda correndo por seu rosto, Farias 
disse: 
 Quando a conheci, gostei dela. Ensinei tudo o que sabia. Fiz com que se 
tornasse uma boa profissional. Fiz minha parte. Ela que no aceitou. 
#
 Sabemos de tudo isso. Em relao a ela, voc fez realmente sua parte, 
mas e com voc mesmo? Fez o certo? Conseguiu fazer com que seu esprito 
reagisse contra a covardia de sempre? Conseguiu enfrentar o suicdio e se 
livrar dele? Aps assistir a esse filme, entendeu que, embora ela tenha sido 
um instrumento para lev-lo ao desespero, foi tambm o instrumento para 
que voc conseguisse se superar, buscar e encontrar Deus dentro de si 
mesmo, e assim vencer? Sentiu-se injustiado. Exigiu seu direito  justia da 
Lei. Exigiu um julgamento para que ela fosse condenada. E agora, o que me 
diz? 
Farias olhava para Damio. Estava ali, diante daquele esprito superior que, 
exibindo o filme, deu a ele a oportunidade de refletir sobre tudo, muito mais 
sobre a justia daquela Lei que ele entendia agora ser realmente justa. 
 Entendo agora por que me fez assistir a esse filme. Quis que eu 
aprendesse que nunca devemos julgar um irmo, seja em que circunstncia 
for. 
  isso mesmo. Nosso pior inimigo de hoje pode ter sido um dia nossa 
maior vtima. Mas agora no deve se preocupar com isso. Est pronto para 
julg-la. Por ela ter se desviado do caminho do bem, est com ela em suas 
mos. Ela est se destruindo. Cabe a voc deixar que ela continue assim ou 
tenha a chance de reencontrar Rogrio e Helena e recomear de onde 
parou. Est em suas mos. 
 Que preciso fazer? Sinto que tenho para com ela dvidas e que preciso 
fazer tudo o que estiver ao meu alcance para ajud-la. S no sei como." 
"Marlene continuava ali. Percebeu que o quarto se iluminara. Olhou ao redor 
e viu Damio entrando, acompanhado por Farias e Duarte. No conhecia 
nenhum deles, mas sabia que estavam ali para ajudar a ela e a Mrcia, por 
isso os recebeu com um sorriso. Damio deixou-se ver exatamente por isso, 
para que ela soubesse que suas preces haviam sido atendidas. Emocionada, 
Marlene disse: 
 Obrigada, meu Deus, por esta viso maravilhosa. Sinto que agora tudo 
ficar bem. 
Damio sorriu e olhou para Farias, que, naquele momento, via diante de si 
Virgnia. Aproximou-se e, sorrindo, estendeu as mos. Marlene no sabia 
quem ele era, mas sentia que o conhecia e que o amava. Tambm sorrindo, 
estendeu suas mos. Quando as mos se encontraram, ela sentiu um bem
#
estar muito grande. Teve a certeza de que ele era um amigo muito querido. 

 Meu irmo, no sei quando e onde j nos encontramos, s sei que estou 
muito feliz por v-lo. 
 Tambm estou feliz, muito mais por ver que conseguiu realmente vencer. 
Que Deus, nosso Pai, a proteja. 
Marlene, emocionada, sorriu: 
 Est aqui para ajudar minha filha? Ela est precisando muito. 
 Sou apenas um aprendiz, no sei se poderei ou se saberei como, mas 
estou aqui para que a Lei e a Justia sejam cumpridas. 
Marlene agradeceu. Farias olhou para Damio. 
 Realmente, no sei o que fazer. A nica sentena que posso dar  meu 
pedido de perdo. 
Damio olhou para ele e para Marlene, que tambm o olhava encantada. 
 A deciso  sua, Farias. Voc tem todo o poder sobre ela. Faa o que seu 
corao sentir vontade. 
Farias olhou para suas mos e percebeu que delas saam raios de luz 
coloridos. Encantado, olhou para Damio. 
 Que  isso, Damio? Que luzes so essas? 
 So suas armas para que possa fazer com que a Lei seja cumprida. 
Poder usar como quiser. 
Farias olhava para as mos, para Marlene e ficou sem saber o que fazer. 
Estava encantado demais com o que via. 
"Marlene sorria tambm encantada ao ver, pela primeira vez, em sua frente, 
um esprito recebendo luz. Sorrindo, disse: 
 Que tal jogar essas luzes maravilhosas sobre minha filha, sobre Mrcia? 
Acredito que ela esteja precisando. 
Ele voltou a olhar para Damio e Duarte, que nada disseram, apenas 
sorriram. 
Timidamente, bem devagar, ele estendeu as mos sobre a cabea, de 
Mrcia, que, embora estivesse dormindo, fez um leve; movimento e comeou 
a sorrir. Ele foi lanando luzes por todo o seu corpo. Percebeu que dela 
tambm saam luzes que iam ao encontro das dele. As luzes se misturavam 
e iam para o alto, envolvendo todo o quarto. As luzes subiam e desciam 
sobre todos. 
O espetculo era deslumbrante. Marlene acompanhava tudo chorando, mas, 
#
desta vez, era de muita emoo. J havia tido muitas vises durante toda a 
vida, mas nunca uma como aquela. 
As luzes se espalharam por todo o quarto e, aos poucos, foram 
desaparecendo. As mos de Farias tambm pararam de gerar luz. Ele olhou 
para Damio. 

 Que aconteceu aqui? 
 Voc desejou, do fundo do seu corao, um modo de ajud-la. Nesse 
momento, sem que percebesse, proferiu sua sentena. As luzes vieram do 
alto, numa clara demonstrao da aprovao do que havia decidido. 
Marlene, ainda muito emocionada, disse: 
 Obrigada, meu Pai, por mais essa graa. Sei que agora tudo vai ficar 
bem. 
Damio olhou para ela, dizendo: 
 Estou muito feliz porque, apesar de tudo que lhe acontece, continua ainda 
com tanta f. Deus a abenoe. Agora, tudo ficar bem. Farias que era o 
obsessor de Mrcia, de hoje em diante ser seu guia espiritual. 
Farias retrucou: 
 Eu? Como posso ser um guia espiritual? Sou imperfeito. Um suicida!" 
" Voc  um esprito que aprendeu muito. Pode e deve ficar ao lado dela, 
mas desta vez s com a inteno de ajud-la. Acredita que possa fazer isso? 
Se assim o fizer, podero aprender muito um com o outro. S no pode 
interferir em seu livre-arbtrio. 
Farias no sabia o que fazer. Nunca imaginou que um dia pudesse estar ali, 
ao lado de Mrcia, a quem havia durante tanto tempo odiado. 
 No sei se poderei. No sei como fazer. Hoje, sei que tenho uma dvida 
muito grande para com ela, mas no sei como pagar. 
 No se preocupe com isso. Tudo h seu tempo. Continue apenas com 
essa vontade firme de ajudar, somente isso. Continue ao lado dela, envolva-
a sempre com essas luzes que sabe hoje possuir e permita que ela, 
seguindo seu livre-arbtrio e sem sua interferncia, consiga retomar a prpria 
vida em suas mos. O resto deixe por nossa conta. 
 Confio em suas palavras. Permanecerei aqui, esperando as bnos do 
alto. 
 Faa isso, meu irmo. Estar contribuindo para o bem estar de Mrcia e, 
principalmente, para o seu prprio. Agora, tenho de ir, estou a muitas horas 
#
fora de meu local de trabalho. Fiquem em paz e na confiana de que Deus  
nosso Pai infinito. Faa sua parte, no se preocupando com nada mais. 

 Ficarei aqui e farei o que souber e me for possvel. Obrigado por tirar a 
venda de meus olhos. 
Damio sorriu e olhou para Marlene, que, encantada, observava tudo. 
 Assim como eu, voc precisa voltar a seus afazeres, Marlene. Agora est 
tudo bem, no precisa se preocupar com nada mais. 
 Estou muito emocionada para dizer algo. S posso agradecer em meu 
nome e no de minha filha. Que Deus continue aumentando sua luz." 
"Damio, sorrindo, foi desaparecendo, at sumir completamente. Marlene 
olhou para o lado em que Farias estava, porm no mais o conseguia ver, 
mas sabia que ele estava ali. Olhou tambm para Mrcia, que continuava 
dormindo ao lado de Lenita. O relgio em cima de um criado-mudo estava 
marcando onze e quinze. Marlene se acomodou melhor na poltrona e, ainda 
recordando os momentos maravilhosos que havia passado, adormeceu. 
Dormiu tranqila. Sonhou que estava em um campo muito verde e se via 
correndo, acompanhada por mais dois jovens. Estava muito feliz. 
Abriu os olhos e percebeu que j amanhecera. Voltou a olhar para o relgio: 
agora faltavam quinze para as sete da manh. Mrcia 
continuava dormindo ao lado de Lenita. Percebeu que ela permanecia na 
mesma posio em que estava no momento em que adormeceu. No cho, 
ao lado dos ps da cama, estavam as roupas sujas de bebida que Mrcia 
vestia quando ela chegou quele apartamento. Levantou-se da poltrona e 
pegou a sacola que trouxera por saber que teria de passar a noite na casa 
de outra pessoa. 
Encaminhou-se para o banheiro, lavou o rosto e escovou os dentes. Voltou 
para o quarto, pegou as roupas de Mrcia, saiu do quarto, desceu a escada. 
No sabia onde ficava a cozinha e a lavanderia, por isso comeou a abrir as 
portas para descobrir. S ento pde perceber o enorme luxo que existia ali. 
Encantou-se com tudo, muito mais com a porta de vidro, o jardim e a piscina. 
Ela venceu realmente. Que ter acontecido para que ficasse nessa situao 
to deprimente? 
Encontrou, finalmente, a cozinha e, logo atrs, a lavanderia. Colocou as 
roupas sobre a mquina de lavar e voltou para a cozinha. Procurou e 
encontrou o p de caf e colocou gua para ferver. Em poucos minutos, 
#
estava sentada  mesa, tomando seu caf. 
Ser que tudo aquilo aconteceu realmente? Quanta beleza! A cada dia tenho 
mais certeza de que Deus existe e est ao nosso lado em todos os 
momentos." 
"Terminou de tomar o caf, voltou para o quarto de Mrcia e chamou 
baixinho por Lenita. A menina abriu os olhos. Marlene fez um sinal com os 
dedos para que ela no falasse nada e no acordasse Mrcia. Lenita 
entendeu. Olhou para Mrcia, sorriu e se levantou. Marlene pegou em sua 
mo e a levou para fora do quarto. J l fora e sem que Mrcia as pudesse 
ouvir, disse: 

 Precisamos ir embora. Vov tem de trabalhar e voc precisa ir para a 
escola  tarde. Lave o rosto e escove os dentes. Assim que Marluce chegar, 
iremos. 
 Eu no queria ir embora. Queria ficar aqui com ela. Viu como  bonita, 
vov? 
  muito bonita, sim, mas no podemos ficar aqui. A vida dela  muito 
diferente da nossa. 
Tristemente, a menina ouviu o que a av disse, lavou o rosto e escovou os 
dentes. As duas, em seguida, se dirigiram at a cozinha. Marlene abriu a 
geladeira, pegou leite e serviu para a menina com algumas bolachas. 
Estavam ali quando Marluce chegou. 
 Bom-dia. A senhora est a? Como dona Mrcia est? Passou bem  
noite? 
 Bom-dia. Ela est muito bem e dormiu tranqilamente. Lenita est 
terminando de tomar o leite e a gente vai embora. 
 Tem certeza de que ela est bem mesmo? Acha que vou poder ficar com 
ela sozinha? Estou com medo... 
 No se preocupe, ela agora est bem e ficar ainda melhor. Talvez no se 
lembre do que aconteceu aqui, mas, se perguntar se havia algum com ela, 
diga que somente havia dona Luciana. No diga que estive aqui, isso no 
faria bem a ela. 
 Tem certeza do que est dizendo?  mesmo me dela? 
 Tenho certeza, sim, e no sou me dela. Ela estava embriagada e no 
sabia o que dizia. No ser bom para ela saber que mais algum a viu 
naquela situao. Ela precisa esquecer o que aconteceu e retomar sua vida. 
#
Por isso, no quero que saiba que uma pessoa estranha acompanhou tudo. 
S isso." 
" Est bem. Se achar que assim ser melhor, farei. Marlene sorriu. Lenita 
terminou de tomar o leite. Marlene pegou a menina pela mo e as duas 
saram. 
J na rua, enquanto se dirigiam ao ponto de nibus, Marlene pensava: 


 Permita meu Pai, que ela realmente encontre seu caminho de volta. Por 
tudo que presenciei, sei que ela est protegida.  s isso o que desejo. Vou 
continuar minha vida. No tenho riquezas na Terra, tenho at uma vida muito 
difcil, mas esses momentos de vises maravilhosas, como aquela que tive, 
fazem com que eu tenha foras para continuar. Sei que tudo que estou 
passando tem um motivo maior. Permita que eu continue aprendendo 
atravs da vida. Agora, vou telefonar para dona Luciana e pedir-lhe que no 
conte nada do que aconteceu. Mrcia no pode saber que estive em sua 
casa. Ela nunca ia me perdoar. 
Assim que Marlene saiu, Mrcia abriu os olhos. Sentia-se muito bem, como 
se houvesse dormido por muito tempo. Lembrava-se de alguma coisa a 
respeito do dia anterior. Lembrou-se de ter visto Luciana. 
Mas no havia s Luciana... minha me esteve aqui? Lenita tambm? Eu as 
vi, tenho certeza... 
Levantou-se e foi at o banheiro. Lembrou-se de Lenita: 
Ela  to linda! Sei que a vi. Ser que sonhei? Vou perguntar a Marluce. 
Colocou a banheira para encher. Precisava de um banho tranqilizante. 
Enquanto a banheira enchia, voltou para o quarto. Estava tudo em ordem, 
mas sabia que algo havia acontecido. Voltou a lembrar-se de Ronaldo: 
Onde ser que ele est? Sinto que o perdi para sempre. Como ser minha 
vida sem ele? 
Comeou a entrar em desespero novamente. Farias acompanhava todos os 
seus movimentos. Ao perceber que ela se descontrolava, timidamente 
estendeu sobre ela suas mos, as quais comearam a emitir luzes que 
envolviam Mrcia, fazendo-a, aos poucos, sentir-se muito bem." 
"Farias muito mais que qualquer outra pessoa, encantava-se com suas 
mos. Sentiu uma felicidade indescritvel. 
Estas luzes esto saindo mesmo de minhas mos. Realmente, eu as ganhei. 
Obrigado, meu Pai. Vou ajudar Juliana. Ela vai conseguir vencer. Estarei aqui 
#
a seu lado, at que consiga reencontrar seu caminho. 
Mrcia voltou para o banheiro. A banheira j estava quase cheia. Pegou 
alguns sais e jogou dentro dela, apertou um boto e uma espuma comeou a 
se formar. Entrou, acomodou a cabea e fechou os olhos. A lembrana de 
Lenita voltou. 
Ela  to querida. Preciso encontrar um meio de ajud-la. Preciso voltar ao 
trabalho. J perdi muito tempo. Nunca mais colocarei uma bebida em minha 
boca. Tenho tentado me colocar como vtima, mas sei que tive inteno de 
prejudicar Osvaldo por simples orgulho ferido. Sei, tambm, que fui avisada 
para no tomar aquela atitude e que a cobrana viria. Preciso aceitar que 
perdi Ronaldo por minha prpria culpa. Preciso aceitar que o que desejei 
para Osvaldo e sua mulher voltou-se contra mim. 
Ficou l por muito tempo, at comear a sentir frio. Levantou-se, abriu o 
chuveiro e deixou a gua cair, sem fazer um movimento sequer. A gua caa 
por seu corpo e ela sentia que todos os pensamentos ruins estavam indo 
embora pelo ralo. Terminou de tomar banho e voltou para o quarto. Colocou 
uma cala e uma camiseta e foi em busca de Marluce. Sabia que ela tinha 
muita coisa para lhe contar. 
Ao passar pela sala, percebeu que tudo estava em ordem. S seu tapete no 
estava mais ali. Tentou lembrar o que havia acontecido, mas no conseguia. 
Lembrava-se vagamente de ter bebido, nada mais. Foi at a cozinha. 
Marluce estava na lavanderia, colocando algumas roupas para lavar. Ela se 
aproximou:" 
" Bom-dia, Marluce. 
Marluce se voltou: 

 Bom dia, dona Mrcia. A senhora est bem? 
 Por que no estaria? Aconteceu alguma coisa? 
 No. No aconteceu nada. S que a senhora ontem no estava muito 
bem. 
 Muito bem como? Que aconteceu? Eu bebi muito, no foi? 
 Foi. A senhora bebeu muito e eu fiquei assustada. Tem de me desculpar, 
mas, sem saber o que fazer, chamei dona Luciana. 
 Luciana? Ento ela esteve mesmo aqui? 
 Esteve, sim, e ajudou muito. 
 Quem mais esteve aqui? 
#
Marluce pensou nas palavras de Marlene e disse: 

 Mais ningum. S dona Luciana. 
 Tem certeza disso? No veio uma senhora e uma menina muito bonita? 
 No, no veio mais ningum, s dona Luciana. 
 Tem certeza? 
 Tenho, sim. S dona Luciana. 
 Est bem. Devo ter sonhado. Pode me servir o caf na sala. Saiu da 
cozinha e foi para a sala. A mesa do caf estava posta, com pes, doces e 
frutas. Enquanto esperava Marluce trazer o caf com o leite, ela comeou a 
comer um mamo e a pensar em sua vida: 
Sinto que no devo lutar mais para que Ronaldo volte. Tenho de me 
conformar com o fato de que o perdi. Se continuar insistindo, vou me 
destruir. 
Marluce entrou, trazendo o caf e o leite, e estava terminando de coloc-los 
na mesa quando o telefone tocou. Olhou para Mrcia, que disse: 
 No estou para ningum. Se for Luciana, diga que estou tomando banho 
e que mais tarde eu telefono. 
Marluce atendeu: 
 Al. Quem ? Quem? Senhor Ronaldo? 
Ao ouvir aquilo, Mrcia deixou a xcara cair. Seu corpo comeou a tremer. 
Ela, desesperada, levantou-se e tirou o telefone das mos de Marluce:" 
" Al. Al, Ronaldo!  voc mesmo? 
 Sou eu, sim, Mrcia. Como voc est? 
 Estou bem. Mas e voc, onde est? 
 Estou aqui no Rio de Janeiro, e no suporto mais a saudade. No adianta, 
eu te amo. Vou voltar e iremos at um mdico descobrir o que foi que 
aconteceu. Se me aceitar novamente, hoje  noite estarei a e serei o 
homem mais feliz do mundo. Voc aceita? 
 Claro que sim. Claro que sim! Eu te amo. Volte logo. Ele desligou, e ela 
continuou com o telefone na mo, no sabendo se ria ou chorava. 
 Marluce, ele vai voltar. Vai voltar! Sou a mulher mais feliz deste mundo! 
Marluce ria por ver Mrcia to feliz. Farias tambm estava ali e no 
conseguia acreditar que estava feliz por ver a felicidade dela. 
Mrcia saiu da sala sem terminar de tomar o caf. Foi para a porta de vidro, 
olhou para fora: o dia estava lindo. Abriu a porta e jogou-se na piscina com 
#
roupa e tudo. Ficou nadando por quase uma hora. Sentia-se outra pessoa, 
nada igual  que havia sido at agora. Saiu da piscina, sentou-se em uma 
cadeira e ficou olhando para as nuvens brancas que passavam e formavam 
imagens. 
H quanto tempo no olho para o cu? Acho que desde criana... mas agora 
estou muito feliz. Acredito at que aquele Deus, que minha me sempre 
disse existir, exista mesmo. Minha me? Por que me lembrar dela em um 
momento to importante em minha vida? 
Seu rosto crispou-se, e aquela luz de felicidade que fazia seus olhos 
brilharem desapareceu. 
Por que me lembrar dela agora? Ronaldo vai voltar. Tenho de ter meus 
pensamentos voltados s para ele. E se aquela coisa horrvel voltar a 
acontecer? Se ele for embora novamente? No suportarei. 
Farias percebeu que ela estava novamente sentindo muito medo. Mais uma 
vez olhou para suas mos e as colocou em direo  cabea de Mrcia. As 
luzes voltaram a envolv-la. Ela voltou a pensar em sua me e em Lenita. A 
simples lembrana da menina fazia com que ela ficasse mais calma." 
"No posso pensar nelas agora. Ronaldo vai voltar hoje  noite, preciso me 
preparar para receb-lo. Se aquele cheiro horrvel voltar, iremos a um 
mdico. Ronaldo me ama, e isso  o que importa. 
Levantou-se da cadeira, e suas roupas ainda estavam molhadas. 
Correu para seu quarto, trocou-se e saiu para a rua. 
L fora, o sol brilhava, estava um dia quente. Foi at uma loja, precisava 
comprar um vestido novo. Queria estar linda naquela noite. Foi a um 
cabeleireiro. Eram seis horas quando retornou ao apartamento. 
Marluce j havia ido embora. Entrou e olhou tudo para ver se estava em 
ordem. 
Tudo perfeito. Hoje, voltarei a viver! 
Sobre a mesa do telefone havia um bilhete. Nele, Marluce dizia que Luciana 
havia telefonado e que ela lhe dissera que Mrcia estava muito bem. 
Carregando os pacotes, Mrcia foi para seu quarto. Arrumou-se e ficou 
esperando. Ronaldo no telefonou mais, mas ela sabia que ele viria. 
Recomeariam de onde pararam e seriam felizes para sempre. 
Ela olhava para o relgio. Parecia que o tempo havia parado os ponteiros 
no se movimentavam. s oito horas, o interfone tocou. Era o porteiro do 

#
prdio, avisando que Ronaldo estava ali. Mrcia, gaguejando, pediu-lhe que 

o mandasse subir. 
A campainha tocou. Ela, tremendo e muito emocionada, abriu a porta. Ele 
estava ali em sua frente. Os olhos se encontraram, os dois tremiam sem 
saber o que falar. Ficaram assim, por alguns segundos, apenas se olhando, 
sem nada dizer ou fazer. Ele abriu os braos, ela se aninhou, e chorando se 
abraaram e se beijaram com muito amor, carinho e saudade. 
Entraram abraados. Sentaram-se em um sof. Os dois, calados, apenas se 
olhavam. Queriam se amar, um desejava o outro desesperadamente, mas 
sentiam muito medo. Aquele momento estava sendo to mgico, tinham 
medo de que tudo terminasse. No havia cheiro algum, mas, mesmo assim, 
quase no falavam apenas se olhavam. 
Ronaldo tirou do bolso uma caixinha e deu a ela. 
 Abra, espero que goste." 
"Ela a abriu e ficou encantada, ao ver o lindo anel que havia dentro, de ouro 
branco com um brilhante muito grande. 
  lindo! Maravilhoso! Eu te amo muito. 
Colocou o anel no dedo, estendeu o brao e ficou movimentando-o para ver 
o brilho. Seus olhos reluziam de felicidade. 
Sem saber por que, lembrou-se de sua me e de Lenita. Tentou espantar 
aquele pensamento, mas no conseguiu. Tomou coragem e disse: 
 Meu amor, estou feliz por ter voltado. Sem voc, quase enlouqueci, mas 
todo o meu sofrimento me fez refletir sobre minha vida, sobre tudo o que fiz 
de certo e de errado. No podemos recomear se eu no for absolutamente 
sincera, sem que haja mentiras. Vou te contar uma histria, espero que 
tenha pacincia para ouvir. Aps saber toda a verdade, se ainda quiser, 
aceitarei este lindo anel e ficarei com voc para o resto de minha vida. 
 Acredita mesmo ser necessrio? 
 Sim. Se eu for recomear minha vida a seu lado, tem de ser com meu 
corao livre de todos os meus erros. S conseguirei viver feliz com voc 
aps ter lhe contado tudo. S assim poderemos ser felizes realmente. 
Comeou a contar tudo, desde o incio, quando saiu de sua casa e foi morar 
com dona Leonor. Contou tudo, inclusive o que havia feito com Osvaldo. 
Ele ouviu sem deixar transparecer em seu rosto o que sentia. Embora 
estivesse com medo de sua reao, ela no parou de falar. Farias, ao lado, 
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ouvia tudo. Em determinado momento, ela disse: 

 Tive um amigo, seu nome era Farias. Ele me ensinou tudo sobre minha 
profisso, gostava de mim como se fosse uma filha. Eu, tomada pela inveja e 
pela ganncia, o chantageei e o levei ao suicdio. Hoje, aps tudo que 
passei, reconheo o mal que fiz. No sei o que acontece aps a morte, mas, 
se ele conseguir me ouvir, quero que receba meu pedido de perdo. Estou 
muito arrependida. 
Dos olhos de Farias, lgrimas corriam. Uma luz invadiu a sala. 
Ele olhou para trs e l estava Damio." 
" Chegou  hora, meu irmo. O que responde a ela? Farias estendeu as 
mos sobre a cabea de Mrcia e novamente as luzes apareceram. 
Chorando, disse: 
 Querida Juliana, querida Mrcia... sou eu quem tem de pedir perdo. 
Naquilo que depender de mim, voc ser muito feliz. Que Deus nos 
abenoe. 
Olhou para Damio, que tambm jogava luzes sobre o casal enquanto dizia 
para Mrcia: 
 Meus parabns, meu amor. Voc conseguiu vencer seu orgulho e revolta. 
Seja feliz. Estarei esperando-a. 
Para surpresa de Farias, ele foi se transformando e surgiu Renato. 
 Damio... Renato... Damio, voc  Renato? O que est fazendo naquele 
vale horrvel? 
 Sim, sou Renato. Quando soube que voc e Virgnia se encontravam no 
vale, pedi permisso e fui para l, juntamente com Juliana, Marina e outros 
amigos. Precisava ajudar de alguma maneira, os dois companheiros de 
jornada que haviam se perdido no caminho. Aps vocs regressarem como 
Farias e Marlene, pedi para ficar no vale, pois senti que l poderia ajudar 
muitos irmos. Fiquei l por todo o tempo em que estiveram na Terra. Para 
minha surpresa, voc voltou para o vale. Pedi a Gervsio que ficasse 
observando-o, at que percebesse ser a hora de traz-lo  minha presena. 
 Est me dizendo que foi para l aquela vez apenas para nos ajudar, eu e 
Virgnia? Seus inimigos? Seus assassinos? 
 No. Fui ajudar dois irmos. Jesus nos ensinou a perdoar sempre e a 
ajudar nossos inimigos, porque ajudar um amigo sempre  muito fcil. Estou 
feliz ao ver que todos ns, agora, estamos no caminho certo. 
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 Vai continuar no vale? 
 Sim. Ali  meu lugar, at que Juliana volte. 
 No entendo, mas posso lhe fazer um pedido? 
 Claro. Estou aqui para ajudar. 
 Agora que tudo parece estar bem com Juliana, Virgnia e a pequena 
Helena, acredito que no terei muito para fazer aqui. Posso ir com voc e 
trabalhar ao lado de Gervsio, ajudando os irmos que queiram encontrar a 
Lei?" 
" Voc quer ir viver ali? Logo voc, que tanto odiava aquele vale? No 
estou entendendo. Poder agora ser encaminhado para um lugar muito bom, 
onde viver feliz, aprendendo e preparando-se para uma nova encarnao. 
 Talvez tenha razo, mas  meu desejo. Se voc foi viver l por minha 
culpa, por que no posso fazer o mesmo por desconhecidos? 
 Claro que pode. O esprito  livre, pode fazer o que quiser. Garanto-lhe 
que ali existe muito trabalho. Aqui est tudo bem, podemos ir embora. 
Vamos? 
Aps contar toda a sua vida a Ronaldo, Mrcia permaneceu em silncio, com 
a cabea baixa e chorando baixinho. Ronaldo ficou em silncio por alguns 
instantes. Levantou a cabea de Mrcia, olhou bem em seus olhos e disse: 
 Entendo o quanto foi difcil para voc me contar tudo isso. No posso 
dizer que voc no errou, mas eu te amo o suficiente para esquecer essa 
Mrcia ruim e calculista. Pretendo amar, e muito, esta Mrcia que est aqui 
em minha frente. Eu te amo. Nosso amor ser mais forte que tudo. Juntos, 
venceremos qualquer obstculo. 
Segurando seu queixo, Ronaldo, trouxe os lbios dela, para junto dos dele e 
beijou-a com muita paixo. Ela correspondeu quele beijo com todo o amor 
que sentia. Assim, abraados e aos beijos, foram para o quarto. Amaram-se 
com intensidade e nada de ruim aconteceu. 
Quando tudo terminou, ela, ainda deitada em seus braos, disse: 
 Foi tudo perfeito. Embora no soubesse, acredito que, com minha 
confisso, todo o mal foi afastado. 
 Sim, meu amor. Graas a sua confisso e nosso grande amor. 
 Nunca mais vamos nos separar. 
Naquela noite ele no foi embora. Ficaram juntos a noite toda. Sentiam medo 
de se afastar. 
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Pela manh, ele se despediu. Havia ficado muitos dias longe de seu 
trabalho. Ela, feliz, continuou deitada. 
Mais tarde, levantou-se. Pegou o telefone e ligou para o escritrio. Falou 
com o doutor Fernando, dizendo que se sentia muito bem e que no dia 
seguinte voltaria ao trabalho. Ele, muito feliz, respondeu:" 
" Espero que volte mesmo. Estamos sentindo muito sua falta. Isto aqui, 
desde que deixou de vir, virou uma baguna. 
Ela desligou o telefone. Tinha conscincia da profissional que sempre fora. 
Isso, para ela, no tinha mais o menor valor. Sabia tambm que, sem o amor 
de Ronaldo, nada teria importncia em sua vida. Voltaria ao trabalho porque 
aquilo tambm era um pedao dela, mas no faria mais nada com o objetivo 
exclusivo de receber promoes. Simplesmente, continuaria dando tudo de 
si pela empresa, fazendo, assim, jus ao dinheiro que recebia. 
Foi at a piscina e sentou-se em uma cadeira. Depois, levantou-se e foi at a 
grade que rodeava a rea da piscina e, de onde podia ver toda a cidade do 
alto. Respirou fundo. 
Como esta cidade  linda! Vou sair e andar sem destino. 
Foi exatamente o que fez. Vestiu-se, pegou o carro e saiu dirigindo, sem 
destino. Lembrou-se do parque onde havia conhecido Ronaldo e foi para l. 
Estacionou e foi andando at o banco onde estava sentada no dia que ele 
passou correndo. Sorrindo, pensou: 
Naquele dia, minha vida comeou a mudar. Hoje sou a mulher mais feliz do 
mundo! 

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Eplogo 

"Marlene trabalhou o dia inteiro na casa de dona Silvia. Estava feliz por 
saber que Clarice e Osvaldo viviam muito bem e que esperavam o terceiro 
filho. No nibus, voltando para casa, ia pensando: 
Como foi bom ter encontrado minha filha! No agentava a agonia de no 
saber por onde andava e o que tinha feito com sua vida. Hoje, sei que ela 
est no caminho e que conseguiu tudo o que quis na vida... que Deus a 
proteja... 
Chegou, finalmente, em casa. Desde que perdera o barraco no incndio, 
morava em um quartinho que havia nos fundos da casa de uma amiga. O 
quarto era pequeno, mas o aluguel tambm era barato, o que ela conseguia 
pagar. 
Entrou no quintal e foi at os fundos. A porta estava aberta, mas no se 
admirou, porque Lenita sempre a deixava assim, enquanto a av no 
chegasse. Chegou  porta. Parou, no conseguiu entrar. 

 Entre, mame, estamos esperando pela senhora. 
 Mrcia! Voc aqui? O que quer? Sei que gosta muito de Lenita. Veio tirar 
ela de mim? 
 Se assim fosse, a senhora a daria para mim? 
Ainda da porta, sem coragem de entrar, Marlene respondeu: 
 Essa menina  tudo o que tenho na vida. Eu a amo de todo o meu 
corao, mas voc sabe como ela  doente. Precisa de tratamento e 
cuidados. Com muita dor em meu corao, digo: se quiser, pode levar ela 
com voc. Se ela continuar comigo, talvez morra antes do tempo. Sei que 
voc tem condies de dar tudo que ela precisa para ter uma vida feliz. 
 Como sempre, a senhora tem razo e muita sabedoria. Amei essa menina 
desde a primeira vez que a vi. Posso, sim, dar a ela tudo o que precisa. A 
meu lado, ter um bom tratamento e uma boa alimentao, alm de estudo. 
Ter tudo isso, menos um amor igual ao seu. No foi para isso que vim at 
aqui. 
 Ento, foi para qu? 
Com lgrimas nos olhos, Mrcia abriu os braos:" 
" Vim aqui para lhe pedir perdo por tudo que a fiz sofrer. 
Marlene continuava petrificada. Parada na entrada, ao ver sua filha 
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estendendo-lhe os braos, tomada de muita emoo, abriu tambm os seus, 
deu dois passos e se encontraram em um abrao que j devia ter sido dado 
h muito tempo. 
Ficaram abraadas por um longo perodo. Lenita, que at aquele momento 
estivera no colo de Mrcia, sorria e pulava de felicidade. S quando se 
separaram foi que Marlene viu o belo rapaz que tambm estava ali. Mrcia 
se deu conta de que no o havia apresentado. 

 Mame, este  Ronaldo. Vamos nos casar e queremos que v ao nosso 
casamento. 
 No posso minha filha. Ele parece ser um moo muito fino e educado, de 
boa famlia. Eu sou humilde, quase sem educao. No posso aparecer em 
seu casamento. Estou contente por te ver feliz. 
Ronaldo se aproximou, pegou suas mos e as beijou. 
 Conheo muito pouco a seu respeito, mas j foi o suficiente para saber 
que  uma grande mulher. Vai, sim, ao nosso casamento, e ficar no altar 
com meus pais. Eles a recebero com muito carinho e respeito. E mais: a 
partir de hoje, agora mesmo, as duas iro conosco. Passaro a viver ao 
nosso lado. 
Marlene no acreditava no que estava ouvindo. 
 Fico muito feliz por ver que minha filha, alm de encontrar um homem 
muito bonito, encontrou tambm algum de bom corao. Obrigada por seu 
convite, mas no posso ir morar com vocs. Esto se casando agora e vo 
querer ter uma vida a dois. 
 Realmente, a senhora tem razo. Vamos querer ficar juntos, mas ao lado 
do apartamento de Mrcia h um outro que est  venda. Ns o 
compraremos, e a senhora e esta menina bonita tero uma outra vida. S 
assim poderemos ser felizes. 
Marlene olhou para os dois, que a olhavam ansiosos. 
 Por favor, mame. Quero ficar ao lado de vocs. A senhora j trabalhou e 
sofreu muito nesta vida. Poder, agora, descansar. 
 No posso parar de trabalhar. Como viverei sem trabalho?" 
" No se preocupe com isso. Pretendo ter filhos, e quem vai me ajudar a 
cuidar deles? 
Marlene sorriu. Abraou e foi abraada. Renato, Elvira e Farias tambm 
estavam ali. Renato, sorrindo, disse: 
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 Agora podemos ir embora. Esto no momento exato em que foram 
interrompidos. A Lei  assim: por mais voltas que d, sempre atinge seu 
objetivo. Pecamos a Deus que nos abenoe a todos. 
 Damio... desculpe, mas prefiro te chamar assim... posso fazer uma 
ltima coisa antes de irmos embora? 
 Claro que pode. O que ? 
Farias estendeu as mos e sorriu enquanto via as luzes que saam delas 
sendo lanadas sobre todos os presentes. Aquele quarto humilde ficou todo 
iluminado. Marlene, ao ver a luz, disse: 
 Obrigada, meus amigos, e que Deus os abenoe... 
Fim. 

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